Beyond Kingdoms: The Lemniscus Crystals
2 POV Linna - Prólogo "Drowning"
Notas iniciais

◊788 estações após a ascensão da família Torgu, quarta fase da Lua do Ciclo Ra.
Era a primeira noite de inverno, a floresta estava quieta e silenciosa, os animais há muito haviam se retirado para suas tocas. Liana estava na horta ao lado de sua casa recolhendo verduras para o que seria futuramente sua refeição. O clima não a ajudava neste quesito. Para muitos o solo não era próprio para plantações, mas depois de um tempo e com um pouco da magia que lhe restava, a situação não se tornava tão impossível quanto aparentava. O frio deixava a terra dura e deixava a comida quase sem gosto. Ela estava organizando a cesta quando ouviu o choro de um bebê. Deixou a cesta e saiu correndo em direção à cabana que morava já há alguns ciclos lunares.
Era uma casinha simples com um único quarto e sala, as paredes eram feitas de madeira enquanto o teto era revestido por restos de palha de fazendas próximas com um único buraco grande o suficiente para a passagem da chaminé da lareira que ficava no centro da parede oposta à porta da entrada. O quarto só era mobiliado com uma única cama de casal feita de madeira e coberta por peles de animais, ao lado ficava uma cabeceira onde queimava uma pequena vela. Ela se sentou na cama e pegou o pequeno embrulho em cima que chorava.
Ela o segurou enquanto se dirigia à sala onde a fogueira agora queimava as toras de madeiras recolhidas pela manhã para esquentar a noite fria que durava.
— Ei, ei. Calma minha flor, está tudo bem, mamãe está aqui com você — falou suavemente.
A filha começou a se acalmar e parar de se debater, mas ela sabia que a criança ainda estava agitada. Começou então a cantarolar em voz baixa uma velha canção sobre a esperança de dias melhores no futuro. Ao fim da cantiga, a filha já adentrava novamente ao reino dos sonhos. Liana então a ajeitou na cama e a cobriu para que a mesma não adoecesse pelo frio. Lembrou-se que ela só tinha sete noites de vida, e como fora doloroso o processo quando ela nasceu sem poder contar com a ajuda de ninguém.
Voltou para a sala e começou a arrumar as prateleiras onde pequenos potes de madeiras estavam largados. Arrumou a pequena mesa no centro da sala e ajeitou as cadeiras em sua volta. Depois de alguns minutos lembrou-se da cesta do lado de fora. Pegou o lampião e o acendeu enquanto ia para lado de fora novamente.
Elas moravam no meio de uma floresta antiga onde poucos tinham coragem de adentrar pela sua história. As árvores tinham copas densas impedindo-a de ver o céu, mas ela sabia que era fase de Lua Nova, do contrário os arredores não estariam cobertos pela escuridão total e sim banhados pela luz pálida da lua.
Ao chegar à horta sentiu um arrepio na espinha. Parou por alguns instantes com a cesta na mão e discretamente pegou a adaga que sempre carregava no bolso do vestido. Era uma velha relíquia, mas ainda era tão útil quanto foi um dia. Olhou em volta em busca de algum sinal ou barulho, mas a única coisa que sentiu foi o vento gelado e cortante batendo de forma constante no seu rosto. Apressou-se em pegar a cesta e voltou a passos largos para a cabana enquanto guardava a adaga. Deixou a cesta em cima da mesa e foi conferir a filha.
Parou congelada na porta. Onde minutos antes estava somente a criança, agora havia um homem sentado na cama, carregando-a.
— Interessante. — falou o estranho.
Aquela voz lhe era familiar. Já a havia escutado antes por longos anos. Ela estranhou, pois afinal, o dono dela era para estar morto. Mas mesmo que fosse quem ela pensava ainda estava com sua filha em mãos.
— Tire suas mãos dela! — rosnou, dirigindo-lhe uma pergunta desconfiada em seguida. — Quem é você?!
— Não me reconhece, “Frodu’ula”? — desta vez o estranho suspendeu seu rosto e então ela o reconheceu.
— Não é possível. — sussurrou incrédula.
O estranho então sorriu e abaixou seu rosto pra sua filha novamente. Colocou-a de volta na cama e levantou-se. Ele vestia uma calça preta de montaria com uma blusa cinza com uma capa preta em volta. O homem voltou sua atenção para Liana e começou a andar em sua direção. Ela recuou a passos pequenos enquanto pegava de volta sua adaga. Ele notou o movimento, mas não reagiu. Só ficou parado, olhando-a com angústia. Tinha que pensar em uma maneira de retirar a verdade dele. Quando notou estava com as costas encostadas na parede da sala.
— Não sabia que teve uma filha. — ele falou sombrio.
