Between earth and heaven
2 Reabrindo Feridas
Eram 6:30 da manhã quando acordei com o despertador gritando no criado mudo ao lado da minha cama, em um movimento rápido eu o silenciei, ainda não havia nem abertos os olhos quando me veio a cabeça que hoje era o primeiro dia de trabalho do novo jardineiro que não me parecia nem um pouco confiável.
Já estava de pé, era quase a hora de acordar a pequena Hany, só precisava fazer uma rápida ligação antes, queria pedir ao Chefe Thompson o dia de folga para poder avaliar o trabalho de Patch, e para ter certeza que nada daria errado, eu com certeza não confiava nele sozinho na minha casa.
– Sr. Thompson, desculpe pelo pedido assim tão em cima da hora, mas eu realmente preciso fazer isso, obrigada por entender a situação! –
–Tudo bem, Srta. Blay, apenas tome cuidado, pelo que me falou esse Patch Cipriano não parece nem um pouco confiável, se precisar não deixe de me ligar, hm? –
Feito isso me dirigi ao quarto de Hany para acordá-la, a pequena tinha um sono profundo e com uma expressão serena, eu gosto de compará-la a um pequeno anjo, tanto por sua aparência, quanto por realmente cumprir o papel de um anjo em minha vida e não deixar que eu caísse quando tudo me foi tirado.
– Vamos pequena, hora de acordar... — Falei docemente enquanto puxava seu cobertor, ela mexeu-se de forma preguiçosa e então abriu os pequenos olhinhos negros como a noite, por mais que estivesse sonolenta, logo levantou e eu a preparei devidamente para a escola, eu ficava encantada como Hany era uma criança tão obediente e meiga.
Eram 10:30 quando o novo empregado chegou, eu estava preparando espaguete, o prato preferido de Hany, já fazia um tempo que só comíamos marmitas prontas devido a minha falta de tempo por conta do trabalho, com certeza ela ficaria feliz e satisfeita!
– Honnie, Bom dia! — Ele estava dando aquele sorriso canalha que combinava perfeitamente com ele – Não achei que a veria em casa por conta do seu trabalho — Balancei a cabeça em negação bloqueado qualquer gentileza da parte do dele, não parecia um jardineiro e isso só aumentava minha desconfiança.
Patch vestia uma blusa com mangas que cobriam por completo seus braços, um jeans escuro, o mesmo boné do outro dia e botas pretas, não que eu tivesse muito experiência, mas aquelas não eram roupas de quem praticava jardinagem.
– Suas roupas não parecem apropriadas para praticar jardinagem – Eu disse analisando o rapaz por completo, estava curiosa para saber qual desculpa usaria para vestes tão... Improprias.
– Ah, então partindo do seu ponto de vista, as habilidades de um jardineiro podem ser medidas por suas roupas? – Um sorriso cafajeste brincava nos lábios dele, e eu me senti uma completa idiota pelo pré-julgamento, e pelo meu comentário desnecessário. Com certeza não esperava que ele fosse me rebater daquela forma, e como eu não tinha uma resposta (e sabia bem quando eu estava perdendo, mesmo que uma guerra que só existia na minha cabeça), apenas dei de ombros.
O dia em si correu bem, na hora de sempre fui buscar a pequena na escola, tivemos um almoço bem animado, pois Hany ficou mais feliz e agitada do que eu imaginava devido a minha pequena surpresa, e isso me fez sentir extremamente satisfeita, acho que ver um filho alimentar-se tão bem quanto ela é o sonho de toda mãe.
Mais tarde decidi dar uma checada no trabalho de Patch, eu dizia a mim mesma que era para ter certeza de que minhas amadas flores estariam em boas mãos, mas lá no fundo eu sabia que queria algum motivo para criticá-lo, não aceitaria em hipótese alguma sair por baixo em meio aquele briguinha indireta, e não estava nem ligando se ele estava atento a isso ou não.
E assim os dias foram passando, em alguns momentos presenciei Patch e Hany conversando e construindo uma relação amigável... Amigável até demais a meu ver, e – Pode me julgar, eu sei que vai parece infantil e competitivo – aquilo não me parecia algo positivo, uma vozinha lá no fundo me dizia que Patch não era de confiança, e para completar perto dele toda aquela minha segurança... Ela simplesmente evaporava!
