Billie Jean
1 Capítulo Único
Era início dos anos 80.
Eu tinha meus vinte e poucos anos. Fazia faculdade e era incrivelmente popular com as garotas. Charme natural; desde sempre foi assim.
Nunca precisei me esforçar tanto. Meu sorriso era encantador, captava rapidamente a atenção. Alguns amigos acreditavam que esse meu sorriso tinha sido criado intencionalmente com o propósito de seduzir, mas isso nunca foi verdade. Eu sorrio dessa forma desde que me entendo por gente. Por isso, desde a mais tenra idade eu me recordo de utilizar esse sorriso para me livrar de poucas e boas.
Não havia bronca que resistisse a esse sorriso. Era tiro certeiro; bastava sorrir assim que os adultos logo se compadeciam, achavam que estavam exagerando e eu ficava livre para continuar com minhas travessuras.
Esse meu talento, por assim dizer, não fez de mim uma pessoa que tivesse muita noção dos próprios limites. Cresci acreditando que poderia transformar os sentimentos das pessoas, fazendo com que estes fossem sempre positivos e benéficos para mim.
Em minha defesa, devo dizer que, inicialmente, eu era mais ingênuo que malicioso. Quando fazia as pessoas gostarem de mim com meu sorriso, não era porque eu agisse intencionalmente com esse intuito. Eu não queria ser manipulador; acabava sendo simplesmente porque isso me era natural, acontecia sem que eu realmente planejasse. Entretanto, uma vez beneficiado, eu nunca abria mão do que conquistava. Não via mal no que fazia. Logo, por que me puniria?
Esse deve ter sido o meu mal. E quando a punição finalmente veio, veio de uma vez, com todos os juros incluídos.
Minha adolescência foi uma combinação terrível de imaturidade e grande poder de sedução. Um adolescente, que ainda não sabe muito da vida, mas cheio da sede de viver, dotado dessa enorme capacidade de seduzir, é sempre um problema.
E eu, definitivamente, era um problema. Não para mim, mas para toda garota que cruzava meu caminho.
Nas primeiras vezes, havia sido sem querer. Eu juro, não tinha sido intencional mesmo. Mas elas vieram daquele jeito, tão sorridentes, tão delicadas e meigas, tão simpáticas, tão solícitas, querendo me agradar...
Quando eu me dei conta de que, sem fazer grandes esforços, conseguia ter essas meninas atraídas por mim, comecei a pensar em como seria se eu realmente fizesse algo para que isso acontecesse. Pronto; não precisei de mais nada. As meninas antes se sentiam atraídas, mas quando eu fazia por merecer, elas se apaixonavam perdidamente.
Tornou-se uma diversão para mim. Um passatempo. Um hobby. É; eu sei. Não é uma coisa muito bonita de se dizer. De todo modo, estou querendo ser sincero. Então não vou ficar com meias verdades aqui.
Era um desafio e eu gostava disso. As pessoas gostam de desafios, e eu não seria diferente nesse ponto. Ok, tudo bem. É verdade. Eu estava brincando com vidas. Sim, eu sei. Hoje sei muito bem. Isso não se faz.
Eu despedacei muitos corações. Era tão novo; não tinha tanta noção do que fazia. Sei que não justifica, mas enfim... Eu agia sem ter real visão do que causava. Seduzia, brincava com sentimentos. Eram vitórias, sim. Conquistas, apenas. Depois de tê-las comigo, eu as abandonava. No começo, até inventava uma desculpa. Depois, fui ficando mais insensível. Simplesmente deixava de falar com elas. Desaparecia, sem dar qualquer explicação. É claro que, antes disso, eu tirava proveito de tudo o que elas pudessem me oferecer. Mas isso não mudava o final, que era sempre o mesmo.
O que estou tentando dizer é que eu era tão egoísta que não me via capaz de enxergar além da minha própria satisfação. Eu esquecia tão rápido todas aquelas garotas que, inconscientemente, devia achar que elas fizessem o mesmo.
Mas não era bem assim. Eu não saía magoado dessas relações; elas, sim. E mágoa é algo difícil de apagar e esquecer. Especialmente quando o causador dela não parece se importar muito com as consequências dos seus atos.
Eu aprendi minha lição. De uma forma árdua, mas aprendi.
Eu nunca me esqueci daquele dia.
Foi quando tudo começou.
Eu tinha planejado ir com uns amigos a uma festa. Era uma festa bastante esperada, iria gente de todos os cantos da cidade. Estávamos animados e, quando chegamos ao local, meus amigos logo se separaram de mim. Viram que eu já estava me entrosando com algumas garotas e eles disseram que, se ficassem perto da minha pessoa, não sobraria nada para eles.
