Between Us

9 Capítulo 8 - Hold Me


Notas iniciais
Oiee gente o/ Estou de volta com mais um capítulo! Espero que vocês gostem ♥ Boa leitura!!

“When the days get short

And the nights get a little bit colder

We hold each other”

We Hold Each Other – A Great Big World

*Zoe POV*

É um típico dia frio na minha cidade. O céu está cinza e o ar gelado. Estou usando meu casaco azul favorito, junto com botas e meias de lã que vão até acima do joelho. O cachecol gigante que ganhei de vovó no pescoço. Enquanto ando, o vento faz com que os fios do meu cabelo se agitem e tenho certeza que minhas bochechas e nariz estão vermelhos, como sempre ficam em dias assim. Deve estar fazendo -10°C e pequenos flocos de neve começam a cair.

Isso me deixa feliz.

Não reconheço imediatamente onde estou, mas logo percebo que se trata da rua que uma das minhas cafeterias preferidas fica. Eu sempre que podia passava aqui no caminho de volta da escola. Aquele era simplesmente um dos lugares que eu mais gostava de ir.

Meus pés automaticamente me levam até lá, é como se eu estivesse flutuando na verdade. No curto caminho, percebo que não há ninguém na rua. Quando paro em frente a cafeteria, olho pela vidraça que está embaçada. Lá dentro tem várias pessoas, provavelmente buscando abrigo do frio e algo quente para tomar.

Estou pensando em fazer o mesmo, quando vejo algo que chama a minha atenção. Parada perto de balcão, conversando com Paul,o dono do lugar, está minha mãe. Ela move freneticamente as mãos e mesmo que aqui de fora eu não consiga ouvir o que ela diz, posso perceber que está agitada.

Curiosa com o que está acontecendo, entro na cafeteria. Me aproximo dela e de Paul que acena com a cabeça de forma compreensiva. Chegando mais perto, posso finalmente ouvir o que dizem.

-Se souber de algo, qualquer coisa... Me avise por favor! – minha mãe fala de forma apreensiva e embargada de choro.

-Claro sra. Melacci, qualquer informação que eu tiver aviso a senhora! – Paul afirma.

Estou confusa com o que está acontecendo e ainda não entendi o que pode ter acontecido para que minha mãe esteja assim, quando escuto o som do sino da porta, sinalizando que alguém entrou. Ao virar, vejo meu pai com Caleb no colo.

Caleb é uma criança ainda e franzo as sobrancelhas com isso. Deve estar com 5 anos no máximo e tem um Batman de brinquedo em uma das mãos, seu super herói preferido.

-Alguma informação Ana? – meu pai pergunta, seu tom bastante preocupado e nervoso também.

-Não... – minha mãe se dirige até ele, que segura sua mão quando ela se aproxima o suficiente, um gesto que ele usa para confortá-la até hoje – Nossa filha, nossa pequena Andrew... perdida por aí... nesse frio...

E começa a chorar, surpreendendo Caleb, meu pai e a mim também.

-Calma amor, nós vamos encontrá-la... Vamos trazê-la pra casa de novo.

Ao ver essa cena, sinto um desespero e quero mostrar a eles que estou bem. Que não precisam se preocupar nem me procurar mais. Eu estou ali. Como não me viram ainda?

Mas antes que eu possa me aproximar ou fazer algo, Leb fala algo:

-Zoey! – ele exclama e aponta seu Batman na minha direção.

Seu gesto me surpreende, mas estou aliviada que ele tenha me visto. Meus pais se viram na direção apontada pelo meu irmão gêmeo, e soltam um suspiro.

-Sim Leb, vamos achar a Zoey... – ele afirma a Caleb.

Levo alguns segundos para compreender que eles não me viram e então corro até eles. Porém a cada passo que dou, a distância entre nós aumenta, me deixando cada vez mais longe de minha família. A única coisa que consigo ouvir agora é a voz de Caleb dizendo “Zoey, Zoey”, enquanto continua a apontar para mim.

Acordo num sobressalto.

“Que diabos de sonho foi esse?”, penso. Me levanto com cuidado para não acordar Luke, e me dirijo até o banheiro. Lavo meu rosto, enquanto reflito sobre o sonho ainda. Sinto uma sensação estranha, mas não consigo defini-la com exatidão, então volto para a cama.

Me sento ao lado do loiro, que ronca de leve. Uma mecha de cabelo cobre seu olho esquerdo quase formando um cacho. Acho isso adorável e levo minha mão para mexer nela, parando um pouco depois com receio de acordá-lo. Sei que já dei trabalho demais por uma noite. Me viro para frente novamente e volto a pensar no sonho.

“Por que sonhei isso? Que eu me lembre isso nunca aconteceu...” Tento achar uma razão para ter tido tal sonho, meu sono que fora interrompido começando a voltar. Quero deitar, abraçar Luke e dormir, mas a sensação estranha continua, me impedindo de fazer isso.

Após alguns minutos, ouço a voz dele me chamando. Ao olhá-lo vejo que está bem sonolento e decido não entrar em detalhes agora, lhe dizendo apenas que tive um sonho estranho. Aceito quando ele me puxa para deitar com ele, e resmungo feliz quando começa a acariciar meu cabelo. A sensação estranha demora a passar, mas por fim o cansaço e o sono vencem e volto a dormir, dessa vez sem sonhos.

