BitterSweet
25 Capítulo 25: November Rain
Notas iniciais
O rapaz tinha cabelos loiros, os olhos eram azuis e inocentes. Estava apenas com um unguento úmido nas mãos. Ensopara o mesmo em um pouco de álcool e antibióticos. Se o pai soubesse que estava ali...
O outro indivíduo, preso fortemente à grilhões de aço. Mãos e pés, até mesmo o pescoço o forçava a ficar naquela posição de completa exposição.
— Você... – Murmurou a voz do rapaz preso. Theo tinha a voz cansada. Lhe haviam retirado seu medalhão. Ou seja, estava incapacitado de se transformar.
Além disso, o corpo tinha grandes e suntuosos vergões avermelhados. Tinham os cortes também, diversos e torturantes. O rosto estava roxo e semi-deformado por algumas pancadas que os parentes lhe deram.
— Theo... – Murmurou a voz baixa do rapaz de olhos azuis, estava assustado. Olhava a todo instante para trás – Eu... – Não sabia bem o que dizer. Levou o unguento até o corpo do outro, tentando lhe amenizar os ferimentos.
Como podia o pai estar fazendo aquilo? Porque diabos estava brigando com a família daquela forma?
Estaria assim tão cego de poder?
Theo deu um sutil sorriso, ou melhor. Não era um sorriso e sim um suntuoso escárnio em forma de dentes afiados e à mostra.
— Me solte, filhote – Falou o lobo, preso. – Isaac, Derek irá ganhar essa guerra. E todos vocês vão morrer.
Morrer. Isaac se arrepiara, enquanto limpava os ferimentos deixados pelo bando de seu pai. Eram tão desumanos quanto podiam. O lugar em que seu pai se escondera depois de todo o ocorrido fedia. Não tinha nada senão o elo sanguíneo que lhe prendia ao alfa.
Vivia em um dilema moral: não se sentia o filho do alfa e, ao mesmo tempo, era obrigado a se sentir assim.
Desde que sua mãe morrera em seu parto, se perguntava se ele também não deveria ter morrido em conjunto. Sua mãe fora uma das várias que o pai ficara ao longo do tempo, tinha vários irmãos e irmãs. Mas, como era um fora do casamento e, além, sua mãe morrera, sentia-se mais sozinho que tudo.
— Eu não posso... Theo – Respondeu apenas, deslizando com o unguento úmido nos músculos definidos do outro.
— O que está fazendo, seu viadinho? – Falou uma voz forte e ríspida. Rapidamente o corpo de Isaac fora atirado para longe do rapaz machucado.
Era um dos seus irmãos. Era o que viria a ser o líder de seu ‘clã’, assim que o pai se fosse.
— Seu viadinho, está limpando o inimigo? Não consegue manter as mãos longe de um homem por muito tempo? – Falou rapidamente o rapaz. Tinha cabelos negros e olhos verdes, além de uma hedionda expressão de desprezo no olhar. Odiava saber que o seu sangue também corria nas veias de alguém tão patético quanto Isaac.
O rapaz de olhos azuis rapidamente deu um último olhar em Theo antes de sair esgueirando-se da sala em que estava. Ouviu apenas mais gemidos de dor ao se afastar do local.
Desde que a briga de sua família começara e o pai perdera naquela frustrante festa, estavam alocados em uma grande fábrica madeireira abandonada. Seu pai a comprara muitos anos atrás, quando a área passava por uma onda de desvalorizações. O lugar nunca realmente fora utilizado para nada e, agora, precariamente armazenava os lobos desabrigados.
O chão era empoeirado e coberto de serragem de madeira, alguns deitavam-se no chão. Outros, tinham camas improvisadas, o pai os observava do topo da fábrica, onde o chefe do lugar provavelmente à alguns anos, comandava. De seu canto, ali embaixo, observava o pai. Era uma figura que não só desprezava, temia.
Desde criança sempre apanhara do mesmo, sempre fora completamente subjugado pelo mesmo. Sempre ouvira o quão ‘incapaz’ era.
