Beyond Kingdoms: The Lemniscus Crystals

9 POV Amber - Capítulo Um. "Unwanted Stranger"


Notas iniciais
Esse capítulo foi escrito por Gabriela ~Psicose (http://fanfiction.com.br/u/385112/) ~Boa leitura! --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Os Ciclos da Lua (meses) são dados na seguinte sequência: - Parval - Ra - Tempar - Mohdir - Dekin - Raiho - Boltar - Myckpar - Sly - Lhone - Terug - Phanor

◊ Oitocentas e cinquenta e duas estações após a ascensão da Família Torgu. Lua Nova do ciclo Phanor.

Ela não havia sido treinada para usar uma espada, uma arma que nunca mostrou-se capaz de servi-la plenamente, desafiando seus braços magros e subnutridos, sua baixa estatura e sua pouca força física— e aquela que limpa é claramente pertence alheio.

Pareceu-lhe errado deixa-la para trás, engolida pelo tempo e pelo Inverno de Phanor, tão rigoroso naquela pequena porção norte do país. É nesse ciclo que completa seus catorze Invernos, e é essa a desculpa que usa para presentear-se com algo tão descartável para seu estilo de luta leve e ágil.

A lâmina tem no mínimo o dobro do tamanho de seu braço, se não mais. O punho é pesado e ornamentado, difícil de encaixar em suas mãos pequenas. O equilíbrio não poderia ser mais desajeitado, com a ponta sempre apontando mais para a neve do que para qualquer outro lugar. Mas sabe que Kaan preferiria vê-la em suas mãos do que nas mãos de outro homem que se tornasse o Lorde de Nergia.

A luz não é o suficiente para ler os escritos na lâmina, delineados com tanta delicadeza na grafia divergente do idioma de sua espécie; mas não é preciso que seja, pois já os repete de cor — “Honrados serão nossos Oito; Desgraçado é aquele que provoca a Fúria de Nosso Jardineiro” —, enquanto passa o tempo que deveria estar dormindo com a mesma ação que repete desde o momento em que haviam acendido a fogueira. Ela espera até a ponta metálica adquirir um tom avermelhado sob o fogo, somente para enfiá-la na neve depois, ouvindo o chiado mesclar-se com os outros sons da floresta.

O homem jogado contra uma árvore, do lado oposto ao seu, mantém seus olhos mortos fixos na chama enquanto se contorce sutilmente a cada vez em que a lâmina superaquecida chia contra a neve. Ela sabe de onde vem tamanho incômodo, mas finge não reparar, observando de esguelha seus movimentos involuntários que ele tenta desesperadamente reprimir. Não que em algum momento o homem abriria a boca para reclamar.

Kaan costumava dizer-lhe que é possível saber tudo pelo que um homem havia passado simplesmente pelo seu olhar. Poderia saber por onde andou, por quem passou, de onde veio e quais são as desgraças que ele carrega nas costas. E aquele homem carrega somente um olhar vidrado, sem alguma porcentagem de vida ou consciência própria... apenas uma casca vazia. Kaan se orgulharia do trabalho que a criança havia feito naquele pobre animal.

Domar seu Lorde havia atrasado sua viagem em alguns ciclos, mas ela não iria deixá-lo sem tomar algo seu. O processo para se quebrar um homem é delicado e requer paciência, tempo não lhe faltava. É engraçado como a dor pode mudar um homem, trazer à tona a sua selvageria, eclipsar sua racionalidade e fazê-lo agarrar-se a qualquer alternativa que a fizesse ir embora. A alternativa que havia apresentado ao nobre foi a total submissão.