Fiquei sozinho, ou melhor, com as meninas, mas nem me importei. Isso já nem era novidade; não era a primeira nem seria, imaginava eu, a última vez em que aconteceria isso.
Porém, nessa noite, as coisas foram diferentes.
Eu estava na pista de dança.
Modéstia à parte, eu arrasava ali.
E foi então que aconteceu.
Eu me recordo desse momento, como se ele tivesse acabado de suceder.
Eu dançava e, de repente, ela apareceu.
Ela era linda. Simplesmente... linda.
Sabe aquelas garotas de filme? Aquelas que parecem estar acima de todos, em um nível acima, quase inalcançável? Aliás, de tão irreais, só costumamos vê-las em filmes mesmo.
Bom, ela era assim. Mas era real.
E eu precisava tê-la.
Ela estava vindo na minha direção. Na verdade, para quem olhasse de fora, pareceria apenas que ela estava entrando na pista de dança. Contudo, eu conseguia ver naqueles olhos verdes que ela caminhava para mim.
Os olhos dela eram uma verdadeira perdição. Queimavam; eu me lembro bem. O olhar dela era incandescente. Fazia meu corpo arrepiar à distância. Eu senti fogo percorrendo minhas veias; e isso causado apenas por um simples e único olhar.
Certa do que fazia e do caminho que trilhava, ela veio até mim. Parou a menos de um metro de distância. Havia mais gente na pista, então não creio que outras pessoas tivessem percebido qualquer coisa até o momento.
Então, ela começou a dançar.
Alguns ainda não tinham notado a beleza dela, mas quando ela começou a dançar, tudo parou. Todos voltaram seus olhos para ela. Ela havia se tornado dona daquele salão. Como uma rainha cheia de súditos, ela subjugou a todos em sua presença.
Ela não dançava, ela controlava e dominava o ambiente ao redor. Sim, ela era incrível. Se antes eu achava não existir páreo para mim, em assunto de dança, acabava de descobrir uma parceira à altura.
Sem retirar os olhos dela, comecei a dançar também. Afinal, eu era um dos que tinha parado completamente diante de sua aparição. Não havíamos trocado uma palavra ainda, mas nossos olhares já tinham iniciado um intenso diálogo. E agora nossos corpos terminariam de preencher as lacunas que restavam.
Meus melhores passos, os movimentos mais sedutores, tudo aflorou de uma única vez. Eu a queria e estava disposto a demonstrar isso.
Ela compreendeu, pois o sorriso que ela me deu deixava isso claro. Aliás, não só o sorriso. O corpo dela agora se movimentava de forma mais suave, mais receptivo. Ela me aceitava; era isso o que ela queria dizer.
Os olhares que se voltavam em nossa direção eram cheios de inveja, eu conseguia sentir. Nós dançávamos e, eu tinha certeza, todos queriam estar no meu lugar.
Entretanto, enquanto eu era capaz de perceber cada olhar em nossa direção, ela me olhava como se eu fosse o único ali. E isso só me fazia sentir ainda melhor.
A música então mudou o tom e o clima do ambiente. Antes era um ritmo envolvente, mas agora passava a ser mais lento e intimista. Eu e ela nos aproximamos naturalmente e passamos a dançar, sentindo nossos corpos praticamente colados.
Súbito, ela sussurrou no meu ouvido:
— Billie Jean.
Eu não compreendi ao certo o que ela disse, ou o que queria dizer. Por isso, afastei-me para interrogá-la com meus olhos.
— Meu nome é Billie Jean.— ela explicou e sorriu de um modo arrebatador. Se eu ainda não houvesse caído por ela, seria vencido por completo naquele instante.
Mas não me importava o nome dela. Isso nunca era importante para mim. Naquele momento, não era diferente. Eu queria tão somente inebriar-me da sua presença, até o limite, até que precisássemos ir mais além, para satisfazer novos desejos, em um novo jogo de sensações...
— Dança para mim, garota... – eu respondi, voltando a me aproximar dela.
— Na verdade... Não.— ela respondeu e eu voltei a fitar aqueles olhos verdes, sem entender que tipo de resposta era aquela – Espero que não se importe, mas quem vai dançar hoje, aqui, é você.
Eu ri um pouco, de leve. Continuava sem entender; o que ela estava dizendo? Ela queria que eu dançasse para ela? Bom, tudo bem por mim. Eu já havia usado a dança como forma de sedução por inúmeras vezes. Só achava, não sabia ao certo por quê, que seria diferente dessa vez...
