Notas iniciais
Cara... Esse deu trabalho. Rendeu muita briga entre mim e a (idiota) linda da Jenifer. Espero que gostem. Espero do verbo 'Vocês são obrigadas a gostar'! Beijos, eu e Jenifer.

A verdade é que eu ainda estava pensando no beijo.

É, me julgue por isso, me chame do que quiser e me condene. Me rotule como insensível e interesseiro por continuar pensando naquilo depois de tudo o que a pobre garota tinha passado, mas essa era a verdade.

Enquanto seguia os corredores em direção a elevador o alívio por vê-la acordada e mentalmente estável (na medida do possível) veio a tirar a tensão que vinha se acumulando em meus ombros. Eu estava tão feliz que nem conseguia mais ficar com raiva dela. Então sim, minha mente continuava voltando pro bendito momento que eu decidi fazer algo sem pensar. Não que isso fosse novidade pra mim, mas daquele vez eu tinha merecido o título de ‘idiota’. Sim, eu gostei e provavelmente faria tudo de novo se tivesse a chance, mas eu pelo menos podia admitir que aji de forma imprudente.

Eu sabia que devia ter dado flores primeiro...

Vê-la inconsciente e frágil, por outro lado, me fez sentir uma espécie de comoção misturada com um grande senso de proteção. Depois de ver o seu rosto belo e pacífico durante o coma sono, e ainda assim machucado e contundido, deitado no travesseiro fino e gasto e rodeado por uma aura de éter, eu não podia deixar de pensar em como tudo aquilo me parecia errado, como se aquele lugar, cheio de produtos químicos, fosse o lugar mais inapropriado para alguém como ela. Como se meu dever no mundo, meu dom dado por Deus, fosse o de proteger e cuidar unicamente daquela garota.

Aquela garota que era preciosa demais para mim.

Então sim, nada mais natural do que pensar no beijo naquele meu momento de devaneios.

E havia outra coisa na minha cabeça. O que diabos aquela garota tinha aprontado. Eu não via Brisa machucando uma mosca, quanto mais uma pessoa. Sua mãe!

Ás vezes o indivíduo está louco na droga...

Eu ainda estava pensando no beijo, mas a verdade é que eu não queria pensar. Não queria ficar obcecado com algo que obviamente não significara nada para ela quando era óbvio que havia muita coisa que ela tinha passado ao ouvir Larissa dizer todo tipo de coisa pra ela. Apesar do médico assegurar que ela estava perfeitamente bem, não podia deixar de me preocupar com algum tipo de lesão grave no cérebro.

Eu não queria pensar no beijo. Não depois de ver aqueles olhos cheios de lágrimas e ouvir sua voz rachar como vidro. No entanto, os corredores silenciosos apenas me deixavam com a mente mais ociosa ainda, permitindo que eu tivesse os pensamentos mais aleatórios possíveis.

Corredores silenciosos...

Péra, se esse é um hospital como podem haver corredores silenciosos?

Parei. Olhei em volta.

Corredores silenciosos e vazios.

Murmurei algo e apertei o passo.

***

Aqui vai uma pequena informação que você talvez não saiba.

As sombras gostam de brincar.

Seja por elas estarem inteiramente entediadas ou seja por conta das suas mentes serem completamente malignas e sádicas, elas nunca se cansam disso.

Elas brincam tanto que depois de um tempo você já reconhece os jogos favoritos delas, e até consegue brincar em alguns.

Mas você nunca consegue gostar deles.

***

Clichê. O botão do elevador não funcionava.

Clichê. Qualquer espécie de som — leia-se alto-falantes e/ou pessoas se aproximando se tornara inexistente.

Clichê. As luzes começaram a piscar freneticamente.

Tudo clichê. Creio que todos vocês já tenham uma ideia do que acontece em seguida.

Eu posso soar bravo e destemido, mas eu confesso que estava quase tendo um ataque do coração. Continuei apertando o botão freneticamente, sem me preocupar com um possível processo por danos ao patrimônio público. O suor descia frio pela minha nuca e minha testa. O elevador se recusava a se mover.

