BitterSweet

31 Capítulo 31 - Breathe


Notas iniciais
Breathe, breathe in the air | Respire, respire o ar Don't be afraid to care | Não tenha medo de se importar Leave, but don't leave me | Vá, mas não me deixe Look around, choose your own ground | Olhe ao redor, escolha seu próprio chão Breathe | Respire Pink Floyd

Uma trupe entrou pela porta de seu quarto, logo seguido pelos pais humanos. Cada um pensando em algo pior do que poderia ter acontecido: Stiles caiu, Stiles foi atacado, Stiles escorregou, bateu a barriga... Havia um milhão de teorias, que só foram desfeitas quando o pequeno quarto do castanho se preencheu.

— O que aconteceu? – Perguntou Derek, o rosto contraído, bravo, olhou o vaso partido no chão, a janela aberta. O coração do lobo logo pulsou, a artéria na testa pulsou. Os punhos se fecharam – Quem esteve aqui Stiles?!

— Calma Derek, o vaso e as flores não me fizeram nada – Disse Stiles, se abaixando para pegar os cacos quebrados no chão.

O rosto estava algo pálido, era obvio que algo havia acontecido ali. Mas o rapaz não queria que Derek pensasse que correria algum perigo: imaginava que perderia qualquer liberdade possível e imaginável. Sabia completamente que, cada vez mais, Derek tornava-se um lobo super-protetor.

Os pais pareciam realmente preocupados também. O novo mundo em que eles foram inseridos parecia simplesmente perigoso demais para se viver. O pai até cogitava a ideia de colocar algumas câmeras na casa, talvez reforçar as cercas com sensores... Sabiam que nada poderia evitar a entrada de um lobo gigante como os que ali vivia... Mas, ajudaria a sentirem-se mais seguros.

— Você não precisa pegar isso, vai se cortar, cuidado – Resmungou o lobo, se abaixando sutilmente, parando no ato ao receber um olhar de Stiles que o fez recuar – Não deveria manter essa janela aberta, é perigoso.

O lobo aproximou-se da janela, escorregou-a para baixo, o som do deslizar terminou com um estampido quando a mesma se fechou.

— Obrigado pai. – Disse Stiles, ao ver que o pai rapidamente fora ao andar debaixo, pegara uma vassoura e uma pázinha, a qual ajudou-o a limpar aquilo rapidamente.

Os restos mortais da flor e do vaso foram jogados em uma sacolinha e, todos os presentes começaram a descer. Stiles ficou fingindo que tinha algo a escrever no caderno, dissera que era para não esquecer de algo. Os pais sabiam das qualidades do filho para enrolar, então, Noah apenas entrecerrou os olhos, sendo pego na mão por Sam, que puxou o xerife para o andar de baixo. Os outros presentes também desceram, Isaac resmungando algo sobre as correntes de vento naquela casa.

Derek sentou-se na cama, impaciente, esperando o namorado, mas, assim que os pais encostaram a porta, Stiles apenas pulou da cadeira e abraçou o lobo impulsivamente, começando a chorar de uma forma completamente avessa à ele mesmo. O urso não chorava, não daquela forma. Aquilo não era medo, não era dor, era algo. Algo que assustara o lobo completamente.

Sentia-se impotente.

Ele, que sempre rude e amargo, que sempre tivera que ser a aspereza em pessoa. Tinha ali nos braços o pai dos seus filhos, às lágrimas. Pior, lágrimas desconhecidas, que desciam dos olhos como chuva. Estava definitivamente assustado.

— Ei, o que foi?! – Questionou Derek, apreensivo. A voz grossa se acalmando e se amaciando. Sentia os braços do outro lhe abraçarem com mais força – Ei, o que foi? – Questionou novamente, afastando o outro para que pudesse o olhar nos olhos.

— Derek, alguém esteve aqui no meu quarto.

Derek ficou tão pálido quanto o Stilinski, iria falar algo, mas o jovem falou primeiro.

