Bitolar
1 Capítulo 1 - Despertar
Notas iniciais
– Você já procurou a mãe dela? Uma vozinha fina sussurrava, mas falhava miseravelmente por culpa da acústica do lugar.
–Não. Preciso falar com ela antes. Essa outra voz, mais rouca, não vazia tanta questão de diminuir o tom de voz.
– Mas, querido... Jamille nunca nos perdoará se...
–Shiiiu. Ela está acordando.
Lentamente, a bela morena despertou, mostrando belíssimos olhos castanhos esverdeados e um provincial corte que se estendia da sobrancelha até o meio da testa. Estando o mesmo fechado por pontos pretos e muito dolorido.
–Minha cabeça... A garota tentou levantar o braço para tocar mas uma mulher baixinha e loira apressadamente gritou:
–Não! Vai tirar a agulha do lugar!
Só então a os lábios carnudos se franziram de constatação.
O alto e forte homem que se apoiava na grade da cama de hospital, apertou-as mais forte antes de dizer:
–Ayla... Me diga quem fez isso com você. Me diga quem é o filho da puta que eu vou atrás dele agora.
A garota encarava o homem profundamente, mas só o vazio dominava em sua mente. Quando o tempo se tornou insuportável para o grandalhão ele cortou o silêncio em tom autoritário:
– Quem fez isso, Ayla?
A menina pareceu ter acordado de um transe, e lentamente disse:
–Eu não sei.
–Como não sabe? A pessoa te acertou bem no rosto!
– Eu não sei. Eu não sei. Eu não sei. Eu não SEI! EU NÃO SEI!
A garota chorava e berrava à plenos pulmões. Se não fosse a perna engessada presa em um suporte com certeza já teria caído no chão. O forte homem vendo essa cena se aproximou e chacoalhou a garota com força. A menina lentamente se acalmou e ele disse:
– O que fizeram com você?
Voltando a chorar baixinho ela sussurrou:
– Eu não sei nem quem eu sou.
Hamilton, era investigador da polícia local à quase vinte anos. Era calado, muito sério, mas amava a família e tinha um senso de moral apurado. E era padrinho de Ayla. Ter encontrado a garota, com as roupas rasgadas, suja, com escoriações por todo o corpo e uma perna quebrada, tinha sido o fim do mundo para ele. Embora soubesse que deveria contatar a mãe de garota, ele sentia que precisava entender o que tinha acontecido antes de falar com Jamille, ou poderia pôr tudo a perder.
Hamilton franziu ainda mais as sobrancelhas. E apertou suas têmporas. Tudo indicava que a situação seria ainda mais complicada do que tinha imaginado.
–E então doutor? Qual é o veredito?
O médico, um homem de meia idade, com cabelos grisalhos e semblante cansado, sendo um neurologista competente, avaliava a tomografia da garota com um ar profundamente cansado.
–Olha, Hamilton, ela teve uma lesão no lobo frontal esquerdo. Isso acabou por afetar as memórias dela. Constatamos uma Amnésia Retrógrada.
–E isso tem cura?
–Ás vezes sim, ás vezes não. O cérebro é uma área complexa, e cada caso é muito específico. Infelizmente, não há nada que possamos fazer. Há terapias que buscam estimular o cérebro, mas não podemos dar uma garantia de completa reabilitação. Mas ela poderá viver uma vida normal. Habilidades que já tinha, continuará a ter. Só terá que redescobrir o mundo que vive.
Flora, a pequena e delicada esposa de Hamilton começou a chorar. Hamilton pensou que ela era sensível demais, mas nesse caso ele entendia. Entretanto, um sentimento de alívio pela garota não estar louca ou aleijada era o que predominava no coração do investigador.
Assim que Flora se acalmou, os dois entraram no quarto da menina e Hamilton perguntou:
– Como se sente, Ayla?
– É estranho não saber nada sobre mim.
– Posso te dar algumas informações gerais.
– Isso seria ótimo.
A garota sorriu levemente, e Flora passou a pentear os cabelos da mesma com cuidado.
– Bom, seu nome é Ayla Dornelles, fez 18 anos em setembro. Está no último ano da escola. Seu pai, Bernardo, era engenheiro, mas faleceu há quatro anos em um acidente de carro. Sua mãe, Jamille é médica. E você tem um irmão de 9 anos. Arthur.