Sim, incapaz. Não conseguia se transformar em lobo. Não era nada senão um humano, vivendo ali entre os lobos. A única coisa que carregava era o sobrenome dos Hale. Mas, em seu âmago, gostava-se de se chamar Lahey. Isaac Lahey. Isso lhe ligava, mesmo que imaginariamente, à família completamente normal da mãe, que morrera ao lhe dar a luz.
Luz?
A fábrica, mesmo durante o dia cobria toda a luz que poderia existir e, os cheiros dos vários e vários lobos que se agrupavam no lugar, tornava tudo ainda pior de se respirar ou coexistir.
Eles brigavam a todo tempo, e suavam, e urinavam por um canto ou outro. Apesar dos Hale os botarem em ordem quando a coisa começava a ficar muito caótica. Eram dezessete anos disso e, quando ouvira Theo falar em morte, não fora como um arrepio tenebroso que se passara por seu corpo.
A receberia, de bom grado, traindo todos os próprios instintos humanos e de lobo (se é que existia algum dentro de si).
Colocou os velhos fones de ouvido, puxou para cobrir a cabeça o capuz negro do moletom já surrado. A música sempre lhe libertava do momento.
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— Tudo bem, tem certeza que é por aqui? – Perguntou um perdido Stiles, olhava a todos os lados. Pareciam estar em alguma rua, em meio às fábricas daquela cidade. – Tudo bate, eu seu: cenário assustador de filme de terror barato. Mas... Mesmo assim, é aqui mesmo?
— É... Por aqui, sinto o cheiro de Theo e de Derek. De Derek mais especificamente – Revelou Liam, fechando os olhos e deixando os instintos florescerem. Definitivamente sentia o cheiro de Derek, o alfa, no fim das contas. – Estamos perto, bem perto, eu acho.
Stiles continuou a dirigir o Jeep pela comprida rua, se aproximando de algumas motos que vira: perfeitamente posicionadas. A medida que se aproximava das mesmas, podia ver o grupo ‘esperando’. Assim que vira melhor, Derek estava encostado em uma parede, com um olhar calmo e apreensivo, tinha uma latinha de bebida nas mãos.
O grupo conversava, menos Derek, ao centro, como um Deus, em um retrato renascentista. Lhe fitava com uma expressão despreocupada.
Estava mesmo Derek assim tão despreocupado? Estacionou o veículo no sentido oposta às motos, um pouco longe do grupo. Desceu e foi se aproximando. Não tinha muito mais como fazer surpresa.
— Espero que... Er... Não esteja bravo – Murmurou Stiles, se aproximando de um calmo Derek. As figuras, todas vestidas com as roupas de couro.
— Seu pai ligou, assim que você saiu – Respondeu Derek, aí estava a serenidade da voz, talvez no primeiro momento tivesse ficado nervoso – Preferi esperar, antes de qualquer coisa. Meu tio já deve saber que estou aqui, de qualquer forma. A coisa vai ser eu contra ele, sabe, então, você pode assistir. – Derek arqueou as sobrancelhas e esperou Stiles se aproximar mais para lhe tocar o ombro e sorrir.
— Não está nervoso? – Voltou à perguntar Stiles – Tem certeza que está bem? – O rapaz fez uma expressão de severa preocupação. Imaginava que Derek iria gritar, iria ficar nervoso e lhe forçar a voltar.
Mas ali estava ele, lhe acolhendo de braços abertos para a luta.
— Eu vou ganhar, e quero você vendo – Afirmou Derek, puxando o namorado para mais perto, em um abraço forte e quente, mas logo sussurrou em seu ouvido – Mas nunca mais faça isso.
“Nunca mais faça isso”. Quantas vezes ouviria isso de Derek? Pode soar brega, mas existem uma quantidade infinita de números entre 0 e 1, e uma maior ainda entre o 0 e o infinito. E essa era a exata quantidade de vezes que desobedeceria a Derek.
“Desobedeceria a Derek”, ou melhor, iria contra a razão e sob seus próprios instintos. Sentia que era melhor que estivesse ali. Sentia que fora necessário trazer Liam, sentia em todos seus ossos fracos de humano e, se fosse um grande urso, neles também.