— Ele não me machucou, ele poderia Derek, mas não o fez. Eu não ia falar nada para você, sei como você iria ficar histérico e tudo mais.

O lobo suspirou, olhou longamente para o urso, os olhos passaram até a barriga inexistente dele.

— Derek... – Resmungou Stiles.

— Eu não vou ficar histérico. Mas você não entende a gravidade disso... Quem... Era um lobo? Ele te ameaçou? Eu não senti o cheiro... Não pode ser um lobo...

— Não, Derek... Ele... – Stiles respirou profundamente – Ele disse que era meu pai biológico.

Os dois se olharam com seriedade, Derek arqueou as sobrancelhas.

— Então deveria ser um urso, Stiles, o cheiro, eu não senti nada... Talvez eu não devesse ficar longe de você a partir de agora, até que tudo, até que tudo se resolva... E... Como você realmente sabe se ele falou a verdade...

— Era exatamente por isso que eu não queria lhe contar... Aconteceu, ele não me machucou, Derek. E... Se fosse um lobo, vocês teriam conseguido sentir o cheiro muito antes...

Stiles suspirou.

— Além disso, qual a parte de que ele disse ser meu pai você não entendeu? Eu... Eu sempre quis saber quem foi minha mãe, eu, eu tenho pais incríveis, mas..., mas eu sempre quis saber se tive uma mãe, como ela é, qual o nome dela... Eu... Derek... É... Algo que é além de tudo isso. E, faria todo o sentido, se ele fosse um urso, se ele tivesse me deixado por algum motivo... Eu quero, eu quero saber o porquê ele me deixou.

O lobo ficou em seu silêncio profundo de sempre, e apenas fitou a janela, agora fechada. O cheiro de Stiles entrava em seu nariz como uma música feliz, então apenas o abraçou e puxou o pescoço contra o seu nariz, fungando e aspirando o aroma que tanto amava. O cheiro único do Stilinski.

— Eu entendo. Só acho que poderia ser perigoso, e isso é um alerta, poderia ter sido um assassino e ter feito mal à você. Ter feito mal à eles – E com isso o maior apontou para a barriga de Stiles – E... Como você sabe realmente que ele era seu pai?

— Derek, eu apenas sei ok? Ele... Era. Ele é meu pai. Eu sei que é. Ele se chama Castiel. Ele se parecia muito comigo. Céus, eu apenas senti... Sabe.

— Castiel? – Perguntou Derek, pensativo, nunca ouvira tal nome, ficou pensando em todos os nomes de ursos que já lera nas fantasias que seu avô lhe dera. Nenhum deles tinha esse nome. – De qualquer forma, é melhor você não se encontrar com esse homem, ao menos não sozinho.

— É obvio que eu não vou me encontrar com ele sozinho. Não é como se ele fosse parar na porta de casa com alguns doces e uma van, e eu fosse entrar.

Derek resmungou baixinho e apenas levantou-se.

— Vamos voltar, seus pais estão nos esperando, seus amigos também.

— É melhor não contar nada aos meus pais, eles podem ficar assustados. Ou, talvez até tristes...

— De acordo – Respondeu Derek, assentindo. – Mas quero saber exatamente qualquer coisa que acontecer, e vou estar em cima.

Stiles deu um meio sorriso, colocando os dedos no rosto de Derek.

— Adoro essa sua expressão de preocupado, é até mesmo assustadora.

— Eu sou assustador – Disse Derek, se levantando, seu rosto sério.

— Ah, é sim. Mostra os dentes.

Derek abriu os lábios, mostrando os caninos proeminentes, em um assustador sorriso forçado. Stiles deu um selinho naqueles lábios e saiu primeiro porta à fora. Esperando o maior atrás de si, que dera então um sorriso verdadeiro.

oOo

Já era bem tarde e todos já haviam ido embora, o Stilinski pedira aos pais se Derek poderia dormir ali. Sentia-se estranho, de certa forma, em pedir aos pais algo assim. Ao mesmo sentia-se estranho por achar aquilo estranho, afinal, Derek e ele já compartilharam tantas coisas que aquilo parecia até algo banal, completamente normal.