~

Acordo novamente com a luz do sol batendo em meu rosto. Instintivamente, puxo o edredom cobrindo minha cabeça. Tinha esquecido que Luke, por algum motivo desconhecido, retirou sua cortina uns dias atrás. Diz ele que foi para lavar, mas que eu saiba, ela ainda está no cesto de roupa suja e sabe-se lá quando será lavada.

Estou quase voltando a pegar no sono quando escuto uma voz próxima de meu rosto.

-Bom dia dorminhoca. – a voz rouca do loiro soa por cima do edredom. Me mexo, sem dizer nada.

-Eu sei que está acordada Zoe. – diz tentando tirar o tecido da minha cabeça, mas eu seguro firmemente, o impedindo. – Então é assim...

Por fim, desiste e sinto ele sair de cima de mim e então entrar debaixo do edredom também. Viro lentamente a cabeça e abro um olho para encará-lo.

-Oi. – diz sorrindo.

-Oi... – respondo ainda sonolenta, mas sorrindo também. Minha voz quase não sai, provavelmente por causa de toda a minha cantoria de ontem à noite.

-Você não vai levantar não? – ele pergunta, me observando. Eu devo estar horrível, ainda mais por ter bebido tanto ontem.

-Não. – digo, escondendo meu rosto no travesseiro.

Não preciso que ele me veja assim tão cedo. São grandes as chances de Luke terminar comigo antes mesmo de começarmos realmente se ele continuar a me ver nesse estado lamentável.

-Hey, — sinto suas mãos em minha cintura me puxando pra perto dele – Não se esconda... – ele diz, enfiando seu rosto na curva exposta do meu pescoço. Sinto um arrepio quando seu cabelo molhado faz contato com minha pele morna.

-Ui Luke! Seu cabelo tá gelado – reclamo, me afastando.

-Nãoo... voltaa – seus braços longos me alcançam antes que eu possa sair da cama e me puxam de volta até que minhas costas encontrem seu peito, me fazendo rir de leve. – Você tá quentinha e...

-Horrível. – termino o interrompendo e me sentando na cama – Você tomou banho? – pergunto em relação a seu cabelo úmido.

-Sim. E eu ia dizer aconchegante, para a sua informação – responde se sentando também, e aproxima seu rosto do meu pescoço de novo, depositando um beijo lá. Não posso evitar um suspiro. Ele está tão cheiroso... E isso me lembra que eu nem tanto.

-Preciso tomar um também.

-Se você quiser, eu não me importo de tomar outro... Com você. – diz e depois beija um ponto fraco do meu pescoço.

-Luke... – tento o repreender, mas acaba sendo mais um gemido. Ele ri e continua com os beijos. – É sério... Estou me sentindo péssima. – faço uma careta ao lembrar que ainda não escovei os dentes.

E é esse pensamente que me faz finalmente levantar da cama e ir para o banheiro, largando um loiro reclamando deitado na cama. Uso a escova de dente reserva que já tenho lá, das outras vezes em que dormi na casa dos garotos, quando eu e Luke ainda não tínhamos nada além de amizade. Nem olho meu reflexo querendo evitar um susto e mais constrangimento.

Depois de um longo e relaxante banho, volto para o quarto, vestindo a mesma camiseta que Luke me deu para dormir. Vejo uma camiseta limpa dele dobrada em cima da cama e troco por ela. Então procuro em seu guarda-roupa por alguma peça minha que eu possa ter esquecido aqui. Encontro um shorts antigo meu, que já nem lembrava mais que eu tinha. O visto e enquanto seco melhor o cabelo na toalha, Luke aparece e me entrega uma caneca de café.

-Obrigada. – agradeço, tomando um gole do líquido e me sentindo melhor instantaneamente.

-Foi o Calum que fez.

-Calum? Ele já acordou?! – indago estranhando – Que horas são?

-Mais de 11h Zoe – Luke ri quando vê meu espanto.

E é então que me vem tudo.

O sonho. A sensação estranha. Papai e mamãe preocupados, Leb ainda criança chamando meu nome enquanto ficava mais longe... Ai meu Deus! Leb! Eu não sei onde meu irmão está! Onde será que ele dormiu?! Começo a ficar desesperada com esses pensamentos, e mais ainda quando lembro que também não sei do paradeiro de Becca.

Luke percebe minha preocupação.

-O que foi?

-Caleb e Becca! Eu não sei onde eles estão! Na verdade eu nem lembro de vê-los saindo do clube... Eles estavam com a gente? – pergunto, mesmo já sabendo da resposta.

-Não. Calma Z... eles são adultos, sabem se cuidar. – concordo, mas só eu sei o quão mal Leb pode ficar quando bebe demais e sabe-se lá o que ele pode aprontar. – Eles devem ter voltado pro seu apê. – continua.

-Tomara. – digo, me sentindo mal por ter perdido meus dois hóspedes.

Procuro meu celular o encontrando no criado mudo. Disco primeiro o número de Caleb, sabendo que entre os dois, ele é o que tem mais chance de ter se encrencado.

Enquanto aguardo ele atender, já imagino que deve estar com ressaca o que geralmente o deixa de mau humor. Então preciso orientá-lo sobre onde ficam os analgésicos. Ele deve estar dormindo ainda, já que demora um pouco. Então alguém atende:

-Alô. – diz uma voz feminina.

