Beyond the Appearances
8 Para um começo isso é o suficiente
Notas iniciais
POV Daniel
Finalmente terminamos de arrumar o apartamento, e bem a tempo. Faltavam exatos trinta e cinco minutos para as 19h. E a julgar pelo ensaio, a baixinha era pontual. Resolvi tomar um banho para quando ela chegasse, eu não sei por que, mas queria estar com boa aparência quando ela aparecesse. Acho que é algo com querer passar uma imagem profissional, afinal você não vai todo desarrumado a um encontro com a pessoa que vai produzir sua banda.
Entrei no meu quarto e coloquei uma música para tocar, Life's For The Livingdo Passenger. Escolhi uma roupa adequada à ocasião e procurei minha toalha, que achei jogada numa mesinha perto da cama. Joguei por cima do ombro e fui para o banheiro. Assim que a água começou a cair em mim, a música mudou e começou a tocar All Eyes do Imagine Dragons.
Everything you say– Tudo o que você diz
Is just a lie — É apenas uma mentira
And now I'm leaving– E agora eu estou indo
To the city where the people — Para cidade aonde as pessoas
Are awake to chase a dream– Estão acordadas para perseguir um sonho
That isn't real — Que não é real
Enquanto sentia a água gelada caindo na minha cabeça e escorrendo pelo meu pescoço, prestei atenção ao início da música que por algum motivo me fez lembrar do dia em que contei aos garotos sobre a minha ideia para promover a banda.
FLASHBACK ON
Voltei para o meu apartamento assim que saí do apartamento da minha prima, quando cheguei percebi que todos os garotos ainda estavam dormindo. Bando de preguiçosos. Entrei no quarto do Tom.
– ACOOORDA THOMAS! – gritei perto da cabeça dele.
O susto que ele levou foi tão grande que ele levantou de um pulo e ficou ao lado da cama olhando para os lados atordoado, assim que percebeu que eu tinha gritado tentou vir para cima de mim, que desviei facilmente.
– Reunião na sala em dez minutos. – falei e saí do quarto o mais rápido que consegui fechando a porta logo em seguida.
Segui para o quarto do Adriano e gritei do mesmo jeito que tinha feito com o Tom, mas ele apenas virou para o outro lado e continuou dormindo. Com esse daqui a situação é mais complicada, dorme como uma pedra. Peguei meu celular no bolso e procurei pelo toque da mulher gritando, minha arma para quando preciso acorda-lo. Coloquei o celular do lado da cabeça dele e dois segundos depois uma mulher começou a gritar loucamente e desesperadamente, como se estivesse sendo torturada. Adriano se mexeu tão rápido que se enrolou no edredom e caiu de cara no chão. Aproveitei a deixa para pegar meu celular enquanto ele ainda estava inteiro.
– SEU FILHO DUMA ÉGUA VESGAA! – Adriano me xingou – Por que me acordou desse jeito?
– Reunião na sala em dez minutos. – falei e saí correndo enquanto Adriano levantava me xingando.
Só faltava mais um e antes de entrar no quarto dele me lembrei da história da minha mãe parecer com a Samara do chamado. Corri até a cozinha e peguei no armário o maior copo que encontrei, coloquei alguns cubos de gelo e completei com água gelada. Voltei para o quarto de Eduardo e entrei da forma mais silenciosa possível, já que ele tem um sono leve. Ele estava com a metade de cima do corpo para fora do edredom e sem camisa, melhor para o meu plano. Me aproximei da cama segurando o riso e joguei o conteúdo do copo em cima dele.
– AAAAHHHHHH!!! EU TÔ ME AFOGANDO, SOCOOOORRO! – comecei a rir descontroladamente e quase cai no chão de tanto sorrir – Foi você seu aborto do capeta? – ele se aproximou de mim pingando e tirando a água do rosto. – Claro que foi! Mas como eu não guardo rancor quero dar um abraço no meu brother. – ele veio pra cima de mim com os braços abertos e eu desviei dele.
– Sai pra lá seu gay, eu gosto é de mulher! – falei ainda rindo descontroladamente – reunião na sala em dez minutos. – saí correndo do quarto e fui para a sala. Adriano e Tom já estavam lá, os dois com uma cara de poucos amigos.
– É bom que você tenha um bom motivo para me acordar desse jeito. – Tom disse assim que me viu.
– Bom o caralho de asa! – Adriano gritou – Tem que ser ótimo. Tem que ser O motivo.
– Podem apostar que é um motivo válido. – falei me jogando na poltrona ao lado do sofá onde eles estavam sentados.
– Então fala – os dois falaram ao mesmo tempo.
– Ainda falta o Duda. Não quero ter que repetir.
Como se estivesse esperando a deixa, ele entrou na sala com uma cara de raiva e se jogou na poltrona do outro lado do sofá, ainda com o cabelo pingando.
– Agora você pode falar – Adriano falou.
– Bom garotos, eu já sei como vamos levar nossa banda ao estrelato.
Isso chamou a atenção deles e no mesmo instante as expressões zangadas foram substituídas pela curiosidade.