Mas ainda assim existia naquele momento um espacinho para as borboletas na barriga lhe incomodarem. O lobo robusto estava ali no seu quarto, com sua habitual cara de irritado, talvez por estar com sono. E talvez fosse definitivamente isso que mais lhe deixava apaixonado no outro.

— Você fica tão bonito, assim – Murmurou Stiles ao ver Derek sair de seu banheiro, enrolado na toalha e com os cabelos ainda molhados – Todo educado em não sair como veio ao mundo do meu banheiro.

— Eu sou educado – Respondeu Derek, com seu olhar sério de sempre. Stiles nunca saberia dizer ao certo se ele estava sendo rude ou sarcástico. Preferia acreditar que um pouco dos dois.

— É claro que é – Respondeu o menor, com um meio sorriso.

— Só... Estou com um pouco de sono... – Suspirou Derek, finalmente ficando nu e roubando uma das cuecas do namorado que lhe ficara muito apertada.

— Você tem um belo traseiro – Indagou Stiles, olhando-lhe de forma analítica.

— Quê?! – Derek imediatamente olhou para trás, ficando ligeiramente corado.

— Sabe, traseiro, bunda... Você tem uma bela delas.

— Eu...

— Oh Derek, não precisa ficar constrangido – Respondeu Stiles, logo se levantando para ir ao banheiro tomar um banho também, se aproximou do outro e o beijou rapidamente – Você é lindo, já disse isso?

— Não... – Disse Derek, arqueando as sobrancelhas – O que está acontecendo... – Indagou o homem, achando aquele comportamento muito estranho.

— Devem... Ser hormônios, ou algo assim... Só... Melhor eu ir tomar um banho – Stiles olhou para a porta do banheiro – Provavelmente um gelado, bem gelado e... Imaginativo.

Derek suspirou, abanando a cabeça. Deu um sutil beijo no pescoço do outro, deixando-o livre para tomar banho. Até o acompanharia, para certificar-se que “ficaria tudo bem”, porém estava exausto, exausto demais. Deitou-se na cama de Stiles e simplesmente suspirou. Apesar de ser positivo, em seus pensamentos, que tudo daria certo, as vezes tinha apenas vontade de gritar.

O pai morreria, a mãe morrera e o avô também. Metade do seu clã perecera. Era uma guerra, era verdade. Agora era líder de uma alcateia, tinha toda a responsabilidade. Estava reconstruindo sua casa, a casa que viveria com Stiles, com os filhos... E isso lhe assustava.

Assustava que tudo parecia traçado, como se o destino fosse algo imutável.

Será que era?

Olhou para o banheiro, ouvia o chuveiro ligado, ouvia um cantarolar baixo.

Estava traçado o destino? Realmente?

Tinha que ir para essa reunião. Sabia que iriam querer a morte de Stiles, sabia que seria difícil. Mas jamais permitiria a ele morrer, não, não ele. Morreria lutando, mataria qualquer um que quisesse encostar em seus filhos, em sua lua.

A vida perderia praticamente qualquer sentido sem Stiles nela. Ele era realmente sua lua, lhe puxando contra a gravidade. Lentamente dormiu, pensando em tudo.

O Stilinski sorriu ao ver o homem deitado, dormindo, suspirando como uma criança que correra o dia todo. Grande demais para sua cama não tão grande, mas ainda assim cabendo nela.

Apagou a luz e sentou-se na cama, dando uma leve empurrada em Derek, que resmungou, puxou o urso e o abraçou.

Dormiram em inocência.

oOo

Stiles tinha um atestado para as aulas de educação física. O pai lhe fizera um atestado falso de suspeita de problemas cardíacos. Então o Stilinski apenas assistia, da arquibancada, aos amigos jogando. Mas era tedioso demais apenas assistir então resolver andar pela escola, procurar alguma confusão.

