Beyond Two Powers
6 O Andamento dos Planos
Notas iniciais
MAXINE
A feiticeira, sentada ao lado de Seth, segurava com firmeza sua própria risada. Não sabia do que rir; das brincadeiras do Príncipe do Reino da Prata, da expressão surpresa e boquiaberta de Adelaide ou do fato de sentir o ódio que Nicholas esbanjava da mesma. Recebendo um olhar repreensivo de Melissa, que estava sentada em seu trono, ela endireitou-se na cadeira, pousando as mãos sobre o colo. Seth também se arrumara, passando as mãos pelo cabelo.
— Olhe quanto gel. — o loiro zombou baixinho, fazendo a mulher reprimir uma gargalhada audível — Seus cabelos estão brilhando tanto quanto o próprio Sol!
— Comporte-se, Príncipe. Melissa está de olho em nós dois. — ela rolou os olhos — Ei, somos mesmo obrigados a permanecer aqui?
— Bem, eu sou. — ele deu um sorriso — Você pode dar uma escapada sem maiores problemas.
— Tem certeza de que queres ficar aqui sozinho, ouvindo todo este discurso bobo de seu irmão? — a loira apontou para o Rei, que estava de pé falando sobre o Reino do Diamante.
— Não se preocupe, Max. — ele sacudiu seus cabelos com leveza — Já ouvi Maurice falando discursos muito maiores do que este. Vá, os Jardins estão vazios a esta hora, eu lhe dou cobertura.
Aproveitando-se do grande alvoroço, Maxine esgueirou-se pela porta, caminhando a passos velozes na direção dos fundos do castelo. Desviou de alguns guardas que patrulhavam o local e finalmente chegou os limites de Badlands. Por estar anoitecendo, a floresta parecia ainda mais misteriosa e linda. Tocando em uma Cerejeira da Primavera, ela entrou na mata, afastando-se o suficiente para que nenhum cavaleiro a seguisse. Maxine estalou seus dedos, deixando o vestido formal de lado e dando vida a uma simples vestimenta de uma camponesa, deitando-se no chão e sentindo a grama alta enroscar em seus cabelos. Ela sorria como uma criança, espalhando luz e alegria para Badlands, que sentia falta de sua Ama.
Incluindo um alguém especial.
Lance, em sua forma humana, sorria para a mulher, observando-a escorado em um Carvalho da Noite. Não havia dúvidas de que o dragão era apaixonado por ela. Maxine era linda, inteligente, independente e encantadora. Aqueles que a viam por fora não sabiam o quão boa e humana a feiticeira poderia ser. Apenas ele sabia. Lance conhecia uma parte de Max que ninguém havia alcançado, que ninguém jamais presenciara. Ele abaixou-se, tirando delicadamente do chão uma rosa branca que nascia no pé do Carvalho. Quando a loira se sentou na grama, o rapaz aproximou-se da mesma, pondo a rosa ao seu lado, fazendo saltar de susto e logo dar uma risada gostosa de se ouvir.
— Obrigada, Guardião. — ela inalou o cheiro suave e delicada — É tão bom retornar a Badlands.
— O que a trazes aqui, milady?
— Sinto falta deste lugar, Lance. — ela sorriu ao ver um pequeno esquilo acomodar-se em seu colo — O mana, a energia… Esta floresta faz parte de mim assim como eu faço parte dela.
O coração de Lance pesou por alguns instantes. Ela não sentia sua falta? Sacudindo a cabeça, ele deu seu melhor sorriso. Precisava apoiá-la. Maxine era a única que realmente se importou com ele alguma vez na vida.
— Óbvio que senti sua falta, Lance. — ela sorriu, erguendo-se do chão e segurando o rapaz num abraço, logo depois o soltando.
— Como é a vida no castelo?
— Oh, meu amigo, pensei que pudesse resolver este problema em meros dois meses. — ela se lamentou — Adelaide não está nenhum pouco focada em nosso acordo. Tivemos um desentendimento no último mês e agora mal nos vemos.
— Achas que esta fora uma boa ideia?
