Big Girls Don't Cry (Hiatus)
11 Thalia - Algumas escolhas não tem volta.
Notas iniciais
Quando entrei no banheiro para me arrumar e encarei meu reflexo no espelho, o único pensamento que me veio á cabeça foi “Sou uma grande idiota filha da puta”. Geralmente meu primeiro pensamento é bem mais alegre, mas não era exatamente hora para alegria. Prometi á Piper que iria naquela droga de festa, mas agora o que eu mais quero é deitar na minha cama e morrer. Odeio me importar tanto com o término de um namoro, infelizmente era impossível simplesmente não ligar. Sentia um misto de tristeza, ódio, uma sensação horrível de agonia, e mesmo que ainda ache difícil admitir, uma grande parcela de culpa. Entrei no chuveiro e me recordei de tudo, desde o início daquela tarde dos infernos.
Luke resolvera ajudar a mim e Reyna com John, já que segundo os dois qualquer ajuda era bem vinda tendo á mim como babá. Eu até me sentiria ofendida se não fosse verdade. Então tudo começou, eu tentava ajudar, e aquela peste sempre fazia de tudo pra me infernizar.
— Você tem que ligar os pontinhos e formar a palavra, entendeu agora? – Falei no tom mais educado que consegui.
— Por que você não me ajuda á ligar os pontinhos? – Ele disse com uma horrível cara de preguiça.
— Porque a tarefa é sua, garoto! Anda! Para de ser preguiçoso e faz isso de uma vez! – Tentei continuar sendo educada.
— Me ajuda! – Ele insistiu.
— Não! – Retruquei.
— Ajuda!
— Não!
— Ajuda!
— Não!
— Me ajuda logo! – Ele gritou.
Não perder a paciência, Thalia. Vamos lá, não perca a droga da paciência.
— Ok, escuta aqui, seu pirralho preguiçoso – Encarei-o – Você vai usar essa mãozinha pra ligar esses malditos pontinhos, e depois eu vou sorrir e te dar os parabéns, ou eu vou contar pra sua mãe.
— Aí eu conto pra ela que você me ameaçou com um garfo.
Eu odeio aquele menino, tô falando sério. Se a mãe dele não nos desse dinheiro, algo de que precisamos muito, já teria jogado ele pela janela. Com muito custo eu consegui fazê-lo terminar de ligar os pontinhos. E aí você se pergunta “Onde estão Reyna e Luke?”. Bom, Luke saiu para comprar o lanche, e Reyna e eu sempre dividimos as tarefas. Um dia eu ajudo com a tarefa de casa, no outro é ela, como hoje é o meu dia, aqui estou eu. A próxima tarefa era de pintar animais da fazenda.
— Thalia? – O pirralho me cutucou.
— O que é? – Soltei um suspiro pesado.
— Que barulho os coelhos fazem?
— Eles não fazem barulho.
— Por que?
— Porque sim. Continua pintando. – Voltei á ler minha revista no sofá.
— Thalia! – Ele me cutucou novamente.
— O que é? – Olhei para ele com a maior cara de tédio.
— Colocaram uma foto sua aqui! Olha! – Ele apontou para o desenho de uma vaca.
Certo, isso foi infantil e previsível, não foi? Eu deveria ignorar como qualquer adulto responsável, porém não foi isso que eu fiz.
— Seu moleque infeliz! Volta aqui! Eu vou fazer você engolir esse caderno!
E foi aí que meu dia começou a piorar ainda mais. Reyna veio ver o que estava acontecendo e defendeu aquele pirralho, usando a desculpa de que era uma criança, não sabia o que fazia e que eu tinha dezoito anos e deveria ser mais paciente. Se a mãe dele descobrisse eu estaria encrencada, igualmente á ela, e perderíamos o emprego, além de ganhar ainda mais dívidas. Eu odiava as lições de moral da Reyna, infelizmente tive que pedir desculpas e prometer não fazer de novo, como se eu fosse a criança naquele momento. Luke também estava lá. E ele estava com aquele olhar “Vamos conversar depois”. Isso já foi o suficiente para que eu perdesse a paciência de vez. A mãe de John finalmente veio buscá-lo, enquanto eu e Luke estávamos no quarto, nos encarando por um minuto inteiro sem dizer nada.
— Você começa. – Disse.
— Eu começo o que? – Luke me encarou, parecendo confuso.
— Você começa com a sua ladainha de que eu tenho que mudar, briga comigo, eu revido, discutimos sobre o quanto estamos diferentes, de como somos diferentes, você diz que isso não importa, que me ama, blá blá blá, e aí nos desculpamos de novo, pra no outro dia fazer exatamente o mesmo. Vai em frente, pode começar!
Luke sorriu, mas não era o sorriso que esperava ver em seu rosto.
— Tá vendo, Thalia? Nem conversar adianta mais. – Ele parecia decepcionado.
— Nunca adiantou mesmo. Você sempre soube. – Cruzei os braços.
