Beyond Broken Souls
19 Evelyn Volkov
Notas iniciais
Na manhã do 2 de setembro, Evelyn estava radiante. Seu desjejum fora rápido, mas como foi composto de duas torradas com geleia e uma xícara inteira de chá – chá inglês, decente! -, Sam não reclamou, nem empurrou comida na direção dela ou fez cara feia. Ele, Ava e Bert apenas acenaram e pediram que ela desejasse a Tom e Sybil um bom-dia quando ela saiu correndo para ficar a sós com eles um pouco antes das aulas. Dmitri parecia um tanto desconcertado, incomodado talvez, mas Evelyn decidiu abordá-lo mais tarde. Naquele momento, ela só queria ver seus antigos amigos.
Junto deles, ela caminhou pelo jardim, deserto àquela hora da manhã.
“Ele é um cientista norueguês, o Birger”, ela estava lhes dizendo. Sozinha com os dois, a ‘parede mental do silêncio’ que a tornava incapaz de utilizar suas cordas vocais perto de estranhos ou alguém em quem ela não confiava (note que era difícil conquistar a confiança dela, mas mais difícil ainda era se livrar de dita confiança uma vez conquistada) sumisse como se nunca tivesse surgido em primeiro lugar. Sozinha com os dois, Evelyn se sentia capaz de fazer um discurso que envergonharia Hitler. “Ele é um ótimo pai adotivo, embora eu o veja mais como um tutor.”
“Ele te trata bem?” Tom perguntou, e tudo nele deixava claro que ele iria nadando até a Noruega se fosse preciso para ‘cuidar’ do bruxo mais velho se houvesse a mínima sugestão de uma resposta negativa por parte de Evelyn.
“Sim”, ela disse rapidamente. “Você realmente acha que eu não teria tomado alguma providência se estivesse remotamente insatisfeita?”
Tom estacou, e a olhou de cima a baixo. Alguma coisa no olhar dele começou a deixar Evelyn inquieta. “Não”, ele disse finalmente. “Não acho. Eu sei que você sabe se cuidar, Eve.”
Ainda havia alguma coisa que ele queria adicionar, mas Evelyn deixou essa passar. Resolveu retornar ao assunto anterior. “Enfim, Birger é professor de alquimia em Durmstrang, que devo lembra-los, não aceita nascidos-trouxas como eu e meu irmão. Mas quando a escola resolveu investigar nosso passado a fundo, Birger se fez de insultado, e acabamos entrando naquela porra. Ele só fez questão de nos colocar lá para a nossa segurança. Ele sabia que o último lugar no qual a puta do Grindewald procuraria por ‘sangues-ruins’ seria na escola que não os aceita, e na qual ele mesmo estudou.”
“Foi um bom plano”, Sybil disse, parecendo um pouco pensativa. “Parece ser legal. Birger, quero dizer.”
Ev assentiu. “Muito. E é um gênio também. Adoro o trabalho dele sobre átomos. E nos ensinou alemão. Bem, tentou. Sam nunca teve paciência para aprender línguas novas, e ele alegou que saber norueguês, inglês e russo já era mais do que suficiente.”
Sybil sorriu. “Mas não era o suficiente para você, não era?”
“Conhecimento nunca é demais.”
“Ev...” disse Tom, um tanto hesitante. “Você vai voltar para a Noruega? Eu ouvi falar que os Nazi estão lá.”
Evelyn sabia que ele não havia ‘ouvido falar’. Por algum motivo, o eufemismo dele a irritou. “Tom”, disse ela calmamente. “Se ‘ouve falar’ da puta da mulher do padeiro que pariu duas porras de gêmeos. Não se ‘ouve falar’ dos nazistas tocando o terror em um país por três anos direto.” Ela respirou fundo. “Não, é muito perigoso. Sam e eu vamos ficar com a irmã de Birger em Lambeth. Ela está usando um nome falso, Maggie Robinson, para não chamar atenção. É dona de uma pensão... a Roadhouse?”
“A Maggie Robinson?” perguntou Tom. “Ela é conhecida por lá. Muita gente que vai pra Londres se hospeda na Roadhouse; não é nem meia hora de Lambeth até Londres.”
Sybil estava contentíssima. “Isso é ótimo! Você vai ficar por perto, então!”
Tom assentiu. Estava sorrindo largamente. “Ótimo mesmo. Vai mudar de nome, também?”
Evelyn fez uma mesura. “Gwendolyn Blackwell, é um prazer te conhecer. Sam só vai mudar o sobrenome para combinar com o meu. O nome dele já é de um inglês comum o suficiente.”
Tom checou um relógio que ele não tinha quase cinco anos antes e franziu o cenho. “É melhor irmos. A aula já vai começar.”
Cada aluno de Volshesstvo, Durmstrang e Beauxbatons tinha um horário diferente do outro, sempre misturando com outras escolas – Evelyn, acostumada a estar com seus amigos em todas aulas, não gostou nada disso. Seu consolo era ser um membro ativo e importante do PEACE, respeitada. Podia contar com os outros membros. Seu maior medo era ser colocada com membros do Grêmio Nazista de Durmstrang, que nutriam um ódio incontrolável por ela.
“Qual é a sua primeira aula?” perguntou Sybil.
“Transfiguração com Beauxbatons”, disse Evelyn, que já tinha quase decorado seu horário do dia. “Espero que a menina de ontem, Victoire, esteja lá.” Ela sorriu. “Parece que meu irmãozinho se deu muito bem com ela.”
Seu pequeno desejo foi atendido, e quando Evelyn chegou na sala, o único rosto remotamente familiar era o de Victoire. Sentiu-se aliviada, mesmo que na noite anterior elas nem tivessem efetivamente conversado.
A sala era repleta daquelas mesas para duplas, e a cadeira ao lado de Victoire estava desocupada. Ela se encostava na parede, parecendo um pouco entediada. Evelyn ficou parada, em pé feito uma retardada, sem saber se pedia para se sentar, se simplesmente ocupava a cadeira, ou se escolhia um lugar diferente, mas enquanto a sala se enchia e os alunos passavam por ela sem lhe dar atenção, a cadeira continuava vaga.
Até que Victoire se virou a viu ali, movendo o peso de um pé para o outro desconfortavelmente e mordendo a ponta da língua. Victoire sorriu, e Evelyn mudou o olhar de Victoire para a cadeira, tentando transmitir sua pergunta.
“Ah”, Victoire disse. “Você quer se sentar?”
Por um momento, Evelyn hesitou, sem saber se deveria assentir ou dar de ombros. Mas Victoire simplesmente empurrou a cadeira um pouco na direção dela e disse, “Fique à vontade.”
Ev quase – quase – suspirou de alívio, e se sentou ao lado de Victoire, que a olhou com uma expressão confusa, meio curiosa. “Você não trouxe o livro?”
Com um sorriso, Evelyn tirou de um bolso interno das vestes uma bolsinha de fecho – bolsa cluch, Ava a chamou, ou coisa assim, mas Evelyn simplesmente dizia bolsinha de fecho – azul-escuro e sem graça. Mas, com gestos dramáticos, ela a abriu, enfiou a mão lá dentro, seguida pelo braço até o cotovelo. Ela forçou uma careta de esforço, e finalmente, puxou com um movimento vitorioso o livro de Transfiguração para fora.
Victoire deu um sorriso aprovador. “Feitiço Indetectável de Extensão”, disse ela. “Boa ideia.”
Fale com o autor