— Também te amo – Respondeu sarcasticamente Stiles – Temer não há, eu tenho um bastão de baseball – Disse Stiles, erguendo o instrumento.
— Ajudaria se meu tio fosse uma bola – Derek sorriu com aqueles dentes brilhantes e angulosos.
— Ajudaria ele também saber – Stiles olhou ao redor e falou baixo para Derek – Ou melhor, ele não saber que eu não posso me transformar.
— Certo, mas... Tente não perder o controle – Disse Derek – Deus sabe o que pode acontecer se tudo sair do controle. Vamos, sinto que Theo precisa de nossa ajuda. Vá para perto de Liam e fiquem atrás.
— É claro que o Theo precisa da nossa ajuda – Resmungou Stiles, se afastando e segurando com firmeza o taco de baseball.
O grupo rapidamente começou a marchar. Entraram em um beco escuro entre duas fábricas e, a medida que a escuridão os abraçava, os pingentes iam se acendendo, criando uma fria névoa de luz e, então, zap, alguns dos rapazes e garotas iam se despindo pé-ante-pé e convertendo-se em lobos enormes e multicoloridos. Até que os únicos ainda sobre duas pernas eram Derek, Gabriel (um dos braços direitos do finado pai de Derek) e o próprio Stiles e Liam.
Porém, os lobos ainda se destacavam, deixando as figuras humanas disfarçadas em sua própria fragilidade. E, enquanto andavam, ouviam-se ofegantes suas respirações caninas. Derek agora atrás do próprio bando, apenas assistia.
Mais à frente, depois de atravessar o escuro beco, havia uma porta de entrada para uma fábrica que parecia tão velha quanto o lugar. Havia uma quantidade incontável de janelas quebradas acima e as paredes pareciam nunca terem sido pintadas, de forma que o reboco já descascava.
— Ei... – Uma voz chamou a atenção de Stiles, Derek já estava quase próximo à porta. Parecia tão distraído que não escutara a voz.
O rapaz-urso fitou ao redor, rapidamente, procurando o emissor da dita cuja voz. Olhou para Liam que olhava diretamente de onde viera a voz.
— Isaac? – Liam arregalou os olhos, vendo Derek entrar para dentro do galpão com os outros, logo puxou o braço de Stiles para um lado.
— Tudo bem, se Derek depois me matar, eu vou dizer que você me desviou do caminho... Agora, que diabos é um Isaac – Falou rapidamente Stiles, se aproximando onde havia um rapaz aproximadamente de suas alturas, cabelo loiro-escuro e olhos azuis.
— Liam!... Eu... Me desculpa – Falou Isaac.
Liam observava o outro, meio contragosto.
— Você é Isaac, então? – Perguntou Stiles, sem saber com quem estava falando.
— Eu sou – Respondeu o rapaz, com uma face muito pálida – Não temos muito tempo, eu não sei o que vai acontecer lá dentro... Mas vão matar o Theo... Isso está tudo muito errado... Cara.
— Seu pai que está maluco! – Exclamou Liam, Stiles nunca vira o amigo daquela forma, parecia que iria saltar e rasgar a garganta do dito cujo Isaac.
— Espera, seu pai? – Afirmou Stiles – Negan é seu pai?! – Stiles ergueu o bastão em uma posição de defesa.
— É... – Apenas respondeu Isaac, as bochechas ficando avermelhadas, as mãos se erguendo em um tremendo medo, olhava nos olhos de Stiles. – Me desculpa... Não me bate, por favor – Pedia à Stiles, com as sobrancelhas arqueadas.
— Céus, ele parece um filhotinho – Murmurou Stiles à Liam, abaixando o taco.
Liam tinha uma face de nervosismo, ainda queria rasgar a garganta de Isaac.
— Cara... Me desculpa... Eu não... Eu não causei tudo isso, eu não queria tudo isso. Você me conhece, Liam... Diz para ele Liam.
De fato, Liam conhecia à muito tempo Isaac, eram provavelmente da mesma idade. Mas, ao contrário de si mesmo, Isaac nunca tivera uma família. Ou melhor, a família que tinha mais queria devorá-lo do que amá-lo.
— Onde está Theo? – Perguntou Liam, fechando o punho. Inspirava fortemente.
