Beyond Two Powers
4 A Vida no Palácio
Notas iniciais
MAXINE
Seguindo aqueles três estranhos, ela se sentia insegura. O acordo era perfeito, não havia dúvidas de que uma esperança poderia crescer e que logo seu povo seria libertado. Mas ao mesmo tempo, o medo de que Adelaide talvez não conseguisse fazer sua parte a assolava como um Nightshade, um dos piores monstros de Badlands.
O Arqueiro acompanhava os passos da moça. Estava atento em suas mãos, em seus pés, no seu vestido e até mesmo na forma de como seu cabelo se movia. A feiticeira, mesmo sendo uma transgressora da lei, era belíssima. Havia uma aura de poder em seu redor tão forte e presente que até mesmo as árvores ao seu redor se abriam para sua passagem. Todos os animais abaixavam sua cabeça conforme ela dava um passo. Adelaide também havia percebido.
Estava com medo de falhar em sua missão. Com medo da feiticeira se rebelar e trazer o caos e a discórdia ao seu reino por vingança. Mas olhando para ela naquela floresta, com o olhar de orgulho e carinho para suas terras, a esperança de que a mulher era boa nascia em seu peito, confortando-a caso cometesse algum erro.
— Vamos realmente andar até o seu Reino? — a loira comentou, entediada. A Princesa franziu o cenho.
Quando viera com Jay, não parecia ter sido um caminho muito longo. Mas agora, olhando para todos os carvalhos ao seu redor, de tantos tamanhos e cores diferentes, percebeu que não conseguia reconhecer a trilha. Maxine gargalhou enquanto o Arqueiro a encarava irritado e confuso, assim como os outros dois. Mas então, ele cometeu um erro. Jaime poderia saber o quão poderosa e soberana a Dama era em suas terras.
Mas Perry, o Arqueiro, certamente não tinha noção desse fato.
— Acha isso engraçado? — ele perguntou, irritado. O guarda era muito conhecido na Infantaria por sua curta paciência.
— Acho. — ela o desafiou — E muito. Não ouse confrontar o inimigo em seu terreno, soldado. Ou achas que é valente o suficiente para desafiar as Terras de Badlands?
Os dois se encaram por breves segundos até ela dar um sorriso vitorioso e continuar a caminhar. Perry bufou, irritado. A feiticeira virou-se para Adelaide, com seus olhos faiscantes de puro poder.
— Diga-me, Alteza, há um lugar em seu Reino onde possamos aparecer sem sermos vistos?
— Bem, podemos ir para os Jardins. — ela indicou, insegura. Sabia que a aquela hora nenhum guarda estaria por ali, mas ainda tinha medo.
— Maravilha. Por favor, fechem os olhos.
Todos a obedeceram. Maxine recitou um encanto em uma língua diferente, e em alguns míseros segundos, os jardins do palácio apareciam ao seu redor. A loira sorriu enquanto a Princesa a encarava pasma, o poder que emanava da mesma era tão esplêndido que parecia ser quase que tocável. Entre as árvores do Jardins, Maxine respirou fundo, sentindo o ar daquele lugar estranho apropriar-se de seus pulmões. Jay e Perry foram dispensados, recebendo ordens para que permanecessem quietos. Adelaide seguiu com a mulher pelos fundos, surpreendentemente vazios, do castelo. Max podia sentir os minérios daquele lugar querendo voltar ao fundo da terra. Todo o ambiente era vivo, mas perturbado. Era claro que tudo aquilo queria retornar ao seu verdadeiro lugar.
Em segundos, as duas estavam no quarto da Princesa. Maxine não segurou a expressão surpresa ao ver, depois de cincos anos inteiros, uma cama. Ela olhou sugestivamente para Adelaide, que pela primeira vez naquela semana, deu um sorriso verdadeiro. A feiticeira sentou-se na cama, sentindo a maciez do colchão contra si e sorriu como uma criança. "A quanto tempo não deve dormir numa cama?", Adelaide pensou consigo mesma.
— Não tenhas pena de mim, Alteza. Vivo bem no meu exílio.
— Temos de dar um jeito em suas roupas. — a morena desconversou, abrindo seu gigantesco armário e observando a quantidade quase que infinita de vestidos ali dentro, todos bordados a mão e com fios de ouro — Melissa enlouquecerá se vê-la vestida desta forma.
— Não será necessário.
