Big Lies
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Notas iniciais
Cheguei em Hartford ainda de manhã, mas eu sabia que não ia nem poder comemorar o fim da viagem já teria que ir para Winsted onde minha tia morava, o que me daria mais ou menos mais uns 40 minutos de viagem.
Peguei minhas poucas malas, já que eu não tinha levado muitas das minhas antigas coisas e fui em direção ao portão de saída onde as pessoas ficam esperando seus familiares e amigos chegarem. Por um momento meu coração vacilou, encontrar meu melhor amigo depois de um ano e meio não me parecia uma tarefa tão fácil quanto a dez minutos atrás... E se ele tivesse mudado? Ou pior... E se ele simplesmente não quisesse me ver e estivesse ali só por educação? Continuei caminhando até que o vi parado com uma plaquinha na qual estava escrito meu nome em letra grandes. Ele com certeza não era mais aquele nerd que eu escondia de todo mundo com vergonha, agora ele estava forte, ombros largos e braços grossos, não usava mais os sueters que pareciam que tinham sido feitos por sua mãe e as calças de moletom que davam quatro dele. Ao invés disso ele usava uma calça jeans justa – não tão justas quanto as dos cantores sertanejos, mas justa na medida certa – uma camisa verde, com um casaco por cima, mas mesmo com todas essas mudanças ele continuava com aquele sorriso de sempre e foi o que me motivou a continuar caminhando até o seu encontro e falar com ele
– Heey bonitão!
– Oi? – caralho, não acredito que ele não me reconheceu
– Oi, eu sou a Mônica...
– MEU DEUS! É VOCÊ MESMO! – me deu um daqueles abraços de urso que só ele sabia dar, transmitindo o calor de seus braços fortes ao meu redor
– Que palhaçada é essa de não me conhecer seu bostão?
– Você me aparece desse jeito parecendo uma... Cara eu não tenho nem palavras pra descrever o que você ta parecendo! É muito engraçado te ver assim tão... Feia – ele caiu na gargalhada ao meu lado
– Vai tomar no cu – dei um tapa na sua cabeça
– Se você continuar assim vai acabar arrancando meus cabelos e você sabe que eu tenho medo de ficar careca
– Ai cinco fios, me poupe – falei arrancando um fio de cabelo dele — Agora quatro
– Me responde uma coisa... A quanto tempo você não... Você sabe... Porque esse humor só pode ser falta de sexo
– Você ainda tem vergonha de falar de sexo? Que virjão!
– Vai se fuder Mônica, mesmo eu não sendo mais virgem você continua sendo uma menina, mas diz ai... Quanto tempo?
– Acho que desde que fui pro Brasil...
– O QUE? VOCÊ TÁ HÁ UM ANO E MEIO SEM? – não esperava que ele fosse começar a gargalhar, mas foi isso que ele fez
– Isso não é nada demais Cebola...
– Então quer dizer que no Brasil não rolou nem um carinhosinho?
– Puta que pariu Cebola – comecei a rir – Não, não rolou! Você sabe que mudei desde aquilo
– Mônica você sabe que não foi sua culpa ele...
– Foi sim, a idéia foi minha ok? Então...
– Mônica você ficou lá, recebeu toda a culpa e não dedurou ninguém! Pelo amor de Deus, para de se culpar por isso e se tornar algo que você não é
– Mas é algo que eu quero ser – depois disso ficamos em silêncio – Espero que você esteja de carro, porque daqui nós vamos para Winsted
– WINSTED? COMO ASSIM?
– Vou ficar na casa da minha tia por duas semanas enquanto procuro um apartamento perto da faculdade e um emprego
– Você sabe muito bem que pode ficar no meu apartamento durante essas duas semanas. O Cascão não ia se importar
– Cascão? Eu nem sei quem é Cascão – sorri – Além do mais ninguém pode desconfiar que somos amigos de infância. Lembra do combinado?
– Lembro... Te conheci a uns dois anos atrás em uma viagem e desde então somos muito amigos e não paramos de nos falar.
– Isso mesmo!
– Não vejo necessidade de toda essa mentira...
– Teremos muito tempo pra discutir isso no caminho para Winsted!
– Você não vai desistir de ir pra lá vai?
– Não mesmo!
Fomos para o carro do Cebola que era uma Hilux muito bem equipada. Ele era rico, não tanto quanto eu, mas tinha muito mais dinheiro do que a maioria da população americana. A viagem estava sendo tranqüila e silenciosa até
– Você sabe que amanhã é o primeiro dia de aula né? Nem invente de faltar usando o cansaço como desculpa, quero te apresentar algumas pessoas
– Cebola, eu não vim aqui pra fazer amigos e sim pra estudar
– Não adianta, eu vou te apresentar e pronto, você vai gostar deles!
– A faculdade não é como no colegial né? Tipo atletas de um lado, nerds do outro... Coisas do tipo
– É sim, mas em uma intensidade menor
– Fugi tanto de ser uma fracassada e agora vou voltar pro buraco do fracasso
– Também não é assim, as pessoas que eu vou te apresentar são legais e caso você vá parar no buraco do fracasso vai ver que nem é tão ruim assim, passei o meu colégio todo escondido lá — ele sorriu fraco
– Quantas pessoas? — eu falei mudando de assunto, sei que ele odiava lembrar do colegial
– Umas 4... Talvez 3...
– Cebola...
– Tudo bem... São duas
– Sério?