Franzo o cenho surpresa. Olho a tela para ver se liguei para Leb mesmo. Vejo que sim e volto a colocar o celular perto do ouvido.

– Alô? – a garota fala de novo, sua voz soando familiar para mim agora.

-Oi. Hm...Eu queria falar com o Caleb. – resolvo dizer.

-Ele está ocupado no momento. – ela fala. Espera... Será que é isso mesmo? – Quem gostaria? – a moça pergunta e eu arregalo os olhos, finalmente reconhecendo a voz e tendo certeza quase absoluta de quem é.

-É a irmã dele. – respondo devagar, esperando uma reação dela — Ju é você? – não consigo resistir perguntar.

Mas não há resposta. A única coisa que escuto é sua respiração e logo depois a ligação cai. Mesmo assim, agora estou ainda mais certa de que era a minha amiga. Estou chocada.

Julie e Caleb? Dormiram juntos? Quero dizer, eu desconfiava que tava rolando um interesse entre eles, principalmente da parte do meu irmão que não disfarça em nada, mas não que já estivesse nesse ponto. Rio.

“Ótimo”, penso. “Vou precisar conversar com ela.”

-E aí? – Luke pergunta com a boca cheia, voltando da cozinha, onde ele foi buscar cereal. –Descobriu onde eles estão?

Ele me oferece o cereal na sua colher, mas recuso ainda surpresa com o “flagra” que acabei de dar. Não é que eu me importe com isso ou seja uma irmã ciumenta, pelo contrário, Leb é bem grandinho já e pode ficar com quem desejar. Porém, eu sei bem que as chances de isso virar uma confusão são grandes.

-Sim... O Caleb tá lá em casa. – respondo sua pergunta.

-E a Becca? – ele pergunta saindo do quarto de novo.

Começo a segui-lo, mas antes que eu possa dizer que não sei e que ainda vou ligar para ela, vejo a mesma saindo sorrateiramente pela porta do quarto de Ashton. Pisco não acreditando no que acabei de ver. Minha amiga acabou mesmo de sair do quarto do Ash? Oh meu Deus.

Ela fecha a porta, um de seus sapatos na mão e vira o rosto examinando o corredor antes de começar a ir na ponta dos pés na direção do banheiro. Como me encontro do outro lado, pigarreio a fazendo dar um pequeno pulo. Se volta para mim com o rosto pálido.

-Que susto! – ela sussurra-grita, levando a mão livre até o peito. – Pensei que fosse outra pessoa.

-Outra pessoa? Quem? – pergunto num volume normal, mas baixo o tom quando ela faz um gesto desesperado pedindo silêncio.

-Algum dos quatro garotos, por exemplo. – ela continua sussurrando.

-Ah. Um dos três garotos, você quer dizer né? Já que um deles me parece que você sabe muito bem onde está... – aponto na direção da porta que ela acabou de sair, rindo um pouco quando vejo seu rosto ficar vermelho.

-Shhhh! Não ria! E fala mais baixo, eu não quero que mais ninguém me vej-

-Hey Zoe, eu acho que a Becca deve tá por aí porque eu acabei de achar a bolsa dela num canto da sala e... – Luke surge no corredor segurando a bolsa desajeitadamente em sua mão, mas para de falar quando vê Rebecca o encarando com os olhos arregalados.

Não posso deixar de achar essa situação engraçada.

-Ah, você já achou ela! – ele exclama alto demais, fazendo com que minha amiga faça uma careta em desaprovação e eu também, já que estou com ressaca ainda.

-Shhhhhh! – sussurramos juntas.

-Foi mal. – diz, se aproximando. – Por que estão sussurrando? – pergunta, no mesmo tom que a gente e agora estamos os três em roda, nos encarando.

-Porque...porque... — Becca se enrola, eu e Luke a olhamos, já que foi ela que começou com isso – Porque sim oras!

-Ok, calma. – Luke diz, surpreso com a irritação dela. Isso porque ele não a viu saindo do quarto de seu amigo, como eu vi. Amigo o qual, ela dizia odiar ontem mesmo.

-Eu estou calma. Eu só preciso sair daq... – ela para de falar quando escutamos o barulho de uma porta abrindo. – Ah droga!

-Ei, o que tá rolando aqui? – Ashton surge, apenas de cueca, o cabelo bagunçado e cara de quem acabou de acordar, com as feições confusas.

Automaticamente, olho para Rebecca que está com o rosto vermelho depois de ver Ash. Estou querendo fazer umas perguntas também, mas decido esperar para fazê-las depois.

-Não sei não... – Luke diz, quando nenhuma de nós responde. – Eu acabei de chegar e elas estavam sussurrando aí. – ele explica, e eu lanço um olhar feio pra ele que fica sem entender meu gesto.

Ashton inclina a cabeça pro lado, franzindo o cenho antes de virar seu olhar para minha amiga. Ele vê o sapato na mão dela e levanta o que está em sua mão e só percebi agora.

-Acho que esqueceu isso Cinderela. – ele diz se aproximando dela.

Ela pega o salto e agradece baixinho, o que é bastante incomum para ela, já que 99% do tempo Becca está fazendo barulho. – Obrigada.

-Você estava fugindo Rebecca? – Ashton se aproxima mais ainda. – De novo?

Mesmo estando bem curiosa, penso que esse é o momento para sairmos disfarçadamente e darmos privacidade pros dois, mas Luke parece ter entendido o que se passa(ou melhor: o que se passou) entre eles e dá uma engasgada de quem não acredita.