No corredor, viu que em seu armário tinha um bilhetinho grudado. Rapidamente o pegou e leu o que tinha escrito.

O maxilar se fechou com força, algo apavorado, algo curioso.

“Se encontre comigo na floresta. Leve um amigo. – Cas”.

Ok. Aquilo era um problema.

O dito cujo seu pai queria se encontrar de novo. Sentia-se, de alguma forma, traindo os pais e à Derek. Não, não queria que nenhum deles soubesse que estaria se encontrando com esse homem. Ao mesmo tempo, jamais colocaria a vida dos filhos em risco indo só, completamente desprotegido, até a floresta.

Então apenas abanou a cabeça, voltando ao campo de Lacrosse.

oOo

— Stiles, onde está nos levando? – Perguntou Isaac, um tanto quanto curioso, seguindo o melhor amigo. A roupa suada indicara que mal tivera tempo de trocar de roupa, devido a ansiedade do amigo.

— Não poderia nem mesmo ter nos deixado tomar banho? – Questionou Scott, não que fosse tão incômodo sentir tão perto de si as essências de Isaac.

— Não, é importante e rápido – Respondeu Stiles.

O rapaz continuou andando até que Scott rosnou e virou-se.

— Quem está aí? – Exclamou o moreno.

— É, quem está aí – Questionou em seguida Stiles, com um sutil tom de surpresa.

— Pensei que tivesse pedido para trazer apenas um amigo – Disse a mesma voz calma e serena do outro dia.

— Stiles... – Scott parecia irritado, olhou ao amigo, enquanto que Isaac tentava apenas parecer calmo como sempre.

— Eu trouxe dois, dois dos melhores lobos dos Hales – Mentiu, Isaac olhou ao amigo e apenas cruzou os braços.

— Bom garoto.

A figura do homem saiu das sombras de uma árvore com o tronco grosso o suficiente para o ocultar. Vestia-se de negro, as mãos dentro da roupa de frio dava-lhe um tom sereno, olhou para cima.

— Está esfriando, o inverno será rigoroso nessa cidade esse ano – Anunciou a figura.

— Stiles?! – Questionou novamente Scott, já irritado, prestes a se transformar. Algo em si dizia que aquilo não era boa coisa.

— Calma – Pediu o filho, olhando ao pai que apenas voltou o olhar sereno e sério aos rapazes – Ele diz ser meu pai.

— Ele diz?! – Questionou Isaac, olhando ao homem e depois para Stiles.

— Mas você já tem pai! – Exclamou Scott, Stiles revirou os olhos e Isaac deu um leve riso.

— O pai biológico dele, idiota.

— Ah...

— Então – Voltou Stiles novamente – Eu trouxe meus amigos, não iria me encontrar com você sozinho, claramente.

— É obvio, não seria nada inteligente – Falou o homem, logicamente – Seu namorado está aqui.

— Meu...

O lobo apareceu, junto à outras figuras em forma de lobo. Os rosnados se faziam ouvir enquanto que Castiel apenas os olhou.

— Isso claramente está saindo do controle – Castiel os olhou e depois olhou para Stiles.

— Derek! – Pediu Stiles e esperou alguns segundos até ver a figura de Derek passar atrás de um dos troncos das árvores, demorar alguns segundos e sair com o tronco nu, mas com uma calça rapidamente colocada. Tão rápida que ele ainda afivelava o cinto.

— Vocês precisam definitivamente otimizar isso – Murmurou Stiles, pensando em como os egípcios conseguiam e o clã de Derek não.

— Eu claramente não iria deixar de te monitorar – Disse Derek, olhando para o castanho, que apenas encolheu os braços como se não tivesse nenhuma culpa – Só te conheço bem o suficiente para saber que você se encontraria com esse forasteiro sozinho.