– Não... É só o Cascão mesmo, mas ele vale por quatro – ele falou com entusiasmo
– Tudo bem Cê, agora presta atenção na estrada
O Cebola nunca tinha sido uma pessoa que tem facilidade pra socialização e eu também nunca fui muito de ajudar ele com isso, já que sempre tive vergonha de ser amiga do nerd da escola, mas isso ia mudar... Agora ele seria amigo da nerd da faculdade e eu esperava de coração que ele não quisesse se vingar de mim.
Cheguei na casa da minha tia depois de cinquenta minutos na estrada , a casa não era grande, mas como ela era solteira isso não me espantava. O imóvel era constituído por uma cozinha pequena, uma suíte, um quarto para visitas, um banheiro social e uma sala onde tinha uma pequena mesa de refeições e coisas como a TV, o sofá. Assim que botei meus pés dentro do recinto, cumprimentei minha tia e tive que suportar todo aquele papo mentiroso de “Nossa como você cresceu” “Está tão diferente” “Se tornou uma mocinha linda”. Escutei todos os elogios falsos e fui até o quarto de hospedes, nem me dei o trabalho de deixar aquilo com a minha cara ou de desfazer minhas malas, afinal seriam só duas semanas e eu queria me mudar o mais rápido possível para um lugar que eu pudesse chamar de meu e que pudesse bancar com meu próprio dinheiro apesar de saber que meus pais estariam depositando minha gorda mesada todo mês na minha conta. Dei um última olhada no ambiente que seria minha casa pelas próximas duas semanas e fui me deitar, torcendo para que o cansaço me dominasse logo e eu pudesse descansar e ir para o primeiro dia na faculdade sem parecer um zumbi.
Acordei no outro dia cedo demais para estar de bom humor, eu tinha que acordar pelo menos umas 3 horas antes do horário normal para dar tempo de chegar na faculdade na hora. Levantei e fiz minha higiene matinal e vesti uma calça jeans surrada com um camisa pólo, um suéter daqueles que parecia ser feito por minha avó para o natal e por fim peguei meus óculos de grau que só serviam para leitura, mas eu quis usá-los e ficar ainda mais irreconhecível. Preparei um sanduíche para ir comendo na pequena viagem de Winsted até New Haven que duraria mais ou menos uma hora dependendo do trânsito. Me dirigi até o primeiro dos dois pontos de ônibus que eu teria que enfrentar hoje, a caminhada não seria tão curta, seriam quinze minutos até o ponto de ônibus mais perto e eu nunca desejei tanto ter meu conversível de volta e poder acordar pelo menos uma hora e meia mais tarde.
Cheguei na faculdade bem antes do que eu imaginava, então aproveitei para dar uma olhada no campus e aquilo ali era enorme. Não tinha nem olhado metade do que tinha ali quando recebi uma mensagem do Cebola
Você já chegou? Estou na cafeteria principal... Você sabe onde é?
Sei sim, acabei de passar por ai. Não demoro!
Fui para a cafeteria principal que por sorte eu sabia onde era, cheguei lá e me deparei com o Cebola sentado em uma mesa com mais duas pessoas, um deles devia ser o Cascão e a outra era uma mulher eu deduzi que fosse a namorada do garoto
– Oi... – falei de maneira mais tímida que consegui...
– Heeey Mônica! – o Cebola me cumprimentou com um abraço – Senta aqui que eu quero te apresentar a eles – ele apontou pra o casal a nossa frente
– Ok!
– Esse é o Cascão e essa é a melhor amiga dele, ela também vai começar as aulas hoje– ele apontou pra um garoto de cabelos encaracolados, sorriso brincalhão e pelo que pude notar muito gostoso, apesar da camisa de manga comprida branca cobrir seus braços. Com certeza ele devia jogar algum esporte – Ele é do time de futebol da faculdade, mas você sabe que aqui o futebol americano é mais valorizado então...
– Cala a boca careca! – o garoto se meteu – É um prazer te conhecer, o Cebola não parava de falar de você . Essa aqui é a Magali, minha melhor amiga – ele apontou para uma garota de cabelos longos que batiam na cintura e olhos castanhos . Ela era tão linda que me bateu uma pontinha de inveja
– Prazer! – estendi a mão para a garota e ela me cumprimentou de volta, não pude deixa de notar o anel em seu dedo – UAU! VOCÊ É CASADA? — ela começou a rir como se eu estivesse contando alguma piada
– Não, esse é meu anel de castidade... É que eu e meu namorado prometemos nos casar apenas depois do casamento – ela falou de maneira simpática
– Ah desculpe! – que mico
– Sem problemas!
– Então... Qual é o curso que você vai fazer Mônica? – Cascão perguntou mudando de assunto
– Relações Internacionais e vocês?
– Eu faço educação física, mas não é o que eu quero... Eu quero mesmo é ser jogador de futebol!
– Nutrição! – a menina respondeu animada – Por sinal acho melhor a gente ir indo Mônica, já está quase na hora da aula e nossas alas são bem longes daqui.
– É mesmo!
– Vamos juntas?
– Claro! – nos despedimos dos meninos e fomos em direção as nossas salas
Durante o caminho até nossas salas eu e Magali conversamos bastante, ela me contou sobre esse negocio de castidade, sobre o namorado dela que cursava gastronomia e se chamava Quim e sobre os planos dela depois da faculdade de se casar com ele. Logo eu pude notar que ela era o tipo de pessoa que pouco perguntava e fala mais e isso me fez gostar muito dela. Nos separamos quando foi necessário e eu continuei meu caminho sozinha. Não sabia o porquê, mas tinha certeza de que eu e Magali seriamos ótimas amigas.
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