— Eu não me importo. – respondi, sem interesse em me prolongar nessa conversa.
— Que bom.— ela usou um tom frio, talvez frio demais – Porque eu acabo de me dar conta de que venho buscando você há algum tempo.
Embora as palavras pudessem denotar o contrário, aquilo claramente não era uma declaração de amor. Havia quase um tom de ameaça velada ali.
— Quer vir comigo? Para aquele quarto ali?
Eu não sabia de quem era a casa em que a festa estava ocorrendo, mas não me importei. Em momentos como aquele, a casa pertencia a quem estivesse nela. Isso incluía, obviamente, os quartos.
Achei que ela fosse querer brincar um pouco mais com aquelas preliminares. No entanto, se ela tinha pressa, não seria eu a fazê-la mudar de ideia.
Acenei positivamente com a cabeça e ela me sorriu outra vez. Decidida, ela foi na frente. Eu a segui, ansioso como poucas vezes me senti na minha vida.
Assim que entramos, ela mesma tratou de fechar a porta. Eu a observava, sentindo o desejo crescer em mim. Quando ela se aproximou, consegui perceber com mais clareza o perfume dela. Era um perfume doce, eu me lembro bem. Isolados da multidão lá fora, era mais fácil notar a ela, e apenas a ela.
Já estava envolvido pelo seu perfume; agora eu queria os seus braços ao meu redor.
Porém, antes que eu pudesse concluir qualquer gesto, ela retirou uma foto dobrada do bolso de sua calça jeans.
Ela desdobrou a foto e me revelou a imagem de uma criança que não teria mais que um ano de idade.
— O que é isso? – apontei para a foto, sem compreender o que se passava.
— É o seu filho.— ela respondeu categórica.
— O quê?!
— Seu filho. Ou melhor, nosso filho.
— Filho? Impossível! Eu não tenho filhos!
— Bem, eu não fiz esse filho sozinha...
— E daí? Só sei que comigo é que não foi!
— Como você pode ter tanta certeza?
— Ora! Eu nem conheço você!
— Meu nome é Billie Jean.
— E daí? Eu conheço seu nome, mas só isso!
— Não. Esse é justamente o ponto. Você não conhece apenas meu nome. Nós já estivemos juntos. Não se recorda? Meu nome não lhe soou familiar?
Reconheço que senti um certo pânico aí. Ela me dizia que já havíamos estado juntos e eu não tinha como argumentar o contrário. De fato, eu não me lembrava do rosto de muitas garotas com que já havia estado, consequentemente lembrar-me de nomes seria ainda mais difícil, para não dizer impossível.
— Você não se lembra, não é mesmo?— ela falou, como se lesse meus pensamentos.
E eu não soube o que responder. Ela então dobrou novamente a foto e voltou a colocá-la dentro do bolso.
— Eu já imaginava. Tão típico de você. Bem, não importa. Você é quem eu venho buscando há um tempo. Você é o pai.
— Não! Ficou maluca? – eu disse, recobrando a fala – Você e eu nunca estivemos juntos! – argumentei infantilmente, pois eu não tinha como me basear em fatos agora – Esse garoto não é meu filho!
— Ele é seu filho. E, você querendo ou não, terá de reconhecer isso.— ela respondeu, dirigindo-se à porta – Espere por notícias do meu advogado.
E aí ela saiu, deixando-me completamente atordoado com aquela avalanche de notícias.
Sei o que está pensando. Testes de DNA para comprovar a paternidade. Bem, infelizmente, naquela época, isso não era uma opção para mim. Eram os anos 80. Não havia como eu fazer um teste desses, especialmente por vir de uma família razoavelmente humilde. Aliás, justamente por essa razão eu soube que ela não poderia estar atrás de dinheiro.
Mas não fazia sentido.
Aquela criança não podia ser minha!
Aquele filho não podia ser meu!
De qualquer maneira, no dia seguinte, o advogado dela veio bater à minha porta.
Eu estava com uma ressaca horrível, porque acabei bebendo todas e mais um pouco na noite anterior, depois da bomba que havia tomado.
Devido a isso, não me recordo de muito do que aquele advogado disse. Apenas entendi que estava sendo convocado para uma audiência.
Olha, eu não vou me prolongar muito aqui. São muitos detalhes técnicos desnecessários para que a história prossiga. Saiba apenas que ela, a Billie Jean, colocou-me em uma posição muito complicada.