— É, onde está Theo? – Stiles perguntou, apontando o bastão para o rosto do outro – Você deve me conhecer, eu sou o urso – Stiles tentou fazer sua melhor cara de mau (o que poderia ser cômico, mas, que realmente surgiu algum efeito em Isaac, que ficara ainda mais apavorado).
— Ele está... Ele está em uma sala, mas está meu irmão lá... Temos que ir rápido!
Isaac começou a andar na frente dos dois, que lhe seguiam para contornar a fábrica.
— Você consegue pegar ele rápido se ele se transformar? – Perguntou Stiles, de canto de lábios.
— Ele não se transforma... Ele não é como a gente – Respondeu rapidamente Liam, enquanto trotavam em direção ao lugar que o rapaz de cabelos loiros os guiava.
— Como assim? – Perguntou Stiles.
— Ele não vira lobo, Stiles. A mãe dele era uma humana comum. Ela morreu durante o parto dele e a pior desgraça aconteceu com ele.
— Pior do que a mãe morrer?
— Pior, você já viu como o pai dele é... Imagina saber que o filho não pode se transformar, é só um humano... E que a única pessoa que o podia defender...
— Morreu – Stiles continuou a falar, sentindo uma tristeza profunda por conta do rapaz à sua frente.
— Nós brincávamos quando éramos pequenos... Os irmãos viviam batendo nele – Continuou Liam.
— Eu posso ouvir vocês falando de mim – Falou Isaac mais à frente – Depois conversamos, vamos primeiro terminar isso.
— Gosto desse garoto – Disse Stiles, apontando para ele com o taco de baseball.
oOo
— Cinco – Disse uma voz fria como o aço.
Theo cuspira no chão sujo mais de seu sangue. O corpo tremia e se desfazia a medida que tentava se levantar. “Cinco”. Era o quinto chute que levava daquele maldito. Tentava pegar todas as energias para se transformar: mas elas não existiam. Estava apenas, morto.
— Seis – Falou novamente a voz, disparando um novo chute contra sua barriga, lhe fazendo virar-se de barriga para frente e tossir sangue contra o próprio rosto.
Nem mesmo a avançada cura dos lobos estava lhe dando conta.
— Você vai morrer, bebezinho – Falou o rapaz, tinha um sorriso sádico no rosto. Deveriam ter mais cinco lobos ali no lugar – Goyo.
Um rapaz gordo se aproximou, tinha um rosto agressivo e levantou Theo.
— Quantos socos até ele se mijar, garotos? – Perguntou o líder daquele bando – Dois? Cinco? Dez? Oito? Quais são suas apostas?! – Disse rindo, se aproximando e dando um soco certeiro contra o estômago de Theo.
Theo gemeu de dor, sentindo todo o ar de seus pulmões se esvair.
— Eu... – Começou o rapaz destruído.
— Eu não te escuto bebezinho – Falou o irmão de Isaac, acertando outro profundo soco – Tem que falar mais alto.
— Eu vou...
— Vai o quê? Se mijar? Se cagar todo? – Falou agressivamente o rapaz, deixando que um outro socasse Theo, mais uma, mais duas... Três e quatro vezes. O fato era que perdera as contas em sua própria alucinação de dor.
— Eu vou te matar... – Gemeu de dor ao receber outro soco. Fora tão forte que as pernas cediam.
— Você e mais quem? – Questionou o homem, com um sorriso caloroso.
— Nós – Falou Stiles.
Os rostos se viraram na direção que a voz viera.
— Wow, foi um ótimo timing, não acham? – Falou Stiles, com um sorriso e o taco levantado – Bem na hora que vocês falaram “você e mais quem” eu disse “nós”.
— Céus, estou morto – Falou Theo, com as pernas fraquejadas, a voz semi-morta.
— Seu bostinha – falou o líder daquele bando – Seu bostinha traidor. Isaac, venha aqui para que eu possa te matar, seu traidor infeliz, nojento.
— Traidor? Pietro, depois de todos os anos apanhando de vocês, sendo seu saco de pancadas. Espero que o meu primo mate vocês e o nosso pai. Espero que faça vocês sofrerem.