– A é?! Podemos saber como? – Thomas perguntou.
– A filha do Henry Oliver vai fazer isso. Basta convencer ela a nos ajudar.
– A filha de quem? – Eduardo perguntou confuso.
– Henry Oliver, o produtor famoso. Dono de uma das maiores gravadoras do mundo. – eu esclareci.
– Você tá falando da Mabel? – Adriano perguntou.
Nesse momento três pares de olhos se voltaram para Adriano, todos espantados.
– Você a conhece? – eu tinha que perguntar.
– Conheço sim. Nós tivemos que fazer dupla para um trabalho ano passado. E se essa é a sua ideia genial, pode descartar. Duvido que ela ajude.
– Horas e por que não ajudaria?
– Qual é Daniel, tu nunca prestou atenção na menina? – Thomas perguntou. – É uma nerd, antissocial e arrogante. Deve se achar boa demais para perder o tempo dela com a gente.
– Também não exagera Thomas. – Adriano falou – Apesar de ele ter exagerado na descrição, ela é mais ou menos desse jeito. Aposto que ela nem se lembra de mim.
– É, mas se ela apoiar a gente, aposto que vai usar os recursos do pai para nos ajudar. E se alguém aqui nesse lugar tem capacidade de nos ajudar, é ela.
– Isso a gente não pode negar. – Thomas falou – Mas duvido que você consiga convencer a menina a ajudar.
– Vocês sabem que eu posso ser bem convincente quando eu quero.
– Tá, vamos pagar para ver. – Adriano falou se levantando – Agora eu vou dormir.
FLASHBACK OFF
Bem, depois disso eu pesquisei sobre a menina e arquitetei um plano para aborda-la, que não deu certo, mas meu segundo funcionou apesar de não ter sido da forma que eu queria. E acho que os meninos tinham razão, ela é uma nerd antissocial e arrogante, talvez até realmente se ache melhor do que a gente. Mas diferente do que eles pensavam, acho que ela tem muito mais coisas a oferecer, não é a completa insuportável que eles esquadrinharam, apesar de não ser também a menina mais legal de se ter por perto. Ela parece ser melhor do que aparenta e eu quero descobrir quem ela é.
Uma batida na porta do banheiro me retirou dos meus devaneios.
– Ei cara, a senhorita Sou Melhor do Que Vocês vai chegar em dez minutos, é melhor se apressar. – Thomas falou.
– Não chama a menina assim, ela vai ajudar a gente. – reclamei.
– O fato de ela ajudar a gente não muda quem ela é. – ele respondeu.
– Você não sabe quem ela é. – falei.
– E nem você. – ele rebateu – vou voltar para a sala, se apressa.
Saí do banheiro, me vesti, penteei os cabelos e passei perfume. Olhei no espelho e não tinha nenhum vestígio do arranhão de alguns dias atrás. Eu estava um poço de sedução, como sempre. Fui para a sala e todos os meninos já estavam lá. Cinco minutos depois a campainha tocou e Adriano foi atender.
Mabel estava na porta com a menina ruiva de olhos verdes, a Carly. As duas estavam muito bonitas, mas a Mabel estava muito mais linda. Seu cabelo comprido estava penteado para um lado e jogado por cima dos ombros. Usava uma blusa rosa clara e uma saia branca curta, mas que não chegava a ser vulgar e estava com uma sapatilha prateada. Estava linda, parecendo uma boneca. Adriano parecia embasbacado com a ruiva que estava ao lado dela, encarando a coitada descaradamente. Ela já estava com as bochechas tão vermelhas quanto o cabelo, usava um vestido com estampa de flores e uma sandália rasteira, posso não ser experiente nesse lance de moda feminina, mas ela parecia arrumada demais para uma simples reunião.
– Adriano, para de babar a menina e trás as duas para sentar. – Eduardo reclamou.
Adriano pareceu bem envergonhado com o comentário e a menina contrariando a lógica, ficou ainda mais vermelha do que já estava. Mabel apenas revirou os olhos ao ouvir o comentário. As duas sentaram lado a lado no sofá e ficou um silêncio desconfortável na sala.
Sabe quando todo mundo se cala por alguns segundos, mas que parecem uma eternidade?! Foi mais ou menos assim.
– Bem, acho melhor começarmos, né?! – Mabel quebrou o silêncio.
– Sim senhorita – Thomas falou e ela pareceu não notar o sarcasmo na voz dele. Bem, se ela notou, ignorou completamente.
– Nós vamos fazer algumas perguntas e precisamos que respondam com honestidade, para podermos traçar um perfil da banda e saber exatamente o que fazer inicialmente. – Carly falou, com um ar bem profissional.
– Tudo bem. – falamos os três ao mesmo tempo.
– Ai que bonitinho, falam juntos e tudo! – Carly falou com um sorriso – Isso indica que existe uma boa conexão entre vocês.
– O que ajuda e muito a gente. – Mabel completou, parecia satisfeita com isso.
– Bom, vou começar as perguntas. – Carly anunciou – A quanto tempo vocês se conhecem?