Como todas as artes, a tortura também tem suas ramificações. Ela poderia dizer que aprendeu a ver a beleza da coisa com o melhor mestre existente em toda Agália, Kaan, O Jardineiro. Havia aprendido o balanceamento exato entre corpo e alma, aprendeu feri-los em conjunto na soma perfeita que resultaria, mais cedo ou mais tarde, o resultado instigante da apatia. A dor é a primeira a ser introduzida, suportável no início, nada que faria até um homem de ínfima bravura miar. O corpo é algo de incrível complexidade, todos aqueles músculos e veias tão pequenas e essenciais, tantas funcionalidades para tão poucos órgãos; mas o que sempre a fascinou é a capacidade de adaptação exuberante que serve para a sobrevivência de todo o sistema. Adaptam-se ao calor, ao frio, aos hábitos diurnos ou noturnos; com a dor não é diferente, obrigando-a estar sempre a dois passos antes da natureza.

Com o aumento gradual, a dor sempre costuma ser de incrível eficiência na tarefa de fazer um homem ceder a influências externas, e esse é o momento em que a palavra é mais pujante do que qualquer mutilação ou queimadura. É nesse momento em que a alma encontra-se vulnerável, maleável como ouro, podendo ser moldada da forma que achar conveniente.

A menina tem razoável experiência em sobreviver naquele ambiente longe de qualquer civilização, afinal, não há outra escolha se não viajarem dentro da floresta que se tornou tão familiar e segura durante esses ciclos. Está meio perdida, mesmo que não admitisse tão fácil. Seu objetivo é chegar às Montanhas Thorns Dragon, antigo lar de Kaan, um Drow exilado. A maioria dos Drows vive ali, no interior subterrâneo das montanhas, dividindo a parte mais ao sul com os anões.

A viagem provavelmente demoraria todo um ciclo, mais se continuassem a viajar por dentro das florestas, longe de qualquer estrada. O homem que a acompanha, uma vez Lorde de Nergia, — uma pequena província no extremo norte de Enebora, a somente algumas fases da lua de Iscária, a capital do país — provavelmente ainda está sendo procurado por alguns leais infelizes ou por mercenários com bolsos pesados, e se a descobrirem junto ao homem, sua cabeça será recompensada com mais algumas moedas. Não ficou em cidades humanas tempo o suficiente para saber se descobriram algo a respeito do desaparecimento de seu Lorde, mas as histórias circulam.

— Isso é uma espada de honraria. — a voz desconhecida soa clara e tem um efeito paralisante sobre a menina. A Lua encontra-se em sua fase escondida, limitando seu campo visual. Não consegue ver o visitante por entre as árvores, mas é capaz de ouvir todos aqueles litros de sangue correndo em seu corpo, retumbando em seus ouvidos ritmicamente. Seu olhar de eficiência reduzida volta-se para o local instintivamente. — não consigo imaginar o que ela faz em suas mãozinhas, criança.

Um homem, um pouco mais alto que seu Lorde, porém não tão gordo, sai de trás das árvores e salta um pequeno arbusto para adentrar a clareira onde estão acampados. Veste-se com algumas peles finas, não tão adequadas ao inverno bruto de Enebora. O fogo lança sombras estranhas por seu rosto, e o capuz sobre a cabeça impede sua imediata identificação. Não se preocupa em disfarçar a espada embainhada em sua cintura, e logo passa a massagear seu punho simples com a mão enluvada. A menina, calada, assiste o homem caminhar lentamente por uma pequena fração da periferia da clareira.

— O que ele tem de errado? — pergunta com a voz preenchida de divertimento quando seu olhar pousa no Lorde, que permanece inerte, encarando a fogueira com os olhos vidrados. Ele parece ter achado exatamente o que precisa naquele pequeno acampamento.

— Você está com frio. — diz a criança com sua voz rouca pelo desuso, ignorando a pergunta e com os olhos fixos no homem. Ele ri, mas não há humor em seu gesto, enquanto puxa o capuz pra baixo, revelando seu rosto. Ela já havia acompanhado algumas vezes o retorno de alguns caçadores em Nergia, que depois de um dia na floresta acabam se perdendo na hora de voltar para casa, quando o Sol deixa de auxiliá-los. Alguns sortudos não chegam a perder as mãos ou os pés por causa do frio, mas normalmente voltam sem suas orelhas ou narizes, todos mordidos pelo ar gélido. Todo mundo sabe os perigos de deixar a carne morta e queimada presa ao corpo, mas aquele homem pareceu não ter a coragem de fazer o necessário. Seu nariz e proximidades haviam adquirido um tom escuro, e só há uma massa retorcida e negra onde deveriam estar as orelhas.

