Beyond
9 Brisa
Notas iniciais

– Pai, eu te disse que não era pra esquentar o jantar...
A cozinha estava cheia de fumaça. E eu, que tinha acabado de sair do banho, estava pior do que quando entrei lá.
– Filha, tem algum problema com esse fogão, eu só saí por um minuto para ver uma notícia muito importante no jornal...
– Eu sei, pai. Só o que o senhor deve fazer é instalar um hidrante dentro da cozinha. Eu tenho medo de um dia chegar e encontrar a casa em chamas.
– Opa, mocinha, você não acha que está exagerando?
– É a terceira vez só nesta semana que eu encontro comida queimada aqui!
– Pede uma pizza, filha? — Ele fez uma cara extremamente arrependida.
– Eu vou pedir dois sanduíches só porque o senhor queimou todo o meu delicioso estrogonofe.
Ele sorriu e voltou para a sala. Abri as janelas que davam para o quintal da casa. Coloquei toda a comida carbonizada em uma sacola e joguei-a no lixeiro do lado de fora. Aquilo já tinha virado rotina desde que... Desde que passamos a morar só nós dois. Eu sinto falta de como tudo era antes. Mas é melhor não pensar mais nisso, já que é algo que nunca vai acontecer novamente.
Procurei na porta da geladeira o número de alguma lanchonete. Facefood, nome legal. Deve dar para o gasto. Disquei o número e esperei atenderem.
– Boa noite, Lanchonete Facefood, o que deseja?
O homem do outro lado da linha tinha uma voz rouca e linda. Eu tenho fixação por vozes assim, não me pergunte por que.
– Boa noite – Eu gaguejei mesmo? Brisa, controle-se, é só uma voz. – Vocês fazem entrega a domicílio?
– Fazemos.
Eu quero essa voz na entrega. Não, foco, Brisa!, ordenei a mim mesma.
– Eu quero dois X-Burguers no endereço... Você tem papel e caneta?
Imagina, Brisa. O trabalho dele é anotar pedidos, não decorá-los.
– Pode falar que eu estou anotando.
Eu descrevi o local e o atendente da voz perfeita disse que logo o pedido estaria pronto.
Mas o que aconteceu comigo? Eu gaguejei só de falar pelo telefone com um atendente de lanchonete. Deve ser a falta de garotos na minha vida que me deixou assim. Quer dizer, de garotos que me interessem, porque eu tenho um garoto sim, que me atormenta todos os dias.
Levei as panelas sujas para a pia e comecei a lavá-las. Cantarolei para não cair no desespero. E a mente escolheu vagar. Quem era o menino misterioso? Por que ele decidiu me proteger das jogadoras tenebrosas? Seria ele uma resposta para as minhas orações? Não, claro que não...
A campainha tocou. Gritei um 'Já vai', enxuguei as mãos e fui abrir a porta.
– A senhorita pediu dois X-burguers neste endereço?
O sorriso dele tomava o rosto inteiro.
– O que você está fazendo aqui? — perguntei pausadamente.
– Eu sou o entregador, se...se...senhorita – Ele fingiu gaguejar e riu.
Observei meu pai movendo-se no sofá atrás de mim. Fui para o lado de fora e fechei a porta de madeira.
– Adriano, você não cansa de me perturbar?!
– Olha, a senhorita sabe o meu nome... — ele ironizou. — Desculpe, eu estou trabalhando na lanchonete agora.
E entre todas as lanchonetes da cidade eu escolhi justamente essa. Parabéns para mim.
– E aí, como nós somos amigos, eu pedi ao meu chefe trinta minutos de folga para eu poder te acompanhar no jantar.
Respirei fundo e pensei em todas as coisas boas que existem no mundo.
– Espere um minuto – eu disse tomando a sacola da sua mão, entrando na casa e deixando-o do lado de fora.
– Não esquece a grana! — Ele gritou do outro lado da porta.
* * *
Vinte minutos haviam se passado. Estávamos sentados no pequeno lance de escadas em frente a porta.
– E por que seu pai não te deixa voltar para casa? — Adriano me contou de todo o seu drama em conseguir algo para comer naquele dia.
– Não é a primeira vez que eu o decepciono – ele falou rindo de um jeito triste. — A minha mãe sempre dá um jeito de fazê-lo me aceitar de volta, mas acho que dessa vez o coroa se zangou mesmo.
– E com razão, não é?
– Você está aqui para me julgar, é, garota? Jesus já disse, só me julgue, se for capaz de contratar um advogado.
Eu ri.
– Dá pra ver que você anda lendo a Bíblia.
– Oito horas por dia.
Por mais irritante e insuportável que ele fosse, ele me fazia rir como ninguém tinha feito há muito tempo.
– E você não tem nenhum amigo, pra te ajudar durante uns dias?
– Não – ele disse balançando a cabeça.
– Nem eu – sussurrei.
– Você poderia ser minha amiga. — ele falou cheio de convicção.
– Sério? — duvidei. — Não sei se sou tão masoquista assim.
– Você sabe que eu não sei o que significa essa palavra. Mas eu posso te ajudar com lições de assobio sinfônico. E você me dá comida quando eu precisar. Feito?
Eu não tinha nada a perder mesmo...
– Feito — nós apertamos as mãos. Ele não quis soltar a minha. Deixe-a lá.
– Você quer ir à igreja no domingo – quebrei o silêncio.
– Talvez eu vá – ele riu de canto, me olhando nos olhos. — Segunda eu passo por aqui, garota ventania.
Eu ri. Ele largou minha mão, subiu na moto velha e se foi. No domingo esperei por ele durante as duas horas que o culto durou. Mas ele não foi.
– Esperando alguém? – meu pai perguntou quando a igreja já estava quase vazia e eu ainda olhava para a rua.
– Mantendo a esperança.
No dia seguinte, esperei por Adriano na porta. A que ponto você chegou, hein, Brisa?, pensei. Minutos depois, um garoto despontou na esquina. Ele trazia a mochila presa ao ombro por apenas uma alça. A calça caída, a blusa da farda era tudo, menos branca. E seu cabelo dava a impressão de que ele acabara de acordar e não se dera ao trabalho de olhar-se no espelho. E nos lábios? Um sorriso de canto. Lá vamos nós.
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