— Nos faça sofrer? – Questionou o rapaz sadicamente, observando os três no lado oposto. Pietro olhou para Theo nos braços de Goyo.
Tudo virou novamente em câmera lenta para quem assistia, Liam arregalou os olhos azuis, tão grandes que pareciam duas enormes safiras. Uma música de gritos pareceu alcançar seus ouvidos e, a medida que Liam tentava correr e se transformar em um lobo, era tarde demais.
Pietro levara a mão ao peito de Theo e atravessara com os dedos o peito nu do rapaz. Atravessara com os dedos e tirara – literalmente – seu coração. Pulsante, nos dedos do adversário.
Stiles apenas... Ficara congelado.
Theo morrera. E ali estava a verdade de tudo.
Estava morto.
Isaac tinha os olhos arregalados e os gritos de Theo se sessaram tão ligeiro começaram.
O corpo caiu como um trapo no chão, o peito aberto e vivisseccionado. O coração caíra das mãos do dito cujo Pietro contra o chão imundo. Era um coração humano. Stiles queria vomitar diante daquela cena, mas apenas podia observar Liam avançar contra Pietro – que também se transformara.
Stiles nunca pensou que Liam pudesse lutar daquela forma, com aquela ferocidade. Ambos se pegavam em uma força que faziam as paredes de concreto quase se cederem no lugar.
Mas esta era a menor de suas preocupações. Os outros personagens daquela ação começavam a vir atrás de si, eles pareciam ainda mais perigosos. Stiles segurou com força o taco de baseball.
— Isaac? – Questionou Stiles, segurando com firmeza o punho do bastão.
— Hum? – Respondeu o rapaz, colocando os punhos para cima, coisa que fez o grupo rir.
— Você sabe lutar? Porque prometi para o Derek que não morreria.
— Eu não sei lutar...
— Ótimo... – Resmungou Stiles. – Aliás, me chamo Stiles.
— Prazer Stiles – Respondeu Isaac, fechando os olhos enquanto os outros rapazes de seu clã pulavam em sua direção, transformando-se no ar em lobos.
Apenas sentiu um leve ar passar pelas suas costas, enquanto tinha os olhos fechados.
Isso era a morte? Um sopro de vento com um cheiro almíscar?
Não, não era a morte.
Abrira os grandes e expressivos olhos azuis para ver dois lobos caçando. Eram dois lobos negros e agressivos. Dilaceravam seus parentes. Não de uma forma comum: faziam isso com uma eficiência nunca antes vista e, de forma tão limpa que quando acabaram, Liam e Pietro ainda brigavam, rodeavam um ao outro.
— Quem... Quem são estes? – Perguntou a respeito dos lobos negros.
— Acho... Acho que são os lobos da África que eu e Derek vimos – Indagou Stiles, com o corpo no chão devido ao salto que os lobos negros deram ao lado dele e de Isaac.
— E porque não estão ajudando Liam?! – Questionou Isaac.
— Acho que... Essa luta é dele – Afirmou Stiles, apenas vendo as figuras tomarem a forma de um homem e uma mulher. Ambos, tão negros quanto a noite e com roupas sóbrias, com contornos dourados. Eram roupas de couro. E... Porque diabos eles as vestiam mesmo depois de se destransformar?
Ambos se aproximaram de Stiles e Isaac.
— Os observando – Falou o homem, com um sotaque carregado.
— Estávamos vendo vocês – A mulher tinha um sotaque menos acentuado – Você é o urso. – Afirmou a mulher, fitando Stiles.
— Não, eu? Sou tão humano quanto ele – Falou Stiles, olhando para Isaac.
— Você é filho do causador de problemas – A mulher olhou para Isaac, afirmando também – Mas vemos que você está do lado certo.
Isaac apenas ficou calado, tinha certeza de que se abrisse a boca, iria causar mais problemas do que resolvê-los.
— O garoto quase vence – Disse o homem, observando então por alguns segundos Liam, que pulara contra Pietro e lhe mordera o pescoço. Por ser menor, tinha melhor agilidade, o que ganhava da força.