— Você é realmente uma menininha brilhante. — retruca. Ele se aproxima do fogo com tranquilidade, sentando-se no lado oposto ao dela e do nobre, fazendo-a mexer-se desconfortavelmente. — Sonho no dia de deixar esse país congelado e abandonado pelos deuses. Duvido que consiga bancar aqueles feiticeiros pederastas somente com o que a Rainha Meretriz irá me pagar. — pouco daquilo faz sentindo para a menina, que provavelmente deixa transparecer pelo olhar, julgando pelo sorriso de escárnio que o mesmo a dirige. Ele cospe na neve e volta a falar.

— Pare de insultar nossos deuses e me ofereça o que tem nessa bolsa. — ordena em um tom hostil, fazendo uma clara referência à religião mais popular dos cinco países, onde um dos seus dogmas, tão ignorados pelas raças, prega sobre ajudar aqueles que precisam.

A menina segue o olhar do homem até seu colo, onde a bolsa de couro recém-abastecida está pousada; abraça-a junto ao peito e ambos voltam a se encarar por alguns segundos.

— Eu não sou uma pessoa religiosa.

Um relance de puro ódio invade seu semblante enevoado pela fome, que se mantém enquanto ele puxa a espada da bainha, deixando-a brilhar sobre o fogo.

— Eu não acho que você tenha me entendido, criança.

Estimulada pelo cenário, uma esquecida memória, de pelo menos sete Invernos atrás, invade delicadamente sua mente.

Um ganido agudo escapou-lhe os lábios quando, pela terceira vez, o bico reforçado do sapato de Kaan atingiu-a na altura de seu estômago, expulsando o pouco ar que havia restado em seus pulmões. Seu corpo convulsionou-se em espasmos, forçando uma mistura de bile e sangue para a superfície.

A ordem para levantar-se surgiu mais cedo do que ela julgava ser necessário, mas não hesitou em segui-la. Não precisava de uma segunda lição sobre seguir comandos, não naquele estado. Assim, jogou o peso do corpo contra uma pilha de alguns sacos de grãos, forçando-se para cima sem precisar apoiar-se no braço direito.

— Precisamos coloca-lo no lugar — disse o Drow com seu sotaque carregado, referindo-se ao seu ombro direito que se encontrava claramente deslocado.

Não queria ter chorado tão abruptamente, pelo menos não antes do Drow ter posicionado suas mãos quase azuladas em suas costas. Perguntou-se se em algum momento a ameaça constante de dor iria acabar. Não se lembraria, nem se tentasse, a última vez que não se encolheu somente perante o aumento no tom de voz alheio.

Kaan nunca tolerou as fáceis demonstrações de fraqueza, mas esse conhecimento prévio não impediu a menina de se sobressaltar com o golpe que o Drow desferiu em seu rosto em seguida, fazendo-a sentir todos seus dentes agirem como lâminas contra o interior de suas bochechas.

Enquanto o gosto metálico do sangue preenchia seu sentido, as delicadas feições da criança endureciam, não refletindo mais o desespero que corroía sua alma pouco amadurecida.

— Assim — começou Kaan, ajoelhando-se na frente da menina. Com seu polegar, afastou cuidadosamente as lágrimas acima dos hematomas arroxeados. — É essa a expressão que deve mostrar aos seus oponentes.

— Hiish, Kaan. — concorda agora a garota no idioma nativo do Drow, arrancando um olhar confuso do visitante indesejado, enquanto suas expressões repetem a mesma que havia mantido a sete Invernos atrás; Tem de reprimir o sorriso quando sente a ardência nos olhos e o líquido rubro e quente escorrendo por suas bochechas. — Lágrimas só atraem os abutres.

Notas finais
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