A história que ela apresentava ao juiz era lógica e fazia muito sentido. Billie Jean alegava que nos tínhamos conhecido há quase dois anos. Ela disse que foi seduzida por mim e que, como consequência daquela única noite de paixão, havia nascido aquela criança.
Sim, fazia sentido. Era exatamente o que eu fazia, como eu agia... Mas não era possível. Algo em mim gritava, dizendo que não podia ser. E eu repetia, em vão:
— Billie Jean e eu não somos nem nunca fomos amantes! Eu não a conheço! Ela é só uma garota que fica dizendo que essa criança é meu filho! Mas ele não é meu filho!
Era difícil provar algo assim naquela época. Sem poder contar com um teste de paternidade, as pessoas se guiavam mais pela lógica e, obviamente, pelo sentimento de compaixão à mãe.
No caso, a lógica me era desfavorável. Não parecia haver qualquer motivo para que ela mentisse. Eu não era rico e meu histórico depunha contra mim.
Nessas horas, eu só me lembrava das pessoas que sempre me disseram para não sair por aí, partindo em pedaços os corações das garotas que se apaixonavam por mim. Falavam para eu pensar duas vezes antes de fazer besteiras. Um dia, eu acabaria me dando mal. Agora, eu me arrependia e ficava pensando por que não tinha prestado atenção a esses conselhos antes? Afinal, até eu já começava a duvidar de mim mesmo. Os argumentos dela eram bons, fortes, sólidos.
Ela dizia que não estava interessada em casar comigo. Não precisaria usar de um recurso tão baixo para conseguir um marido. Nesse ponto, ninguém poderia discutir com ela. Billie Jean era belíssima e poderia ter o homem que quisesse. Aliás, sua beleza era tamanha que ela, provavelmente, poderia não só arranjar um marido, como também escolher o valor de sua conta bancária. Resumindo: ela não precisaria vir atrás de mim, a não ser que houvesse algum motivo realmente forte, desvinculado do dinheiro. E, bem... Ao que tudo indicava, ela tinha esse motivo. De mim, ela queria apenas que eu reconhecesse a criança como filho. Queria que eu fosse parte da vida daquela criança; queria que o menino tivesse um pai.
Ela achava injusto que o menino crescesse sem conhecer o pai.
Foram muitas audiências. O caso foi se arrastando porque nem ela, nem eu, recuávamos. Apesar de eu mesmo não confiar tanto na minha palavra, eu me mantinha firme e continuava repetindo as mesmas palavras. “O garoto não é meu filho”, eu dizia. Mas palavras dela eram mais convincentes. E ela, às vezes, chorava. Nunca era escandaloso. Apenas derramava umas poucas e muito sentidas lágrimas.
Era difícil resistir.
A lei ficou ao lado dela.
Por quarenta dias e quarenta noites, a lei esteve ao lado dela.
Eu mesmo já começava a ceder.
Não encontrava argumentos para combater o que ela dizia.
Foi então que, um dia, no qual haveria mais uma audiência... Provavelmente, a última...
Billie Jean me chamou para conversamos em um canto, só nós dois, sem a presença de advogados, antes de entrarmos na sala de reuniões.
Ela trazia aquela expressão carregada de dor, de quem sofria já há tanto tempo...
Eu me sensibilizei.
Então Billie Jean retirou uma foto da bolsa que carregava.
Era a foto da criança.
O menino parecia chorar na foto.
Os olhos pareciam estar muito úmidos.
— Não percebe? É seu filho.— ela fez uma pausa enquanto eu, pela primeira vez, aceitava tomar a foto em minhas mãos – Por que não acredita em mim? Acha que estou mentindo?— eu não conseguia responder, uma vez que a dúvida também já tinha se apossado de mim – Quando nos vimos pela primeira vez, também dançamos juntos. Dançamos até às 3 da manhã, até que você e eu nos entregamos ao que sentíamos...
Eu senti um arrepio ao ouvi-la falar assim. Ou talvez, o arrepio fosse um sinal de que essa história poderia ser real. Eu não saberia dizer.
De todo modo, Billie Jean continuou:
— Ele chora muito. Sente saudades de um pai que nunca conheceu. Por que você se nega tanto? Eu não estou lhe pedindo muito! Quero apenas que aceite seu filho!
Os olhos verdes dela diziam tanto naquele momento! O brilho deles era único! Aquele olhar era hipnotizante.
E talvez, por me ver hipnotizado, eu começasse a ver coisas demais. Olhando mais atentamente para aquela foto, para aquela criança, para os olhos chorosos do menino...
