Notas iniciais
500 anos luz. Está aqui o capítulo da linda Jenifer. Espero que gostem, eu gostei! :)

Eu estava sozinha.

Meus passos ecoavam pela rua silenciosa e deserta. O sol esquentava a tarde de domingo, fazendo o percurso parecer maior do que realmente era. Já fazia quatro semanas desde o incidente que me deixara com três costelas fraturadas. Com a ajuda divina nenhum órgão havia sido perfurado, e depois de bastante repouso e medicamentos para dor eu estava praticamente curada.

Mas meu peito ainda doía...

Respirei fundo e conferi o horário em meu celular; já estava ficando mais tarde do que imaginara. Apressei meus passos caminhando para um lugar que eu pensei que nunca mais voltaria, nem mesmo no meu pesadelo mais obscuro. Mas é assim que a vida é: sempre te pegando de surpresa.

Por exemplo, eu sempre imaginei que num dia como esses eu estaria no aconchego da minha casa, preparando o almoço e sendo importunada por um certo alguém que eu meio que odiava meio que não conseguia viver sem.

Mas agora eu estava sozinha.

A dor no meu peito aumentou.

Já era muito tarde para voltar atrás, lembrei a mim mesma. Querendo ou não, eu já estava presa nisso, não importava se tinha alguém comigo ou não. Eu estava sozinha no começo de tudo, afinal, a sensação não era nova. Se eu conseguira ficar por conta própria por todo aquele tempo, certamente conseguiria agora.

“Ainda assim…”, murmurei para o nada.

Você bem que podia ir atrás dele fazê-lo sofrer por deixar uma dama enfrentar o perigo sozinha...

– Esquece o idiota! — gritei pro nada.

Desliguei o cérebro determinada a não me preocupar com nada até que chegasse ao meu destino. Focaria unicamente no som da minha respiração e nos movimentos dos músculos dos meus pulmões e do meu diafragma...

Inspira, expira.

O que fazer quando chegar lá? O que eu queria exatamente?

Inspira, expira.

Estou fazendo a coisa certa? Ou apenas me torturando ainda mais?

Inspira, expira.

Eu devia estar fazendo sozinha no fim das contas?

Inspira, expira.

O que eu acho que vou ganhar com isso? Arrumar o passado? Conseguir uma segunda chance para mim? Para os outros?

Inspira, expira.

Será que ainda há esperança? Ou será que essa pequena parte morreu junto com a minha mãe?

Inspira, expira.

E se eu estiver errada?

Inspira, expira.

Inspira, expira.

Inspira, expira.

Parei ofegante. Apoiei as mãos nos joelhos, o coração acelerado, os músculos protestando com o exercício inadequado para o meu corpo ainda se curando, os pulmões pressionando minhas costelas recém-recuperadas, o cabelo caindo nos olhos, o rosto úmido de suor.

Limpei a testa com as costas da mão e me endireitei.

Era apenas um ponto aleatório de uma pista.

Apesar de o tráfico ser praticamente nulo por se domingo, me abstive em me agachar no acostamento. O Sol quente fazia o ar tremeluzir por cima do asfalto. Não havia destroços de carro, não havia sangue na pista, não havia luzes piscantes me cegando, mas eu conseguia reviver aquele momento sem sequer fechar os olhos. Se você me perguntasse eu conseguiria apontar o local exato onde eu caíra de joelhos e onde o corpo sem vida da minha mãe estava caído.

Eu não iria chorar.

Me sentei no chão quente, sem tirar os olhos do mesmo ponto fixo. Era inútil e sem sentido ficar ali, eu sabia. Aquele provavelmente nem era o mesmo asfalto de tanto tempo atrás. Mas era o único lugar que me levava de volta para aquela noite que, ao mesmo tempo em que me levara às profundezas do desespero, me resgatara da ruína e da decadência.

Me chame de masoquista, mas eu estava sem opções que me ligasse àquele dia... E a ela. Afinal, a Bíblia que eu carregava comigo já não existia mais.

