Notas iniciais
Boa leitura. E eu ainda quero comentários.

— Isso é fácil! — Giga gritou conosco. — Por que vocês não conseguem entender essa fórmula?

Giga tentava nos ensinar a calcular volume com uma fórmula sobre pizza. Quem entenderia? Só ele mesmo.

Adriano estava encostado na cama do garoto com a cara mais fechada do que de costume. Eu nunca o vira daquele jeito desde que o conhecera. Seu rosto tinha a aparência cansada, com algumas olheiras debaixo dos olhos e haviam acontecido algumas coisas estranhas naquela semana... Quando nós voltávamos juntos para casa, ele parava no meio da rua e encarava algum objeto invisível. Quando eu perguntava que ele tinha, este sempre arranjava um jeito de mudar de assunto.

— Ok, Giga. Nós precisamos de um intervalo. Você é único gênio dentro desse quarto.

— A falta de lógica de vocês me deram fome. Vou até a cozinha trazer algum lanche – ele falou se retirando.

Encostei ao lado de Adriano. Ele forçou um sorriso.

— Dri – eu nunca o tinha chamado assim, mas senti que precisava ser íntima para tocar naquele assunto. E, bem... Gostei de como aquele apelido soou. — Aconteceu alguma coisa com a sua família? Eu estou muito preocupada com o jeito que você anda agindo esses dias.

Ele olhou para os próprios pés, incapaz de me encarar.

Segurei sua mão. Ele levantou os olhos até os meus, me olhando espantado.

— Pode confiar em mim, eu sou sua amiga.

— Eu só... — baixou o olhar e observou nossas mãos unidas. — Não tenho me sentido muito bem ultimamente. — ele se deteve por um instante cariciando as costas da minha mão com o polegar. Aquilo estava me distraindo. — Eu sinto que sou um fracasso para minha família, para mim mesmo. Eu não sei o que eu estou fazendo nesse mundo. Eu não sirvo para nada.

— É claro que serve! — tentei animá-lo. — Sem você no mundo, quem me perseguiria o dia todo?

Ele sorriu e dessa vez não pareceu que estava se esforçando para fazê-lo. Adriano olhou meus olhos com carinho e trouxe a mão que não estava segurando a minha pra o lado da minha bochecha. Respirei com dificuldade e senti ele me puxando para perto de si. Fechei os olhos imaginando o que estava por vir.

— Eu sinto que não deveria estar aqui – Giga disse da porta.

Droga.

— Eu não... Nós não...

— Eu sei, eu sei – o garoto me interrompeu. — Não estavam se beijando e o que eu vi foi uma ilusão. Dá próxima vez, fechem a porta, pombinhos.

Minhas bochechas queimavam. Me levantei rápido.

— Precisamos da sua ajuda, Giga.

— Para casar vocês? Eu não tenho nenhuma formação religiosa.

— Não! — Adriano prendeu o riso. — É que o Adriano não está se sentindo muito bem esses dias.

Ele me lançou um olhar que dizia “Não fale demais.”

— E ele percebeu que precisa fazer o bem a outras pessoas para se sentir bem.

— Como é? — os dois exclamaram em uníssono.

— Há alguns dias Adriano ganhou uma Bíblia. Ele começou a me perguntar o que poderia fazer para ter a vida eterna. Eu expliquei que precisamos ter fé de que Deus enviou seu filho para morrer em nosso lugar e por esse motivo estamos livres da condenação.

Os garotos me olhavam na esperança de compreender o meu raciocínio.

— O garoto emburrado perguntou-me se era assim tão fácil. Só ter fé. Então eu mostrei-lhe uma passagem em Tiago que fala sobre fé e ação. A Bíblia diz que a fé sem obras é morta. Nós temos a salvação independente do que fazemos. Entretanto, precisamos provar a nossa conversão através de ações que mostrem o quanto amamos nosso Deus. Por isso, precisamos ajudar quem necessita.

— E isso me envolve em que sentido? — Giga inquiriu.

— Você é capaz de desenvolver um site, não tenho dúvidas.

— Eu sou capaz de invadir o FBI. Um site eu programo de olhos vendados.