Olhando para ele, eu me reconheci ali. Foi quando tive uma súbita iluminação e percebi que os olhos do menino eram como os meus! Eram os meus olhos, eu podia perceber!
Era meu filho!
— O que houve?— Billie Jean notou que algo havia se passado, mas como essa descoberta tinha sido silenciosa, ela precisou indagar.
— Os olhos deles... Esses olhos chorosos... São como os meus olhos! São os meus olhos!
Ela me analisou por um instante. Parecia verificar o que eu acabava de dizer:
— Quer dizer que... Você admite? Reconhece?
— Sim! Eu reconheço... – nesse instante, ela abriu um sorriso tão reluzente que eu não senti apenas vontade de reconhecer que o filho era meu. Tive vontade de reconhecer muito mais.
Tive vontade de reconhecer nosso passado. Eu queria me lembrar dela, porque queria saber quando aquela ligação, que agora eu reconhecia como muito forte, teria se iniciado. Eu queria me recordar de quando foi que dançamos até as 3 da manhã, e queria me recordar da tal noite de paixão... Queria me recordar da sensação de estar com ela.
— Excelente!— ela falou, entusiasmada – Era tudo o que eu queria ouvir.— dizendo isso, ela tirou a foto das minhas mãos e, cheia de satisfação, começou a se retirar. Eu fiquei confuso e gritei:
— Billie Jean!
Ela voltou-se, pois já estava alguns passos à frente. Olhou para mim, de forma interrogativa.
— Está indo falar com o juiz? E... Quando vou poder conhecer meu filho pessoalmente?
Então ela sorriu. Um sorriso desdenhoso, mas nem por isso, menos bonito.
Billie Jean tinha o poder de transformar o feio em belo.
— Eu não vou falar com o juiz.
— Não? Mas...
— Ele nem é juiz de verdade. É apenas um conhecido meu. Um amigo que trabalha por aqui e que me ajudou bastante.
— Como é?
— Isso tudo foi uma farsa, querido. Uma brincadeira, na verdade. E agora que você falou a verdade que eu queria ouvir, posso revelar a verdade que você precisa ouvir.
— Do que está falando...?
— O juiz, o advogado, as audiências... Nada disso é real. Mas enganei bem, não é? Cobrei alguns favores e veja o que alcancei! Uma trama tão realista que qualquer um poderia cair nela. Até você.
— Não é real? – eu não estava conseguindo raciocinar direito.
— Não. É mentira. Mas tudo depende de como se apresenta uma história, porque as mentiras podem se tornar verdade, se soubermos conduzir o andamento da situação.
— Mas... o meu filho...
— Ele não é seu filho.
— Não?!
— Não. É como você repetiu por tantas vezes. Nunca fomos amantes. Nunca dormimos juntos. Não temos um filho. Eu só disse o que precisava, para transformar a minha mentira na sua verdade.
Eu estava completamente perdido. Aquelas palavras não pareciam ter lógica!
— Você realmente não se lembra, não é?
Olhei para ela, confuso, pedindo com um olhar encarecido que ela se explicasse:
— Nós nos conhecemos, sim. Muito tempo atrás; quando estudávamos na mesma escola. Você era o cara mais desejado daquele lugar. Todas as garotas de lá dariam qualquer coisa para receber sua atenção.
— Eu nunca achei que pudesse ter chance. Ficava no meu canto, costumavam dizer que eu era apagada... E, sinceramente, eu não me importava.
— Contudo, um dia... Você me notou.
— Você sorriu para mim.
— E me disse coisas.
— Foi rápido. De certa forma, breve.
— Mas não foi indolor.
— Entretanto, você agiu nos outros dias como se nada houvesse acontecido.
— Aliás, parecia que realmente tinha se esquecido de mim.
— Pelo seu modo distante de agir, você me fez sentir como se eu fosse louca, como se eu houvesse imaginado coisas.
— Cheguei a duvidar da minha própria sanidade.
— Não era possível que fosse tudo fruto da minha imaginação.
— E não era.
— Eu acompanhei seus passos um tempo.
— Vi o que fazia.
— Vi você fazer com outras o que fez comigo.
— E eu senti muita, mas muita raiva de você...
— Espere um pouco! É disso que tudo isso se trata? Você ficou com raiva e quis se vingar de mim? Por causa desse passado, você inventou essa história de filho? É por isso que...
— Poupe sua saliva. Sim, é tudo isso mesmo. Eu quis me vingar. E consegui.