— Fale logo o que quer, Aurehigh. Deveria estar morto como os outros.
Ele estreitou os olhos verdes como esmeraldas, enquanto analisava-a.
— Nunca mais me chamaram por esse nome. — disse ignorando o comentário de seu paradeiro.
— Assim como há muitos períodos não me chamam de “Frodú’ula”— devolveu Liana.
Ele sorriu pra ela. Mas não foi um sorriso reconfortante, nem de felicidade. Foi um sorriso de melancolia, como se não tivesse mais escolhas no mundo.
— Que tal colocarmos as cartas na mesa?
— Não — disse Liana.
— Porque não? Posso saber? Acho que já descobri seu maior segredo— respondeu enquanto erguia uma sobrancelha e indicava o quarto com a cabeça.
— Eu não lhe devo explicações. —respondeu de forma seca.
— Tudo bem... — ele suspirou — Mas não possuo mais o luxo de ter escolhas “Junaleir”. Porque não fazemos um pequeno jogo?
— Não vou ser enganada com um de seus truques, se é o que está pensando.
— Escute primeiro. — pediu entre mais um suspiro — Falaremos toda a verdade. Mas a mesma ficará e morrerá aqui. Eu farei uma pergunta e então você responde, e assim, você pergunta e eu respondo. Se quiser saber o motivo de eu estar aqui, este é o único caminho, acredite. Para que não fique desconfiada farei o juramento, se quiser. A partir do momento que eu o fizer não serei mais observado.
Ela parou por um momento para analisar a situação. Se recuasse era possível que ele fizesse algo contra ela ou com sua filha. E se ela quisesse protegê-la precisava saber como ele descobriu sua localização.
— Faça— ela resmungou.
—“FaDrachFer”, juro não revelar a ninguém sobre o que será dito aqui para quem estiver fora dessas paredes. — inspirou fundo e uma bola de fogo surgiu em sua mão, rodeando a mesma por um minuto enquanto uma marca surgia em sua palma. Logo depois o fogo se esvaia.
— O que faz aqui?— perguntou Liana prontamente.
— A rainha me contratou para encontrar uma pessoa. Uma pessoa da nossa espécie. Mas não sabia que seria você que ela queria, ou sua filha.
— Se vendeu pra rainha?— falou com desgosto.
— Eu diria ser mais uma troca de favores. Na qual estou em clara desvantagem.
— Por quê? —indagoumpaciente.
— Minha vez de perguntar — disse sorrindo — Como ainda pode estar viva?
— Velhos favores mais uma morte forjada me ajudaram, se quer saber.
— Tudo bem— suspirou e então ficou quieto por um minuto — pelo visto não ganharei detalhes vou?
— Se quer detalhes, aprenda a fazer as perguntas certas, filhote. — o jogo inverteu. Era ela quem sorria enquanto ele amarrava a cara. — Tem mais alguém com você?
— Não sou um filhote. Não mais! Já vivo há 232 estações!— esbravejou — Posso ser mais jovem que você, mas com certeza não sou mais aquela criança.
— Responda logo a pergunta. — disse ela, divertindo-se com a reação dele.
— Estou sozinho. —falou bufando— como se você não soubesse—desdenhou.
— Sempre é bom se precaver. Já se esqueceu dessa lição?
— Não nego. Qual o nome da “Kiira”?— perguntou curioso.
— Linna — confessou hesitante.
— Belo nome— falou, e um sorriso apareceu em seu rosto.
— Porque está a serviço dela?
Desta vez ela o havia pegado. De má vontade, o jovem puxou a camisa para cima mostrando uma cicatriz vermelha no peito onde estava o coração. Ou pelo menos onde deveria.
— Como?— ela falou, alertada.
— Não é a sua vez— disse irritado, enquanto se sentava em uma das cadeiras em volta da mesa — Onde está Andur?
— Está morto. — respondeu ela em um sussurro. Ficou com os olhos marejados, mas o orgulho não permitiria que mostrasse fraqueza diante do homem a sua frente. Mas parecia que ele havia percebido, pois logo em seguida respondeu:
— Eu sinto muito
— Para que a Rainha te contratou?
Ele hesitou por um momento com se medisse as palavras seguintes. Por fim, não podia recuar pela promessa:
— Ela me contratou... Para matar aqueleque detêm o poder de um dos cristais... —suspirou por um momento. — Sua filha.
Liana não perdeu tempo. Toda a tristeza que sentia há pouco se transformara em raiva. Derrubou a mesa em cima do peito dele e o prendeu ali, enquanto encostava a adaga em seu pescoço.
— Por quê?— gritou.
— Acredite em mim. — ele respirou com dificuldade— Não quero machucá-la.
