Bitter Revenge
19 Capítulo Dezenove - Mama
Notas iniciais
Mama we're meant for the flies
And right now they're building a coffin your size
Mama we're all full of lies"
Eu conseguia ouvir o tic-tac do relógio de pulso do Ciel, indicando o passar do tempo. Parecia que estava no mesmo ritmo que meu coração, contando os minutos para a louca ideia que eu acabara de ter.
Se minhas contas estivessem certas, logo Ciel e Alois estariam na maioridade, então não ia ter problema em fazer o que eu pretendia.
Olhei para baixo, para Alois, que dormia tranquilamente sobre meu colo apesar da idade. Suas feições sempre foram angulosas, mas pareciam maiores. Claro, ele não era mais uma criança. Eu também nunca tinha reparado que seus cilios eram enormes.
Virei para o lador e vi Ciel, com o braço em volta de mim, e a cabeça em meu ombro. Ele havia pintado seu cabelo, antes loirissimo, de azul escuro, quase chegado no preto. Fez alguns piercings na orelha, e aposto que devia ter alguma tatuagem feita, apesar de ser menor de idade.
– Quanto tempo eu fiquei sem ver a vida de vocês, hein? — sussurrei, passando a mão no cabelo de Alois, colocando-o para trás.
A culpa era dela. Perdi parte da vida dos meus irmãos por causa dela. Estou aqui agora, sendo tachada de louca. Não sou louca, apenas uma pessoa com muita raiva. Certo?
Naquele dia, o dia em que tudo começou, eu estava cozinhando o jantar, como sempre. Ciel estava sentado na cadeira, em frente ao balcão, seus enormes olhos castanhos me encarando, como se eu estivesse fazendo algo surpreendente. Alois devia estar brincando com alguns legos que eu havia dado de presente a ele.
Minha mãe entrou em casa, conseguimos escutar o som das chaves. Gritei um cumprimento, mas não tive resposta, apesar de saber que ela estava lá, conseguia ouvir os saltos dela no chão de madeira.
Então ela apareceu na porta da cozinha, e eu lhe dirigi um olhar, parando de cortar os legumes. Estava com uma aparência horrível, o que era uma surpresa. Mamãe sempre devia estar impecável.
Eu conseguia sentir o cheiro de alcool de onde estava, e rapidamente mandei Ciel e Alois para o quarto, mas ela gritou:
"SÃO MEUS FILHOS, VOCÊ NÃO PODE MANDAR NELES"
E então veio com tudo pra cima de mim. Depois disso, tudo é um borrão. Eu ainda estava com a faca na mão, tentando não machuca-la, porém, ela me empurrou e eu acabei pisando em um lego no chão, caindo.... E machucando Alois.
Então... Minha mãe me mandou pra cá com esse pretexto falso. Não sei seus motivos, mas não terá perdão.
***
Quando Alois e Ciel finalmente acordaram, já era de noite.
– O que ele está fazendo aqui? — perguntou Alois, olhando para Chad, que havia chegado poucos minutos antes. Ele estava sentado no chão, de pernas cruzadas e o rosto apoiado nas mãos, encarando-nos.
– Vim escolta-la pro jantar, senhor. — ele respondeu, dando de ombros.
– Você é o que, o segurança dela? — debochou Alois, revirando os olhos.
– Quase isso. — concordou Chad, abrindo o cinico sorriso pra mim.
– Mamãe estará aqui em poucos instantes. — disse Ciel, olhando o relógio. — Sinto muito não podermos ficar mais, mana.
– Tudo bem. — falei, sorrindo, colocando o cabelo atrás da orelha. — Posso acompanhar vocês até lá fora?
Ciel e Alois se encararam e até Chad pareceu meio surpreso.
– Quer... Quer ver a mamãe? — perguntou Ciel, como se fizesse esforço para dizer as palavras.
Assenti e olhei para Chad, que me encarava com um sorriso. Ele devia ter encaixado as peças e sabia o que eu ia fazer.
– Bom, então não precisará de mim. — ele diz, aproximando-se e pegando minha mão. — Apenas não demore muito, madame.
Pude sentir ele me passando algo que parecia uma cartela de comprimido. Sorri, pois sabia que ele havia entendido.
– Vamos? — perguntei, sorrindo, indo na frente sem esperar meus irmãos.
