O mundo não acabou com uma terceira guerra mundial, nem com uma pandemia e nem com um apocalipse zumbi, mas com um vislumbre do que ninguém sabia, pois aqueles que se atreveram a olhar, tiraram suas próprias vidas instantaneamente. Uma pandemia global de suicídio? Um vírus? Uma maldição? Ninguém sobrou para descobrir. O Rio de Janeiro, antes pulsando com vida, risos, carnaval, sexo e drogas, tornou-se uma cidade fantasma. As ruas do centro da cidade, antes cheias de moradores de rua e de camelôs, agora estavam cobertas pelos mortos silenciosos e cegos. Prédios vazios e abandonados da Avenida Rio Branco e da Presidente Vargas, refletiam o vazio que consumira o mundo. James e William, irmãos gêmeos mal saídos da adolescência, sobreviveram por pura sorte ou por puro milagre. Estavam dentro de casa, na Clementino Fraga, jogando videogame, com as cortinas fechadas protegendo-os do sol forte do verão carioca, quando o mundo lá fora enlouqueceu. Os gritos, as batidas e o silêncio repentino anunciaram o fim do mundo tal como conheciam. Eles ficaram lá dentro, com muito medo de se mexer por dias, sem saber o que tinha acontecido. O silêncio lá fora era quebrado apenas pelo baque ocasional e angustiante que lhes dizia que outra alma havia perdido sua batalha contra o inimigo invisível. Anos se passaram desde o primeiro dia. Anos vivendo na escuridão, sem nunca ousar abrir os olhos para fora de seu esconderijo improvisado no centro da principal cidade do país. Haviam tapado as janelas de seu pequeno apartamento. A comida era escassa, coletada em lojas abandonadas na calada da noite, mesmo assim, sempre de olhos vendados. Vendados, eles se moviam pelas ruas desertas da cidade outrora maravilhosa, guiados pelo som e pelas últimas memórias. James, o gêmeo mais velho por apenas alguns minutos, havia assumido o papel de protetor. Racionava seus suprimentos cada vez menores e planejava suas buscas com meticuloso cuidado. William, o mais indiferente, agarrava-se à esperança de que um dia, de alguma forma, eles veriam o pôr do sol novamente. Eles tinham ouvido sussurros, rumores de outros que haviam sobrevivido. Uma comunidade onde as pessoas viviam vidas normais, intocadas pelo horror que se abateu sobre o mundo. Mas seriam apenas histórias, sussurros desesperados de esperança em um mundo consumido pelo desespero?

Um bilhete desbotado, escrito à mão, descoberto dobrado embaixo de uma lata de feijoada em sua última coleta, rabiscado em português, falava de um lugar seguro, liderado por um homem que conhecia o segredo para sobreviver ao invisível. O bilhete não era assinado e tinha as bordas desgastadas pelo tempo e pelos elementos. No entanto, as palavras despertaram uma centelha de esperança na escuridão de sua existência. Um homem que podia ver o que os outros não podiam, afirmava o bilhete. Paradoxalmente, um homem que poderia guiá-los da insegurança das trevas para a segurança da luz. Seria verdade? Poderia realmente haver um lugar intocado pelo horror que havia dominado o mundo? O bilhete era sua única pista, sua única chance de uma vida além da escuridão. Eles tinham que arriscar...

Passaram dias decifrando as instruções do bilhete. Falava de pontos engolidos pela cidade coberta de mato, sobre um caminho escondido que serpenteava em direção ao refúgio. Um caminho que só alguns podiam ver. A ideia de se aventurar, de deixar a segurança relativa de seu lar, os encheu de terror. Mas a alternativa, uma morte lenta na escuridão, era ainda mais assustadora. Então, empacotaram seus poucos pertences com uma mistura de medo e expectativa, e com vendas nos olhos, saíram para a luz do sol ofuscante. O mundo além de seu apartamento era uma mistura de sons e cheiros, um desafio aos sentidos quase atrofiados pelo desuso. Cada passo era um salto de fé, uma aposta contra o invisível. Guiados pelas instruções do bilhete e por suas próprias memórias desbotadas da Cidade (outrora) Maravilhosa, navegaram pelas ruas cheias de escombros. Eles se moviam devagar, cautelosamente, com seus sentidos em alerta máximo. O ar estava pesado, com o fedor de decomposição, pontuado pelos grunhidos ocasionais de ratos ou pelo bater de asas de pombos em pânico. Cada som enviava um lembrete da ameaça invisível e desconhecida que os cercava. A jornada era repleta de perigos, mas não desistiram. Os dias se transformavam em noites, cada uma diferente da anterior. Dormiam em prédios abandonados. O silêncio, quando chegava, era a coisa mais assustadora. Pois era no silêncio, na ausência da sinfonia usual de sons da cidade, que suas mentes pregavam peças neles. Sussurros pareciam vir das sombras, formas fracas se materializavam em suas mentes, apenas para desaparecer tão rapidamente quanto apareciam. James, mais prático, os mantinha em movimento. William, com sua silenciosa força e inabalável fé, mantinha-os em alerta. Eles viajavam dias, com suas forças diminuindo a cada hora que passava. Mas finalmente, quando sua determinação começou a vacilar, se depararam com uma pista: uma caixa de pássaros em uma pequena clareira, estranhamente desprovida do mato que sufocava o resto da cidade. No centro da clareira estava uma figura solitária, envolta em uma capa escura. Era alto e magro, com o rosto obscurecido pelo capuz que usava sobre a cabeça. Quando se aproximaram, a figura se virou para eles, por um momento: — Quem está aí? — Era de fato o homem mencionado no bilhete. Ele os recebeu, oferecendo-lhes comida e abrigo. Seus olhos continham uma percepção que desmentia sua situação. Ele não era assim de nascença, explicou. Tinha se tornado assim quando criança: — Minha cegueira, por uma cruel ironia do destino, se tornou minha salvação. Aprendi a navegar pelo mundo através do som e do tato, a sentir as vibrações sutis no ar, que denunciam a presença das entidades. — Sob a orientação do homem cego, James e William começaram a aprender os caminhos do mundo invisível. Eles treinaram seus sentidos, aprimorando sua audição e tato. Aprenderam a se mover silenciosamente, a se misturar com as sombras. O cego lhes ensinou que a verdadeira visão não estava nos olhos, mas na capacidade de perceber o mundo além do véu da visão. Ele lhes mostrou que a esperança podia florescer, mesmo nos tempos mais sombrios, que mesmo em um mundo consumido pelo medo e desesperança, ainda havia beleza a ser encontrada.

Sua jornada estava longe de terminar, mas pela primeira vez em anos, James e William ousaram ter esperança. Haviam encontrado um lugar de refúgio e um mentor que entendia seu sofrimento. O mundo podia ter caído, mas estavam determinados a sobreviver.


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