— Antes eu conseguia lidar com isso, mas agora e—
— Agora o que? Você acha que só eu mudei, Luke? Olhe bem ao seu redor! Tudo mudou! Não existe mais nada da minha antiga vida aqui, exceto por você!
— Deve ser por isso que as coisas não estão mais dando certo! Nada da sua vida antiga se encaixa com a nova! Inclusive eu!
— Luke, eu não quis dizer isso! – Tentei me controlar novamente.
— Você não precisa dizer nada, Thalia. Eu já estou cansado demais de tudo isso! Seu temperamento é horrível, você está cada dia mais difícil de se lidar, e mesmo que essa seja a hora em que eu digo que não importa e que vou continuar te amando, isso não é o suficiente.
— Você está mesmo começando uma briga depois de eu me descontrolar com aquele pirralho?
— Você sequer está tentando! Você não está tentando melhorar como babá! Você não está tentando melhorar seu temperamento explosivo! Você não está tentando melhorar nada! Muito menos o nosso namoro! – Ele alterou a voz.
— Você tem razão, Luke! É tão difícil me aturar! Então o que você ainda está fazendo aqui?
— Eu esperava um milagre! Talvez você enxergasse que precisa mudar!
— Você já perdeu a fé em mim á muito tempo. Sem fé não existem milagres.
— Somos incompatíveis demais. – Disse mais calmo, porém sua voz era triste — Eu preciso ir embora. – Ele suspirou.
— Se você for dessa vez, você não vai voltar. – Disse amargamente.
Luke soltou um suspiro e me olhou, depois se virou para frente e se dirigiu á porta. Me senti tão raivosa que não consegui conter.
— Então vai embora! Não quero ver você nunca mais! – Berrei o mais alto que pude.
— É o que eu estou fazendo! Indo embora! – Luke apontou para a porta, ele também gritou.
Senti meu coração apertado, eu estava sim com raiva, agindo por puros impulsos, porém eu não queria mesmo que ele fosse. Me arrisquei, fiquei á sua frente.
— Luke, espera… – Disse, e numa última tentativa de talvez esquecer tudo aquilo eu o beijei. Sempre funcionava. Primeiro ele pareceu ceder, e então deu um passo para trás.
— Chega Thalia. Sai da minha frente. – Ele não me olhou nos olhos.
Calada, eu saí. E ele foi embora. Aquilo não era uma briga que terminaria bem, eu sabia que ele não iria voltar.
Desliguei o chuveiro e me olhei no espelho, bagunçando os fios negros e molhados, a visão que eu tinha era péssima. A verdade é que mesmo odiando precisar de alguém, eu precisava de Luke. Luke me deixava leve, suave e me fazia sorrir quando ninguém mais conseguia, além de sempre me acalmar. Ele sempre foi o único que conseguiu suportar meu comportamento explosivo, ouvir minhas reclamações e me fazer esquecer de tudo. Ele era a pessoa mais importante que eu tinha, e eu sabia que mesmo que perdesse tudo, ele ainda estaria lá. Até eu estragar as coisas. Luke sempre tentou compreender, até não conseguir mais. Ele chegou no limite, e eu entendia muito bem como era isso, porque eu vivia chegando ao limite.
Eu não poderia voltar atrás depois de dizer que ele não poderia. Se isso era orgulho? Sim. Mas também por saber que não adiantaria. Quanto mais se luta por uma causa perdida, mais as coisas ficam ruins. Nosso namoro era uma causa perdida, só existiam brigas e mais brigas, e isso estava fazendo ambos de nós sofrermos. Essa é uma frase clichê que preciso dizer. Se o ama, o deixe ir. E foi o que fiz. Eu o deixei ir.
Agora a minha imagem parecia melhor. Batom escuro, olhos delineados e ainda mais intimidadores. Cabelo bagunçado e minhas roupas em estilo punk. Piper estava certa, eu deveria tentar esquecer pelo menos naquela noite. Naquela noite seríamos apenas nós quatro sem qualquer outro problema em mente. Eu sabia que seria um longo caminho á percorrer, mas naquela noite eu esqueceria completamente a existência de Luke.
Saí do banheiro e percebi que mesmo com toda aquela demora absurda, eu não era a última a me arrumar. Quando Piper finalmente terminou, lá estávamos nós. Quatro garotas super sexy prontas para se divertirem muito numa festa.
— Bom, garotas. Vamos tornar essa noite memorável. – Sorri para elas e saímos de casa.
A festa começou bem desanimada, até surgirem os primeiros bêbados e começarem a tocar música boa. Sempre fui forte para bebida, mas levando em conta que eu queria esquecer, bebi o suficiente para ficar animada. Fui para pista de dança enquanto tocava a música Cannibal da Ke$ha. Não é o que eu tenho o costume de ouvir, mas já não estava ligando. Dancei com um grupo de gays e três caras que eu nunca vi na vida, estava mais do que agitada. Comecei a paquerar vários garotos, e talvez umas duas garotas. Derrubava bebida em mim mesma e nos outros. Espantei um grupo de lésbicas quando agarrei um cara e dividimos o bico da garrafa juntos. Minhas roupas estavam um trapo, mas pelo menos eu ainda estava vestida. Não me lembro nem de metade da festa, porém quando eu estava perto de ir embora, algumas memórias surgiram. Eu estava no bar, sentada, bebendo outra vez.