Tão logo Pietro tombou, Liam se destransformou e foi até o corpo caído de Theo.
— Theo... Por favor... Theo... – Liam tinha os olhos arregalados, tinha os dedos nas bordas do peito destruído do rapaz.
— O corpo dele ainda quente está – Disse o homem, se aproximando de Liam, enquanto que a mulher ficara perto de Stiles e Isaac.
Liam não conseguia ouvir ninguém, apenas o próprio coração pulsando em seu próprio peito, enquanto que o de Theo, jazia morto e esfriando no chão.
— Por favor... Theo... – Pedia Liam, sem saber o que fazer, esperando que as lágrimas que rolavam no próprio rosto, pudessem ser suficientes para revivê-lo.
— Ele é seu Beta? Seu Omega? Seu Alfa? – Perguntou o homem, no péssimo inglês. Mesmo assim, Liam ainda não conseguia lhe responder.
Stiles se aproximou do amigo. Isaac ficou longe, não tinha muito o que falar, sendo que ele fora uma parcela da culpa pela morte de Theo.
— Por favor... Volta para mim – Pediu Liam novamente, puxando o corpo imóvel de Theo para si. O ar parecia pouco a pouco acabar dos próprios pulmões.
E cada vez que via aquele rosto de olhos fechados, lembrava-se da floresta e do quanto amava Theo. E o quanto muitas vezes não dissera “Eu te amo” quando deveria, e o quanto adiara o amar com medo dele achar outro amor. Ou de si próprio ligar a alma com outra pessoa.
Quanto mais vamos procurar outro amor, sendo que já tinham ali um ao outro? Amor é consequência, não destino.
— Por favor... Vem... Eu canto para você de novo... Eu canto todas as noites nossa música – Pedia Liam, sua voz e seu choro era o único volume que podiam ser ouvidos no lugar. – When I Look... Into your Eyes... I can see a love restrained – Começou a cantarolar em meio ao choro November Rain. – Quando eu vejo seus olhos... Posso ver um amor reprimido...
Stiles nunca tivera o coração tão dilacerado daquela forma. Ele mesmo chorava de uma forma inconformada. Era novembro e as lágrimas de Liam eram melhores que qualquer chuva.
— Nothing... Lasts forever... – E Liam não conseguia continuar disso – Nada dura para sempre...
O choro de Liam era algo tão doloroso que Stiles não conseguia se manter em pé. Se abaixara ao lado do amigo, chorando também. Seria isso perder alguém que amava? Não conseguia conceber até então perder Derek, ou qualquer um dos pais... E... Se um amigo doía tanto assim perder...
— Ele é algo seu? – Perguntou novamente o homem, de maneira quase insensível.
— Eles eram amantes, isso não basta?! – Gritou Stiles, o sangue ficando muito quente – Eles não eram alfas, nem betas, nem qualquer outra besteira! Se amavam subitamente, tudo bem?
— Calma ursinho – Falou a mulher, cruzando os braços e capturando o coração de Theo com as mãos – Ele pergunta isso porque há algo que possa ser feito ainda.
Isso atraiu a atenção de Liam, que imediatamente olhou a mulher e se levantou, após repousar a cabeça de Theo com cuidado.
— O que?! Eu faço!
— Mas tem consequências – Falou a mulher, olhando para Liam – O coração dele morreu, mas... Você ainda pode dar metade do seu, para ele.
— Metade... Do meu coração? – Questionou Liam, arregalando os olhos – Como isso é possível?
— Magia antiga – Explicou a mulher – Mas temos que ser rápidos, e tudo aqui está muito sujo, quanto mais tempo passa, menores as chances de dar certo.
— Stiles... – Falou Liam, o rosto se iluminando com as esperanças.
— Quais são as consequências? – Perguntou Stiles, sendo a razão daquele momento.
— Tudo tem um preço – Falou a mulher – Especialmente esse tipo de magia... A alma dele ainda não se foi, o corpo está quente, está preso e podemos trazê-lo de volta... Dividindo o coração e colocando-o a bater novamente. Na verdade, o morto ficará com um espelho do coração do vivo. Enquanto um viver, o outro viverá, enquanto o outro não viver...