– Por que eu sempre perco tudo? – perguntei para o nada, perguntei para o asfalto que não sabia de nada.

Eu não iria chorar.

Me sentia um pouco como Jó, que perdera tudo menos a fé, sendo castigada pelo calor do Sol e preferindo não existir a ter que passar por tudo aquilo.

– Era pra você estar aqui, mãe... – falei para o nada – Se eu não existisse você estaria. – falei para o asfalto que não sabia de nada.

Eu não iria chorar.

– Você devia ter me largado lá. Você devia ter ficado em casa pra tomar conta do seu marido. – reclamei – Sabia que ele é tão desajeitado que a única coisa que ele consegue fazer é miojo? E queimado ainda por cima! Ele... Ele... – ergui os olhos para o Sol que queimava o asfalto que não sabia de nada – Ele também é péssimo em dar conselhos amorosos! Eu nem tenho coragem de pedir ajuda a ele nesse sentido porque eu sei que ele vai tentar ameaçar todo mundo que chegar perto de mim, ou então subornar, eu não sei! – funguei, tirando o cabelo do rosto — Era pra ser você aqui, mãe! Que importava eu? Agora de que adianta eu estar bem se quando eu preciso de você eu não tenho? Eu não sei como tomar conta de um coração partido! Meu pai também não sabe! – fechei os olhos, não querendo olhar para as nuvens que cobriam o Sol que queimava o asfalto que não sabia de nada – Se ele estivesse aqui você ia entender... Ele é um idiota, convencido, arrogante, teimoso, que acha que só por saber o Salmo 23 de cor ele está pronto pra lutar no mano a mano contra demônios. Ele se acha o centro do universo e é um folgado, além de também ter essa mania irritante de fugir e se esconder, porque aparentemente nem mesmo a felicidade é merecedora dele. Ele é meio masoquista nessa parte, mas tem um bom coração. Você ia amar conhecer ele, mãe... – abri os olhos para o céu vazio, pro nada –... Mas você não vai.

Abracei meus joelhos e curvei minha cabeça.

Chorei.

“Mas Deus nos ensina por meio do sofrimento e usa a aflição para abrir os nossos olhos.”

Jó 36.15

***

– Existe algum tipo de curso de como ser incapaz de cozinhar algo comestível, ou é um dom que nasce com a pessoa mesmo? – olhinhos de cachorro pidão não iriam aplacar a minha fúria sobre quase cinco quilos de miojo queimado.

– Meu bem, veja só... – meu pai começou, as mãos erguidas sempre buscando paz.

– Isso é puro recalque! – Adriano interrompeu, apontado acusadoramente pra mim – Você tá com inveja porque não consegue fazer pratos humildes como nós!

Peguei um garfo e ofereci a ele.

– Coma! — ordenei.

Ele cruzou os braços, uma expressão de superioridade no rosto.

– Assim como o Mestre Jesus não bebeu do vinho que fez da água, não comerei da comida que fiz de um pacote de macarrão instantâneo. — ele recusou, brilhantemente estúpido.

– Ninguém vai comer esse miojo. — declarei.

– Ei, peraí! — Adriano protestou, indignado — Eu gastei mais de meia hora nesse miojo.

– Então não é de admirar que você tenha queimado tudo.

Meu pai entrou na parada, oferecendo uma trégua.

– Só queríamos ajudar, Brisa — sua voz era apaziguadora.

– Da próxima vez me ajudem sem causar um incêndio. — minha raiva tinha passado de destrutiva a massiva.

– Não é culpa minha, querida. Eu tentei impedi-lo, e disse pra ele te esperar. Mas ele é jovem e me venceu pela força... — a voz dele era sofrida.

Adriano deu um grito indignado.

– É assim que conhecemos a verdadeira face dos nossos líderes!

– Quer dizer que ele não te disse pra me esperar e você o convenceu ao contrário? — inquiri.

