BitterSweet
22 Capítulo 22: Not Like the Movies
Notas iniciais
O peitoral de Derek subia e descia. Ele tinha um rosto pacífico. O peitoral desnudo desenhava-se na fraca luz da lua que entrava pela janela aberta do quarto de Stiles. A cama não era assim tão grande e, Derek ocupava a maior parte dela.
Mesmo assim, não pediria para o lobo ir embora. Aquela noite fora divertida, e ele queria que Derek continuasse ali. Os lábios semiabertos revelavam dentes brancos e afiados, com caninos levemente pontudos.
— Dormindo parece um filhote – Murmurou Stiles, sorrindo e indo até a mesinha da escrivaninha.
Depois de todos esses dias, todas as turbulências, via as matérias da escola se acumulando e suspirava. Como consolidar ser mortal e uma criatura mágica ao mesmo tempo?
O que aconteceria quando contasse ao seu outro pai, sobre todos os planos que tinha agora com Derek?
Não sabia também seu destino que, antes parecia tão esquematizado, indo por água abaixo. Sentia que Derek não lhe deixaria ir muito para longe e, agora que pensava, também não o queria.
Em sua mesinha de escritório apenas fazia desenhos aleatórios em seu caderno. Tinha que contar aos pais, a verdade. Sabia que isso seria mais fácil. Sabia que seria difícil conseguir isso de Derek, mas, de qualquer forma, os pais mereceriam uma explicação sobre sua mudança de vida – uma explicação verdadeira o suficiente além de “Estou apaixonado e é isso que quero para minha vida”.
— Ei – A voz embargada de sono de Derek lhe chamou. Stiles virou o corpo – Vem deitar – Pediu Derek, erguendo sutilmente a mão, fazendo um gesto simples, embora preciso, de ‘vem cá’.
— Eu já vou – Respondeu o Stilinski, dando um pequeno sorriso.
— Está tudo bem? – O lobo questionou, incomodado o bastante com a cama vazia. A ponto de que o lobo acabou erguendo o tronco e se sentando na mesma – Não gosto de te ver acordado enquanto eu durmo.
— E porque diabos isso?
— Não parece certo.
— Você é um cara estranho, Derek – Respondeu Stiles, se levantando da cadeira e indo até a cama. – Eu estava pensando, talvez devêssemos contar aos meus pais.
— Tudo bem.
— Tudo bem?
— É, eu peço sua mão em casamento para eles – Derek deu um pequeno bocejo, coçando os cabelos rebeldes e espetados. O corpo estava particularmente um pouco mais peludo esses dias, o que lhe dava uma aparência mais selvagem.
— Não, não digo isso... Digo, sobre tudo. Sobre a coisa de lobo, sobre a morte dos seus pais... Sobre tudo. Não posso simplesmente mudar minha vida devendo qualquer explicação para eles.
— É complicado, não deveríamos. É perigoso – Afirmou Derek.
— Derek, eu posso estar na escola e me transformar em um urso gigante. Existe algo mais perigoso que isso?
Derek suspirou e encostou na cama, resmungando algo que Stiles não entendeu muito bem.
— Você poderia virar um lobo agora – Disse Stiles, respirando lentamente, enquanto estalava o pescoço, preparando-se para finalmente dormir.
— Mesmo? Ou é só uma de suas ironias.
— É sério. – Falou Stiles, enrugando a sobrancelha – E também é sarcasmo, então, os dois.
— Porque diabos quer que eu vire um lobo? Não é assim, só para diversão.
— É que eu sempre quis ter um cachorro, para que ele dormisse comigo na cama.
— Você está brincando, não é? – Derek entrecerrou os olhos.
— Vamos lá Derek – Pediu Stiles – Meus pais nunca me deixaram ter um cachorro... Faz de conta que é um fetiche meu, ou algo do tipo.
— Ele não está brincando... – Resmungou baixinho Derek, mas logo foi tirando a cueca que lhe tampava o membro.
Levantou-se da cama e tomou a forma do grande lobo. Mas, tão logo fizera isso, Stiles vira que não seria a melhor coisa. Derek era grande e pesado demais em sua forma de lobo, tinha medo que a cama quebrasse. Que diabos de desculpas daria aos pais se a cama quebrasse, especialmente porque seu pai sabia que Derek dormiria ali.
— Okay, vamos nos aninhar no chão.
Derek rosnou baixinho, quase como um ronronar. Sentia-se estranho em estar como um lobo em um espaço tão apertado. Virou a cabeça ao redor, olhando as paredes. Ao menos havia um lado positivo: com seu olfato melhorado, conseguia sentir maravilhosamente bem o cheiro de Stiles em todos os cantos e, além, conseguia ouvir e detectar qualquer forasteiro que tentasse se aproximar muito ali da casinha dos Stilinski.