-Vocês...? – diz espantado.

Eu também não estou acreditando, ainda mais por Becca ser minha melhor amiga e não ter me contado nada. Mas Luke podia ter sido mais discreto. Dou uma cutucada em seu braço quando Ash e Rebecca nos olham, e ele parece entender dessa vez. Pego sua mão, nos conduzindo até a cozinha.

-Você tá pensando a mesma coisa que eu? – o loiro diz, assim que estamos sentados nas banquetas da cozinha. Alcanço uma maçã antes de responder:

-Acho que sim... Mas isso depende até onde foi o seu pensamento. – digo, esticando o braço e lavando a fruta.

-Até... bem, você sabe até onde. – ele me olha enquanto mordo a maçã – Que eles fude-

-Ok, já entendi. – falo, o cortando. – Mas sim, também pensei isso...

Luke abre a boca para dizer algo, porém antes que ele consiga, escutamos vozes altas se aproximando.

-Chega Ashton! – minha amiga grita, entrando na cozinha.

-Será que dá pra você parar de ficar fugindo de tudo?! – Ash grita de volta, passando a mão pelo cabelo. Eles nem parecem perceber nossa presença ali.

-Eu não quero falar sobre isso agora! Será que dá para você entender isso?!? – ela responde, usando o mesmo exemplo de Ashton de forma irônica.

-Tudo bem. – ele diz bravo. – Mas se não agora, quando?

-Eu não sei! Só não tão cedo de manhã assim!..

-Ãn... são mais de 11:30h na verdade. – Calum diz, entrando na cozinha sendo seguido por um Mike esfregando os olhos e reclamando da luz, o que significa que acabou de acordar.

-Que gritaria é essa hein? Não deu pra continuar dormindo com todo esse barulho... – Michael reclama, se sentando ao meu lado e pegando uma fatia de pão para comer com Vegemite muito provavelmente.

-11:30h?!?? – Becca exclama, nervosa. Ela olha ao redor, procurando por algo. Assim que bate os olhos em sua bolsa no fim do balcão, onde Luke tinha deixado, avança na direção da mesma e a pega saindo da cozinha. Ashton vai logo atrás.

-Becca! – ele chama – Rebecca não! – grita.

Observo toda essa cena em confusão. O que é que está acontecendo?!

Rapidamente desço da banqueta e os sigo. Sei que entraram no corredor e vou naquela direção já pensando que se for preciso baterei na porta do quarto de Ashton. Rebecca está agindo muito estranho e quero saber o que foi que aconteceu para ela ficar assim. Então escuto barulhos vindos do banheiro e me dirijo até lá, parando na porta, bastante surpresa com o que vejo.

Ash está ajoelhado, ao lado de minha amiga. Ele segura os cabelos de Becca enquanto ela inclina sua cabeça em direção do vaso sanitário. Está vomitando.

Me aproximo deles, ajudando Ashton com sua tarefa e dizendo a ela que “está tudo bem, que ela pode colocar pra fora”, frase que já disse várias vezes a Rebecca, nas manhãs de ressaca. Mas então ela começa a chorar. Não qualquer choro, mas um com soluços e engasgos e eu me assusto.

Foram raras as vezes em que vi Becca chorar. No geral, eu é que era a chorona, por mais que odeie fazê-lo e tente evitar isso ao máximo. Rebecca era a brigona, nunca levando desaforo para casa. Perdi as contas de quantas vezes vi ela e James discutirem quando éramos amigos. Ela era como a defensora do grupo, a justiceira. E por diversas vezes imaginei que ela seguiria carreira de advogada. Mas então ela me surpreendeu e foi para a publicidade, o que também combina com seu jeito agitado.

De qualquer forma, isso só mostra que o estado que ela se encontra não é algo nada característico de sua personalidade.

Sei que agora moramos longe e não temos muito tempo para nos ver pessoalmente, mas já passamos por muita coisa juntas. Compartilhamos vários bons momentos, assim como maus momentos também. O meu período depressivo pós-sumiço de James e depois a minha fase um pouco rebelde em Nova York são exemplos disso. Ela estava lá, me apoiando.

É por isso que sempre senti como se estivesse em débito. E agora ao vê-la assim, sinto que chegou a hora, posso retribuir, mesmo sem saber ao certo o que aconteceu ainda.

Ela se levanta assim que se acalma um pouco, lava a boca e joga uma água no rosto, antes de sentar na tampa do vaso. Ash continua lá e isso me surpreende também, só não sei se mais por ele não ter ido embora ou por Becca não parecer se importar por ele ter a visto chorar.

É então que percebo, pela forma que ele olha para ela, que seja lá o que for que deixou minha amiga assim, ele já sabe.

-Becca... O que aconteceu? – pergunto, me ajoelhando a sua frente.

*Ashton POV*

Rebecca hesita por um momento, dando longas puxadas de ar. Não sei o que ela vai dizer, e depois de alguns segundos começo a pensar se ela vai chegar a dizer alguma coisa. Zoe continua agachada a seu lado, esperando. Penso que ela merece algum tipo de explicação por parte da amiga, já que parece tão preocupada. Eu disse isso ontem a Becca, disse que achava que ela devia contar para Zoe, buscar ajuda de alguma forma. Ela apenas fez um movimento com a cabeça, sem muita verdade.