Incrivelmente, meus pés lembravam do caminho apesar de eu não. Imagino se eu já tinha visto minha mãe depois que fui internada.
– Helen, acha uma ideia boa ideia? — perguntou Alois, correndo para ficar ao meu lado. Apesar das pernas longas, era ainda o que andava mais devagar.
– Hm, quero ver como ela está, sabe. — falei, parando em frente a porta de madeira que levava a sala de visitas compartilhada.
Ao lado da porta, havia uma máquina de café.
– Ela ainda gosta de café preto? — perguntei, dirigindo-me a máquina e apertando a opção.
– Hm... Sim... — respondeu Ciel, abrindo a porta e dando uma espiada lá dentro. — Ops, ela já está aqui, Helen.
Enquanto eles estavam distraidos conversando sobre a possível reação de mamãe, peguei a cartela prateada que Chad me dera. Quando a abri sobre a xícara com o café preto dentro, um pozinho meio azulado caiu sobre o liquido. Rapidamente, acrescentei açúcar e misturei tudo.
– Vamos. — falei, segurando com cuidado o pires com a xícara em cima, atravessando a porta que Ciel mantinha aberta pra mim. — Onde ela está?
Alois apontou com o queixo para uma mulher com longos e ondulados cabelos loiros, usando um casaco de pele branco. Nos aproximamos, e perguntei-me como conseguia digitar no celular usando unhas postiças vermelhas tão longas.
Ciel pigarreou e ela olhou para cima, levantando as sobrancelhas claras em surpresa.
– Ora, ora, ora, veja quem está aqui. — ela disse, abrindo um sorriso simpático, mas sabia que não estava feliz.
– Olá, mamãe. — falei, fingindo estar animada, e estendi a xícara pra ela. — Ainda gosta de café preto, não é?
Ela olhou para a xícara, e fez o biquinho que significava que estava em dúvida sobre algo.
– Então os médicos estavam certos, você perdeu parte da memória. — ela sussurrou, quase sorrindo de satisfação. Segurei-me para não puxar os apliques loiros dela.
– Sim, sem dúvida, ainda tomo café preto. — ela pegou a xícara pela asa e levou aos lábios. — Hmmm, espetacular como sempre, Helen.
Sentei na cadeira mais próxima, e apoiei o queixo na mão, observando-a terminar o café e lamber os lábios rosados.
– Como vai, mamãe? — perguntei, tentando disfarçar a ansiedade dentro de mim.
– Vou muito bem,querida. A minha companhia de teatro está fazendo muito sucesso e... — ela tosse.
– Puxa, está gripada, mamãe? — perguntei, sorrindo, enquanto ela ainda estava tendo um acesso de tosse.
– Um pouco. — ela responde, mas logo volta a tossir de novo, só que mais violentamente.
Em seguida, está com as mãos na boca, e seus olhos estão fortemente fechados. Um filete de sangue escorre pelo seu pulso.
– Mamãe, o que há de errado? — perguntei, sem nem me mover, apenas observando ela cair no chão, ainda tossindo, e abrir os olhos cheios de ódio para mim.
– Você... COFCOF... Vocês fez isso...
Levantei as sobrancelhas, mas não neguei nada. Virei apenas para meus irmãos, que olhavam horrorizados para minha mãe.
– Vocês me viram fazer alguma coisa? — perguntei.
Eles me olharam e em seguida para mamãe, e negaram com a cabeça. Mas eu sei que ela sabia que eu tinha feito algo. A diferença era que ela sempre foi uma mentirosa e a culpada da situação toda, então meus irmãos não ficariam contra mim.
Me ajoelhei na sua frente, sua tosse mil vezes pior que antes. As poucas visitas e pacientes que estavam lá olhavam para nós preocupados e terrificados.
Segurei a cabeça de mamãe com falso cuidado, e aproximei meus lábios de seu ouvido.
– Cada um tem o que merece, não acha, mamãe? — falei, sorrindo, sentindo o prazer em cada palavra.
– Sua vadia. — ela soltou, porém baixo demais e somente eu ouvi.
Sorri novamente, afastando-me para em seguida me levantar.
Olhei para meus irmãos e falei:
– Ela parece estar com febre. Chamarei alguém. — e caminhei pelo mesmo caminho que viemos.
E, é claro, eu não chamei ninguém para cuidar de minha mãe.
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