Deitou-se sobre as patas no chão de madeira, enquanto o seu humano, ou melhor, seu ursinho colocava alguns travesseiros no chão, além dos cobertores. Por fim, Stiles se aninho próximo de si.
— Eu preciso de um cachorro, é tão gostoso dormir assim – Afirmou Stiles, se acomodando na pelagem espeça de Derek. O lobo, naturalmente, rosnou baixinho. Naquele momento não imaginava nenhuma criatura viva encostando em seu Stiles.
oOo
— Eu juro que, por todos meus antepassados, não deixarei que nada faça sucumbir nosso clã – Principiou Dekek, estava na frente de todos os outros. A maior parte eram adolescentes e jovens de sua idade. Porém, também estava presentes alguns adultos. Alguns deles bem mais velhos que Derek, porém, que pela hierarquia, obedeceriam ao Alpha.
Era bem complexo, era muito mais do que ser o filho do chefe. Era, em partes, por merecimento, e todos sempre reconheceram a linhagem de Derek e do pai dele e do pai antes dele como Alphas daquela alcateia.
— Começaremos a nos preparar, nos armaremos com nossos dentes e unhas. Nos prepararemos para que, da próxima vez não serão eles quem no atacará... – Falava Derek em um tom alto e imperativo, era um líder, e ninguém conseguiria contestar isso.
“Nós é que iremos por eles!” Completou Stiles, sussurrando, estava bem ao fundo, com seus amigos – Isso cada vez mais parece um filme – Disse rindo, abanando a cabeça quando algumas perguntas começavam a serem feitas naquela reunião. Coisas realmente básicas, mas que cerceavam a função de líder.
— É, mas isso não é um filme – Respondeu Liz, realmente preocupada e continuaria a falar, se Theo não a tivesse interrompido.
— Verdade, não é um filme – Falou o rapaz, em um tom divertido – É uma fanfic, uma fanfic muito ruim – Ele levou as mãos atrás da cabeça, recostando-se melhor onde estava apoiado, enquanto Liam lhe olhava com desaprovação.
— Foi o que eu disse para o Derek a primeira vez que nos vimos! Que essa coisa de Alphas e Betas e a conexão toda... Parece que estamos em uma fanfic de Crepúsculo – Falou Stiles rindo, e Theo lhe apontou o dedo rindo e acenando em concordância.
— Nah, se nossa vida fosse uma simulação, eu terminaria com a garota mais bonita, sou o bonitão da turma – Disse Theo, se gabando por sua beleza... exacerbada.
— E provavelmente seria o primeiro a morrer também – Interrompeu Liz – Vamos falar sério pessoal. Temos que pensar no elefante do recinto, ou melhor, no urso – E o grupo olhou para Stiles – O tio do Derek fugiu, isso é um fato. Ele poderá comunicar a Espanha, Portugal... Todas as famílias tradicionais da Rússia... Nós temos um Urso aqui, um Berserker. Isso não pode deixar passar batido. Talvez... Só talvez deveríamos nos preocupar com isso. Desculpe Stiles, apenas estou... Sendo realista.
— Gosto de pessoas realistas Liz – Respondeu Stiles, pensativo, tomando novamente um tom mais sério. Stiles olhou para Scott, que até então estava ouvindo o discurso e a conversa de Derek, apesar de que também mantinha os ouvidos ali.
— Scott, Theo, Liam, John, River, Key. Vocês vão ficar com o setor Sul hoje – Falou alto Derek, tomando a atenção do grupo.
— Liz, Dylan, Roger, Tom, Clark, vocês ficam com o leste – Continuou o Alpha, e, assim por diante ia ditando os nomes e os setores dos quais ficariam responsáveis.
— Droga, pensei que ser amigo do chefe nos daria alguns benefícios – Resmungou Theo, enquanto Liz revirava os olhos e Scott dava um pequeno sorriso, abanando a cabeça. Stiles por alguns instantes acreditava que quando na forma animal, Scott era do tipo que sempre estava abanando o rabo.
— Vou pedir para Derek dar mais folga para vocês – Disse Stiles.
— Não! Da última vez que pedimos para a mãe dele, ele nos fez ter turnos dobrados – Continuou Theo, enquanto caminhavam até o local de onde partiriam e deixariam suas roupas. Theo, naturalmente, já tirara a camiseta.
— Bem, digamos que eu conheço um pouco melhor Derek e sei ser persuasivo – Stiles deu um meio sorriso, se gabando.
— Nós bem sabemos... Sti´ – Theo respondeu no tom mais cafajeste possível, isso ao lado de Liam que corou.
— Céus, eu o mando castrar vocês se contarem sobre isso para qualquer um! – Stiles ficou vermelho como um pimentão, em uma expressão de riso e nervosismo. Apontou o indicador para Theo e Liam.
