Notas iniciais
Pessoas que leem, este é um capítulo diferente. Além de estar imenso de grande. Me digam o que acharam. Beijos, Eu.

Tenho que admitir que foi muito satisfatório ver Brisa corar como um tomate maduro quando Gigabyte deu entender que nós dois tínhamos algo. Ter Brisa por perto era uma sorte enquanto ela pagava lanchinho e me ajudava com as coisas da escola. Mas quando ela resolveu arrumar um quarto totalmente de cabeça para baixo, eu realmente pensei em deixa-la sozinha com toda aquela bagunça.

– Nem adianta tentar fugir, Adriano! – ela gritou comigo. – Pode levar essa roupa para a lavanderia.

Olhei para a mini montanha na minha frente.

– Nem vem, tenho medo de ácaro. Aqueles monstrinhos da aula de biologia me dão nojo.

– Falou o garoto que não toma banho.

– Eu não sou alvo da discussão aqui.

– Eu não vou levar. Tenho medo que saia um rato daí.

– E eu sou sedentário demais – Giga gritou, lendo outra revistinha.

– Só há uma alternativa justa – os dois me encararam. — Pedra, papel e tesoura.

Brisa sorriu debochadamente. Giga se animou com a ideia e rapidamente contou até três.

A Brisa deveria simpatizar com as pedras, já que ela é uma, por isso joguei papel. Tamanha foi a minha surpresa quando ela fez uma tesoura com a mão. Giga tinha um sorriso no rosto e os dedos posicionados de uma forma que eu nunca vira antes.

– O que é isso, cara?

– Spock – ele disse sorrindo. — Tesoura corta papel. Spock derrete tesoura. Eu fico aqui numa boa e vocês trabalham.

– Nem pensar! — lá vinha Brisa com aquela ditadora interna. — Adriano leva as roupas, eu tiro o lixo e você, futuro chefe, organiza todos esses papéis.

– Por que tudo sobra para mim? – reclamei.

– Vai, vai – Brisa me expulsou, jogando as costas das mãos para cima e para baixo.

Será que eu mereço isso? Atravessei a cozinha e fui para a lavanderia onde a mãe do Giga se encontrava.

– O David está arrumando o quarto? – ela perguntou espantada.

– Sim, senhora – eu respondi.

– Acho que vou chamar você mais vezes para virem aqui – sua mãe sorriu jogando a cabeça para trás. – Pode deixar aí no canto, querido. Obrigada.

– Por nada, senhora.

Virei e me deparei com Brisa sorrindo.

– Por um momento, você pareceu até civilizado – ela sussurrou enquanto eu passava ao seu lado.

– Eu sou sempre civilizado, tá legal?

***

Depois de varrer, polir e perfumar o quarto de Giga, nós fomos para casa. A mãe do garoto parecia ter até lágrimas nos olhos quando viu nosso trabalho. Brisa estava satisfeita, e partiu muito sorridente dali.

– Bom trabalho, baixinha.

– Nem vem...

– Vai me chamar para jantar na sua casa hoje?

– Nem pensar.

– Vai me deixar sozinho?

– Vai dar uma de dramático agora?

– Ótimo, não preciso da sua piedade.

– Está de volta, o velho e orgulhoso Adriano – Brisa brincou.

Andamos em silêncio durante um tempo. Aquilo me incomodava. Mas eu não conseguia parar de pensar. Todos tinham alguém para passar aquela noite. Giga tinha a família perfeita. Brisa tinha o pai. E eu estava sozinho.

– Desculpa – Brisa me tirou do meu devaneio. — Você ficou com uma expressão tão triste de repente... Você pode ir jantar na minha casa, se quiser.

– Não, menina Brisa – eu sorri, bagunçando seus cabelos curtos. — Eu me viro.

Voltei para meu velho casarão. Se brisa visse aquela bagunça iria considerar o quarto de Giga um exemplo de organização. Bati a porta ouvindo o eco repercutir pela casa vazia de sons. Segui até o ultimo quarto passando pelas portas de quartos vazios.

Vazio é tudo o que há. Porque quando eu olho ao meu redor tudo o que eu vejo é o vazio que me cerca. O silêncio me consome e não há mais nada dentro de mim, apenas outro vazio.

Vazio aqui dentro. Vazio lá fora.

Porque não há mais nada. Nada para dizer, nada para pensar. Nada para sentir.