– Não, isso é verdade. Mas ele não tem nada que sair te contando...

– Fora da minha cozinha, Adriano! — gritei — Pai, você tá perdoado. — é, talvez olhinhos de cachorro pidão pudessem aplacar minha ira.

Me virei para jogar o macarrão queimado fora e preparar algo rápido e comestível. Os dois se retiraram como homens que voltam do campo de batalha, um derrotado e outro vitorioso.

– Ao menos eu fui absolvido. — meu pai parecia voar.

– É, mas a custa de uma vida inocente, Pastor Calebe! — Adriano parecia caminhar para a forca.

– Ela não vai te matar, só vai fazer um pouco de pressão psicológica...

– Na minha terra natal chamam isso de matar.

Rolei os olhos para eles, bobos que insistiam em me agradar.

***

Depois do almoço os bravos soldados me deixaram sozinha pra lavar a louça.

Suspirei em meu lugar. As mãos molhadas e a mente viajando solta. Não pude evitar ficar triste mais uma vez, a lembrança da morte da minha mãe fechando o punho em meu coração novamente. Contar tudo para meu pai (e para Adriano) havia tirado um grande peso dos meus ombros, ter o seu perdão era um alívio quase imensurável.

Mas meu peito ainda doía.

– Brisa. — a voz do estranho que semi-habitava minha casa me tirou dos meus devaneios.

– Oi. — espantei o olhar triste e me virei pra ele.

– Nada, esquece. — ele enrolou.

– Fala logo. — rolei os olhos.

– Depois eu falo. — sua voz era pensativa.

– Desembucha, Adriano! — tirei as mãos da louça e me aproximei dele.

– Já disse que não é nada, é só que... — ele desviou os olhos para seus pés e para mim novamente — Eu sinto muito pela sua Bíblia. E sua mãe também. Ainda não tinha te dito isso.

– Não precisa sentir, Adriano. — suspirei.

Ele se irritou.

– Não seja estúpida. Você estava chorando mais cedo, não estava? — olhei para o chão, e minha expressão deve tê-lo acalmado um pouco — Olha, — ele suspirou e pegou uma das minhas mãos molhadas nas suas — eu sei que não sou a melhor pessoa do mundo, mas eu sou humano o bastante pra perceber quando alguém está passando por problemas, e pra ajudar quem precisa de mim.

– Eu sei, Adriano. — tranquilizei-o.

– Se você precisar de mim, a qualquer hora do dia ou da noite, você sabe onde me encontrar...

– É, sei, no meu sofá.

– E Brisa, — ele continuou, ignorando meu comentário — Se algum dia eu fizer algo que te deixe com muita raiva, ou confusa, tenha certeza que eu só tenho o seu melhor em mente.

Ele deu um aperto firme na minha mão antes de sorrir tristemente, se virar e sair.

“Eu lembro da minha tristeza e solidão, das amarguras e dos sofrimentos. Penso sempre nisso e fico abatido. Mas a esperança volta quando penso no seguinte: O amor do Senhor Deus não se acaba, e a sua bondade não tem fim. Esse amor e essa bondade são novos todas as manhãs; e como é grande a fidelidade do Senhor! Deus é tudo o que tenho; por isso, confio nele. O Senhor é bom para todos os que confiam nele. O melhor é ter esperança e aguardar em silêncio a ajuda do Senhor. E é bom que as pessoas aprendam a sofrer com paciência desde a sua juventude. Quando Deus nos faz sofrer, devemos ficar sozinhos, pacientes e em silêncio. Devemos nos curvar, humildes, pois ainda pode haver esperança.”

Lamentações 3.19-29

Notas finais
Se tudo mudou, eu abro as velas da embarcação, na esperança que pela manhã avistarei o porto onde te encontrarei. (Esperança-Os Arrais) *** Saudades de vocês, lindas pessoas. Comentem!!! A felicidade está em jogo. (Link da música citada abaixo) https://www.youtube.com/watch?v=fax4q0p92c0