Bionic Eye
2 Capítulo 2
Notas iniciais
O amor pode mover pessoas e guerras. Essa é minha única explicação pela qual nos humanos tentamos vencer as máquinas. Acho que é o amor por aqueles que se foram e que continuam ao seu lado fazem as pessoas daqui erguerem-se das camas todos os dias. E esse, é um lindo motivo pelo qual dar sua vida.
A sirene já tinha sido tocada, ela avisa que já está na hora de acordar, mas eu ainda estou na cama, como Dominique me segurando pela cintura. Eu gosto de gravar cada momento que tenho com ele. Seu rosto bonito, com seus cabelos pretos e olhos negros, seu sorriso brilhante. E um milagre que ele me queira. Toda a felicidade e alegria dos meus pensamentos se vão, quando lembro que hoje é o dia que antecede a nossa pequena estratégia de procurar novos sobreviventes, que iríamos mais longe dessa vez, e os perigos seriam maiores também. Teríamos o dia de folga, uma folga para passarmos com quem nos importa, e claro, eu ficaria com Dominique.
–No que está pensando?
Levo um pequeno susto quando ouço a voz dele tão perto de mim. Levo um minuto para processar sua pergunta, mas a resposta saí tão verdadeira quanto é.
–Que passarei o dia todo com você. — sorrio pra ele.
–Hailee, eu... -começa ele sério. -Olha, seu pai veio falar comigo ontem à noite enquanto você estava no banho, e falou que passaríamos o dia juntos.
–O QUÊ?- indago a ele.
Eu pulo para fora da cama, me desprendendo dos braços dele, fuzilando-o com os meus olhos.
–Por favor, Hailee, não me olhe assim, sabe que eu diria a você o que ele quer comigo, mas eu não sei.
–Mas eu sei Domi! Ele vai tentar convencer você a se juntar a ele! Meu pai quer que você seja mais que meu namorado, mas que um soldado, eles quer transformar você no que Alice...
Antes que eu possa terminar, lágrimas escorrem pelo meu rosto. Logo estou entre os braços de Dominique de novo. Tão acolhedor, tão protetor. Nunca me sinto em perigo em seus braços. Domi enxuga minhas lágrimas e afaga meus cabelos.
–Eu não preciso falar com ele ok? Nós podemos passar o dia...
–Você se lembra da última vez que alguém não foi falar com ele? — pergunta pra ele, o encarando.
–Sim.
–Então não quer passar dois dias fora dos portões que cercam o prédio.
Ele fica quieto dessa vez. Meu pai poderia ser um monstro quando queria. Fiquei três meses sem falar com eles quando isso aconteceu.
–Bom, parece que não temos muita escolha. — ele ri sem humor.
Eu olho pra baixo, tentando esvaziar a mente, tentando não imaginar Dominque como Alice. Quando volto a olhar pra cima, subitamente ele me puxa para mais perto e me beija. Coloco meus braços sobre seu pescoço e suas mãos dessem para minha cintura. Quando me afasto sem ar, eu falo:
–Por favor, não importa o que ele queria de você ou diga, não aceite.
Seus olhos brilham quando ele fala.
–Qualquer coisa que a deixe feliz Hailee.
Depois de um breve café da manhã com risadas das outras pessoas ecoando pelas paredes do refeitório, eu fui para a piscina do prédio. Dominique tinha se despedido de mim, levando meu coração com ele, então não me restou muito que fazer no dia.
A água tinha um tão azul do mar, e a piscina era funda, mas eu só queria molhar os pés, pensar na vida.
Fazia apenas dois anos desde que as máquinas, com sua inteligência artificial, resolveram pegar o mundo para eles. Achavam que os humanos não cuidavam do planeta e que nunca seriam capazes de fazer isso, então depois das primeiras ondas de rebelião contra nós, foi estimado que metade da população de New York tivesse morrido. Não sabemos como foi no resto do país e no mundo, mas estimamos o pior.
Meus pés já estão submersos na água morna da piscina enquanto saboreio a sensação da calmaria que isso me traz. Ninguém vem a esta parte do prédio, mas quando ouço passos meu coração acelera. Eu estou prestes a sair correndo quando a voz de alguém quebra o silêncio mortal.
–Onde pensa que vai?
Silene tem lindos cabelos loiros e olhos chocolates, ela é uma moça bonita que sofreu muita na vida, mesmo tendo dezesseis anos.
–Mas que merda Silene! -eu grito pra ela. -Quer me matar do coração?
Ela ria alto em minha direção, e se senta do meu lado na beira da piscina.
–Desculpe, não foi minha intenção assustá-la, mas você saiu tão rápido do refeitório, e eu imaginei que estaria aqui.
Silene é a única pessoa, além de Dominque, que me aceita neste lugar. Ela não me julga pelo o que aconteceu com Alice, porque o mesmo aconteceu com sua família.
–Então, o que você quer? — pergunto.
–Nada na verdade. É só que... -ela faz uma pausa e engole seco. -Não tenho muito aonde ir, e você é a única pessoa que não me olha feio.
Silene desvia o meu olhar quando olho para ela, escondendo sua dor.
Ela não tem muitos amigos aqui, mesmo estando a longos meses no nosso grupo; ela veio com os pais, e na primeira missão dos três juntos, Silene falhou em proteger eles e as máquinas os levaram.
–Você acha que eles... Estão vivos? — fala Silene, com a voz marejada.
–Seus pais? — eu a pergunto.
–Sim.
–Provavelmente. Aquelas malditas máquinas colocam aquelas coisa dentro de você e...
Eu paro de falar bruscamente, lembrando de Alice, que teve o mesmo destino que os pais de Silene. Ambas fracassamos em proteger quem mais amávamos que nesse exato momento, podem estar mortos ou pior, sendo controlados.
Sentindo o clima tenso, Silene se ergue e olha para mim.
–Eu... Eu vou embora ok? Vemos-nos amanhã.
Antes mesmo que eu possa me despedir, ela saí em disparada pela porta onde da entrada da ala da piscina, e desaparece.
O dia passa rápido. Fiquei metade dele na piscina e o resto da tarde e noite trancada dentro do quarto, lendo um livro, ou melhor, fingindo, dando um jeito de minha mente esquecer o que era minha única preocupação agora, Dominique.
Eu estou quase saindo do quarto quando ele aparece. Sorrindo pra mim, ele me beija rapidamente e depois se joga a cama.
–Já comeu? — pergunta ele.
Faço que não com a cabeça, e vou direto ao ponto.
–O que ele queria?
Por um segundo, o sorriso de Domi se vai do seu rosto, mas ele da de ombros.
–Sobre o dia de reunião.
Não sou capaz de esconder meu alivio quando ele responde.
–Só isso? — pergunto a ele, franzindo o cenho, não acreditando ainda.
Ele segura minhas mãos e me olha.
–Só isso. — ele fala.
Eu sorrio também e o abraço. Mesmo tendo dúvidas, achando que ele está mentindo, e que é impossível que ele tenha passado o dia todo com meu pai, falando sobre um desleixo no dia da reunião, eu deixo pra lá, tomada pelo amor que seus olhos transmitem. E nesse minuto minha barriga ronca e Domi me encara e ri.
–Aposto que não comeu nada desde o café da manhã, não?
Dou de ombros.
–Acho melhor levar você pra jantar.
Ele me pega pela mão e me conduz para fora do quarto. E naquela hora, com Dominique ao meu lado, eu esqueço a guerra com as máquinas, meu pai, Alice...
Esqueço até do dia de amanhã.
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