— Contar o quê? – Perguntou curioso Scott, com um sorriso divertido.
— Depois eu te conto, é segredo – Cochichou Theo ao amigo, enquanto Liam estava corado também. Os três já estavam de camisas retiradas nessa parte do caminho.
— Okay, vocês definitivamente não sentem frio, mas eu estou, vou ficar de moletom mesmo – Falou Stiles, observando os vários abdômen definidos ao mesmo tempo. Não que tivesse um corpo feio, mas mesmo assim, aqueles desgraçados pareciam ratos de academia, apesar de Stiles saber que provavelmente eles nunca tinham frequentado uma.
— Você não precisa ter vergonha do seu corpo – Afirmou Theo, ao chegarem finalmente ao extremo do lugar – Comer é muito bom, notei que você anda meio cheinho.
— Theo! – Exclamou Liam, sem acreditar que o namorado falara aquilo – Ele não está gordo...!
— Deve ser os genes de urso, devo estar ganhando ossos mais largos. Aliás, eu deveria me transformar em um urso agora mesmo e comer vocês três. E não é no sentido bíblico, é no sentido literal mesmo.
— Sentido bíblico?... – Scott ficou levemente bugado.
— Meta de fim de semana, ensinar ao Scott o que é comer no sentido bíblico... – Afirmou Theo – Enfim, vamos, já estamos atrasados. Estamos sendo supervisionados pelo pai do Liam, não quero sofrer punições mais punições dele essa semana, já basta eu ficar com o filho dele.
— Papai é legal, é só você que é um péssimo genro! – A voz de Liam ia se cessando enquanto os três iam se afastando, as nádegas agora de fora enquanto iam embora. Quando desapareceram floresta adentro, Stiles se virou. A clareira do Clã Hale estava desolada.
Não haviam pessoas mais ali. A lua estava prateada no topo do céu e era a única luz que poderia ser vista. Tudo estava particularmente... Estranho. Aproximou-se mais do centro. Onde estava a mesa partida?
Olhou no chão e haviam cinzas. As casas estavam enegrecidas e nada parecia mais florescer ali. Os odores do lugar pareciam ter cessado: não cheirava mais à terra, grama ou chuva molhada, nem ao cheiro dos lobos – o qual aprendera a reconhecer tão perfeitamente.
Tudo havia se calado.
— Derek? – Chamou, meio assustado.
Por fim um som. Era o próprio coração, o qual vinha pouco a pouco saltando em sua garganta.
— Derek?! Pelo amor de deus, me acorda se eu estiver dormindo! Odeio pesadelos! – Gritou, começando a olhar ao redor.
Mas tudo estava estranho demais e, ao mesmo tempo, real demais. Poderia ser verdade, poderia ser um sonho. De seu mundo, de sua própria pessoa, não duvidava de mais nada.
E tão logo se aproximou da casinha, figuras se projetaram atrás das cortinas. Tinha medo porém dessas figuras, ainda mais que acreditava não estar no mundo real, não. Estava delirando. A porta se abriu e tinha um homem imenso na porta. Era forte, o rosto tinha dez anos a mais do que realmente conhecia, a barba florescia mais densa no rosto, além da ruga.
— Está tudo bem, é apenas o vento – Falou a voz que conhecia tão bem. Era Derek. Tinha nas mãos um objeto estranho, não conseguiu reconhecer de todo o que era. Deveria ser uma arma.
A porta voltou a se fechar na hora que a figura tornou a entrar.
oOo
O corpo tremia e os olhos doíam. Quando acordou, viu o semblante do pai e muita luz.
Ao menos luz. Preferia tão mais à escuridão.
— 39 graus. É febre, à quanto tempo você acha que ele está assim? – Pergunto o pai Sam a um preocupado Derek – Acalme-se homem, não vou deixar meu filho morrer. Já vi ele em gripes piores. Ah, acordou a bela adormecida.
— Oi... Pai? O que aconteceu?
— Você desmaiou à algumas horas... Mas quando Derek lhe trouxe para cá, estava apenas dormindo... Mas com uma febre muito forte.
O seu bom e velho Derek estava ali na sua frente, com a barba curta e dez anos mais novo do que a figura que vira.
— Eu... Não estou doente – Resmungou, queria tentar se sentar, e realmente conseguiu, mas algo doía por todo seu corpo.
— Ei, ei... Pode ser apendicite. Eu dei uma apalpada e aparentemente seu apêndice está inchado, mas vamos fazer um ultrassom para confirmar daqui a pouco...
O bip do pai começara a tocar.
— Droga, uma parada cardíaca. Vou ir socorrer e volto logo. Pedi aos enfermeiros mais um volume de soro, você tem suado muito, está um pouco desidratado – Explicou o pai, regulando o soro que começou a cair um pouco mais lentamente – Não desgruda dele, viu? Os Stilinskis odeiam hospitais, bem, ao menos o pai e o filho.
