Beyond
1 Brisa
Notas iniciais

Abri os olhos pesados. Uma névoa me impedia de ver nitidamente. Uma dor no estômago prendia minha voz, respiração e forças. Senti-me escorregar no piso do vestiário da escola. Alguém me arrastava e ria ao mesmo tempo. No início eram sombras, que após um tempo ganharam forma e se transformaram nas jogadoras de vôlei. O que estava acontecendo? Tentei me soltar. Inútil. Minhas mãos estavam atadas.
— Acordou, aberração? – Uma delas perguntou.
— Por que estão fazendo isso comigo? – falei, ainda grogue, talvez pela pancada que me fizera desmaiar. O que eu estava fazendo antes que isso acontecesse mesmo?
— Estamos fazendo um teste para ver se você é realmente forte...
— Eu não quero teste nenhum, me deixa ir embora! – Senti minha revolta vindo à tona.
— Calminha aí... – A maior delas falou. Eu sabia bem quem era. — Nós somos quem damos as ordens por aqui. Isso é por nos fazer perder no jogo hoje. – Era isso! Eu estava jogando. Não porque eu quisesse, mas aquele professor me obrigou, ameaçando descontar a minha nota por não realizar nenhuma atividade prática. — Por isso, você vai para o chuveiro mais cedo. E não vai sair de lá até amanhã.
— Vocês não têm mais o que fazer? – Interroguei.
— Não! Você vai ser a nossa diversão pra hoje! – elas riram e eu senti lágrimas escorrerem pelo meu rosto. – Olhem, ela está com medo! Liga para o papai vir te buscar!
Raiva. Não medo. Era o que eu sentia.
— Ele vai procurar por mim...
— Mas eu acho que ele está tranquilo, porque você está nesse exato momento na minha casa, na nossa festa do pijama!
As três riram estrondosamente. Elas tinham planejado tudo. Abriram a porta de um dos chuveiros e me jogaram lá dentro.
— Seus aposentos reais, Vossa Majestade! – fizeram algum tipo de reverência.
— Por que vocês não conseguem superar isso, hein? Eu já perdoei vocês.
Uma delas me esbofeteou fazendo meu rosto contrair-se de dor.
— Eu não quero que você continue boazinha! Xingue! Ponha sua raiva para fora! Mostre que você é a mesma de antes!
— Não. Não vou fazer isso. – Eu disse com certa ironia.
— À vontade... – riram me empurrando para debaixo do chuveiro. Fiquei presa entre as paredes estreitas. Giraram a torneira ao máximo.
— Não consigo respirar! – A água fria escorria por todo meu rosto, impedindo minha respiração.
— Peguem leve, garotas... – A líder ordenou. — Queremos uma dor prolongada...
Cessaram o jato até se transformar em algumas gotas que caíam sobre minha cabeça. Fiquei completamente molhada em poucos segundos.
— Boa noite, aberração... – Cantarolaram em conjunto, fechando a porta em seguida, me deixando em completa escuridão.
— Me soltem! Vocês não podem me deixar aqui! – Gritei para o vazio.
Os ecos de suas risadas ecoavam no banheiro. Sem mais a fazer, chorei. Por tudo o que eu escondia, por tudo o que eu queria mudar. As lágrimas se misturavam com a água e desciam pelo ralo, indo para qualquer lugar, para lugar nenhum. Lavando o meu ressentimento. Curando minhas feridas. Fiquei ali a noite toda. Envolta pelo escuro. Congelando.
Aparentemente sozinha.
Aparentemente.
...
— Meu Deus! O que você está fazendo aqui, garota?! – Acordei de súbito, ouvindo uma voz desconhecida vinda de um lugar distante.
Abri meus olhos. Era a faxineira da escola. Finalmente! Se tivessem demorado mais eu teria me desintegrado e escorrido pelo ralo junto com a água. Levantei minhas mãos amarradas e trêmulas de frio, ainda sem forças para falar qualquer coisa.
— O que fizeram com você? – ela perguntou desamarrando as cordas. — Ana, venha aqui me ajudar!