Ela respirou fundo. Aquela dúvida também corria sua mente. Será mesmo que fora o certo aceitar o acordo? Lance sorriu e novamente envolveu a cintura da mulher com os braços fortes e bronzeados, seus olhos dourados bruxuleantes e tranquilos. Os animais ao redor pareciam assistir ao dois no mais puro silêncio, e apenas o barulho do vento podia ser ouvido em toda a floresta. Seu coração batia forte, palpitando em seu peito como as asas velozes de um beija-flor. Max sorriu e suspirou, lentamente soltando-se dos braços do homem-dragão.
— Preciso voltar. Logo a festa acabará e os nobres perceberão que não estou presente. Juro que tentarei meu máximo para vir aqui o quanto antes.
Ela se virou, prestes a correr de volta aos Jardins, quando a mão quente e suave de Lance envolveu seu pulso novamente, puxando-a para si. Ela bateu contra o peito musculoso e fora surpreendida com a ação mais imprevisível que poderia ser feita.
Lance uniu seus lábios ao dela.
Como que em transe, ela levou seus braços até o pescoço do homem e o puxou para si. Eram suaves, quentes, incrivelmente saborosos. O doce sabor do sândalo deixava as papilas gustativas da mulher em êxtase.
Enquanto à Lance, aquela era uma das sensações mais maravilhosas que ele poderia ter tido. Maxine possuía o maravilhoso gosto de maçãs frescas, tão incrível quanto sua pele macia. Respeitosamente, suas mãos passeavam pela cintura da loira, e a cada toque uma sensação diferente. Suas línguas eram como dois soldados lutando na guerra; incontroláveis, sedentas pelo sabor um do outro. Por puro azar, e para a infelicidade dos dois, a falta de ar fez-se presente, e precisaram se separar, ofegantes e surpresos.
— E-eu tenho de ir.
— Talvez nos encontraremos de novo.
E estalando seus dedos, Maxine já encontrava-se em seu quarto, no palácio. Tocou em seus próprios lábios enquanto sorria olhando pela janela, onde Lance acenou, radiante, e desapareceu no meio da floresta. Ela sentou-se em sua cama e se despiu, novamente estalando os dedos e trocando de roupa, desta vez com um belo vestido vermelho, habitualmente sem mangas, com sua coroa de rubis na cabeça. Ela saiu do cômodo e dirigiu-se ao salão principal, onde um grandioso banquete estava sendo servido. Sentou-se ao lado de Seth, que lhe direcionou um sorriso.
— Como foi sua tarde, Duquesa? — sussurrou apenas para que ela ouvisse.
— Foi… Ótima, Alteza. Obrigada pela cobertura.
— Sem problemas, Max. Espero que possa lhe cobrar o favor mais tarde.
A feiticeira riu enquanto o Príncipe lhe dava uma piscadela. Ela sorriu, passando discretamente os dedos por seus lábios mais uma vez. E sentiu seu coração pesar. Apesar daquela atitude maravilhosa, ela soube o dono de seu coração não tinha uma natureza selvagem, mas sim… Imprescindivelmente rebelde e corajosa.
ADELAIDE
O resto da tarde foi surpreendentemente perturbadora para Adelaide, principalmente pelo fato de que o Príncipe Nicholas agia ora como um nobre — elegante e educado —, ora como um rebelde. Além disto, Maxine havia desaparecido durante a cerimônia de recepção e Seth recusava-se plenamente a contar a ela onde a feiticeira estava.
— Você realmente irá se recusar a me dizer? — indagou Adelaide, incrédula, ao semicerrar os olhos para Seth. Ele deu ligeiramente de ombros, com seu habitual sorriso divertido no rosto, e assentiu com anuência.
— Ela estará de volta em breve, Adelaide. — disse ele, calmamente. — Você não deveria se preocupar.
— Você, Príncipe Seth, — falou ela, com o exato mesmo tom ameaçador que utilizara para com Lorde Lawson. — não tem o direito de dizer no que devo ou não me preocupar.
Adelaide virou-se, caminhando para longe do príncipe, toda sua paciência esvaiando-se aos poucos. Por um momento, indagou a si mesma se já não mais havia um membro da realeza que soubesse se comportar.
Ao vê-la caminhar de forma furiosa pelo Salão, Jay surgiu à frente de Adelaide de forma ágil, a expressão serena e cuidadosa de sempre em seu rosto.
— Está tudo bem, Alteza?