Agora não. Agora não. Agora não.

A última luz do corredor se apagou. Meu coração pausou uma batida. A temperatura caiu. O ar deixou meus pulmões.

As sombras começaram a se arrastar. Lentamente, quase como uma cobra que rasteja sinuosamente em direção à presa. Pelo chão, pelo teto, pelas paredes, como tinta que cai no chão e se espalha, exceto que aquilo não era tinta, e que certamente não tinha boas intenções. Eu sabia o quão veloz elas podiam ser se quisessem, mas elas pareciam contentes em aproveitar seu tempo. Provocando, degustando cada segundo do meu terror silencioso. Interessadas em saber quanto tempo levaria para eu cair de joelhos e começar a chorar dessa vez.

Mais uma luz se apagou.

Não seria muito, eu tinha certeza.

E então mais uma...

Nunca era.

Fiz uma prece apressada, sem ao menos articular as frases corretamente, sussurrando em um frenesi atordoante. Um calafrio desceu pela minha coluna e o calor deixou minhas mãos, como se garras invisíveis e impossivelmente geladas envolvessem meus pulsos.

Engoli em seco. Talvez dessa vez elas não fossem apenas brincar, mas me por de lado definitivamente, como uma criança que cansa de brincar com o mesmo brinquedo de novo e de novo.

Meus sussurros ficaram mais altos, mas ainda não havia sentido algum em minhas palavras.

Justo nesse momento as portas do elevador se abriram como num ato da Divina Providência e eu me joguei pra dentro do compartimento, meu olhar nunca deixando a escuridão que se alastrava lentamente. Elas não aparentavam preocupação em perder a presa.

Foi quando as portas se fecharam que eu me toquei.

Malditas. Me fizeram cair direitinho…

As luzes se apagaram por completo, e qualquer sensação que se assemelhasse ao calor junto com elas. O ar pesou e meus pulmões clamaram por ar puro, mas eu sabia que não haveria nenhum ali dentro.

Ainda assim, ventava. Não havia ar, apenas o vazio que me acertava de novo e de novo. Me abrindo, me dilacerando, me arrancando da minha casca e me deixando nu aos seus ataques.

Mas eu não precisava cair dessa vez certo? Eu poderia estar no controle se quisesse, poderia dar o controle para outra pessoa. Alguém maior do que eu.

Ergui os olhos contra a loucura que me cercava e olhei através dela.

Cerrei os dentes com força. Seria a minha força de vontade contra a delas.

Eu posso fazer isso. Eu posso fazer isso.

Mas então uma mão congelante agarrou o meu peito e eu vi.

Vi o que todo mundo via quando me olhava. Vi o que restava de mim quando a máscara caia e eu era revelado. Vi a mim mesmo sem defesas, sem maquiagens. Vi a criatura horrenda e desprezível que eu era.

Eu me odiei.

Eu aceitei o fato de que tudo o que haveria seria o frio e a escuridão, até que elas cansassem de brincar.

Chove aqui dentro, chove lá fora. Não pararia nunca de chover.

Tudo, tudo está ao meu redor. O vazio está ao meu redor.

Caí de joelhos e chorei.

***

– Pastor Calebe?

– Aconteceu alguma coisa com ela, Adriano? — o pobre homem pareceu que ia ter um ataque cardíaco.

– Não, não. — tranquilizei-o — Está tudo bem, ela acabou de acordar.

– Mesmo? Ela está bem?

– Sim, senhor. Ela pediu pra falar com o senhor. Parece que ela tem algo pra lhe contar. Não entendi muito bem…

– Tudo bem. Já acabei de almoçar mesmo. Vou subir agora. — o alívio era visível na expressão dele — Por um momento seu rosto me fez pensar no pior.

Esfreguei uma bochecha, tentando fazer o gesto parecer o mais natural possível. Dei de ombros, como se meus olhos vermelhos e meu rosto abatido fosse uma consequência natural das mudanças climáticas. Ele aparentemente não comprou essa.