Stiles sorriu de lado enquanto o pai saiu depressa dali.
— Meu pai, fez um corte horrível uma vez e saiu andando do hospital depois de ter levado os pontos, ele tinha que ter ficado algumas horas em observação.
Derek sorriu de lado, enquanto agarrou a mão do namorado.
— O que aconteceu? Eu estava tão ocupado cuidando de tudo e quando vi... Os garotos te acharam caído próximo à floresta... Você não tentou se... – O lobo olhou ao redor – Você não tentou se transformar, não é mesmo?
— Não, é claro que não... Eu apenas... Apaguei.
Mentiu a parte do sonho, tinha algum receio de contar isso agora para Derek. Não sabia o que era e, definitivamente, não queria dar-lhe mais uma preocupação.
— Tenho certeza que vai ser o apêndice, oras. Eu sou assim... Sobrevivi a um ataque de lobos do inferno e salvei a vida de todo mundo e posso provavelmente morrer de apendicite. Posso já escrever o diário de um super-herói fail.
Derek deu um pequeno riso.
— Como você consegue fazer graça da desgraça:
— Tirando três letras.
Derek abanou a cabeça e sorriu.
— E onde dói?
— Não dói, apendicites era para doer, não é mesmo?
Derek balançou a cabeça.
— Também pelo fato de você ter uma cura mais rápida agora também... – Indagou Derek – Não era para ter apendicites. Talvez seja febre-do-lobo, ou melhor, febre-do-urso.
— E o que diabos é isso? – Stiles enrugou a testa.
— Sabe, quando um de nós ficamos muito tempo sem nos transformar... Acontecem alguns sintomas chatos e humanos... Muita energia acumulada.
— E como eu vou fazer para perder essa energia acumulada?
— Bem, se transformando.
— Droga, pensei que iria falar em sexo – Stiles deu um meio sorriso sapeca, Derek apenas entreabriu os lábios em um sorriso maroto e meio envergonhado. Especialmente por estar tão perto do pai do seu urso.
O pai de Stiles voltara depois de um bom tempo, trazia consigo novamente um termômetro e checara que o soro acabara. A temperatura dessa vez, porém, foi de 37 graus, perfeita.
— Bem, está normal agora, você está sentindo alguma dor, filho?
— Não pai, por isso acho que não deve ser o apêndice.
— Hoje está uma loucura. Mas se não está com dor, e olha que não coloquei nenhum medicamento no seu soro, talvez seja melhor ir para casa e descansar.
— Posso ir para a casa do Derek? Não quero ficar sozinho.
Sam olhou para Derek que se surpreendera com o pedido de Stiles, mas Derek continuou firme no olhar.
— Bem, poder você pode... Mas... Tenta descansar, hum?
— É claro que vou descansar – Respondeu Stiles, sentindo a leve picada do pai lhe tirando a agulha do soro que tomava, para logo colocar um curativo – Vou ir dormir, direto para a cama, dormir profundamente!
O pai entrecerrou os olhos e deu um pequeno sorriso, passando as mãos nos cabelos do filho, para logo então escrever algumas coisas no prontuário e ver o seu menino se levantar e sair com o namorado, ou melhor, noivo.
— Ali está meu carro – Falou Stiles, indo com Derek até o veículo – Você dirigiu meu carro?
— Não era muito saudável lhe trazer aqui com minha moto.
— E porque não veio com o carro dos seus pais?
— Você... Está com ciúmes do carro? – Perguntou Derek, com um tom de humor na voz.
— Não... É só que... Têm muitos botões e coisas que você pode apertar... E todas as minhas coisas tem humor próprio, é fácil de ele não querer pegar agora – Resmungou Stiles, se aproximando do veículo – Chaves.
— O quê?
— Chaves, eu vou ir dirigindo.
— Não há a menor chance de você ir dirigindo – Respondeu Derek, indo para o lado do motorista, tal como Stiles – Você pode desmaiar novamente.
— Eu não vou desmaiar novamente, e você não vai dirigir meu Jeep, sourwolf.
Derek rosnou baixo e abriu a porta. Stiles empurrou-a e a fechou antes de que ela se abrisse totalmente.
— Eu sou seu al...
— Não me venha com essa historinha de alpha, beta, gamma, delta. Você pode ser o alfabeto grego inteiro.
Derek rosnou nervoso, olhando para Stiles com os olhos nervosos.
— Entre. No. Carro. – Derek trincou os dentes, olhando fixamente para Stiles – Ou eu vou lhe colocar ali.
Stiles ficou levemente indeciso se aquilo era apenas uma encenação de Derek, mas, acabara vendo que pegara pesado demais no orgulho dele. O urso lentamente foi para o outro lado do carro e entrou no carona.