— Você disse que nos conhecemos na época da escola... Quer dizer que passou todo esse tempo planejando essa vingança?!
— Que ridículo! Claro que não! Não se ache tão incrível a esse ponto, meu querido! Não; depois que eu percebi o tipo de pessoa que você era, consegui desencanar mais rápido. E me esqueci de você. Eu me esqueci até a noite daquela festa. Quanto eu entrei na pista de dança, logo notei que você me olhava. Então o reconheci. No entanto, quando percebi que você não se recordava, resolvi brincar um pouco com a sua cabeça. Seria interessante ver você como a pessoa a duvidar da própria sanidade, só para variar...
— Então... a foto... a criança... Não é seu filho? Não é...
— Ah, quer saber? Não vou contar. Essa é mais uma coisa que você não precisa ficar sabendo.
— Mas eu quero saber!
— E daí? Só porque você quer, não significa que eu vá atender ao seu pedido.— ela olhou no relógio de pulso, displicentemente, como se essa conversa não representasse mais que um bate-papo qualquer – Bom, eu tenho um compromisso agora. Olha, foi legal rever você. Até mais, ok?
Ela se despediu de uma forma tão desconcertante, que eu não soube como reagir. Reconheci um pouco do gesto. Muito me lembrava de mim mesmo e da minha própria maneira de abandonar as meninas com que me envolvia.
Eu a vi se afastando sem pressa. Andava com segurança, como se o caminho à sua frente houvesse sido desenhado especificamente para ela.
Foi dessa forma que a Billie Jean desapareceu da minha vida.
Mas eu nunca consegui esquecê-la. Ela se tornou um marco na minha existência. Aquele dia, o dia em que dançamos... Aquilo ficou marcado. O caminho que eu trilhei depois desse encontro trouxe-me ao que sou hoje. Sim, imagino o que esteja pensando agora... "Como assim, você chegou a esse ponto por causa de uma garota? Justamente uma garota que o tratou dessa forma?" É, eu sei. Quem poderia dizer, olhando para mim hoje, que meu início, que o começo de quem sou, foi por causa dessa menina... a Billie Jean. E, sabe... no fundo, eu acredito que isso me uniu muito a ela. Para mim, por mais que ela tenha partido naquele dia, ela deixou parte de si em mim. E eu acredito que seguimos caminhos parecidos. É difícil explicar por que eu a vejo assim. Eu não senti raiva dela, sabe? Não, isso não ocorreu. É curioso, não? Mas, depois de ela me revelar a história toda – ou parte dela, já que ela não me contou tudo o que eu queria saber – eu não senti ódio nem nada assim. Na verdade, eu me senti próximo dela. Ela havia entrado na minha cabeça, mexido comigo, mexido comigo de uma forma profunda demais, como ninguém havia feito antes. Aliás, ela atingiu pontos meus que eu nem sabia existir. Ela me conheceu de uma forma única e acho que é por esse motivo que eu comecei a me ver tão próximo dela. Ela agiu como eu, fez exatamente o que eu tinha feito. Vingança? Pode ser. Mas, ao término da história, ela se tornou a pessoa de quem queria se vingar. Ela e eu nos tornamos um, dois iguais... Enfim, eu sempre segui acreditando que trilhamos exatamente o mesmo caminho. Mesmo sem saber o paradeiro dela, era como se tivéssemos seguido a mesma rota, indo para o mesmo lugar. Únicos e, ao mesmo tempo, dois. Eu sei que isso pode parecer estranho. Eu nem sabia onde ela estava! E olha que não foi por falta de tentar encontrá-la. Eu até tentei localizá-la por essas redes sociais... E nada. Se bem que isso nunca foi o mais importante. Afinal, de qualquer jeito, passei a acreditar que nossas vidas seguiram iguais por todo esse tempo. Não sei explicar.... Mas é um pensamento que me conforta. Pode não fazer sentido para você, talvez não faça sentido mesmo, mas é que saber que existe alguém por aí, como eu... Melhor ainda; saber que a pessoa que, de certa forma, me deu origem é também como eu... Isso me dá uma sensação de não estar só. Quero dizer, você me conhece. Sabe muito bem que, em relação à solidão, na minha vida, eu... — acabo rindo, pois é tão óbvio o que tenho a dizer que apenas risos podem completar essa frase — Enfim, é uma sensação estranha. A presença dela em minha vida sempre me trouxe essa reconfortante e, ao mesmo tempo, esquisita e necessária sensação. Só isso.