Eu queria me sentir em paz, apenas uma vez me sentir completo, mas dentro de mim habita um silêncio devorador, vazio infinito. Não me resta mais nada, nada para preencher esse buraco negro interno que suga tudo ao seu redor e continua vazio.

Chove lá fora. Chove aqui dentro, nessa casa velha cheia de pingueiras. Corro pelo quarteirão. Mas quando a chuva atinge o meu corpo não faz nada além de molhar. A água não alivia os meus ombros doloridos, não relaxa meus músculos tensos, não clareia os meus olhos e nem lava a minha sujeira. Não mata a minha sede.

O vazio me cerca, não tenho como preenchê-lo. Não há como preenchê-lo.

Estou convicto disso.

Não tente me convencer do contrário.

***

– Bom dia! – Brisa me recebeu com um sorriso. Bom humor, finalmente.

– Oi.

– O mundo parece meio ao contrário hoje...

– O que? — perguntei franzindo a testa.

– Você parece péssimo.

– Não dormi bem.

– Ah, eu tive uma noite ótima!

– Isso é problema seu.

– Ei, Adriano, eu estou brincando – ela pareceu preocupada. — Há algo em que eu possa ajudar?

– Creio que não – minha voz soava seca.

Eu não estava bem. Depois de correr na chuva eu voltei para casa encharcado e não consegui dormir com aquele sentimento estranho em mim.

Brisa me olhou angustiada. Eu criara uma nuvem densa e inconveniente entre nós e eu deveria fazê-la desintegrar.

– Você já recebeu uma mensagem de Deus? – perguntei a primeira coisa que me veio a cabeça.

– Já. – ela respondeu depois de pensar um pouco.

– Como foi?

– No dia em que você me deu a Bíblia de volta. – contou – Eu entrei em casa e vi que meu pai tinha queimado o miojo...

– Mensagem estranha. – murmurei.

– Deixa eu acabar! – ela resmungou – Eu arrumei comida pra gente e ele aproveitou pra fazer um sermão...

– Espera, ele queimou a comida e te passou um sermão?! Que injustiça!

– Sermão pastoral, Adriano! Eu já lhe expliquei isso, não se faça de idiota! – ela já estava irritadinha, vi a nuvem desaparecer e o mundo voltar ao normal – Enfim, o fato é que depois que eu subi para o meu quarto ele me chamou e pediu que eu lesse o texto do bom Samaritano na Bíblia – ela se preparou para contar a história. — Um mestre da lei, metido a sabichão perguntou a Jesus como conseguir a vida eterna. Jesus sabiamente respondeu que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Daí o cara perguntou quem seria o próximo.

– A pessoa seguinte na fila.

– Engraçadinho. Jesus contou a tal história: Um homem saindo de uma cidade foi assaltado. Os bandidos levaram tudo o que ele tinha, o espancaram e deixaram-o na beira da estrada.

– Levaram até a roupa do cara?

– Até a roupa. Eis que vem passando por aquela estrada um pastor de uma igreja qualquer. Ele viu o rapaz quase morto e decidiu viajar do outro lado da estrada. Pelo mesmo caminho vinha um membro do ministério de louvor da igreja, que, vendo o homem naquela situação repetiu o que o pastor fizeram.

Esse pessoal da Bíblia era bem parecido com tipo de pessoa existe hoje.

– Então, veio passando na estrada um samaritano, esse povo e os judeus que passaram por ali não se davam bem. Vendo o homem ficou com muita pena, limpou suas feridas e depois levou-o para uma pousada onde ele pudesse descansar. O samaritano deixou a conta paga e alguém para cuidar do doente.

– O que isso tem a ver com o próximo?

– Na sua opinião, quem foi o próximo do rapaz assaltado?

– O carinha que o ajudou.

– Exatamente. O próximo é aquele que ajuda o necessitado. Não precisamos olhar quem estamos ajudando, se seremos retribuídos, se receberemos agradecimentos, glória ou elogios. Devemos ajudar somente pela alegria que é abençoar outra pessoa.

– Então foi isso o que você viu em mim no dia seguinte? Um pobre garoto moribundo?

– Não. – ela respondeu – Eu vi alguém precisando de ajuda. Vi uma alma precisando de Deus.

Fiquei calado.

***

– Você já orou? – ela me perguntou quando estávamos em sua casa estudando.

– Não – respondi rapidamente.

– Quer tentar? – seus olhos brilharam.