Derek entrou no comando do veículo e as portas se bateram.
Visto de frente do para-brisa, não poderia haver espaço maior entre os dois. Stiles se encostara na porta do carona e olhava para fora, com a cara emburrada, enquanto que Derek parecia concentrado demais para poder conversar, além de que as sobrancelhas aduncas pareciam agora mais proeminentes. O lobo virou a chave e o carro fez o som de partida, ou melhor, de arrancada. Mas logo afogou.
— É um carro mecânico, você tem que pisar na embreagem – Falou Stiles, vendo Derek girar a chave mais uma vez.
— Eu sei dirigir um carro, ok? – Falou Derek, girando mais uma vez. Se recusando a acreditar que as crendices de Stiles tinham alguma coisa a ver com aquilo.
Depois de uma ou outra tentativa, o lobo apenas abriu a porta e resmungou.
— Vou ligar para alguém vir nos buscar – Derek pegou o celular no bolso, bufando, enquanto que Stiles apenas deslizou para o lado no motorista.
Pisou na embreagem e garantiu que estava no neutro. Virou a chave e o carro funcionou.
Derek que estava no celular apenas virou o rosto e ficou fitando Stiles. O sourwolf apenas deu a volta no carro e entrou no carona, fechando a cara mais ainda.
— Eu também te amo – Disse sarcasticamente Stiles enquanto colocou a marcha ré e saiu do hospital, começando a dirigir em frente.
A estrada parecia ainda mais escura e o tempo nublado deixava tudo ainda mais escuro.
— Devagar – Falou Derek de repente e Stiles reduziu a marcha.
Foi bem avisado, pois tão logo uma criatura cruzou a estrada e ficou no meio dela. Era um lobo. Um lobo-humano Stiles conseguia agora discernir perfeitamente. Pela luz do carro conseguia ver perfeitamente a imagem do mesmo parar sobre as quatro patas em frente ao carro que ia em movimento. Era negro como o breu. Stiles diminuiu a velocidade do carro até parar.
— Não é um dos meus – Disse Derek, falando de forma que seus dentes ficavam ainda mais pronunciados.
O lobo se transformou em um homem.
— Ok, vocês realmente não têm problemas com nudez – Afirmou Stiles.
Era um homem negro, o corpo era musculoso e não parecia muito amigável.
— Derek, ele está se aproximando – Murmurou baixinho Stiles, apreensivo – Se você for brigar com ele, é melhor sair de perto do meu carro... Meu pai nos mata se eu destruir ele.
— Ele é de uma matilha... Eu sei qual é.
— Derek Hale – Falou o homem em um sotaque forte.
— Olá – Respondeu Derek, abrindo a porta e indo até o homem. Tinha uma altura um pouco maior que a de Derek, os músculos, porém, eram mais proeminentes – Sou Derek Hale, do clã Hale, dessas terras. Você é?
— Ramsé Anúbis. Sou um chacal do clã Anúbis, uma das famílias do Egito.
Derek assentiu.
— Sentimos uma energia muito grande vinda daqui, desse lugar, dos Estados Unidos. Não é energia de lobo. É algo mais. O que estão fazendo, Derek Raile, do clã Raile.
O sotaque era muito forte e a voz era alta e eloquente.
— Talvez vocês tenham visto errado, a lua anda muito brilhante ultimamente – Mentiu Derek.
— Minha rainha me mandou para cá atrás de respostas, e sem respostas Ramsé não irá voltar – Falou o homem. Os dentes eram tão brancos que a luz do carro os refletia de forma bela. Ele tinha no pescoço um amuleto de pedra-da-lua.
— O Homem fala na terceira pessoa, coisa boa não é. – Murmurou Stiles baixinho, para si mesmo.
— Meu clã é pequeno, somos uns poucos, mas se um dos meus encontrarem algo, mandamos uma carta para vocês.
— Não, você mente lobo americano – Disse o outro – Nós Anúbis sabemos quando mentem. Mas mentir não há porque, somos todos irmãos embaixo de uma lua.
— Claro – Respondeu Derek – Mas devo pedir que saia do território do meu clã. Meus lobos não te conhecem, não queremos nenhum incidente. Venha em sua forma humana e talvez conversemos.
O homem assentiu e foi para trás, virando lobo e indo embora. Tão logo apareceram alguns outros lobos, esses Stiles conhecia bem.
— Está tudo bem, apenas um forasteiro – Explicou Derek – Não ataquem, só se ele atacar.
Os lobos então se dispersaram e Derek voltou para o carro.
— Problemas – Disse Derek, vendo Stiles começando a dirigir novamente – Meu avô já havia me dito desses lobos, eles são do Egito, eles possuem algumas coisas mais avançadas... São de uma família muito tradicional, talvez de onde tenha surgido... Nossa espécie. É melhor que eles não saibam de você, eu ainda preciso achar meu tio e o matar, antes que ele conte sobre você à alguém. Como outras famílias tradicionais de lobos... Isso pode vir a ser um problema.