— Responda, agora! Por quê? — ordenou pressionado mais o pescoço dele, fazendo que um filete de sangue surgisse.
Nesta hora ouviram um choro vindo do quarto.
— Não vai olhar a Linna? — perguntou tentando acalmá-la.
— Não fale o nome dela! Primeiro responda!— começou a rosnar de novo.
— Ela a quer, tudo bem?! Ela quer o poder do cristal, mas juro que não sabia que era você que morava aqui, e muito menos sabia que você tinha uma filha, que obviamente é a quem tem o poder, pela sua reação.
— Não confio em você!
— Eu não estou contra atacando. E você sabe muito bem que eu poderia.
Ela aliviou a adaga do pescoço dele, mas ainda estava na mesma posição. Sabia que ele poderia atacá-la. Na verdade, era provável que se ele atacasse, ele ganharia.
— Acha mesmo que eu me rebaixaria a tanto?— sussurrou ríspido.
Ela suspirou e então o libertou, tirando a adaga de seu pescoço. Enquanto ele se levantava, tirando a mesa de cima de si, ela notou que o pescoço já estava se curando.
Ela se dirigiu ao quarto com ele atrás dela. Ao adentrar, viu sua filha chorando desesperada. Sentou-se na cama e pegou a criança delicadamente enquanto tentava acalmá-la. Mas estava exausta emocionalmente. Nunca pensou que seria encontrada. Pelo menos não ali. Não tão cedo.
— Posso tentar? — perguntou o homem delicadamente, de forma receosa. Ele sabia que ela estava cansada até para cuidar da filha e que logo ela acabaria explodindo.
— Se tentar algo, qualquer coisa que seja, congelo seu coração, entendeu?— ameaçou a mulher em um tom que se sobrepôs ao cansaço.
Ela se levantou e entregou a filha a ele. O instinto lhe dizia que ele não machucaria sua criança. Para sua surpresa, viu que ele balançava levemente Linna, e o que ela achava serem sussurros, eram na verdade, letras de uma antiga cantiga de ninar cantada pelo seu povo em tempos de nascimento. Sentia falta destes tempos. Onde ela podia chamar sua casa de lar e a família a protegia do mundo a sua volta. Eram tempos mais seguros, de fato.
— Eu preciso de uma vida, Liana- nesta hora ele parou de cantar e olhou para ela — Pensei quando cheguei aqui, que você era o alvo, mas é a sua filha. Dá para sentir o poder dela. Se fosse você, acredite quando digo, já estaria morta.
— Então porque me poupa?
Nesta hora os olhos ficaram nostálgicos e marejados como se relembrasse uma lembrança há muito esquecida. Ela sabia o real motivo, mas precisava ter certeza.
— Não posso destinar uma criança a algo pela qual passei e sofri. — respondeu
— E o que você vai fazer a respeito?
— Para falar a verdade, esperava que você tivesse um plano em mente. A única coisa que posso fazer é atrasá-la, mas uma hora ou outra, precisarei da alma de uma de vocês duas.
— Não há outro jeito?— perguntou quase em um sussurro.
— Se eu soubesse, já teria tomado. Não ache que fico contente em matar alguém.
Ela sabia o que era matar. Como era a sensação de tirar a vida de alguém. E por causa disso, só o fazia quando se defendia ou estava no meio de uma luta para sobreviver.
— Então me mate. — declarou decidida.
— O que?
— Leve minha alma no lugar. Engane a Rainha por mim. — implorou ao homem.
— Dará sua vida em troca da de sua filha?
— Sempre.
Ele parou para refletir por um momento. E então com sua filha adormecida nos braços entregou a ela. Ela não entendia. Quando olhou pra ele viu que estava sorrindo, mas de uma forma triste.
— Não a matarei agora. A criança ainda precisa de você. — nesta hora Linna acordou e abriu seus olhos, revelando íris de um azul claro, que lembravam o gelo formado nos lagos congelados. Ela abriu um sorriso banguela enquanto estendia os braços atrás de alguma coisa.
— Se fizer isso tudo por mim, honrará não só sua família, mas também a mim — falou, sorrindo para ele. Sabia que era o certo a fazer. Era mãe há poucos dias, mas já alimentava o sentimento de proteção pela filha. Morreria por ela sem pensar duas vezes.
— Eu voltarei daqui a alguns anos. Esteja preparada. Tentarei enganar a Rainha o máximo que puder, ela é uma pessoa paciente, mas possui seus limites. — aproximou-se das duas e então beijou a pequena cabeça de Linna. —Até mais, “Pequena”— sussurrou e então se voltou para Liana, fazendo uma reverência.
— Adeus “majilar”. — e então sumiu pela mesma porta pela qual havia entrado.
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