Becca sempre faz isso. Bom, comigo pelo menos.

Ontem à noite, depois de nos beijarmos, resolvi me arriscar e disse que gostava dela. Ela me olhou e riu. A princípio achei que estava debochando de mim, mas depois se aproximou do meu ouvido e disse “Eu também.” Senti verdade dessa vez.

Depois que Becca disse aquilo, foi como se algo tivesse se aquecido dentro de mim. O sentimento, bastante novo ainda, por mais que tenha nascido há algum tempo, estava de volta. Naquele momento cheguei até a esquecer do que tinha acontecido naquela noite, meses atrás. Da forma como acordei com o lugar ao meu lado na cama vazio. Apenas um bilhete na cabeceira:

“Sinto muito.”

Nada além daquele pequeno pedaço de papel, a única prova que ela tinha sequer estado em meu quarto de hotel horas antes. Cheguei a perguntar a Zoe, da forma mais despreocupada possível onde Becca estava, e recebi a resposta que ela teve que ir embora logo cedo por conta da faculdade. Por alguns dias fiquei pensando se o “sinto muito” do bilhete se referia a isso, a ter ido embora sem se despedir. Mas após uma semana sem nenhum tipo de contato ou notícia, a não ser nas vezes em que ouvia Zoe comentar sobre ela, percebi que não.

Um mês depois a encontrei novamente em um pub em Nova York. Ela estava diferente, e não era apenas por causa do corte de cabelo curto. Aproximou-se e nos cumprimentou normalmente, como se nada tivesse acontecido. Como se não tivéssemos tido um dos dias mais loucos de nossas vidas. Pelo menos para mim havia sido.

Nessa hora, Zoe entrou junto com Mike. Assim que viu Rebecca, a abraçou rindo.

-Você veio! – Zoe exclamou feliz.

Um pouco depois, Julie e os garotos da 1D chegaram também e nos ajeitamos em volta de uma mesa no canto.

-De onde você é? – Liam pergunta, sentado ao lado de Rebecca.

-Daqui mesmo. – ela responde rapidamente.

-Estudamos aqui, mas somos de uma cidadezinha perto da Filadélfia na verdade. – diz Zoe, recebendo um olhar reprovador da loira – Qual é? Temos que nos orgulhar de onde viemos – termina rindo e contando coisas típicas do lugar.

Observo a tudo o que dizem. Lembro de quando ela me contou isso. “Sou do norte da Pensilvânia”, tinha dito Rebecca. “Nem vou dizer o nome da cidade, porque você não vai saber.” Lembro de sua risada logo depois, a mesma que ela dá agora. Durante o resto da noite, ela praticamente não me dirigiu mais o olhar. E aquilo me irritou de certa forma.

No final da noite, fugiu de mim, assim que fiz qualquer tentativa de falar com ela a sós. Depois daquela vez nos reunimos mais algumas vezes, nem sempre todos podiam vir, mas Rebecca sempre estava lá. E continuava a me ignorar. Comecei a encarar aquilo como uma provocação da parte dela. Pouco menos de um mês depois a turnê nos EUA tinha acabado e fizemos a proposta a Zoe para vir para a Austrália conosco. Lembro de Luke não ter ficado tão feliz com isso, resmungando que ela não tinha experiência, o que eu não entendi já que tinha reparado na forma como ele disfarçadamente olhava pra ela.

Além disso, Zoe tinha mandado muito bem e eu já a considerava uma amiga. Então fiquei feliz quando concordou em ir com a gente. “Um recomeço”, tinha dito ela a mim certa vez. Um recomeço, pensei comigo mesmo. Em nenhuma das vezes que havia visto Rebecca, ela deu qualquer sinal de queria falar sobre aquele dia. Então decidi, que estava na hora de esquecer também. Era ridículo ser o único achando que aquilo tinha sido especial.

Depois disso, nossa relação mudou. Nas poucas vezes em que ela vinha visitar Zoe, ou em que encontrávamos ela em algum lugar, nos provocávamos e discutíamos sempre e a todo momento. Era como se disséssemos: Se vamos ter que nos aguentar, então vai ser desse jeito.

Mas na verdade, era uma forma de proteção. Do desejo e dos sentimentos que surgiram aquele dia.

Ao menos, foi o que ela me confessou noite passada durante nossa conversa no parque antes de voltarmos para casa. Em nenhum momento ela concordou em procurar ajuda, mas me contou que fugiu naquele dia porque estava com medo. Que havia sido covarde, e tinha vergonha disso, mas que era a verdade. “Ainda tenho”, confessou. Eu apenas a beijei, feliz por ela ter tocado nesse assunto finalmente. Feliz por ter uma resposta.

Quando chegamos em casa, eu a levei em meio a beijos pelo corredor, até meu quarto. Uma vez lá dentro, as coisas esquentaram rapidamente. As memórias daquela outra noite, vindo à tona em flashes e a vontade de sentir sua pele contra a minha novamente só aumentava.

~==~

Beijo seu pescoço. –O mesmo cheiro. – digo.

Becca apenas geme, arrancando minha camiseta. As pontas de seus dedos em meu peito, por mais delicados que fossem, tem outro efeito em mim. Tiro seu vestido também, o jogando junto às outras peças de roupa já no chão.