Se fosse qualquer outro cavaleiro, ela mentiria. Entretanto, Jay já não mais era um desconhecido, e estava tudo bem em dizer a verdade a ele.
— Não, Jay, não está. — disse ela, respirando fundo. — Ainda assim, eu tenho de me concentrar. Melissa quer fazer um banquete esta noite, e ele acontecerá em poucas horas.
— Bom, neste caso, boa sorte, Alteza.
Ela sorriu para ele.
— Obrigada, cavaleiro.
. . .
Quando Adelaide chegou ao Salão para o jantar, ela reparou imediatamente na mesa: o banquete esbanjava fartura. Carnes das mais requintadas, molhos extremamente saborosos e saladas enfeitavam a mesa, chamando a atenção por sua aparência e por seu aroma. Os pratos estavam posicionados para cada um dos convidados, contendo diversos talheres e taças ao lado. E por mais que aquilo fosse abundante o suficiente, ainda havia sobremesas sendo preparadas e decoradas na cozinha.
Adelaide sentou-se rapidamente, observando a disposição dos lugares. Melissa assumiu sua posição em uma das pontas da mesa, a postura elegante não abandonando-a em momento algum. Seth e Maurice foram os próximos a escolher seus assentos. O Príncipe Nicholas adentrou o Salão, já pronto para o banquete, e moveu-se imediatamente para se sentar à frente da mesma. A princesa conteve um praguejo.
Foi quando Nicholas notou a presença de Seth que sua expressão até então divertida dissolveu-se em uma feição completamente irritadiça. Ainda assim, como um bom príncipe, ele não se precipitou, optando por não insultar ou direcionar uma frase de desgosto ao príncipe.
Maxine foi a última a chegar, espreitando-se e sussurrando com o Príncipe Seth de forma que ninguém, exceto por Adelaide, notasse sua aparição repentina ou a questionasse.
— Príncipe Nicholas. — disse Maurice, quebrando o silêncio que prometia durar uma quantidade indeterminada de tempo caso não fosse por ele. Adelaide agradeceu mentalmente por alguém se pronunciar. — Como têm estado o Rei e a Rainha do Reino do Diamante?
— Exaustos, Rei Maurice. — respondeu-lhe Nicholas, de forma educada e reservada. Adelaide teve vontade de questionar a ele em voz alta o que o levava a ser tão confuso. — Entretanto, estão bem. Esperam que minhas alianças e soluções sejam o bastante para que eu assuma a liderança do Reino e eles possam finalmente descansar um pouco.
Ao dizer aquilo, imediatamente Nicholas olhou para Adelaide. Ela havia compreendido perfeitamente bem o sentido no qual ele dissera "alianças". Estava se referindo à aliança entre seu Reino e o Reino do Ouro por intermédio de seu noivado com Adelaide — com o qual, notavelmente, a princesa ainda não havia concordado.
— E eu estou certo de que terei o total apoio do Reino do Ouro para tal feito. — disse Nicholas, com um mínimo sorriso. — Correto, princesa?
Adelaide engoliu em seco antes de responder.
— Mas é claro, Príncipe Nicholas.
A conversa foi suficiente para que todos pudessem se entreter em comunicar-se uns com os outros na mesa. Maxine e Seth conversavam, soltando pequenas risadas que faziam com que Adelaide tivesse vontade de enfrentá-los, enquanto Maurice e Melissa faziam perguntas a Nicholas. Adelaide deu-se por satisfeita por ter a possibilidade de comer sua comida em paz, sem mais perturbações.
Foi quando a cabeça de Maxine ergueu-se da conversa com Seth e ela dirigiu-se a Adelaide que a noite passou a desandar.
— Então, Princesa — disse ela, de forma maldosa. — Não esperava que fosse casar-se tão cedo, hun? Tão bela e jovem… Com muito ainda a aprender.
Todos os presentes na mesa pareceram congelar.
Adelaide encarou Maxine, incrédula, sem compreender a enorme necessidade da feiticeira em constrangê-la. Então abandonou toda a compostura que havia levado a noite inteira para criar e respondeu.
— Não tenho nada a aprender a este respeito, Duquesa. A senhorita deveria saber — respondeu, com um cínico sorriso. — O casamento pelo povo é o mínimo a ser feito por uma princesa.