– Desde que nos entendemos por gente. – Duda respondeu.
– Precisamos que sejam mais específicos que isso. – Mabel disse.
– Somos amigos desde o jardim de infância. – Eu esclareci.
– Melhor assim. – Mabel disse – A quanto tempo a banda existe?
– Quatro anos e alguns meses.
– Qual o nome da banda? – Carly perguntou.
Nos quatro nos entreolhamos envergonhados.
– Não vão me dizer que a banda não tem nome? – ela parecia chocada.
– Bem, pois é, a gente nunca encontrou um nome legal. – Adriano falou, extremamente corado. Parecia louco para enfiar a cara em um buraco no chão.
– Olha, nós somos batalhadores, entramos na FAMNY mesmo com todos contra nossa escolha, nós sempre tocamos juntos, mas nunca tínhamos realmente escolhido ser uma banda até depois do ensino médio. Nós precisamos de um nome que consiga captar isso, mas nunca achamos. – Eduardo falou. Mabel pareceu pensar no que ele tinha acabado de dizer.
– É isso. – ela falou depois de alguns segundos.
– Isso o que?
– Horas, o nome da banda.
– Bel, é melhor você explicar melhor, porque ninguém aqui entendeu. – Carly falou.
– Não é óbvio? Ele disse que a história da banda é uma batalha. E que eles são batalhadores. – ela olhou para nós em expectativa, esperando que entendêssemos, mas isso não aconteceu. – Vocês são os batalhadores gente. The Fighters.
Nós cinco nos entreolhamos, o que ela falou fazia sentido. E conseguia captar o que a gente queria. Precisamos admitir que a Mabel é genial.
– Isso... é incrível! – falei.
– Verdade. The Fighters. Gostei. – Thomas falou.
– Eu também. – Duda e Adriano falaram ao mesmo tempo.
– Bel, você é genial! – Carly falou abraçando a menina de lado.
– Eu sei. – ela falou com um sorriso convencido.
– Bom, agora que temos um nome, vamos colocar a mão na massa. Vamos começar pela internet. Todos vocês tem twitter? Insta? Face? – Carly perguntou.
– Sim.
– Ótimo. – ela falou satisfeita – Vamos também fazer um perfil oficial para a banda em cada uma das redes sociais e vocês vão divulgar em suas páginas pessoais. Vamos também criar um site para a banda, que vai ser custeado por vocês.
– Também vamos fazer uma seção de fotos, para termos material para o site. – Mabel disse – Mas essa vai ser de graça, Anna está se formando em efeitos visuais e pode tirar as fotos. Também temos que traçar um perfil de cada um de vocês. Com idade, nome completo, apelido, cidade em que nasceu, banda e música favoritas e frases que vocês acham importantes em suas vidas.
– Também precisamos de um perfil da banda – Carly falou – com o tempo de existência, como começou, suas inspirações na música e estilo. Também precisamos de um canal de vídeos, onde vocês vão postar seus covers e músicas autorais. Podem começar com Think About It, mas precisamos de um por semana.
– E nesse canal, cada um vai fazer um vídeo explicando por que escolheu fazer parte de uma banda, quanto mais honesto melhor, as pessoas adoram isso – Mabel falou – vão ser os primeiros vídeos a serem postados.
– Caramba! Tudo isso? – Eduardo perguntou.
– Você achou o que? Que a gente ia estralar os dedos e vocês seriam famosos? – Mabel perguntou.
– Não, mas...
– Nada de mas, primeiro vamos fazer vocês criarem fama na internet e depois vamos programar alguns shows. Na medida em que vocês forem ganhando público, vamos aumentar o tamanho dos shows – ela falou.
– Bem, para um começo isso é o suficiente. – Carly falou – Vamos conversar com a Anna e marcar o dia da seção de fotos, por hoje é só meninos. Bem, nós temos que ir.
– Eu acompanho vocês até a saída – falei.
– Tudo bem! – Mabel falou – Vamos?
Nós saímos do prédio e assim que chegamos a calçada um Holden Commodore vf preto parou em frente ao prédio. Tinha um homem na frente que aparentava seus vinte e oito ou vinte e nove anos.
– Carly! Vamos logo, a mãe está esperando a gente para o jantar. – ele falou, isso explicava porque ela estava tão arrumada.
– Meu irmão não é um fofo? – ela perguntou sarcástica. – Nathan podemos deixar a Mabel em casa antes?
– Não precisa Carly! Eu vou caminhando sozinha. – Mabel falou.
– De jeito nenhum, eu acompanho você. – falei antes de perceber o que estava fazendo.
Carly olhou pra gente de uma forma maliciosa.
– Okay, já que você está tão bem acompanhada Bel, eu vou indo. – ela deu um breve abraço na menina e entrou no carro.
– Bem... Vamos? – perguntei envergonhado.
Mabel me olhou de uma forma estranha antes de responder.
– Você não precisa fazer isso. – ela falou.
– Bem, eu insisto. – falei.
Ela me devolveu um olhar desconfiado, mas depois relaxou.
– Tudo bem, vamos.
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