Beijo cada parte de seu corpo que entra em minha visão, seus lábios, seu queixo, seu pescoço (onde deixo algumas marcas), seus ombros, o vale entre seus seios... E então faço o caminho de volta até seus lábios. Somos um emaranhado de braços e pernas enroscados, buscando o maior contato possível. Mas então, ouço sua voz baixa.

-Ash... para. – sua voz sai em um sussurro.

Na mesma hora paro e olho para ela, que tem um olhar assustado no rosto. Nunca havia visto ela assim, nem mesmo quando estava prestes a desmaiar. Acho que ela deve ter percebido que fiquei preocupado porque me dá um beijo rápido, o que me tranquiliza um pouco.

-O que foi? – pergunto.

-Eu... Eu só não estou me sentindo bem. – diz ela fraquinho e posso perceber isso ao observá-la melhor. Está pálida agora que o calor saiu de suas bochechas. – Minha cabeça parece um redemoinho... – fecha os olhos.

-Meu Deus!.. Claro, me desculpe! Você acabou de passar mal e eu aqui... me desculpa... Você quer um remédio? Eu posso ir buscar um na cozinha... Caraca, desculpa – digo, me sentindo um idiota por ter esquecido disso. Começo a sair de cima dela, procurando minha camiseta com o olhar.

-Ash... – Becca me chama baixinho – Ashton, olha pra mim. – ela pede um pouco mais alto, colocando sua mão em meu braço e me impedindo de me afastar.

Volto a olhar para ela, seu semblante denunciando o quanto está cansada. Porém seus olhos estão brilhando. Lágrimas.

-Ei shhh... Não chore. – peço limpando suas lágrimas com meus dedos de forma desajeitada. Ela ri um pouco com isso.

-Tá tudo bem. – diz por fim, passando a mão por meu rosto. Sorrio. Ela para de chorar e parece mais calma. Acho minha camiseta e entrego para ela vestir. Então deito ao seu lado e a puxo para mim, a envolvendo em meus braços. Rebecca ajeita sua cabeça em meu ombro e logo sinto sua respiração ficar mais regular.

-Boa noite Becky.- uso seu apelido. Meu apelido para ela.

-Boa noite Ash.- percebo seu sorriso.

Quando estou prestes a pegar no sono, ouço ela dizer: “Obrigada.” Mas é tão baixo e estou com tanto sono agora, que parece ser um sonho.

~==~

Porém, hoje de manhã acordei sozinho. De novo. Provavelmente se não fosse por ter encontrado Zoe no corredor, ela teria fugido de novo. Ou não,meu subconsciente diz. “Talvez”, penso em resposta. Ainda não tive a chance de perguntar a ela sobre isso. O assunto em pauta agora é outro.

Rebecca ainda continua calada, mesmo Zoe tendo perguntado mais uma vez o que aconteceu. É perceptível sua preocupação com a amiga e do que conheço sobre Zoe, sei que ela quer ajudar. Começo a cogitar a ideia de contar, mesmo sabendo que Becca muito provavelmente não vai gostar disso. Mas antes que eu posso dizer qualquer coisa, ela mesma diz.

-Nada Zoe. Não aconteceu nada! – bufa.

Zoe parece surpresa. Eu estou surpreso também.

-Não me parece ser nada Becca... – a morena diz.

-Por quê? Só porque eu vomitei um pouco? – pergunta de forma indiferente. Não estou entendendo esse comportamento súbito dela.

-Bem, sim... – Zoe começa devagar – Você me parecia bem mal agora pouco, até estava chorando e...

-Ressaca. – Rebecca corta a amiga – Apenas uma ressaca. Algo normal para mim, você já devia saber não? – diz de forma dura. Posso perceber o espanto se transformando em confusão no rosto de Zoe.

-Sim, eu sei. Mas eu fiquei preocupada... Achei que outra coisa pudesse ter acontecido... – a baixinha diz cautelosamente.

-Mas não aconteceu, Zoe. Eu já disse isso. É só ressaca. – seu tom é irritado.

-Eu só queria ajudar. – Zoe fala irritada também, mas com um tom levemente triste.

-Bom, muito ajuda quem não atrapalha. Agora, se me derem licença, eu gostaria de tomar um banho.

Agora o semblante de Zoe não esconde sua mágoa com as palavras de Rebecca. Ela acena com a cabeça, dando espaço para a loira se levantar. Porém assim que a mesma faz isso, fica tonta e precisa se agarrar a pia para não cair.

-Viu só? – Zoe exclama brava – É obvio que isso não é só uma ressaca! Eu nunca vi você desse jeito Rebecca! – ela pega no braço da amiga, a ajudando a sentar de novo.

Assim que Becca parece ter se recuperado, Zoe pergunta:

-Vai me contar agora? – ela cruza os braços.

Rebecca a olha por alguns instantes antes de abaixar a cabeça. Por um breve momento penso que ela vai contar, mas então vejo seu rosto ficar bravo.

-Mas que droga Zoe! Se eu quisesse contar eu já teria contado, você não acha?! – ela grita.

Zoe se assusta. Não é pra menos. Segundos depois os meninos aparecem no corredor, provavelmente alarmados pelo grito também. Ao observar a cena, Rebecca com a cara fechada e Zoe ainda assustada, Luke parece perceber o que aconteceu. Faço um sinal para ele tirar a baixinha dali, sabendo que caso contrário as coisas só vão piorar.