– Aconteceu algo?

Baixei os olhos.

– Não senhor, não aconteceu nada.

Um momento de silêncio.

– Sabe que pode falar comigo sobre o que quiser, filho…

Dei um sorriso amargo.

– Sim, senhor.

– E acho que devia saber que estou contente por minha filha encontrar um amigo leal como você.

Sem dúvidas aquilo era pra ser um elogio, mas senti como se elas esfaqueassem meu estômago.

– Obrigado senhor.

– Então, você vem também?

Olhei para o nada.

– Vou num instante. Acho que vou beber alguma coisa antes.

Ele sorriu.

– Estaremos esperando.

***

Eu não voltei lá.

Me chame de covarde ou de imbecil. Me julgue e me condene, você provavelmente está certo.

Mas eu não pude voltar.

Se era verdade que minha missão terrena era proteger a garota tempestade então eu teria que garantir que ela se afastasse de qualquer companhia destrutiva, e era nessa categoria que eu me encontrava.

Então eu seguiria o conselho dela e me afastaria.

Fora uma decisão bem simples. Reforçada pelos últimos acontecimentos.

Mas eu continuava pensando no beijo.

Continuava pensando na sensação dos lábios dela sob os meus e me sentia como um garoto de doze anos depois de beijar uma garota pela primeira vez.

Fora uma decisão bem simples, mas ainda me matava do mesmo jeito.

Porque eu a quero. Quero-a com a benção de Deus e com a benção dos homens. Quero-a ao meu lado, lendo passagens bíblicas para mim. Quero-a comigo, para compartilhar com ela o resto dos meus dias. Quero que a luz que ela carrega dentro de si penetre bem fundo em minha alma até que eu esteja limpo. Quero que o meu ser seja preenchido com aquele brilho. Mas eu sei que o buraco negro dentro de mim irá devorar aquela luz lentamente até que não reste mais nada.

Eu não posso matar aquela luz.

Ai Jesus, eu estava parecendo protagonista de um romance adolescente barato.

Suspirei. Me joguei no banco da pracinha em frente ao hospital e ignorei a dor lancinante no peito.

A vida é uma droga mesmo.

Abri a caixa de cigarros que comprara na venda da esquina e acendi um. O gosto da nicotina já era estranho pra mim, mas familiar o bastante pra acalmar meus nervos. Precisaria de algo mais forte mais tarde pra me acalmar completamente, mas por enquanto aquilo bastava.

Soprei a fumaça. A mão que segurava o cigarro ainda tremia devido à recente experiência.

Aquele pesadelo não acabaria nunca, não é mesmo?

Eu estaria sempre fugindo, sempre brincando de esconde-esconde e pega-pega sozinho, sempre sendo atormentado e perseguido por aquelas coisas malditas.

Eu não tinha dúvidas de que sem ela eu voltaria ao meu estado inicial em menos de um mês, mas eu não poderia arrastá-la para esse redemoinho.

Eu não me perdoaria se eu o fizesse.

***

Veja como é fácil destruir tudo pelo que você lutou.

Três meses sem tocar em um copo de bebida. Sem cheirar nenhuma droga. Sem retocar nenhuma das tatuagens escondidas pela camiseta larga. Três meses negando quem eu era e quem eu nunca deixaria de ser.

E tudo por causa de Brisa. Que me fez ser melhor. Ou ao menos me ensinou a fingir ser.

Eu deveria ao menos me despedir. E dar um jeito de sumir desta cidade. Desaparecer dessa droga de mundo. Dar um jeito de não envolver mais ninguém nessa bagunça.

E então, lenta e gradualmente, eu iria me afastar.

É isso o que eu vou fazer.

Não tem como voltar atrás com uma decisão tão certa como essa.

Esmaguei o toco do cigarro debaixo do tênis.

Notas finais
Ei, se você não comentar, vou na sua casa te atormentar por um mês até que você comente. Ou ligue para a polícia para me tirarem de lá. O que vier primeiro.