Adelaide virou-se para Maxine e observou sua transformação com os olhos arregalados e sua expressão torcida em surpresa. A loira agora usava um vestido azul ciano sem mangas, com um decote médio em seu peito. Diversas joias surgiram em seu pescoço, dedos e braços, e seu cabelo tornou-se propriamente penteado e limpo, exalando o cheiro maravilhoso do sândalo. Seus cabelos tinham duas tranças no topo, sendo ligadas por uma fivela de diamante. Sapatilhas simples, porém bonitas, cobriam seus pés. Uma coroa de Princesa surgira em sua cabeça. Esta era dourada, parecida com a de Adelaide, porém uma grande pedra de rubi estava presa no meio. Ela iria representar sua ilha natal.
— Como estou? — Maxine perguntou, dando uma volta no quarto com um sorriso no rosto.
— Parece uma Rainha… — o pensamento escapou dos lábios da Princesa do Reino do Ouro. Ela sacudiu a cabeça e umedeceu os lábios — Venha. Tenho de apresentá-la a Melissa e dizer que és minha convidada real.
Com acidez e brincadeira, Maxine fez uma reverência, abrindo os lados do vestido. As duas então, acompanhadas por Perry e Jay, seguiam até o salão principal. O primeiro guarda tinha um minúsculo sorriso no canto dos lábios, pois a mulher a sua frente era simplesmente a pessoa mais bela e encantadora que ele já poderia ter visto. Sua postura era a de uma verdadeira Rainha, soberana de uma grande nação. Ao descerem as escadas, todos os presentes pararam suas ações para admirá-la. Adelaide parecia apenas uma nobre menor perto de Maxine. Melissa, sentada em seu trono, abriu um sorriso caloroso para a garota, enquanto erguia-se de seu assento para cumprimentar a recém-chegada.
— Oh, Adelaide, minha irmã, não sabia que estava em companhia!
— Melissa, esta é Maxine Chase, a Duquesa das Ilhas de Rubi.
— Encantada, Majestade. — Max dez uma reverência — É verdade que o Rei Maurice está aqui?
— Sim, querida. Ah claro, isto recorda-me, Adelaide, de que Lorde Lawson está aqui.
A Princesa suspirou. Aquele homem era totalmente desconfiado. Quando o viu entrando no salão, lançou um sorriso afetado para Jay, que estava ao lado da porta. Os olhos castanhos do rapaz a entenderam.
— Princesa Adelaide, quem é esta sua companheira?
ADELAIDE
— É um prazer revê-lo, Lorde Lawson — disse Adelaide, esbanjando um tom falso e firme. Por um momento, ela deixou que todas as preocupações que envolvessem a magia se dissolvessem, e assumiu sua postura como princesa. — Eu não imaginei que receberíamos uma visita do senhor tão cedo. Quanto à minha companhia, esta é a Duquesa Maxine. Eu imagino que o senhor a conheça.
Havia um misto de ameaça e desafio no timbre utilizado pela princesa. Se Lorde Lawson admitisse não reconhecer uma duquesa, ele imediatamente seria visto como um lorde desnaturado e desatualizado. Era a chance perfeita para concretizar a farsa de Maxine como uma duquesa.
— Mas é claro — confirmou o lorde, fazendo com que um sorriso vitorioso surgisse nos lábios de Adelaide. Ele estendeu a mão, incentivando Maxine a entregar-lhe a sua própria para que ele a beijasse. Adelaide olhou para Maxine com um pedido no olhar. Engolindo todo o seu nojo, Maxine permitiu que o lorde beijasse os nós de seus dedos. — É um prazer finalmente conhecê-la pessoalmente, Duquesa Maxine.
— O prazer é meu, Lorde Lawson. — mentiu Maxine, suprimindo uma expressão de puro desgosto. Adelaide agradeceu mentalmente por sua resistência.
— E, ainda que seja uma enorme honra recebê-lo, meu lorde — começou Adelaide, e Maxine estreitou os olhos para ela com incredulidade. — Eu me pergunto a razão pela qual o senhor viajou até aqui.
— Negócios, minha cara — falou ele, e a princesa assentiu. — Estive tratando de negócios na cidade e imaginei que as senhoritas apreciariam a visita.
— E quem não apreciaria, meu senhor? — indagou Adelaide, com uma simpatia completamente falsa. — Ainda assim, temo que tenhamos alguns assuntos de urgência a tratar e não possamos parar por muito tempo para conversar...
— Ah, é claro — interveio o lorde, com um tom afiado que fez com que Adelaide levantasse uma sobrancelha. — Como vão os planejamentos para o noivado com o Príncipe Nicholas, Vossa Alteza?