— Problemas... – Sussurrou Stiles – Meu nome sempre está ligado à eles, talvez de onde meu nome tenha vindo, ele signifique isso: problemas.
— Provavelmente – O lobo sorriu e tocou a perna do seu humano, ou melhor, seu urso.
Ursinho. Apesar de que ligar Stiles à um enorme urso como vira reforçava seu ego, reforçava em saber que estava ligado à um grande ‘Beta’, mesmo que não da maneira tradicional como gostaria e, melhor, tê-lo como seu parceiro daria-lhe a chance de ser um enorme clã, talvez alguns anos adiante.
— Mas que tipo de problemas, além desses todos, é claro.
— Bem, você lembra aqueles contos ao redor da fogueira... Então, pode haver clãs que queria lhe matar... Outros, talvez lhe ter por perto... De maneira coercitiva.
— Coercitivo, que dicionário impecável para um grande lobo – Ironizou Stiles.
Derek mostrou levemente os dentes. Sabia que para aquele Stiles sarcástico ele era apenas um grande brutamontes ignorante.
— Coercitivo... – Indagou Stiles – Talvez devêssemos ler nos livros do seu avô, talvez tenha algo lá sobre berserkers. Precisamos saber tudo, não é? Talvez eu possa me transformar sem perder a consciência.
— Meu avô tem um milhão de livros – Suspirou Derek – E eu não gosto muito deles, são velhos e me lembra de quando meu pai me colocava lá de castigo.
— Que dó – Respondeu sarcasticamente Stiles – Talvez durante o dia possa colocar a juventude de lobos ler todos eles e procurar por algo.
— Verdade – Afirmou o lobo, olhando para Stiles – Vou fazer isso amanhã mesmo.
— Eu sou realmente muito mau – Stiles sorriu de lado, olhando para Derek – Não fale aos meus amigos que isso foi ideia minha.
oOo
— De quem foi essa ideia mesmo? – Argumentou Theo, coçando os olhos enquanto passava uma e outra página de alguns livros.
— Stiles – Respondeu Liz rabugenta, também virando a página de outro livro.
— Céus, parem de ser resmungões... – Stiles estava com um livro no colo, enquanto virava as páginas, era incrivelmente mais abrangente do que pensava, o mundo ao qual fora inserido.
— De todas as formas, estaremos dispensados do turno noturno – Entusiasmou-se Liam, com um enorme sorriso no rosto – Poderemos em fim dormir por uma noite inteira!
— Preguiçoso – Disse Theo – Como se não tivéssemos que acordar cedo e ir para a aula de qualquer forma. Não sei para que nós precisamos ir para a escola. Poderíamos muito bem ficar aqui usando nossas terras, ganhando dinheiro com ela, cuidando dela e tudo mais.
— Achei algo – Disse Scott, pegando a atenção de todos – Não fala exatamente sobre Berserkers, mas fala sobre outra espécie supostamente extinta.
— O que é?
— Não sei, está em uma língua diferente – Afirmou Scott, coçando a cabeça.
— Então como diabos sabe que está falando de alguma outra espécie de nós? – Perguntou Liz, se aproximando.
— Porque está com um desenho de um homem se transformando em um outro bicho estranho e está escrito embaixo ‘extinto’ – Respondeu Scott.
— Ótimo, estamos vendo livros que nem em inglês estão – Afirmou Theo, se aproximando e ficando próximo também.
— Ah, é francês, eu sei ler – Disse a garota do grupo.
— Ótimo, temos uma Hermione – Exaltou Stiles, tomando a atenção de todos que logo foi tomada pela leitura de Liz.
— Kitsune são transformistas. Kitsune é japonês gente, mas está escrito em francês – Explicou a garota.
— É raposa, lembro de Naruto – Disse Scott – O quê? Eu era bem nerd na adolescência. – O rapaz deu de ombros e Stiles lhe fitou querendo arrancar-lhe mais confissões – Okay, sou. Enfim, continue Liz!
— É, está escrito aqui! – Afirmou a garota – São raposas, pequenas e ágeis nos pensamentos, vivem em média de mil anos, por isso são extremamente inteligentes. As primeiras filhas dos livros que se teve conhecimento vieram do Japão, por isso que “Kitsune” é o termo mais coerente para elas. Não se tem registro de nenhuma Kitsune viva até agora, talvez por sua incrível habilidade de se esconder e por nunca viverem em conjunto.
— Céus, então quantas criaturas mágicas existem no mundo de vocês? – Argumentou Stiles, olhando aos outros – Derek nunca me contou que estou em uma história de Senhor dos Anéis ou algo do tipo, precisamos começar a procurar essas criaturas mágicas e cataloga-las, quem sabe a Warner ou a Fox compre os direitos e façam cinco ou seis filmes.
