Biólogos Marinhos Odeiam o Mar
3 Joshua é nome de menina
Depois de toda choradeira que ali estava rolando, o balconista, que pareceu indiferente até agora, bateu no balcão, furioso.
– Pirralha! Sai da minha loja! Você esta molhando meu chão!
– Não sairei daqui até você me atender. — respondeu a voz fine e feminina — Quero um barril de rum e uma garrafa de cola.
– Dificilmente vendemos a atacado — respondeu o servente, já mais calmo — mas vou deixar essa passar, desde que da próxima vez que vir esteja seca!
– Isso é impossível, man! Aqui o ar é seco e se eu me secar vou desidratar!
– Azar! — respondeu o balconista, enquanto subia as escadas até o depósito.
Dylan, que até agora estava muito ocupado consolando Ian (e bebendo a 9° dose de whisky) começou a observar a garota (as duas): reparou no corpo franzino e nos olhos levemente puxados, também na pele bronzeada e no cabelo extremamente curto, como de um homem. O que o deixou mais pasmo não foi a vestimenta alarmante (o blusão que cobria até os joelhos ), nem o fato dela estar molhando o chão, mas como uma criança daquela iria carregar um barril de rum.
Ian engoliu o choro e tentou erguer a garrafa de vinho mais uma vez, mas a tontura e a visão dupla dificultavam a tarefa. Durante sua exausta missão, reparou na garota ao seu lado, esta também o fitando; Eles se viram aquela manhã, enquanto Ian seguia para sua grande gafe e a menina parou sua carroça, deixando-o com muita raiva. E outra vez, antes que Ian pudesse pelo menos pensar em protestar, a garota apontou pra ele, e gritou, pra todos ouvirem:
– Tia-que-usa-calças!!!!
Todos riram; Inclusive Dylan, que naquele ponto já estava cambaleando. Ian se irritou, queria gritar ''eu sou homem'' bem alto, mas se o fizesse vomitaria, então decidiu ficar calado. A garota que (finalmente ) reparou na sua falta de educação, tentou consertar:
– Ahm... P-prazer em conhecê-la, digo, conhecê-lo... Me chamo Joshua...
Ian deu uma risadinha; Afinal a tal individua que lhe deu apelido tão humilhante tinha nome de homem, Joshua ( ele também refletiu: seria seu longo cabelo a causa da confusão?)
– P-prazer *glup* em conhecê-lo-lo, s-senhor Joshua...
– É SENHORITA Joshua — exclamou a menina, vermelha como um tomate — Eu sou uma dama, só... Não tenho um nome apropriado...
– N-nome de Ho-homem... *glup*
– EU NÃO ESCOLHI !! — Gritou Joshua, que aquela altura, decidiu mudar de assunto. Ian repararia mais tarde, que ela adorava mudar de assunto. Talvez, fosse a primeira pessoa que o fizera rir naquela situação.
– Então — disse Joshua, mais calma — Como acabou assim?
O biólogo exitou. Não queria falar nisso, ficou calado. Porém Dylan, completamente bêbado ( o efeito do álcool chagara ao seu pico ), contou em alto e bom som para a(s) menina(s); A língua enrolava, mas Joshua pareceu entender; Após o discurso, o marinheiro caiu no chão, desmaiado, onde ficaria até o final desse capítulo. O balconista, que retornara com o barril e a garrafa de cola, ignorou o jovem caído no chão e seguiu caminho. Enquanto Joshua se preparava para segui-lo, virou-se para Ian ( que até o momento estava de pé, ao lado do amigo, tentando ajudá-lo, porém o máximo que fez foi vomitar em cima do mesmo ).
– Talvez esses "almofadinhas" tenham razão — disse Joshua seriamente — Você tende a ficar muito na sombra alheia, isso o impede de seguir em frente...
E se foi. Ian paralisou. Até porque ser expulso 42 vezes seguidas era uma grande prova de... Não, sempre necessitou de opinião alheia, fosse negativa ou não; Talvez necessitasse de... Iniciativa própria? Precisava seguir a garota Joshua. Cambaleou até a porta, deixando o amigo desmaiado ( nesse dia ninguém levou Dylan pra casa ). Assim que chegou do lado de fora, avistou Joshua e o balconista sobre a passarela de madeira das docas.
Era noite, os últimos raios solares refletiam sobre as águas do mar. Os lampiões a muito já estavam acesos e ventava muito, fazendo com que o longo cabelo do biólogo atrapalha-se sua visão. Assim que chegou à doca, o balconista o ultrapassou, levando o pagamento em mãos; Joshua reparou em Ian e acenou:
– Ora, vais me seguir até aqui? É muito insistente...
Ian tentava manter o equilíbrio, mas estava demasiado tonto e sonolento para se apressar; Continuou caminhando lentamente em direção a garota.
– Desculpe, mas não pode vir comigo! — gritou Joshua — Os homens terrestres não podem ir ao fundo do mar! O Oceano não ficará feliz...
Ian chegou perto de Joshua; "homens terrestres”? "fundo do mar"? "Oceano"? Não entendeu. Na verdade, havia muita coisa que não entendeu. Desde a garota molhada com nome de homem ao amigo caído no chão cheio de vomito (ele ainda ta lá), não conseguia entender mais nada.
De repente, algo emergiu na água atrás deles. Era um objeto grande, arredondado e metálico, que emitia uma luz muito forte, ofuscando a falha visão do biólogo. A grande máquina respingava água para todos os lados, devido ás turbinas (Ian imaginou que seria isso, pois emitia um grande barulho), que não cessavam. Joshua pareceu não se incomodar, jogando o barril ( a menina é forte ) e a garrafa sobre a água agitada. Logo virou-se para Ian, antes de ir fazer o que quer que fosse:
– O Capitão veio me buscar — gritou, devido o som das "turbinas" — Não esqueça: antes de provar aos outros de que serve para algo, convença a si mesmo de que é útil...
E pulou sobre o mar agitado, mergulhando junto com o grande objeto metálico, apenas mostrando uma luz mais diminuta. Mas Ian não queria deixá-la ir, principalmente por causa daquela lição de moral completamente clichê, que fora o total cúmulo da situação. Mesmo com a luz um pouco fraca e o medo gritando dentro de si, não hesitou ( até por que cabeça de bêbado não tem dono )...
Pulou sobre o oceano agitado.
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