— Uau. Que história... Mas... Por que me está contando tudo isso? Pensei que fôssemos conversar sobre a hipoteca da minha casa. Você me disse que daria algumas dicas. Não foi para isso que marcamos de nos encontrar aqui?
— Foi, sim. Mas é que, antes de você chegar, eu a vi.
— Quem?
— Ela. Billie Jean.
— Billie Jean? Ela está por aqui? Onde?
— Não vou dizer. E pode parar de olhar para os lados. Há muita gente nesse café, e mais gente ainda nessa praça.
— Por que não quer que eu a veja? Contou toda essa história para quê?
— Sabe o que minha mãe me dizia, quando eu era mais novo? Na época em que ainda despedaçava corações?
— Vai mesmo ignorar minha pergunta? Ok, então. Vou fazer o seu jogo. O que sua mãe dizia?
— Ela dizia para eu tomar cuidado com as coisas que fazia...
— Grande coisa. Toda mãe diz isso.
— ... E para ser cuidadoso com quem eu me apaixonasse.
— Certo. Ela queria que você tomasse cuidado ao se apaixonar, para não se apaixonar pela pessoa errada.
— Nunca entendi bem essa frase. Mas ela agora começa a fazer sentido...
— Por quê? Olha, você está me deixando muito intrigado! E esse olhar perdido aí? Não vai mesmo me dizer para onde está olhando?
— Não. Mas posso dizer o que estou vendo. Billie Jean. E ela está linda. Mais ainda, se isso for possível.
— Nunca ouvi você falando desse jeito.
— É porque eu não costumo falar assim... – mantenho meu olhar perdido por mais algum tempo. Até que a imagem se torna forte demais para que eu a continue suportando. – Olha, eu vou embora. Preciso ir. – levanto-me apressado, enquanto retiro algumas notas do bolso da minha calça e jogo sobre a mesa, pagando pelo meu café – Outro dia conversamos sobre a hipoteca da sua casa, está bem?
— Espera aí! O que é isso, vai sair correndo assim só por causa de uma mulher?
— Não é uma mulher, simplesmente. É a Billie Jean.
— Mas...
— Tchau. Depois eu ligo para você. Ou você me liga.
Sem dizer mais uma palavra, o homem de meia-idade deixou a mesa, na qual havia um rapaz que permaneceu sentado, ainda sem compreender exatamente aquela saída súbita. Assim que se viu sozinho, o rapaz se dedicou a olhar mais atentamente na direção em que o homem ficara observando, antes de partir. Assim, conseguiu detectar duas mesas, em que havia duas mulheres, também de meia-idade.
Contudo, eram mulheres em situações bem distintas.
Em uma delas, havia uma mulher muito feliz, rodeada pelo que deveria ser sua família. Família grande, por sinal. Era uma mesa animada, da qual se irradiava muita alegria.
Na outra mesa, havia uma mulher sozinha. Mais do que sozinha, ela parecia solitária. Segurava uma bebida na mão, mas não bebia dela. O seu olhar parecia perdido no horizonte, como se ela olhasse para algo distante, há muito perdido ou esquecido.
O rapaz compreendeu que, certamente, uma delas seria a tal Billie Jean. E, considerando que o homem lhe dissera ter sempre acreditado que eles dois seguiram por caminhos semelhantes, era fato que a Billie Jean em sua cabeça teria uma vida quase idêntica a sua.
Sim, o rapaz entendia isso. E, claramente, ele era capaz de reconhecer em uma das mesas qual delas era a Billie Jean que parecia viver uma vida idêntica à do homem que acabara de partir. Então, se assim fosse e a Billie Jean realmente levasse uma vida como a do homem... Ora, então o rapaz pôde deduzir sem maiores dificuldades. Se fosse esse o caso, então a Billie Jean era essa, da mesa de cá!
Todavia... Porque o homem saíra tão apressado da mesa? Parecia ter se assustado com algo. Talvez, a Billie Jean que ele terminou por ver hoje não fosse o que ele sempre esperou? Talvez, a Billie Jean real, que ele acabara de enxergar, não estivesse vivendo uma vida como a sua, da forma que ele sempre idealizou? Talvez, ela fosse o extremo oposto de tudo o que ele imaginara por todos esses anos? Certamente isso iria mexer com ele. E, se assim fosse... Bem, de fato, uma das duas mulheres, em uma daquelas duas mesas, representava o oposto do caminho que a vida do homem tinha seguido. Se fosse esse o caso, então a Billie Jean era aquela, da mesa de lá!