— Wow, forasteiro, parece que estamos em um filme do velho oeste, Der. Além disso eu trouxe Scott e Isaac.

Derek rolou os olhos para o amigo de Stiles e o “irmão” e voltou os olhos para o namorado novamente. As vezes não sabia se o castanho falava essas coisas com sarcasmo ou ingenuidade.

— Podem ir – Ordenou Derek ao bando, e logo Scott e Isaac também saíram dali com certa pressa, especialmente por Isaac não ser bem-querido pelo restante do clã.

— Imagino que você seja o namorado do Mieczyslaw – Falou Castiel, analisando o outro sutilmente – Me lembra muito alguém, que conheço, ou que já conheci.

— Quem é você? – Cortou Derek, um tanto quanto irritado. – Quem é Mieczyslaw?!

Castiel deu um sorriso, longo e triste.

— Suponho que seus pais adotivos devam ter achado o nome complicado demais para lhe dar – Falou o homem, o olhar se tornou ainda mais triste quando olhou ao outro. De alguma maneira, Castiel queria abraçar o menor – Não é um nome comum, de fato, mas é seu nome de batismo.

— Eu nunca fui batizado – Respondeu Stiles.

— Ah, você foi – Afirmou o homem – Você foi batizado por mim, eu coloquei o mesmo encantamento que meu pai colocou em mim e que, através das gerações, nos protegemos – É por isso que eles não podem sentir nosso cheiro, não podem saber que somos ursos – Castiel olhou para Derek.

— Por que você me abandonou? – Stiles foi direto e incisivo, olhou o outro nos olhos. A tempestade que vinha era da cor dos seus olhos: castanhos – Quem é minha mãe?! Como... Como vocês puderam?

— As coisas não são tão simples, criança – Explicou Castiel, se aproximou um passo e Derek se aproximou mais do Stilinski.

— Dê mais um passo e eu acabo com você – O lobo estava nervoso, o ódio de Stiles parecia contaminar-lhe.

— Entenda, eu jamais quis fazer isso – Confessou o urso pai – Não é algo que eu tivesse escolha – Quem ele é desafia as leis do seu próprio mundo, Hale.

Derek arregalou os olhos ao ouvir que o estranho sabia seu sobrenome.

— Stiles é o herdeiro do clã Winchester. O pai dele é Dean Winchester – Revelou e Derek apenas olhou o rapaz ao seu lado.

— E como... – Stiles iria perguntar “como seria possível ele ter nascido de dois homens”, e logo se atentou à sua própria condição. – Ah, claro... – Respondeu Stiles.

O coração então deu um salto, queria lhe sair pela boca, mas Derek logo pegou em sua mão.

— Ele deve estar falando a mentira – Apenas disse o lobo, olhando para o homem – Não é possível, Stiles... A família Winchester...

— É uma das três. São uma das três famílias de lobos do mundo.

— Todos nós, todos nós viemos deles Stiles... Os lobos americanos, ao menos. Boa parte dos europeus também... Céus... Isso só pode ser mentira.

— Eu o tirei de lá, lobo – Falou Castiel – Assim que soube... Assim que soube que Dean havia me engravidado.

— Então... Então meu outro pai se chama Dean? – Perguntou Stiles, o coração no pescoço, olhava aquela figura. Queria, queria mais do que tudo acreditar que ele era seu pai.

— Eles me perseguiam, por isso que eu tive que lhe deixar.

Castiel apertou o punho.

A solidez de seu rosto apenas revelou um sentimento naquele instante, um sentimento puro e verdadeiro que até mesmo Derek pôde perceber. A voz do homem caiu uma nota e ele levou a mão à boco para soltar um pigarro sutil, recompondo-se.

— Eu tive que lhe deixar ou eles me matariam e, por consequência, você.

— Meu... Meu pai iria... Iria lhe matar, digo, nos matar? – Perguntou Stiles, apenas apertando mais firme a mão de Stiles.