— E não pode essencialmente ser considerado um desafio, não é mesmo? — brincou Nicholas, evidentemente notando o tom de ambas as garotas e interrompendo-as.
Adelaide olhou para ele, aceitando o desafio com as próprias palavras.
— Realmente, Príncipe Nicholas? — indagou ela, com um olhar inocente. — Imaginei que teria coragem de assumir o quão cansativo será estar noivo da princesa do Reino do Ouro.
— Acredite em mim, princesa, — disse ele, pausadamente, achando graça. — quando afirmo já ter aceitado desafios extremamente menos agradáveis.
A princesa semicerrou os olhos.
— Um noivado é uma ideia agradável?
— Desde que seja com você. — falou Nicholas, e o tom calmo e usual utilizado por ele fez com que Maxine e Seth se entreolhassem e Maurice por pouco não se engasgasse com a bebida.
Adelaide, em frente ao príncipe, tentou esconder a expressão atônita que ameaçou assumir seu rosto. Melissa analisou a própria irmã, tendo consciência de como a mesma não estava acostumada com aquele tipo de situação.
Onde, afinal, estava Jay quando Adelaide precisava dele?
— Então, Maurice. — disse Melissa, em um tom alto que encerrava todas as conversas. — Por que não nos conta sobre os novos projetos do Reino da Prata?
Os olhos de Adelaide voltaram-se para sua comida. E, por mais que aquilo estivesse começando a se tornar extremamente comum, ela teve vontade de gritar.
. . .
Naquela noite, Adelaide não dormiu. Não essencialmente pelas provocações e evidentes tentativas de fazê-la desconfortável de Nicholas e Maxine, porém por tudo que a estava cercando nos últimos dias.
É claro, a princesa estava acostumada a problemas políticos perseguindo-a. Por muito tempo, os resolvera com maestria ao lado de sua irmã, sem jamais ter de abaixar a cabeça em sua própria mesa de jantar. Lordes, duquesas, mesmo a realeza nunca havia sido um problema.
E foi ao se sentir perturbada em seu próprio Palácio que Adelaide notou que estava na hora de começar a mudar as coisas.
Levantou-se, sem checar as horas — ainda que acreditasse que logo amanheceria — e aprontou-se. Desta vez, diferentemente do habitual, não utilizou um vestido elegante ou um penteado extravagante. Na verdade, procurou por um de seus vestidos mais antigos, o qual estava em uma pilha especialmente para ser jogado fora ou dado a alguma família plebéia. Apanhou a tesoura sobre sua cômoda e recortou diversas partes do traje, transformando-o em uma verdadeira deploração. Então o vestiu, soltando seus cabelos negros e deixando que caíssem por seus ombros. Por fim, agarrou a capa que havia em seu armário — de tecido escuro, que cobria todo seu corpo, da cabeça aos pés, e era incrementada com um capuz extremamente necessário.
Olhou-se no espelho e se certificou de que estaria irreconhecível. Se retirassem o capuz, a reconheceriam, porém com alguma dificuldade devido à ausência de maquiagem. Satisfeita com o resultado, Adelaide checou o lado de fora de seu quarto pela fechadura. Como sempre, dois guardas mantinham-se em guarda em cada um dos lados da porta.
Adelaide apertou os lábios, sentindo muito por ter de usar magia, e colocou as mãos sobre a madeira da porta, imaginando que ambos os guardas cairiam em um sono profundo de cerca de uma hora. Com muito esforço, sentindo sua respiração começar a descompassar, a princesa ouviu quando os corpos de ambos foram de encontro ao chão.
O resto da fuga da princesa não levou tanto trabalho. Ela conhecia todas as entradas fáceis e práticas do Palácio, e não foi difícil passar por elas. Quando finalmente estava fora do castelo, Adelaide olhou em volta, perguntando a si mesma para onde iria em seguida.
Então ela se recordou de Cecília, a cidade plebéia que havia recebido seu nome como uma homenagem à família de Adelaide, conhecida como a cidade principal de todo o Reino.
Adelaide moveu o capuz para cobrir praticamente todo seu rosto em uma altura na qual ainda poderia medir seus passos e ver por onde andava. Em seguida, colocou-se a caminhar na direção da cidade em passos largos e apressados, observando a lua sobre si como se fosse ela a guiar seu caminho.
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