— Pois é exatamente o que eu quero de você. Um site que direcione pessoas com dificuldade até nós.

— O que você quer, Brisa? Que eu coloque anúncios na internet de “resolveremos seus problemas” ou “Chame, ligue, somos seus amigos”? Isso é ridículo.

— Não é não. Não sei se você é egoísta o suficiente para não pensar em todos os adolescentes que estão aí, procurando maneiras desesperadas para serem felizes, que acabam se matando na tentativa, mas eu me importo com eles – parei para respirar. — Você poderia ao menos tentar?

— Eu posso perder meu tempo com isso sim.

Adriano observava nossa pequena discussão como se aquilo fosse um show.

— Estou pronto para o segundo round. Podem começar.

— Cala a boca, Adriano.

Giga nos deu as costas e focou a atenção na tela do computador.

— Brisa, não fica chateada, mas ninguém vai entrar em contato conosco. Essa ideia é bizarra. Procurar um desconhecido para lidar com problemas íntimos. Já tem psicólogos suficientes no mundo.

Veremos, pensei.

***

Dez minutos depois o celular tocou. Gigabyte disponibilizou seu número no site para os que precisassem de ajuda com urgência.

— Não dá pra acreditar – Giga bateu a palma da mão na testa, espantado.

— Atende – Adriano incentivou.

Apertei o botão. Ouvi um choro vindo do outro lado da linha.

— Oi?

— Eu não quero essa coisa! — a garota gritou em meio aos soluços.

— Calma. Eu quero te ajudar. O meu nome é Brisa. Aonde você está? E o que você não quer? — eu tentava manter a voz num tom seguro, mas sentia minhas mãos tremendo.

— Essa praga vai arruinar a minha vida! Eu não posso deixar isso acontecer. Meus pais vão me matar. Meu namorado vai me abandonar. Não, eu não vou ficar sozinha nessa – ela discutia consigo mesma. — Eu vou matar essa criança!

— O que está acontecendo? — Adriano sussurrou?

Coloquei a ligação no viva-voz.

— Qual é o seu nome?

— Pra que você quer saber? — ela gritou.

— Pra saber como te chamar quando eu for falar o que eu acho.

— Não precisa me chamar de nada!

— Tudo bem – olhei para o rosto assustado dos meninos. — Olha, você está nervosa e eu te entendo. Estaria do mesmo jeito se estivesse no seu lugar.

— Mas você não está! Não é você que vai ter a vida destruída! Nem o seu nome vai rolar pela boca de uns e de outros pelos corredores da escola! Tudo por causa de um erro! Um deslize! Eu quero que esse feto miserável morra, desapareça, suma de dentro de mim!

— Você que fazer um aborto? — perguntei com cuidado.

— Quero e vou. Estou com os comprimidos na minha mão agora.

— Tome cuidado. Você pode acabar se matando também. E a vida do seu filho é algo importante para se descartar assim.

— Essa coisa dentro de mim não é o meu filho! É uma monstruosidade! Eu vou tirá-lo de dentro de mim.

— Você não pode fazer isso. — minha cabeça dava voltas.

— O corpo é meu! Quem faz as escolhas sou eu!

— Pois escolha! — gritei de volta pela primeira vez. — Me diga, você quer matar o seu filho?

— Eu não sei o que eu quero. — ficou calada.

Ela deve ter se chocado depois que eu gritei como se fosse sua mãe. Eu tinha que fazê-la refletir sobre o valor da vida daquela criança inocente.

— Giga – sussurrei, cobrindo o microfone do celular – Você tem uma Bíblia por aí?

Ele foi até sua pilha de livros e voltou com uma novinha.

— Valeu. Folheei durante alguns segundos.

— Você está aí?

Ela fez uns ruídos.

— Não sei uma forma menos direta de perguntar isso. Você acredita em Deus?

— Não sei se deveria. Já me decepciono o suficiente com quem consigo ver.

— Boa – Adriano se manifestou do outro lado do quarto. Calei-o com o olhar.

— Eu tenho um livro inspirado por Ele bem aqui. Sabe o que Ele diz em Deuteronômio 30.19? “Eu lhes dou a oportunidade de escolherem entre a vida e a morte, entre a bênção e a maldição. Escolham a vida, para que você e os seus descendentes vivam muitos anos.”