— Não, céus, Dean queria que nós ficássemos juntos, mesmo eu sendo quem eu sou e ele quem ele era. Seria um escândalo. Os pais dele estavam furiosos... E... Bem, a família Winchester não é pequena. É o maior clã... E... Eles poderiam me matar a qualquer instante, criança... Então, eu apenas sumi... Até... Até agora. Dean agora é o líder do clã... Ele não sabe que tem um filho e acredito que – Castiel engoliu em seco – Parti o coração dele, esfriei-o e machuquei-o de forma irreparável, eu era a alma dele e me separei. Eu fiz o ritual de separação, lobo.

Derek apenas se arrepiou, o pai já lhe contara histórias. Separar-se do destino era a pior desgraça que qualquer um poderia viver, apenas almas muito desesperadas realizariam tal ato.

— E eu fiz porque tinha medo do que a família dele poderia fazer à você. E é por isso que hoje Dean não se importa com a nossa espécie, de fato, ele se sente feliz em cumprir o que as gerações de lobos fazem: caçar e destruir qualquer berserker vivo. E... Depois do que aconteceu naquela noite, em que toda o céu recebeu sua energia, filho – Castiel abanou a cabeça. – Eles têm uma razão para temer.

— O que tem de daquela noite? – Questionou Stiles, ainda sem entender aquela quantidade absurda de informações.

— Você não tem ideia, não é mesmo?

O silencio era a resposta de ambos, nem mesmo Derek saberia dizer.

— Nem você, não é lobo? – Castiel suspirou – Vocês são duas crianças inconsequentes, de fato – Castiel falara isso então com um leve sorriso, continuando:

“Naquela noite eu dormia e acordei com a quantidade massiva de energia expelida para os céus. Eu fiquei com medo, criança, acho que nunca em nossa história os céus haviam se revoltado tanto. Depois daquele dia a lua se aproximou da Terra alguns centímetros. Felizmente os astrônomos humanos não perceberam isso, em alguns anos vão perceber... A aurora boreal se calou e os ventos das quatro direções perderam seu rumo. Até mesmo os oceanos ficaram diferentes por um tempo... Imagino que seja por isso que queiram tão logo essa reunião, estão apavorados”.

Derek engoliu em seco, observando o homem e logo após Stiles.

— Eu quero... Eu vir pedir para que tomem cuidado – Pediu Castiel – Especialmente você Stiles. Eu não posso... Não posso me aproximar de Dean, ele saberia que eu estou lá, ele viria atrás de mim. – Suspirou – Ele nunca me perdoou pelo que eu fiz. Mas foi a única maneira de proteger à você, de proteger à ele mesmo... O pai dele o mataria se soubesse, o que fizemos.

Stiles engoliu em seco, se aproximou do homem e o abraço. Derek ficou um pouco apreensivo, tinha medo, tinha muito medo do outro não ser quem afirmava ser. Tinha muito medo em ele ser perigoso e machucar seu pedaço de alma e seus filhos. Mas apenas ficou ali, observando e aproximou-se lentamente.

— Onde... Onde você vai? – Perguntou Stiles, olhando para o homem – Não quero que desapareça da minha vida, novamente. Por favor, não – Os olhos do filho já estavam úmidos, engoliu em seco.

— Eu perdi muito de sua vida, criança – Castiel levou o indicador para limpar as lágrimas do castanho. Ele lembrava muito de Dean, mas algo de si mesmo também.

— Então não temos tempo para nos perder mais – Falou o menor, olhando ao outro de forma obstinada – Por favor, não vá, não suma... Eu... Eu quero saber mais sobre você... Você... Foi quem me deu a luz, não é?

— Sim – Respondeu o urso e deu um pequeno sorriso – Mas você tem uma família que lhe acolheu...

— Ah, corta essa – Stiles disse, com certa irritação – O que diabos meus outros pais têm a ver com isso? Céus, eu poderia ter dez pais que não me importaria. Eu vou ter dois filhos, com certeza vou ter que me esforçar bastante, e quantos mais pais tiver para me ajudar a cria-los, melhor.