O rapaz balançou a cabeça, ponderando essas ideias. No final, concluiu que a vida dos outros pertencia aos outros.
Com isso em mente, chamou o garçom.
Pagou sua bebida.
E foi embora dali.
******
Billie Jean Michael Jackson
She was more like a beauty queen
From a movie scene
I said don't mind
But what do you mean
I am the one
Who will dance on the floor in the round
She said I am the one
Who will dance on the floor in the round
She told me her name was Billie Jean
As she caused a scene
Then every head turned
With eyes that dreamed of being the one
Who will dance on the floor in the round
People always told me:
— Be careful what you do
— And don't go around breaking young girl's hearts
And mother always told me:
— Be careful of who you love
— Be careful of what you do
— Cause the lie becomes the truth
Billie Jean is not my lover
She's just a girl
Who claims that I am the one
But the kid is not my son
She says I am the one
But the kid is not my son
For forty days and for forty nights
Law was on her side
But who can stand
When she's in demand her schemes and plans
Cause we danced on the floor in the round
So take my strong advice
Just remember to always think twice
(Do think twice)
She told me baby we danced till three, then she looked at me
Then showed a photo
My baby crying
His eyes would like mine (oh, no!)
But we danced on the floor in the round, baby
People always told me:
— Be careful of what you do
— And don't go around breaking young girl's hearts
But she came and stood right by me
Just the smell of sweet perfume
This happened much too soon
As she called me to her room
Billie Jean is not my lover
She's just a girl
Who claims that I am the one
But the kid is not my son (2x)
She says I am the one
But the kid is not my son (2x)
Billie Jean is not my lover
She's just a girl
Who claims that I am the one
(No it just ain't me baby)
But the kid is not my son
She says I am the one
But the kid is not my son
She says I am the one
(You know what you did)
She says he is my son
(Breaking my heart baby)
She says I am the one
Billie Jean is not my lover (4x)
(Call me Billie Jean)
Billie Jean is not my lover
(She is not above a scene)
Billie Jean is not my lover
[TRADUÇÃO:]
Billie Jean
Ela estava mais para uma linda rainha
De uma cena de cinema
Eu disse "Não se importe
Mas o que quer dizer com
Eu sou o cara
Quem vai dançar na pista de dança"
Ela disse que eu sou o cara
Que vai dançar na pista de dança
Ela me disse que seu nome era Billie Jean
Enquanto causava uma cena
E todas as cabeças se viraram
Com olhos de quem sonhava em ser o único
Que vai dançar na pista de dança.
As pessoas sempre me disseram:
— Cuidado com o que você faz
— E não saia por aÍ partindo o coração das mocinhas
E minha mãe sempre disse:
"Cuidado com quem você ama"
"Cuidado com o que você faz"
"Porque as mentiras se tornam verdade"
Billie Jean não é minha amante
Ela é só uma garota
Que diz que eu sou o cara
Mas o garoto não é meu filho
Ela diz que eu sou o cara
Mas o garoto não é meu filho
Por 40 dias e 40 noites
A lei esteve do seu lado
Mas quem pode resistir
Quando ela insiste em seus esquemas e planos?
Porque nós dançamos na pista
Então, aceite meu grande conselho,
Se lembre de sempre pensar duas vezes
(Pense duas vezes)
Ela me disse "Meu bem, nós dançamos até as 3 da manhã"
E ela olhou pra mim
Em seguida, mostrou uma foto
Meu bebê chorando
Seus olhos eram como os meus
Mas nós dançamos na pista, baby
As pessoas sempre me disseram:
— Cuidado com o que você faz
— E não saia por aí partindo o coração das mocinhas
Mas ela veio e ficou ao meu lado
Apenas senti seu doce perfume
Isso aconteceu muito rápido
Assim como quando ela me chamou para seu quarto
Billie Jean não é minha amante
Ela é só uma garota
Que diz que eu sou o cara
Mas o garoto não é meu filho
Ela diz que eu sou o cara
Mas o garoto não é meu filho
Billie Jean não é minha amante
Ela é só uma garota
Que diz que eu sou o único
(não, não é apenas meu bebê)
Mas o garoto não é meu filho
Ela diz que eu sou o cara
Mas o garoto não é meu filho
Ela diz que eu sou o cara
(Você sabe o que você fez)
Ela diz que ele é meu filho
(Quebrando meu coração Baby)
Ela diz que eu sou o único
Billie Jean não é minha amante(4x)
(Me chame Billie Jean)
Billie Jean não é minha amante
(Ela não está na cena)
Billie Jean não é minha amante.
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