— O outro não viverá – Completou Stiles, observando sombriamente Liam – É esse tipo de comprometimento... Liam? – Perguntou Stiles, arrepiando-se.
Era além do que ele e Derek tinham. Liam e Theo teriam algo muito além do que dois amores de alma. Seriam carne e carne literalmente.
— Eu quero isso – Falou rapidamente Liam – O que eu devo fazer?
— Irmãos, como é mesmo? – Perguntou a mulher ao homem.
O homem coçou a barba rala e olhou para o corpo.
— Ele come coração do morto – Falou o homem – E beija lábios do morto... Com intenção.
— Intenção de que? – Questionou Liam, respirando profundamente.
Stiles tinha o estômago embrulhado, será que conseguiria ficar ali?
— Intenção de o dar o seu próprio coração. – Explicou a mulher.
— E o amigo fica. – Falou o homem, quando via Stiles se levantando para sair dali – Precisa de uma testemunha fiel.
— E não podem ser vocês? – Perguntou o urso, querendo ir embora dali, enquanto via Liam pegar o coração avermelhado e... humano.
— Tem que ser uma testemunha fiel, um amigo – A mulher entregou finalmente o coração à Liam – Apenas uma mordida e uma tragada. Você engole e sente... Depois o beija com a intenção do o dar a vida, tudo bem? – Explicou ela.
Liam levou o coração humano aos lábios e o mordeu, arrancou um pequeno pedaço de carne viva e crua, tinha um gosto férrico. Engoliu sem mastigar. Os olhos se fecharam à medida que se debruçava sobre o corpo de Theo e lhe selava os lábios.
“Por favor, por favor, por favor”, pensava o rapaz. “Por favor, Theo... Eu te amo... Por favor meu amor”. Pedia, de olhos fechados, o corpo tremendo.
Sentia algo estranho no próprio peito. Não ousou olhá-lo, apenas beijava Theo de uma forma estranha, os lábios estavam frios já, mas ainda sentia seu corpo quente.
“Não vá, meu amor... Eu te amo Theo, me desculpa por tudo... Era para ser eu... Por favor, não vá”.
Stiles observava tudo, a forma como Liam comera o pedaço de carne humana e beijara o cadáver de Theo. Observava como uma ‘testemunha fiel’ que tinha que ser. E via o peito de Liam emitir uma pequena luz. Tão sutil quanto o universo na qual estava inserido. Era definitivamente magia, e era do tipo mais sutil que existia: não precisava de palavras e sim de ações.
Deu um pulo ao notar o que acontecera. Os braços de Theo se moveram e abraçaram o corpo de Liam.
— WOW! – Gritou Stiles, as lágrimas escorrendo pelo lado dos olhos, em uma felicidade repentina.
O coração morto de Theo começara a pegar fogo, um fogo azulado e vivo, que consumia o órgão.
— Tem mais... – A mulher falara baixo, ao ver as figuras se afastarem uma da outra, Theo olhava para Liam e Liam para Theo. Se olhavam como espelhos, um amor estranho. – É um amor... Muito maior que qualquer outro – Afirmou a mulher – Comprometimento... Não poderão se afastar um do outro. Não mais que alguns passos, ao menos por enquanto.
— Como assim? – Questionou Stiles, já que Liam e Theo apertavam tão forte a mão um do outro que parecia machucar.
— Comprometimento, menino-urso. Eles estão compartilhando a alma e o coração. Não podem ficar longe um do outro, senão é uma dor muito grande.
— Yunet – Falou o homem – Temos que ir ver a luta dos americanos.
— Tenho que ir agora crianças. Falamos com vocês depois, menino-urso e o seu alfa.
A mulher se levantou, saindo com o irmão dali. Stiles apenas observou, olhando com incredulidade tudo que acontecia ali.
— Eu sabia que essa noite seria maluca – Falou arfando – Mas isso tudo... É demais... – Stiles abanou a cabeça. – E... Arg... Vocês estão se beijando novamente.
Stiles revirou os olhos, se levantando de perto deles e indo para perto de um abobalhado Isaac.