— Dois? – Perguntou o pai, arqueando as sobrancelhas.

— É... Dois – Disse meio em desespero Stiles, com um rosto de riso. Tudo bem dois, o que poderia fazer.

— Multiplicaria por dois – Falou Castiel, com um doce sorriso.

— Eim? – Stiles não entenderia o que ele queria dizer. Será que os filhos seriam tão hiperativos que valeriam, cada um, por dois? – Eles não vão dar tanto trabalho assim – Comentou Stiles.

— Oh, vocês dois não conseguem sentir, não é? – Perguntou Castiel, com um leve sorriso – Posso... Posso por a mão para sentir?

— Pode, eu acho – Stiles olhou para Derek em questionamento, o lobo cruzou os braços, seu sentimento de possessão sobre o urso grávido parecia se amenizar por um curto período de tempo. Então, apenas assentiu.

O urso pai colocou a mão ali e fechou os olhos. Uma brisa forte começou a assoprar e um frio começou a passar por seu corpo, era muito estranho. Não era uma brisa comum, definitivamente. Stiles viu tudo ficar escuro e as árvores saíram do chão como se crescessem ao longo de uma quantidade enorme de tempo. O corpo pareceu deitar-se no chão e uma neblina encheu o ambiente, Derek desaparecera e a figura de um enorme urso apareceu, feito de luz, maior que dez lobos juntos.

— Onde estamos? – Perguntou Stiles, sentia-se estranho.

— Você não se vê? – A voz do outro veio em sua mente e, apenas então compreendeu que não estava deitado e sim em posição quadrúpede.

Era estranho, era surrealmente estranho. Começou a andar um pouco e percebeu que sentia-se enorme então. O corpo parecia afundar o chão, as pegadas se afundavam a cada passo, ante seu peso maciço. Um filete de energia escapava de seu corpo brilhante e atingia como pequenos raios o seu redor.

— Acalme-se – Pediu o outro urso – Controle sua energia, criança, estamos no nosso plano espiritual, quero que você as veja.

— Ver quem? – Perguntou Stiles, achando tudo aquilo muito surreal.

Seguiu o urso ao longo da floresta de árvores escuras até... a imagem... Sua imagem. Em pé, Derek também era iluminado por um lobo, algo como um casaco que lhe cobria.

O lobo parecia impaciente, andava de um lado para o outro com sua luz, enquanto as duas figuras estavam imóveis.

— Não toque em você mesmo, ou irá se transformar, e isso pode ser perigoso para eles.

E quando o seu pai biológico dissera ‘eles’, finalmente viu aquilo. O coração quase parou, de fato. Eram quatro figuras pequenas aos pés de sua imagem humana, dois lobinhos e dois ursinhos, cercando a imagem do rapaz. Eles pareciam tão... Pequenos e frágeis.

— Oh meu deus, que fofo – Stiles se moveu, contornando aquilo. A imagem das criaturinhas vira o pai e começara a lhes seguir. O lobo que habitava em Derek parecera também querer fugir de seu dono, então apenas rosnou ao ver que estava impossibilitado de estar perto da cria e de sua alma gêmea. – Mas... Isso... Céus...

A energia de Stiles era tanta que os raios que saíam de seu corpo de urso alcançavam o lobo, e faziam-no relaxar próximo ao humano Derek.

— Vamos voltar – Apenas falou o pai.

O Stilinski deu um forte suspiro ao abrir os olhos. Derek se aproximou rapidamente, vendo se estava tudo bem com o noivo.

— Oh, Derek... Oh meu deus, estamos ferrados.

— Por quê?! – Derek desesperou-se, pensando que algo estava mal com seus filhos.

— Um é pouco... Dois é bom... Três é demais – Falou Stiles – E... Quatro?!

— Quatro?!

— Quatro!