Lara não costumava ir a festas ou comemorações de feriados, o que não significava que não gostasse. Naquela noite de ano novo, o calçadão da praia estava lotado de gente antiga e nova. Jovens bêbados e ousados procurando alguém com para beijar à meia-noite e gente que fazia questão de exibir o namorado ou namorada como um troféu sem se preocupar em perdê-los por descuido.

Bem, pelo menos a maior parte das pessoas fazia isso. Sempre havia quem quisesse começar uma vida nova no ano seguinte e deixava para terminar o relacionamento na virada do ano. Como o cara estiloso com pinta de riquinho e ray-ban pendurado no decote da camisa, a alguns metros dali, claramente despachando a namorada porque tinha se cansado dela.

A menina – que era só uma menina, pois não passava dos quinze anos – estava sentada nos degraus de um estabelecimento. A luz amarela iluminava lágrimas em suas bochechas. Ela tinha bonitos cabelos cacheados, volumosos e compridos que deixavam bem claro não terem nenhuma tintura, mas, fora isso, não era nada especial. Nem sequer se deu o trabalho de vestir branco no Ano Novo; estava com um casaco de algodão preto e fino até os joelhos e dava seu melhor para esconder o vestido de lantejoulas azuis com decote incoerente.

Se vestir para agradar o namorado não parecia ter funcionado.

Bianchini apertou o copo de plástico em sua mão com alguma irritação. Achava um absurdo arruinar datas especiais por esse tipo de coisa. A única que tinha o direito de arruinar comemorações era a morte e isso só porque ninguém conseguia impedi-la. Será que o término não podia esperar até o dia dois? Ou até o fim da tarde do dia primeiro, no mínimo.

Mas ela não podia evitar julgar a menina. Era o tipo de tolinha que demorava a aprender que relacionamentos não dependem de maquiagem, roupas e beijos na escola. Ele era o tipo que não ficava com uma só e ela provavelmente sabia disso, mas mentia para si mesma e fingia não ver porque “ah, eles são um casal bonitinho demais para terminar” e “ora, ele é o capitão do time de futebol do colégio, então quem namorar ele está com tudo”!

Lara não sentia saudades daquele tipo de drama do Ensino Médio. Teve sorte de cair na real cedo e evitou muitas decepções com isso. Pena era tudo que sentia pela morena nos degraus.

Dois minutos para meia-noite.

Bianchini se virou para a praia, onde viu as ondas refletirem a luz do calçadão e as pessoas se preparando para a bateria de fogos. Não era permitido chegar muito perto, mas ainda assim ela estava quase pisando na areia fina cheia de copos e garrafas vazios. Sentiu uma mão em seu ombro e se virou. Surpresa! Era o cara que tinha dado um fora na garota há dois minutos. Otário.

Ele perguntou algo como “tá sozinha, gata?” e comentou alguma coisa sobre ser uma sorte encontrar uma loira linda como ela sozinha por ali. Estava enganado sobre muitas coisas. Primeiro: ela não estava sozinha, tinha amigos que provavelmente estavam procurando uma bala ou um cigarrinho diferente por aí, por isso a largaram sozinha para cuidar da cerveja deles. Segundo: ela não era loira de verdade, na realidade tinha cabelos castanhos e sem graça que pintava porque preferia assim. E terceiro: não era sorte coisa nenhuma, porque Lara estava é com uma baita vontade de quebrar o nariz daquele escroto ali mesmo.

Onde já se viu? Trocar a namorada por uma loira desconhecida na noite de Ano Novo!

Talvez fosse o álcool implorando para Bianchini fazer algo estúpido, mas vontade de fazer merda é vontade de fazer merda estando-se sóbrio ou não.

Um minuto para meia-noite.

Ela deu uma espiadela na direção da menina, que tinha secado as lágrimas e limpado a maquiagem com uma velocidade impressionante para quem parecia não ter prática e agora estava de pé, sem o sobretudo de algodão. O vestido brilhante era bastante esplêndido sem nada para cobri-lo. A morena de pele caramelo continuava sem nada de especial, mas agora estava mais bonita por causa da roupa e porque levantou a cabeça de forma desafiadora como que disposta a provar que não era afetada por emoções tão fácil.

Mentirosa ou não, ela deixou Lara bastante surpresa.

Bianchini se virou para o garoto à sua frente. Ele sorria de forma presunçosa, como se tivesse certeza de que havia ganho um presente de Ano Novo ali mesmo. A jovem sorriu de volta e bebeu o que restava no copo de cerveja, sabendo que ia precisar de um pouco mais de álcool nas veias. Calmamente e ainda sorrindo, falou:

— Desculpa, cara, mas eu gosto de outra fruta.