– Acho que não consigo. – respondi dando de ombros.

– Besteira. É claro que você consegue, eu te ajudo. – ela se aproximou e fechou os olhos – Feche os olhos também. Comece.

Respirei fundo. Quando ela metia uma ideia na cabeça não tinha quem tirasse.

– Vou querer uma recompensa em troca.

– Feche logo esses olhos.

Fechei–os.

– Deus... – comecei – Eu devo usar algum título? Majestade, Vossa Excelência, Vossa Divindade ou algo do tipo?

– Deus está ótimo. – ela garantiu.

– Então tá... Deus. — fiquei um momento em silêncio pensando no que dizer — Oi, aqui é o Adriano. Prazer em conhecer Vossa Majestade. Err, vossa excelência, quer dizer, Vossa...

– Você.

– Você?

– Você.

– Tá bom. Prazer em conhecer Você. – fui entrando lentamente em pânico — É... Bem... É minha primeira vez fazendo isso, então... Eu nem sei bem o que fazer agora.

– Fale o que quiser falar. – Brisa me socorreu – Você pode agradecer por algo, pode pedir algo, ou simplesmente dizer algo.

– Certo. Então... Deus... Eu sei que eu não sou a melhor pessoa do mundo...

– Não mesmo. – ela murmurou

– Cale a boca, estou orando... – abri os olhos rapidamente e vi que ela sorria — Eu sei que eu não sou a melhor pessoa do mundo, mas eu vou tentar mudar... Então seria ótimo se o Senhor pudesse me ajudar... – continuei e franzi as sobrancelhas — Eu posso falar ‘Senhor’?

– Pode. Vai seguindo.

– Ah, certo... Então Deus, se você não fulminar Brisa com um raio nas próximas 24 horas eu vou entender que esse é um sinal pra eu aturar ela o resto da minha vida... Então... Valeu aí... Tchau, até a próxima... É nóis... Brisa, o que eu faço agora?

– Não digo... – ela fez birra.

– Tá, me perdoe, agora me ajuda aqui...

– “Em nome de Jesus, amém.” – ela soprou.

– Certo... Em nome de Jesus, amém. – abri os olhos – Pronto.

– Ótimo! – ela aplaudiu – Você foi muito bem!

– Acha que Ele ouviu? – perguntei.

– É claro que Ele ouviu. – ela disse – Ele sempre ouve.

***

Brisa me deu uma Bíblia. Quando fomos até a porta de sua casa ela me entregou uma novinha e disse que esse era o meu manual de sobrevivência, que com ele eu poderia ter um relacionamento sólido com Deus.

Sim, eu estava interessado nela. Mas esse lance do meu coração virar uma escola de samba quando chego perto dela não foi planejado. E agora ela me dá um presente. Eu não posso dar nem uma bala para ela. Claro, ela tinha minha presença agradável, mas... Não era suficiente.

Afastei os pensamentos e peguei a Bíblia. Levantei a capa de couro preto onde estava escrito Bíblia Sagrada em letras douradas. Passei os dedos sobre a dedicatória recém-escrita. Da sua amiga Brisa. Leia tudo o que está aqui, Adriano. Isso é uma ordem!” Abri em uma página qualquer.

Era crepúsculo, o entardecer do dia, chegavam as sombras da noite, crescia a escuridão”.

Provérbios 7:9

Olhei pela janela do velho casarão e vi a escuridão dar lugar às luzes.


***

Ao meu redor. Tudo está ao meu redor. O pânico da noite anterior voltara.

Odeio ficar sozinho, me dá espaço para pensar, para refletir. E é aí que eu percebo quão altas são essas paredes que me cercam.

Tento visualizar as imagens que ela descreveu para mim. Tento imaginar eu mesmo me libertando dessas correntes, mas não dá.

Tudo, tudo está ao meu redor.

Me cercando, me asfixiando, me pressionando até que não haja mais nenhum ar em meus pulmões.

Não tem mais jeito pra mim.

Não consigo alcançar a voz dela. Não consigo chegar até lá.

Não consigo nem orar.

Elas me cercam e tiram meu ar. Me lembram de tudo o que sou, tudo o que tenho sido.

Ao meu redor, tudo está ao meu redor.

Notas finais
Muito estranho? Muito tenso? Muito "eu não quero mais o Adriano"? Conversem comigo sobre. Não me deixem no vazio, vazio, vazio. #Ok,parei #kisses #Pareicomashashtags