Silêncio por alguns momentos, e então, Hamilton pigarreou levemente.
–Eu sei que não sabe, mas nós dois somos seus padrinhos. E, o que aconteceu com você... Não sabemos quem foi... Por isso, decidi que será mais seguro se você não for para a sua casa, e sim para a minha. Sua mãe trabalha o dia todo, e na minha casa temos a Flora e o Conrado para te ajudarem e também, posso discretamente posicionar algum PM à paisana... Será mais seguro.
A garota assentiu. Afinal, o que mais ela podia fazer? Alguém lá fora queria sua cabeça, e ela não fazia a menor ideia de quem ou o porquê.
– Conrado, querido! Chegamos!
Flora avisava o filho enquanto Hamilton colocava Ayla e sua cadeira de rodas para dentro da casa. Poucos segundos foram suficientes para que um homem alto, forte descesse as escadas preguiçosamente.
Ayla imediatamente sentiu-se envergonhada de sua aparência. Usar um vestido de Flora, de florzinhas e botões (praticamente o que uma dona de casa usava nos anos 50), não era exatamente como gostaria de aparecer perto de alguém tão fisicamente interessante. Entretanto, tais pensamentos duraram apenas um segundo, já que o rapaz olhou meio torto para ela, e com certeza não era no sentido debochado de quem vê alguém ridiculamente vestido.
– Ayla, tem alguma coisa que você queira comer?
– Nada de especial... Qualquer coisa está bom.
Flora deu um leve beijo na testa da garota antes de ir para a cozinha.
–Filho, leve a Ayla pro seu quarto. Tudo bem? Ela precisa repousar.
Conrado assentiu e começou a empurrar a cadeira levemente. Ayla não sabia o porque, mas o garoto não parecia nada amigável, e levemente esganiçada disse:
–Eu posso ficar na sala, para não incomodar.
Flora pareceu horrorizada com a ideia, e da cozinha gritou:
–De jeito nenhum!
Hamilton riu e disse:
–Ninguém precisa ficar na sala. Temos mais de dois quartos na casa, só vai ficar no quarto do Conrado porque é o único no andar de baixo. Seria muito trabalhoso subir e descer com você toda hora.
Conrado tinha permanecido em silêncio e empurrando a cadeira com gentileza. Ayla suspirou fundo. Não é porque o garoto a deixava nervosa que significava que precisava fugir.
Mãos grandes sufocaram a maçaneta, e Ayla se viu em um quarto branco e razoavelmente arrumado. Conrado começou a guardar algumas mudas de roupas espalhadas e livros que repousavam sobre a cama. O desconforto de Ayla crescia. A tensão se rompeu quando Conrado evitou encarar a garota ao abrir uma gaveta ao lado dela.
– Ei. Por que tenho a impressão de que não gosta de mim?
– Não é impressão.
A gaveta foi fechada com excessiva força causando um estalo.
– Eu não gosto de você.
Conrado finalmente parou e encarou a garota, se aproximando lentamente da cadeira de rodas. Um pensamento angustiado passou por Ayla, naquele momento não parecia muito difícil que o homem a sua frente não quisesse apertar o pescoço dela.
– E você sabe disso, não é Ayla?
Inclinando-se levemente, Conrado sussurrou próximo ao ouvido direito da morena
– Onde esse seu planinho de amnésia vai te levar, heim?
– O que você está sugerindo?
– Se fingindo de quieta e assustada... O que vai ganhar com isso?
– Você está me ofendendo, garoto.
Repentinamente, o jovem puxou a garota da cadeira de rodas e a jogou na cama de solteiro de uma forma nada delicada.
– Só tenho pena do meu pai. A quantidade de gente que vai ser investigada porque te quer morta vai dar trabalho pra caralho.
Conrado saiu do quarto agressivamente e Ayla permaneceu atônita na cama. Não havia se machucado, mas o coração estava disparado. Conrado parecia odiá-la de graça. Uma vozinha corrigiu-a: Talvez não seja de graça. Você não se lembra de nada.
Ayla podia até tentar arrancar seus cabelos, roer as unhas ou socar a cabeça na parede, mas nada disso faria a sensação de desconforto sumir. Quem ela era? O que ela tinha feito? E se fosse verdade, por que tantas pessoas iriam querer-lhe morta?
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