Adelaide congelou. Até mesmo Maxine pareceu ter sido pega de surpresa; ela olhou para Melissa, que mal pôde se mexer, respirando fundo para que finalmente dissesse algo.
— Eu planejava fazer disto uma surpresa, Lorde Lawson. — disse Melissa, e Adelaide cerrou os punhos para reprimir um grito. Sua irmã estava escondendo dela o fato de que teria de se casar com um príncipe completamente desconhecido.
— Oh, eu sinto muito. — disse o lorde.
— Não sinta, meu lorde — Adelaide apressou-se a dizer, com uma calmaria que fez com que Maxine adquirisse uma expressão incrédula. — Eu estava ciente de que isto viria a acontecer. Fui pega de surpresa unicamente devido ao príncipe. Como o senhor pode imaginar, eu jamais tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.
Adelaide detestou o próprio comportamento por alguns segundos, porém ela era parte da realeza, e simplesmente não poderia se dar ao luxo de rebaixar-se em frente a um lorde como Lawson. Para falar a verdade, imaginou que fosse o momento de se livrar dele.
— Então, princesa — começou Lawson. — Por que não me fala sobre quando conheceu a duquesa?
— É uma longa história, lorde — desviou-se Adelaide, com um olhar superior. Você não irá me pegar, pensou ela, com desprezo. — Para outro momento. Temos coisas a fazer agora.
— Ah, mas é mesmo uma pena — expressou ele, com um tom cínico que não a agradou. — Eu imaginei que a senhorita teria uma boa história para contar.
Maxine não pôde esconder sua irritação. Estava claro como a água o fato de que o lorde estava insinuando que Adelaide era uma mentirosa. Ainda assim, a princesa manteve um olhar neutro e calmo.
— Lorde Lawson, posso ter a palavra por um instante?
Ele franziu o cenho.
— É claro, princesa.
Adelaide o dirigiu até um certo ponto do Salão onde Melissa já não mais podia ouvi-los. Maxine ainda era capaz de ler seus lábios. Ao longe, Jay os observava.
— Em primeiro lugar, eu prefiro que o senhor refira-se a mim como "Alteza" ou "Vossa Alteza" — começou Adelaide, com um tom arrastado e completamente ameaçador. O lorde pareceu prestes a dizer algo. — E eu gostaria que o senhor não se esquecesse de algo, lorde. Você pode ser rico e reconhecido com um prestígio imenso em todo o Reino, mas eu sou a Princesa, e o que quer que você tenha vontade de fazer tem de ser aprovado por mim. Portanto, eu sugiro que pare de tentar fazer a Duquesa Maxine sentir-se desconfortável, ou eu garantirei que você se sinta desconfortável. Estamos entendidos?
Ela não esperou por uma resposta. A expressão do lorde, como se pudesse avançar contra ela e estrangulá-la naquele instante, foi suficiente para deixar Adelaide satisfeita. Quando caminhou de volta até Maxine, ela notou a irritação e a surpresa no rosto da feiticeira. Melissa já não mais estava por perto.
— Não me olhe dessa forma — disse Adelaide, dando ligeiramente de ombros. — Eu estava agindo como uma princesa e reforçando seu disfarce. Não era isto que esperava?
— Sim. Conheço a realeza, Adelaide. Eu vim diretamente de um lugar onde nós, os pobres e miseráveis, são tratados como invisíveis perante a vocês. Só estou impressionada com o fato de você conseguir ser muito, muito falsa. Me diga, Vossa Alteza, será que foi verdadeira quando fechamos nosso acordo?
— Ora, Duquesa Maxine — começou a princesa, semicerrando os olhos. — Se tem tantas dúvidas, por que não usa sua magia e descobre? Não é desta forma que trata todos os seus problemas? Porque, você pode não imaginar, porém nós não temos formas tão fáceis de resolver nossas questões. Não estalamos os dedos e recebemos a resposta. Então, eu sinto muito se nossos métodos não são satisfatórios para você, mas são eles que a manterão segura e livre de homens como o Lorde Lawson por aqui.
Maxine estava prestes a replicar, porém uma voz masculina e familiar ao lado delas fez com que ambas parassem.
— Está tudo bem por aqui? — indagou Jay, com uma sobrancelha arqueada e a expressão ligeiramente preocupada. Perry estava logo ao seu lado, tão posicionado quanto o companheiro.
— Está tudo ótimo, cavaleiro — respondeu-lhe Adelaide, ainda olhando furiosa para Maxine. Ela não podia acreditar em como a feiticeira a estava tratando, mesmo após o que ela fizera. Mesmo após a forma como tratara um dos maiores aliados de seu próprio Reino para defender o disfarce da feiticeira. — Por que a pergunta?