— Não somos criaturas mágicas – Respondeu nervoso Theo – Somos... Nós. E não existe essa baboseira toda, franceses adoram criar contos.
— Esse livro parece bem antigo – Liz arqueou as sobrancelhas – E a linguagem é bem técnica e, tecnicamente, somos criaturas mágicas sim.
— De qualquer forma é a primeira vez que sabemos de algo do nosso mundo... Vovô Hale nunca nos deixava ver qualquer livro desses também... – Disse Liam, lentamente, adorando estar ali naquela biblioteca, parecia que tinham tantas coisas que poderia saber e que nunca soubera.
— Exatamente, talvez por isso o antigo líder de vocês nunca deixou... – Principiou Scott – Sabe, saber das coisas demais pode nos deixar loucos e curiosos demais, e isso pode fazer com que sejamos mortos.
— Mas agora, é Derek que está no comando – Explicou Liz – E parece que ele é tão ignorante quanto a gente quanto a tudo isso.
— Droga – Afirmou Stiles aborrecido, tomando a atenção deles.
— O que foi? – Questionou Liz, preocupada, era a única sentada com o grande e pesado livro no colo, aberto.
— Estamos em uma fantasia sem um Dumbledore ou um Gandalf para nos orientar.
Quem pegara a referência ali sorrira, apenas Theo que não gostava muito das “Nerdisses” ficara confuso e abanara a cabeça. Stiles continuou apenas:
— De qualquer forma somos apenas nós e eu corro grande perigo de vida com o maluco do tio do Derek à solta, e agora o egípcio aqui. Provavelmente é apenas o começo das confusões. E isso não é uma história, podemos morrer de verdade, todos nós, o clã ser extinto, meus pais serem assassinados... – Um calafrio passou por suas costas – Precisamos buscar essas informações, precisamos saber tudo sobre o mundo em que vivemos agora e tenho certeza que essas kitsunes não estão extintas.
— Só espero que estejam – Afirmou Liz, virando a página.
— Porquê? – Perguntou Stiles, piscando os olhos e olhando de relance a outra página.
— Porque pode significar que isso não esteja extinto.
Stiles abaixou os olhos e leu na página “Jörmungandr” e na frente “Vipère fait homme”, e a imagem de uma criatura humanoide com pele meio-apodrecida, ou melhor, escamosa. Parecia horrível e, uma página após a outra, mais nomes e coisas estranhas apareciam. Eram várias e várias páginas que Liz dizia apenas ter alguns relatos, e algumas páginas vazias, em branco e o livro terminou apenas com uma nota do escritor, que dizia “Encontrei essas informações depois de muita pesquisa sobre o mundo em que vivemos e, tomando ciência que nós, homem-lobos, somos apenas uma entre as várias peculiaridades que esse grande mundo azul nos reserva. 17 de Brumário VII.”
— Okay, a coisa ficou realmente maior do que eu imaginava – Stiles abanou a cabeça e todos concordaram que era melhor pararem por aquele dia, tinham dever da escola, além de que Stiles não se sentia tão bem como deveria.
Derek estivera todo o dia fora do clã e pela noite Stiles não poderia o esperar mais, não conseguia mais desculpas para o pai em ficar tanto tempo fora de casa. Por fim, apenas tomara o rumo de casa e, quando chegara, não era surpresa de encontrar a viatura de policia na frente e o pai encostada na mesma.
— Pensei que ia ter que te buscar na casa dele – O pai falou de forma um tanto ríspida, tinha os braços cruzados e uma expressão brava.
— Desculpa pai – Pediu Stiles, assim que terminara de travar a porta do carro que não tinha alarme ou travas elétricas.
— Filho, esse namoro não está... Fixo demais? Digo... Tudo bem, namorar é legal e acredito que seja tudo novo... Mas tem que dar um tempo.
— Por favor pai, não falemos disso, não aguento mais ter conversas sobre sexo com o papai – Stiles disse diretamente, enquanto ia em direção da porta de casa. Deu um sorriso quando ouviu a voz do pai atrás de si.
— O quê?! Não... Eu não ia falar de sexo com você! Seu pai fica falando sobre sexo com você? O que ele andou lhe falando?! Você é menor de idade! Tem dezessete anos até o fim do mês! Espero que gastem todo esse tempo apenas beijando! Okay? – A voz do pai caíra completamente da seriedade e da bronca para um tom desesperado e aterrorizado que seu filho estivesse já tão ‘crescido’ como imaginava.
— Pai, eu estou ajudando o Derek a superar – Falou Stiles, assim que entraram na casa.
— S-superar o quê? – Perguntara o xerife, já sem fôlego, os olhos muito arregalados.