-O que eu fiz? – escuto a voz de Zoe sair baixinha, enquanto Luke a abraça, saindo com ela do banheiro. Calum e Mike fazem o mesmo, não sem antes me olharem com pontos de interrogação em cima da cabeça. Quero dizer que eu também não estou entendendo nada.

Mas então eu escuto soluços. Rebecca está chorando.

Deve ser a terceira vez em menos de 24 horas que a vejo assim. Não sei o que fazer, pois não concordo com o jeito que ela tratou Zoe. Mas então sinto suas mãos puxando a camiseta que vesti antes da discussão na cozinha. Me parece um pedido torto para abraçá-la, então é o que faço. Levanto ela do vaso sanitário, sentando lá e a deixando em meu colo. Nesse momento, vendo ela assim, tão frágil e vulnerável, eu entendo.

Rebecca age assim por impulso. É como um instinto dela. Ela fugiu aquele dia, estava fugindo hoje de novo e brigou com a Zoe pela mesma razão: medo. Medo de expor seus sentimentos, de contar seus problemas, de buscar ajuda e ser julgada. Mas a esse ponto, ela já devia saber confiar mais em sua amiga, e não afastá-la da forma como fez.

Quero dizer tudo isso a ela, mas decido que é melhor esperar até que esteja mais calma. Tenho medo de que ela me afaste também se eu o fizer. É, parece que todos nós temos os nossos receios.

*Julie POV*

Estou na cama ainda quando o celular de Caleb começa a tocar. Dou uma espiada na tela. “My Petit” está escrito e em um impulso pego o aparelho aproveitando que ele está no banheiro e parece não ter escutado. Sei que não é certo, mas minha curiosidade sobre quem é essa “petit” é maior e deslizo o dedo pelo botão de atender. No momento estou brava com o fato que ele aparentemente tem uma namorada e dormiu comigo. Eu sei muito bem que ele não é o modelo de cara certinho, longe disso!, mas isso é ser cafajeste demais. Então decido que vou sacanear com ele agora.

-Alô. – eu digo, louca apara ouvir a voz da garota. Mas ela não diz nada. – Alô? – falo novamente, já me preparando para um possível chilique do outro lado.

-Oi. Hm... Eu queria falar com o Caleb. – ela diz, parecendo estranhar. Pelo visto a ficha não caiu.

-Ele está ocupado no momento. – respondo, esperando que ela perceba agora. Quer dizer, poxa,você liga para o seu ficante/namorado ou seja lá o que eles forem, de manhã e então uma mulher atende, já era pra se ter ligado os pontos! – Quem gostaria? – instigo, querendo uma reação.

-É a irmã dele. – a voz responde devagar, me fazendo gelar. “Merda”, penso. Então “petit” é o apelido dele pra Zoe? Ai caramba... Percebo o quão idiota fui. Agora só posso torcer para que ela não tenha reconhecido minha voz. – Ju é você? – Zoe pergunta.

Minha respiração acelera. Desligo antes que a situação piore, sem saber o que fazer ao certo. Não é como se eu fosse conseguir falar qualquer coisa, muito menos que sim, sou eu. É como se eu tivesse sido pega em flagrante fazendo algo escondido que é errado. Bom, não deixa de ser verdade, menos a parte de que é errado porque dormir com Caleb me parece a coisa mais certa que fiz ultimamente. Mas isso não quer dizer que eu queira que a irmã dele que por um acaso é minha amiga também, descubra isso. Me sinto constrangida agora.

Coloco o celular de volto na mesinha, praguejando baixo o momento que eu decidir atender a ligação. Então escuto Caleb chamar do banheiro:

-Você não quer vir me fazer companhia Julie? – a voz dele ainda rouca, é tão sexy que só de imaginá-lo nu com a água escorrendo por seu corpo faz com que eu sinta um calor no meu centro, desejando que ele me preencha de novo. Levanto e vou em direção ao banheiro, tirando minha lingerie no caminho. Quando chego na porta de vidro do box já esqueci do telefonema e de qualquer constrangimento.

~

Após nosso banho juntos, decido fazer algo para comermos, já que meu estômago está reclamando. Vou até a cozinha, procurando os ingredientes para preparar panquecas. Espero que Zoe não se importe com a minha pequena invasão. Pensar nisso me faz lembrar de nosso telefonema mais cedo, e imagino que depois daquilo ela já deva saber que estou aqui. Então continuo minha busca.

Enquanto coloco os ingredientes no liquidificador, sinto uma presença atrás de mim. Nem preciso virar para saber quem é, já que além de sermos os únicos no apartamento agora, seu braço tatuado surge no meu campo de visão, enlaçando minha cintura.

-O que está fazendo? – pergunta curioso, esticando a cabeça para enxergar o que tem dentro do recipiente.

-Panquecas. – respondo e ao dar uma espiada nele, vejo que seu rosto parece o de uma criança. Sorrio internamente com isso.

-Eu adoro panquecas. – diz sorrindo abertamente – Caraca, não tinha percebido o quanto estava faminto até agora. Precisa de ajuda?

-Não. – ligo o liquidificador e o vejo se encostar no balcão ao meu lado. – Na verdade, se você puder me dizer onde a frigideira está, eu agradeço.

-Deixa que eu pego. – ele diz indo até outro armário.