Na manhã de sábado, algo não me parecia certo... Estava tudo quieto, tudo calado, por algum motivo Hany não foi me chamar para leva-la a aula de Ballet, por sorte o despertador nunca falhou comigo.
Assim fui até o quarto da pequena para acordá-la, com certeza ela ficaria desapontada caso faltasse sua segunda aula. Em sua cama ela dormia profundamente, parecia sonha algo bom, pois sua expressão transmitia certa... Felicidade.
– Hany, querida, acorde – Eu disso entre risinhos – Sua segunda aula de ballet.
Ela mexeu-se a murmurou alguma coisa, logo abrindo o par de olhinhos negros que me fitavam, ainda pareciam estar sonhando – Mamãe... Eu sonhei com o moço do jardim – A voz dela era fraca e cheia de preguiça e eu tenho certeza que minha expressão acusou o quanto fiquei preocupada com o que a pequena relatava.
– Sonhou com Patch? Hm, querida, você tem conversado muito com ele, isso pode não ser muito bom... – Falei receosa – Mas, como foi esse sonho, querida ? – Perguntei tentando ter uma expressão mais leve.
– Ele disse que vamos ser amigos, e que tinha um grande segredo para me contar! – Meus olhos examinavam a pequena, em parte eu me sentia estranhamente ameaçada e assustada, mas aquela pequena parte dentro de mim que ainda permanecia sã sabia que não tinha que me preocupar, era só uma criança... Era só um sonho.
Então apenas resolvi deixar tudo pra lá, deixei Hany na escolinha de ballet na hora certa e me perguntava o que faria para matar as próximas duas horas enquanto a pequena estaria em aula quando meu celular tocou, era o Sr. Thompson.
– Olá, Sr. Thompson –
– Srta. Blay, hm, está ocupada? – Era a primeira vez que o Sr. Thompson me ligava assim, era uma das raras ocasiões que nos falávamos fora do escritório.
– Na verdade não, apenas esperando dar a hora de buscar minha filha –
– Oh sim, entendo... – Ele parecia meio ... Nervoso? – Será que podemos tomar um caf ? – Okay, isso era estranho, o Sr. Thompson sempre foi gentil, mas não tínhamos laços fora do trabalho.
– Hm, claro, seria... Bom – Acabou soando como uma pergunta.
Após isso combinamos o local, seria em uma pequena lanchonete que ficava alguns minutos de onde eu estava, então logo me dirigi ao lugar, era simples e cheirava a couro, talvez fosse por causa do revestimento dos bancos do local. O Sr. Thompson já estava lá, escolheu um lugar ao lado da janela, não era uma vista muito interessante, mas já era alguma coisa. Apenas me sentei em frente ao Sr. Thompson, não sabia o que dizer, mas lá estava eu.
– Então... Sr. Thompson ...- Comecei mas logo fui interrompida
– Pode me chamar de Dave fora do escritório – Disse ele com um sorriso encantador que faria qualquer mulher se derreter, já que ele era um homem jovem e atraente, responsável e dono da própria empresa. Dave Thompson era o total oposto de Patch, loiro de olhos claros, tinha uma educação e classe notável, vestia-se sempre com muita classe. Acredito que a única coisa que ele teria em comum com Patch, seria o fato de ambos serem altos – Mas Patch o vencia por alguns centímetros -
– Ah, tudo bem... Hã, Dave – Eu estava um tanto sem graça, chamar alguém pelo primeiro nome significava proximidade entre as duas pessoas, e eu não possuía uma relação assim com ele, na verdade não possuía uma relação assim com ninguém! – Então, desculpe perguntar, não quero que isso pareça grosseria da minha parte, mas porque me convidou? – Okay, eu sei que pessoas saem para conversar e matar o tempo, mas pessoas que já tem certa profundidade em seu relacionamento, o Sr. Thompson fora do trabalho, bem, eu não o conhecia.
Eu o fitava esperando que o elegante homem a minha frente me respondesse, ele estava com uma roupa social, como de costume – Bem Honnie – Ele deu uma risadinha que me pareceu um tanto que forçada – Espero que não se importe que eu a chame assim – Na verdade, eu me importava, mas não iria falar isso – Mas é que você me parecia realmente tensa nos últimos dias e pensei se não teria a ver com aquele novo empregado que contratou – Os olhos claros me fitavam, e quando pensei em responder a garçonete nos serviu dois cafés – Bem, espero que não se importe, mas pedi por você – Disse com o seu sorriso branco e totalmente certinho.