— Temos que ir ver meu namorado lutar agora, acho que os dois... Vão matar a saudades – Murmurou Stiles, vendo como Theo e Liam se beijavam – Sabe, calabouço do mau em uma fábrica abandonada é o sonho de consumo de qualquer casal romântico.
Isaac abanou a cabeça, observando o afeto mútuo que Theo e Liam tinham.
— Queria ter um romance assim – Indagou Isaac, pensativo.
— Espera, você é gay também? – Perguntou Stiles, olhando o outro.
— Sou – Respondeu Isaac, sentindo-se estranho ao confessar isso abertamente. Jamais poderia falar isso com sua própria família.
— Olha, temos o primeiro gay assumido do bando, todos os outros ficam escondendo a cara – O Stilinski balançou a cabeça – Até o Derek se recusa a falar isso, sabe?
— Sério?
— Na verdade nunca fiz ele afirmar, não prevejo ele dizendo ‘eu sou um viadon’ – Stiles deu de ombros – Mas... Sabe como é.
— É, realmente acho bem difícil o primo falar isso – Isaac suspirou, rindo do jeito do outro – Talvez seja melhor ficarmos quietos, estamos quase perto de onde meu pai e o primo irão lutar.
— Melhor ficarmos quietos, então.
Stiles lentamente andou com Isaac até o local. Os lobos trocavam rosnados, talvez apenas haviam se encontrado ali, cara a cara, fazia pouco tempo. Stiles não conseguia ver onde os dois lobos africanos estavam, eles eram muito bons em se esconder.
— Você traiu toda nossa família, matou o seu alfa! – Incriminou Derek, apontando para o tio, tinha o rosto consternado, a voz era ríspida e dura, os dentes: ameaçadores.
— Seu pai era um frouxo e você sabe disso – Respondeu o tio – Eu já o havia ameaçado outras vezes e ele permitiu que eu continuasse vivo. O pai dele também.
“O pai dele”, pensou Stiles, observando ao longe. Isso dizia muito sobre uma pessoa, que se distanciava dessa maneira do próprio avô.
— Você estava banido das nossas terras, e ousou capturar um dos nossos – Gritou Derek – Por essa traição, e por todas as outras, eu o sentencio à morte – Falou o alfa, todos os lobos de seu lado se eriçaram.
Onde Stiles estava, ao lado de Isaac, não conseguiu resistir à murmurar:
— “Eu quero um julgamento por combate”
— Game of Thrones? – Murmurou Isaac, olhando o rapaz com um sorriso.
— Meu Deus, tenho já um BFF – Respondeu Stiles, erguendo as mãos em uma silenciosa comemoração.
— O que vai acontecer agora? – Perguntou Stiles.
— Seu namorado vai matar o meu pai – Respondeu Isaac – Ou meu pai vai matar o seu namorado.
Stiles engoliu em seco, apesar de todo o humor e o olhar atento, tinha uma leve desconfiança e pavor de que tudo poderia sair errado e que dessa vez não conseguiria se transformar no grande urso que deveria ser. Que falavam que ele era.
— Não se transforme – Murmurou Isaac.
— Hum? – Questionou Stiles, esquecera-se que Isaac não sabia da sua inabilidade em se transformar.
— Digo, se o pior estiver acontecendo... E você interferir... Derek deixará de ser um alfa, nem mesmo você seria... Derek seria condenado. Derek estaria condenado, ninguém o respeitaria como líder. Acho que seria a pior coisa para ele.
— Poderia ser, mas... – Stiles se tornara realmente sombrio e sério – Se eu puder me transformar para salvar ele, eu não me importo com o resto. Não me importo como ele irá se sentir, ou o que irá acontecer depois. Eu amo Derek demais para deixar qualquer coisa acontecer com ele. Eu daria, literalmente, meu coração, minha alma e meu corpo à ele.
— Migo, minha meta de relacionamento é você – Afirmou Isaac, tirando um sorriso de Stiles, que até então falara seriamente.
— Todo mundo quer – Stiles levantava as mãos e arqueava os ombros, rindo baixinho com Isaac.
Talvez, eles fossem as únicas pessoas que riam e conversava enquanto o mundo estava prestes a cair.
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