Daqui posso observar suas costas nuas, já que ele se encontra apenas com uma calça de moletom e descalço. Isso me faz lembrar do nosso primeiro beijo. Naquela noite eu não imaginava que dias depois estaria fazendo panquecas para nós, depois de termos dormido juntos.

-Caleb chamando Julie – desperto de meu devaneio quando ele estala os dedos na minha frente. Nem tinha percebido sua aproximação. – Tudo bem aí? – pergunta me olhando.

-Sim, tudo ótimo.

-Que bom. Porque eu já tava achando que você tinha desistido.

-Desistido? – pergunto curiosa.

-É, das panquecas. – aponta para a jarra do liquidificador em minha mão – E daí eu que teria que fazer. E bem, digamos que, eu não quero humilhar ninguém.

-O quê? Ah, mas eu duvido disso! Aposto que você não sabe nem fritar um ovo – digo rindo.

-Ah, você aposta é? – ele se aproxima, me encarando nos olhos – E o que você aposta? – dá o seu típico sorriso de lado, o que me distrai um pouco. –Um beijo talvez?

Seus lábios estão quase tocando os meus, e quando penso que ele vai me beijar, ele se afasta abruptamente e retira a jarra da minha mão.

-Ei! – protesto. –O que vai fazer?

-Vou provar a você que sei cozinhar. E muito bem, a propósito. – faz cara de convencido.

-Nem pensar! – digo, tentando alcançar a jarra de volta – Eu já comecei, agora quero terminar. Essas são pra ser as minha panquecas. Uma especialidade Julie. – pisco um olho para ele.

Quando ele não me devolve, tento outra estratégia e mordo o lábio. É tempo o suficiente para que ele seja o distraído da vez, e para que eu consiga pegar a jarra. Ao perceber meu feito ele faz cara de indignado e logo depois um bico.

-Tudo bem, vou deixar você fazer. – ele diz.

-Aham, sei. Vai me deixar fazer,né? – pergunto irônica, já que quem venceu foi eu e ele está querendo fazer com que parece que ele deixou isso acontecer.

-Sim. Mas só se você concordar em me deixar preparar um jantar pra você um dia. – ele diz casualmente.

Sei que não deveria ficar animada com o que ele acabou de dizer, afinal ele não deve estar falando isso de forma séria, já que vai embora em dois dias e depois disso sei que nem vai se lembrar do que disse. Mas uma parte de mim fica mesmo assim. Mesmo que seja bem remota, a possibilidade de um dia no futuro Caleb preparar um jantar para mim, me traz um sentimento bom. Me deixa feliz.

Me viro para o fogão para esconder o sorriso que brotou em meus lábios. Então, igualmente casual, respondo:

-Claro. Por que não? — e então acrescento: — Quero ver se você é tão bom quanto diz ser.

Logo depois, ouço seus passos vindo na minha direção. Para atrás de mim, e sem que nenhuma parte de seu corpo encoste no meu, ele inclina a cabeça e diz em meu ouvido:

-Eu sempre sou. – posso perceber a malícia em seu tom de voz e isso me causa um arrepio. Ele percebe e ri. Então dá uma mordida leve na minha nuca e se afasta dizendo que vai pegar o celular no quarto.

Depois de comermos (pegamos um pote de nutella que achamos em um dos armários para comer junto com as panquecas), Caleb se oferece para lavar a louça. Vou até seu quarto enquanto isso para juntar minhas coisas. Por melhor que tenha sido essa manhã com ele, sei que está na hora de eu ir. Zoe pode aparecer aqui a qualquer momento, e eu não gostaria de ser vista aqui, já que isso me entregaria ainda mais.

Como nas outras vezes que saímos juntos, fico com aquela sensação de “quero mais”. Me pego pensando que seria ótimo poder passar o resto do dia com ele, juntinhos no sofá, assistindo a alguma bobeira. Ou fazendo outras coisas também. É no meio desses pensamentos, que escuto a voz preocupada de Leb.

-O quê? Como ela está?

Quando ele diz isso, vou até a sala, o encontrando falando ao telefone. Ele me olha e tem as sobrancelhas franzidas. Me deixa curiosa para saber o que aconteceu.

-Ok. Logo estou aí.

Então, outros tipos de pensamentos igualmente perigosos começam a surgir. “Ele está indo embora?”, “Será que é por causa de uma garota?”, “Claro que é. Ele deve ter uma namorada, eu disse a você”, meu subconsciente diz. “É como dizem, nada pode ser tão bom assim”. Fico brava comigo mesma por pensar essas coisas, mas não consigo evitar.

No meio desses pensamentos, consigo perceber que Caleb terminou a ligação. Estou pronta para ouvir ele dizer que está indo embora hoje mesmo. Agora. Para ouvi-lo inventar uma desculpa qualquer. Mas então o que ele diz, não é nada o que eu esperava:

-É a Zoe.

Zoe?

-Parece que ela e a Becca se desentenderam. Temos que ir pra lá.

Enquanto ele segue para o quarto trocar de roupa, fico parada por alguns segundos pensando no quanto fui boba. E no quanto não gosto de me sentir assim. Penso no quanto meus pensamentos estavam fora de controle hoje. Na forma como me senti quando atendi o telefonema da Zoe, e agora pouco, ao achar que ele tinha alguém.

O que está acontecendo comigo?

Notas finais
E aí? O que acharam? Me contem suas opiniões, fico sempre curiosa para ler elas!! Beijos e até o próximo :*