– Não se preocupe, está tudo bem, gosto do café assim... Simples – Não era mentira, eu realmente o preferia assim do que misturado com várias outras coisas que eu não fazia nem ideia que poderia se jogar no café, dei o primeiro gole que desceu queimando minha garganta, como estava frio, era uma sensação até boa – Bem, na verdade tenho me preocupado com Patch em relação a minha filha... Eles tem se aproximado ultimamente e isso me incomoda – Suspirei ainda mantendo o olhar sobre o líquido escuro contido na xícara em minhas mãos pálidas.
– Oh sim, entendo Honnie, mas e o pai da menina, não pode ficar com ela só enquanto o tal Patch está cuidando de seus serviços? – Assim como todos os outros, o Sr. Thompson não sabia que Hany não tinha pai, nem uma mãe biológica, apenas eu. Acho que pelo fato de ambas sermos asiáticas, as pessoas apenas deduziam que tínhamos elos sanguíneos.
– Sabe, é uma história complicada, entre Hany e eu ...- Falei em um tom pesado, acho que nunca havia falado sobre o assunto abertamente com ninguém.
– Parece que quer desabafar, Honnie, se quiser posso ser todo ouvidos – Por mais que não fossemos próximos, Dave passava certa segurança, certa... Confiança, e eu realmente, depois de quase cinco anos, precisava por para fora, como uma pessoa normal faria.
– Hany, ela não é minha filha biológica – Eu era o foco dos olhos claros, ele tomava alguns goles de seu café e balançava a cabeça em positivo para que eu prosseguisse – Hany é filha da minha melhor amiga, Jin... Nós éramos quase irmãs, crescemos juntas em um orfanato na Coréia do Sul e viemos até aqui em busca de recomeçar, até nossos nomes nós mudamos – Agora eu dava um breve sorriso pensando nas loucuras que já havia feito na companhia de Jin.
– Oh, e como era seu nome antes, Honnie? – Dave também estava com uma expressão sorridente e curiosa.
– Eu me chamava Im Yoon Ji, eu sei que para vocês Americanos é um nome estranho, e esse foi um dos motivos pelo qual nós trocamos, ela era Choi Jin-Ah – Mais um sorriso nos lábios carnudos do loiro – O outro motivo foi que tínhamos em mente que para uma vida nova, deveríamos renovar tudo, até nossos nomes – Neguei com a cabeça pela nossa ingenuidade na época – E assim conseguimos uma casa, a casa perfeita para nós duas, na verdade estava por um preço ótimo por ser em um lugar afastado da cidade. Foi então que aconteceu – Agora direcionei meu olhar para a xícara meio cheia em minhas mãos – Jin se apaixonou, eu nunca conheci o homem, mas ela sempre falava do quanto ele era maravilhoso, de desse ‘’amor’’ surgiu Hany, assim que o homem soube da criança, simplesmente desapareceu, mas Jin não tinha raiva dele e nunca fui capaz de entender isso – Essa não, meus olhos estavam começando a marejar, só que eu não podia parar de falar, não agora – Algumas semanas depois que Hany nasceu, ela me fez prometer que cuidaria dela se algo a acontecesse, e então, depois disso, eu a perdi... Para sempre – As lágrimas quentes rolavam pelas maçãs do rosto, e voltei o olhar para Dave que mantinha total atenção sobre minha trágica história – Jin se foi...
– Oh Honnie, sinto muito, eu nunca imaginei que tinha passado por tudo isso... Imagino o quanto deve ser doloroso – Seus olhos eram expressivos e ele se mostrou um tanto abalado por minha situação.
– Eu perdi minha única família, e agora tudo o que tenho é Hany, e não vou deixar que nenhuma ameaça se aproxime dela ...- Dito isso enxuguei as lágrimas e engoli em seco, eu sentia algo, não era ruim, é como se um peso tivesse sido removido do meu coração.
E foi assim que eu falei pela primeira vez sobre minha vida para alguém que não era Jin.
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