— Eaí, Thalia! – Escutei uma voz vinda do alem me chamar. Na verdade, bem do meu lado, porém o barulho estava alto demais para que eu pudesse ouvir.
— Eu te conheço? – Disse, e então me dei conta de que conhecia sim.
Connor Stoll começou a falar alguma coisa que eu não entendi. Estava muito ocupada secando aquele loiro alto e musculoso que eu conhecia muito bem. Deve ser muita sacanagem do destino. Luke estava conversando bem intimamente com uma garota. Depois de eu ter dançado tanto, bebido, possivelmente ter paquerado metade da festa e ficado com uns dois caras, ele resolvera aparecer. Connor percebeu meu olhar e se virou para trás.
— Ah, eu fiquei sabe—
Eu deveria estar muito louca mesmo, o que eu fiz a seguir foi o cumulo da impulsividade. Porém, eu não estava ciente do que fazia, e Connor também parecia bastante chapado se você considerasse os botões da camisa abertos, a boca vermelha e as marcas de batom aqui e ali.
— Connor! Para de falar! – Disse, e puxei bem mais para perto – E prepare-se para ser usado.
Ele não teve tempo de reagir. Eu o beijei o mais rápido que pude e olhei para trás. Quando percebi que Luke havia me visto, tentei ir mais longe. Fiz com que Connor colocasse as mãos dentro da minha blusa e começamos a dançar. Ele estava tão atordoado que nem protestou, até parecer retomar a consciência e se dar conta de que estava ficando com a ex do irmão mais velho.
— Ei ei ei! – Ele me afastou com um sorriso nervoso – Acho que você me usou o suficiente.
— Eu estou apenas começando. – Disse com um olhar malicioso e o fiz se aproximar de novo.
— Thalia, sério. Você está mais bêbada do que eu imaginei! – Ele riu, nervoso.
— Vai ficar aí parado? É uma pista de dança, cara! – Disse e o empurrei.
— Ei, qual é! – Ele ficou instantaneamente irritado – Eu adoro ser usado por garotas bêbadas. Mas não pelas que eu conheço, e que podem me matar quando estiverem sóbrias. Então, fui.
Ele me deu um aceno com a mão e saiu andando, depois sumiu na multidão.
— Isso! Vai mesmo! Ninguém na sua família presta, seu puto! – Gritei, irritada, e as pessoas ao redor olharam para mim. Quando estava quase avançando em uma garota, alguém segurou meus ombros e me puxou para trás.
— Chega, Thalia. – Me virei para trás irritada e vi que era Reyna.
— Cai fora! – Me soltei, mas ela me levou á força até o lado de fora.
— O que você está fazendo? Me deixa em paz! – Eu continuava gritando.
— Você vai me agradecer quando acordar amanhã. – Ela continuava me segurando.
Usei toda a minha força para me soltar e tentei caminhar até a parte de dentro novamente, mas Reyna me puxou novamente e me fez sentar.
— Qual é o seu problema?! Se você não sabe se divertir, deixa os outros curtirem a noite!
— Você ia se meter em problemas se continuasse lá.
— Pelo menos eu me arrisco! Eu fico bêbada sabendo o que pode acontecer! E você? Por que você não se arrisca assim? Eu odeio quando você banca a certinha! Eu odeio! – Gritei.
— Chega. – Ela colocou a mãos nos meus ombros e olhou nos meus olhos – Você não quer brigar.
Senti meu coração apertar novamente. Eu estava fazendo de novo. Eu já não estava tão bêbada quanto antes, e eu me lembraria dessas palavras. Me veio tudo á memória. Eu parecia o ser mais errante da terra. Sempre brigando, fazendo coisas por impulso. As vezes eu não me preocupava com os sentimentos de pessoas que não fossem eu. E isso doía. De repente, eu não tinha qualidades. Só defeitos. Balancei a cabeça, negando, e minhas mãos amoleceram, perdi as forças.
— Eu… Eu não quero. – Meus olhos arderam e os senti úmidos, comecei a murmurar. – Eu não quero brigar. Eu não queria brigar.
Reyna me soltou, e eu a abracei e comecei a chorar. Ela retribuiu ao abraço. Minhas lágrimas iam saindo cada vez mais entre os soluços e as lamentações que eu soltava. Eu não tenho ideia do quanto chorei, mas o tempo todo Reyna permaneceu ali, em silêncio me abraçando. Ela sabia que não existiam palavras que pudessem me consolar, e eu sentia que seu abraço era o melhor consolo que eu teria naquela noite. Me enganei quando disse que apenas Luke me entendia, afinal elas ainda estavam lá. Piper, Reyna e Annabeth também estavam lá. E eu não deixaria acontecer o que aconteceu entre mim e Luke. Eu não as afastaria de mim.
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