— Eu quero viver. Quero viajar, namorar, fazer um curso que eu me identifique, quero me casar...

— Então dê a essa criança a oportunidade de experimentar tudo o que você quer viver também.

— Mas ela vai destruir todos os meus sonhos. Eu não sei que outra alternativa senão o aborto.

Tentei arrancar da minha memória qualquer texto bíblico que me lembrasse sobre uma adolescente querendo matar o filho, mas era meio... Não, era possível sim.

— Posso te contar uma história? — eu folheava os primeiros livros em busca da passagem. Ela estava tão cansada daquela história que permitiu. O sábio Rei Salomão já se vira diante de uma situação parecida. As coisas só se repetem de um jeito diferente.

— Há muito tempo existia um rei conhecido pela sua sabedoria. Naquele dia, duas garotas – eram duas prostitutas, mas eu modifiquei essa parte para não ofender a menina — chegaram à sua presença discutindo. Elas moravam juntas e tinham acabado de dar a luz a um menino cada uma. Durante a noite, uma das garotas rolou por cima do seu próprio filho e o matou sufocado. Ao acordar, vendo o menino morto, pegou o filho da amiga para si e pôs o morto na cama da outra. Quando a mãe acordou e viu que o bebê ao seu lado estava morto se desesperou. Mas logo viu que não era seu filho. A outra mulher falava para o rei que ela tinha sido a vítima e não a outra. E assim as duas discutiam. O Rei falou “Cada uma de vocês diz que a criança viva é sua, e que a morta é da outra”. Então mandou buscar uma espada e completou “Cortem a criança viva pelo meio e deem metade para cada uma dessas mulheres.” A verdadeira mãe do menino implorou que não fizessem isso, que o entregasse à outra. Mas a que segurava o menino disse “Podem cortá-lo em dois pedaços! Assim ele não será nem meu nem seu.”

— Como ela pôde? Querer que matassem a pobre criança?

— E por que você quer fazer o mesmo com o seu filho?

Ela ficou calada e depois soltou um soluço.

— Eu não quero matar o meu bebê. É que... Eu vou sofrer tanto para mantê-lo vivo...

— Jesus disse uma vez que nesse mundo nós vamos sofrer, isso é certo. Mas Ele termina a frase dizendo “;tenham coragem. Eu venci o mundo”(João16.33). Você não precisa lutar contra os monstros lá fora, nem carregar o peso do mundo nas costas. Não precisa bancar a garota perfeita, nem a filha perfeita, ou se castigar pelos seus erros. Ele já fez tudo isso por você. Ele vai te ajudar a conversar com seus pais, a ter esse filho, a criá-lo ou dá-lo para adoção. Ele vai te ajudar. Você só tem que aceitar ser ajudada.

— Como eu faço isso?

— Você quer ser amiga de Jesus?

— Quero.

— Repita essa oração comigo – respirei fundo. — Deus, as coisas estão difíceis. Eu quero ter o meu filho, mas preciso de coragem para segurar essa barra. Me ajude a tomar as decisões certas, e seja meu amigo, pois quero ser sua também. Em nome de Jesus, amém.

Ela suspirou do outro lado.

— Se sente melhor?

— Acho que sim.

— Então, dorme um pouco. Amanhã você conversa com calma com seus pais e vê o que dá para fazer.

— Tudo bem. Acho que vou tentar. Tchau.

— Tchau.

— Ei, Brisa! O que aconteceu com o bebê da história?

Eu esquecera de contar o final.

— O Rei o entregou à que preferia que o bebê vivesse, mesmo que não ficasse com ele. Entregou-o à mãe verdadeira.


“Quando uma mulher está para dar a luz, ela fica triste porque chegou a sua hora de sofrer. Mas, depois que a criança nasce, a mulher fica tão alegre que nem lembra mais do seu sofrimento. Assim acontece também com vocês: agora estão tristes, mas eu os verei novamente. Aí vocês ficarão cheios de alegria, e ninguém poderá tirar essa alegria de vocês.”

João 16.21,22.

Notas finais
O que acharam?