— Os pais dele morreram, o avô também – Explicou e o xerife arregalou os olhos – Não é para o senhor ir procurar saber mais nada, é algo muito íntimo. Apenas a família dele sabem, fizeram a papelada de óbito até em outra cidade...
— Céus... Esses Hales são estranhos – O xerife coçou a cabeça – E... Do que morreram?
— Acidente de carro – Falou categoricamente Stiles, balançando a cabeça, já havia combinado tudo isso com Derek – E Derek está tentando manter tudo em ordem... A família dele é grande e ele herdou todas as terras, então imagine a coisa toda...
— Coitado... – Falou baixo o pai – Seu pai provavelmente não sabe, posso contar para ele?
— Claro, mas só para ele por enquanto. Estamos deixando as coisas se resolverem primeiro.
— “Estamos”, vocês parecem até casados já – Resmungou o xerife, começando a ir em direção à cozinha.
— Falando em casamento...
O pai parou na metade do caminho. Stiles olhou para a cena, poderia estar em meio a um filme. O pai virou a cabeça e apenas fitou o filho.
— O senhor poderia renovar os votos com o papai... Talvez saírem para uma lua de mel... Sabe.
Stiles não teve estômago para contar ao pai, talvez seu outro pai lhe ajudasse. Não que tivesse medo de contar para Noah, mas... Bem, tinha medo de contar para o pai sim.
O pai deu um pequeno sorriso e espremeu os olhos em um carinhoso sorriso.
— Talvez pequeno, vou fazer o jantar.
— Você diz, pedir pizza – Falou Stiles, olhando para o pai.
— Exatamente.
oOo
— Céus, você é um ótimo mentiroso – Afirmou Derek, dentro do quarto. Estava sem camisa e usava a bermuda que deixara guardada em seu quarto. Estava anteriormente em forma de lobo.
— Eu sei que sou – Afirmou Stiles – Digo, eu tenho uma boa lábia e... Bem.
— Você fala demais também – Resmungou Derek, balançando a cabeça – Mas a história do acidente de carro é uma boa história. Meu pai não lutou bravamente de qualquer forma, para merecer uma história muito melhor. Vovô foi traído pelo próprio filho... E mamãe... – Derek mostrou levemente os dentes ao falar da mãe, lhe doía lembrar-se dela assim.
— Ela morreu porque a dor era grande demais, Derek – Disse Stiles, olhando nos olhos azulados de Derek – Foi rápido e a melhor solução que ela achou. Talvez, viver seria o pior dos castigos para ela. Ela não sabia que eu salvaria à todos, ela tinha acabado de perder o amor da vida dela, e esse amor doentio que é esse elo de lobos... E... Ela pensou que iria perder o filho. Eu consigo entender ela. Desculpe se tive que inventar uma morte tão patética para ela.
— Tudo bem, não é patético, é comum – Derek suspirou, os olhos foram para baixo. Talvez uma das melhores qualidades de Stiles fosse a que ele falava demais – Seu pai, preciso ainda pedir sua mão em casamento a ele, e tudo mais.
— É, você tem, mas não precisamos resolver todos os problemas em um só dia – Afirmou Stiles – Falando em problemas.
— Codinome Stiles – Derek disse logo em seguida.
— Olha só ele, fazendo piadas e referências. Quem te viu quem te vê, senhor Hale.
Derek sorriu de lado e deu uma piscadela. Mas logo deu um pigarro e voltou a ficar sério.
— Falando em problemas – continuou Stiles, – Eu e meu conjunto de magos level 100, aka, todos os pirralhos do bando, lemos alguns livros e vimos que provavelmente seu clã, isso tudo... Essa coisa toda de lobos é só a ponta do iceberg, tem muito mais. Sabe? Então deve haver algum livro que fale sobre mim. Se eu tenho algum superpoder ou algo do tipo. Tem umas criaturas que vivem mais de mil anos! Eu poderia, sei lá, voar.
— Você é um urso, não um gavião – Disse Derek, com um pequeno sorriso – Eu já vi esses livros... Mas... Acredito que a maior parte sejam apenas fantasias Stiles.
— Derek, até uns meses atrás eu acreditava que toda essa coisa de metamorfos fosse coisa de Rowling ou Stephenie Meyer. Nada é impossível agora e eu quero saber mais sobre mim.
— Nós vamos saber, Stiles... Mas... Lá na biblioteca do meu avô tinha mais coisas fantásticas do que...
Derek olhou para baixo e empurrou Stiles, o que Stiles vira fora em uma quase câmera lenta. Observara Derek abrir a porta e correr para o andar de baixo, e, enquanto corria o viu pular no ar.
O tecido da roupa de sua bermuda se rompeu enquanto a forma do grande lobo começara a se formar.
— Fodeu – Afirmou Stiles, o corpo batendo contra a cama na qual fora empurrado.
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