Então, decididamente caminhou em direção à menina morena, segurou o rosto dela com as duas mãos e a beijou durante os dez segundos da contagem regressiva e dez segundos depois de os fogos começarem a ser lançados. Só então percebeu que a menina não estava sem reação, nem resistindo ou a empurrando. Não tinha como saber se as duas estavam bêbadas, já que era impossível distinguir o gosto de álcool da própria boca do gosto da boca dela. Mas, no fim das contas, a menina soltou a própria bolsa e pôs as mãos na cintura da loira para puxá-la um pouco mais perto.

Quando se afastaram, se viraram para o cara convencido e a morena mandou um beijo soprado para provocar, sorrindo como o diabo junto de Bianchini, que não parecia menos ameaçadora quando passou o braço pelos ombros da garota e a conduziu até um espaço vago na mureta do calçadão.

Se sentaram e observaram os fogos, conversando um pouco: “meu nome é Jeniffer Rafaela, mas me chama de Rafa que é melhor” “Lara Bianchini” “Bianchini é um nome legal. Vou te chamar assim. Aquele ali é meu ex, Lucas Vinícius” “Aposto que o apelido dele era Vina” “Só para os amigos curitibanos. Ele é de Minas Gerais” “E eu achava que o pessoal de Minas não conseguia ser escroto” “Meu pai gostava dele” “Seu pai se importa por você gostar de meninas?”

Anna ficou em silêncio depois da pergunta e Bianchini percebeu que talvez fosse melhor não ter perguntado.

— Ele não sabe — ela falou, baixo o bastante para a loira quase não ouvir. — Eu mal sabia até agora. O Vini foi o primeiro cara com quem eu fiquei e eu nunca tive ninguém além dele. Eu não tinha certeza nenhuma.

— Bem, esse cara definitivamente não serve como grupo de controle. Conheço muita gente que só ficaria com ele por popularidade.

— Você não conhece ele.

— E mesmo assim eu sei em que grupo de pessoas ele se encaixa, garota. Vem cá, na real, acho que você é lésbica.

— E você parece muito experiente nisso — ela revirou os olhos negros, refletindo as cores luminosas como dois espelhos circulares.

— Eu sou lésbica. Se você não fosse, teria ido atrás daquele cara que passou por você antes de eu te beijar. Ele parecia querer te comer. Mas você não parecia querer comer ele, o que deixa claro que, apesar de ele ser bem mais bonito que seu ex, você não estava interessada.

— Isso soa como asneira de gente que quer provar que está certo sem ter prova nenhuma.

— Soa assim porque é exatamente isso. Tem uma caneta?

— Tenho, para quê? — Rafa começou a procurar dentro da bolsa até tirar de lá uma caneta esferográfica roxa que cabia na palma de sua mão.

— Caraca, que caneta pequena! Mas tá, essa serve, me dá sua mão. Esse é meu número. Eu tenho que ir porque preciso cuidar dos meus amigos maconheiros, mas, sei lá… Me liga quando achar uma resposta — Bianchini rabiscou o número de celular na palma da mão de Rafaela com pressa e quase sem sucesso e devolveu a caneta da menina.

— Resposta pra quê?

— Você é hétero mesmo, ou pertence ao mundo das divas lacradoras glitterizadas?

— Isso não soa nada profissional, nem real.

— Porque não é. Qual é? Eu estou bêbada, me dá um desconto! — Lara se levantou e sorriu. — Feliz Ano Novo.

— Feliz Ano Novo. — Rafa respondeu, observando a estranha se afastar a passos cambaleantes pela calçada.

A festa ali ia demorar a acabar, mas Rafa tinha que ir para a casa dos avós. Seus pais estavam em Curitiba, aproveitando o Ano Novo sem ela, e, com sorte, Vini voltaria para Minas logo no início do mês, como dissera. Ela não precisaria mais vê-lo, nem precisaria se perguntar se o que sentiu por ele era amor de verdade quando se encarassem.

Por que precisavam dar um nome para tudo afinal? Foda-se! Ninguém se importa com o nome! Pessoas passam tanto tempo tentando por rótulos em si mesmas que nem sabem mais o que são e o nome não faz mais sentido! Se Jeniffer Rafaela fosse lésbica? Tudo bem. E se fosse bi? Não importa. E assexual? Ninguém liga. Ninguém se importa com ela mesmo. Amor não é uma escolha.

Ligar para Bianchini, por outro lado, era uma escolha perfeitamente plausível.

“Vou pensar mais tarde”, disse para si mesma. Era importante organizar prioridades. Naquele momento, tinha que voltar para casa, trocar de roupa e dormir para ajudar a avó com as tarefas no dia seguinte. Tinha todo o tempo do mundo para pensar.

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