— As coisas pareciam um pouco tensas por aqui — foi Perry quem respondeu. — Imaginamos que poderiam estar precisando de um pouco de ar.
Adelaide soltou uma leve risada.
— Honestamente, cavaleiro — disse, encarando Perry. Ele ergueu uma sobrancelha para ela. — A última coisa de que preciso no momento é de ar.
— Eu, por outro lado — interveio Maxine, com um tom de irritação claro. — Não poderia precisar mais.
— Sinta-se à vontade, duquesa — falou Adelaide, colocando uma das mãos na própria cintura. — As sacadas tem uma vista maravilhosa.
— São os últimos lugares para onde eu iria.
Sem dizer mais uma palavra, Maxine girou em seus calcanhares e disparou na direção do jardim. Adeladie teve de respirar fundo e conter toda a sua própria irritação. Perry a lançou um olhar incomodado, caminhando até a entrada, onde voltou a sua posição. Jay, entretanto, nem mesmo se moveu.
— Há algo que você queira, cavaleiro? — questionou Adelaide, pressionando as costas da mão contra a testa ao sentir uma dor de cabeça chegando lentamente.
— Eu imaginei que a senhorita poderia precisar de ajuda para se acalmar — disse ele, calmamente, e lhe ofereceu um sorriso. — Além do mais, a Rainha Melissa pediu que eu lhe entregasse isto.
Havia um envelope em suas mãos, e Adelaide franziu o cenho ao vê-lo. O símbolo do Reino do Diamante estava em contraste com a folha branca, fazendo com que a princesa tivesse urgência em abrir e ler a mensagem.
"Cara Princesa Adelaide,
Sinto em ter de enviar esta carta em um momento inoportuno — chegou a meu conhecimento que há hóspedes do Reino da Prata em seu Palácio —, porém há certa urgência no assunto. Imagino que a Rainha Melissa tenha lhe comunicado sobre os acordos sendo estabelecidos entre ela e meu pai para que eu e a senhorita nos tornemos noivos. Do contrário, sinto muito em ter de ser aquele a informá-la.
De qualquer forma, solicito que a senhorita me envie uma resposta o mais rapidamente possível, pois os problemas em meu Reino continuam a ampliar-se e meus pais já não mais podem aguentar a pressão do reinado a sós. Como dizem eles, preciso de uma noiva. E nosso Reino ficaria extremamente feliz caso a noiva pudesse ser a senhorita.
Agradeço a atenção, e espero vê-la o mais brevemente possível.
Atenciosamente,
Príncipe Nicholas."
Ela arregalou os olhos, sentindo tudo em torno de si girar. O Lorde não havia mentido sobre o casamento arranjado. De fato, Melissa estava planejando fazê-la se casar com um príncipe; e, ainda por cima, com o príncipe do Reino do Diamante.
Adelaide balançou a cabeça, procurando se esquecer daquilo e se concentrar em Jay e nos problemas de Maxine.
— A senhorita está bem? — indagou o cavaleiro.
Adelaide soltou um suspiro.
— Eu não entendo. Tudo o que fiz foi defendê-la!
— Bom, Alteza, nem sempre os métodos de uma princesa parecem justos aos olhos de uma plebéia — começou Jay, com um leve dar de ombros. — E não é como se qualquer uma de vocês estivesse errada. Ambas estão certas, em sua própria forma.
— Então ela espera que eu resolva as coisas da forma dela? — exclamou a princesa, arregalando ligeiramente os olhos. Jay riu levemente.
— Na verdade, Alteza, eu imagino que ela espera que a senhorita não tenha de mentir ou agir como alguém da realeza — disse ele, com sinceridade.— Afinal, o histórico de Maxine com a realeza não é bom.
Adelaide contorceu o nariz ao notar o quanto ele estava certo. Detestava ser repreendida, porém a conversa com Jay nem mesmo soou como repreensão. Ele realmente a estava dando um conselho, e ela ergueu o olhar para ele, com uma pontada de emoção.
— Obrigada, cavaleiro — falou ela, olhando para as próprias mãos. — De agora em diante, usarei métodos mais... humanos.
Jay sorriu.
A princesa olhou para o resto do Salão e fitou o jardim. Ela teria muito trabalho para mudar seus métodos; no entanto, ela tinha de proteger seu Reino, e para aquilo necessitava do acordo. E, é claro, de seu casamento.
E manteria o acordo forte pelo tempo que conseguisse.
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