— O que é isso? – A provável Ana vinha entrando. Se mais pessoas entrarem nesse banheiro eu estou oficialmente encrencada.
— Eu... – Tentei falar, mas o esforço me custou a consciência. Tudo voltou a ficar negro.
...
Elas me levaram para a enfermaria. Queria estar acordada para ver a cena daquelas duas senhoras me carregando até lá. Não que eu dê muito trabalho para ser levada, especialmente tendo a altura que eu tenho.
Depois me sacudirem insistentemente — Ao ponto de quase arrancarem meu braço. -, eu acordei e recebi uma xícara de chá quente e uma toalha envolvendo meus ombros.
— Você passou a noite toda lá?
Fiz que sim com a cabeça, esperando não ouvir mais nenhuma pergunta comprometedora.
— Quem fez essa monstruosidade com você? – Ana perguntou com os olhos cheios de lágrima. – O que você fez para merecer isso, criança?
As jogadoras haviam feito uma promessa no fim da tarde anterior: “Isso não é nada comparado ao que vamos fazer se você abrir o bico”.
— Muito obrigada a vocês duas por me ajudarem, mas, não foi nada... – Minha voz rouca revelava um resfriado que logo viria.
— Temos que ligar para seus pais e avisar ao diretor também.
— Não! – Falei alto de mais. As mulheres arregalaram os olhos com o susto. Tentei falar com mais jeito. – Por favor, não contem. Eu prometo que tomarei mais cuidado de agora em diante. Apenas não contem.
Elas assentiram com certa relutância, e após garantir que eu estava bem e precisava ir o quanto antes para casa, me liberaram, não sem antes desejarem algo importantíssimo.
— Deus te proteja, minha filha.
— Tenho certeza – eu disse mais para mim do que para elas -, Ele vai.
...
Pensei que minha vida não poderia piorar, mas enquanto voltava para casa começou a chover torrencialmente. Sempre testando minha fé, hein, Deus? Bati na porta de casa, arrependida de não ter trocado meu short e regata da educação física pela minha calça e blusa da farda. Esmurrei a porta. Quem saberia que faria tanto frio naquela noite e que a chuva desta manhã seria tão forte que congelaria meus ossos? Acho que aquelas garotas viram a previsão do tempo antes de me prender naquele banheiro. Tentei derrubar a porta com as mãos. O que meu pai fazia de tão importante para não poder vir abrir para sua pobre filha única mais ensopada que a chuva?
Ele finalmente abriu a porta. Os anjos cantaram aleluia nos céus.
— Oi, princesa! – disse beijando o topo da minha cabeça molhada.
— Oi, pai – murmurei, subindo as escadas.
— Filha, se arruma rápido, senão você perde o horário.
— Perder o horário de que? – Questionei. Hoje é domingo? Não me diz que tenho que ir ao Culto matinal, por favor...
— Hoje é quinta-feira, mocinha. Nem pense que vai escapar da escola!
— Pai, me escuta... – Levantei as palmas das mãos tentando fazê-lo concentrar-se em mim. — Só hoje, me deixa faltar à escola... – Estava pensando na possibilidade remota de me ajoelhar.
— Nada disso, Brisa – Sua voz assumiu um tom mais grave. — Você já se divertiu com suas amigas na noite passada!
— Pai, eu não...
— Este assunto está encerrado.
Subi as escadas correndo e bati a porta do meu quarto. Típico acesso de raiva de uma adolescente como eu. Ainda mais uma adolescente perseguida pelas jogadoras de vôlei da escola treinada na arte da tortura. Pedi a Deus por paciência. Por que se me desse força... Acabaria acertando a cara de alguém. Aproveitei para agradecer por estar viva e entrei no chuveiro. Mas dessa vez com água quente e sem mãos amarradas.
O que elas tentariam fazer dessa vez? Não estava sendo fácil. Nem um pouquinho mesmo. Após todos aqueles meses, elas não me deixavam em paz. E a cada provocação eu sentia que elas não queriam me humilhar, ou me fazer temer. Elas queriam me ver perder o controle. Queriam que eu agisse em função da raiva. Assim como elas mesmas. Mas não iriam conseguir. Não mesmo.
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