Between Two Paths
1 O Encontro no Corredor
O corredor estava lotado. Vozes, passos apressados e o barulho dos armários se fechando compunham uma sinfonia caótica típica das manhãs na universidade. Daeron se esgueirava entre os estudantes com o máximo de cuidado possível, equilibrando nos braços uma pilha de livros e folhas de pesquisa.
Magro e de estatura modesta — mal chegava a um metro e sessenta e nove —, ele precisava se mover com agilidade para não ser engolido pela multidão. No entanto, o destino parecia decidido a pregar uma peça naquele dia.
Ao virar um corredor, não teve tempo de reagir quando colidiu de frente com algo sólido. Ou melhor, alguém sólido — uma verdadeira muralha humana. Os livros voaram, as folhas se espalharam pelo chão e Daeron quase perdeu o equilíbrio.
— D-desculpa! — gaguejou, a voz trêmula. — Eu não vi... foi sem querer, eu juro!
Abaixou-se rapidamente para juntar os papéis, sem coragem de erguer o olhar. Seu rosto queimava de vergonha.
Mas, para sua surpresa, o “muralha” também se abaixou e começou a ajudá-lo com um sorriso tranquilo.
— Se acalme, Daeron. — disse uma voz familiar, suave, mas com um tom brincalhão. — Sou eu, Nikko. Não vou ficar ressentido... a menos que queira me compensar de outro jeito.
O tom sugestivo da última frase fez Daeron travar. Lentamente, ergueu o olhar e viu o rosto de Nikko — o sorriso largo, o olhar caloroso e divertido.
— N-Nikko... eu... — tentou dizer algo, mas apenas corou ainda mais, tropeçando nas próprias palavras.
Nikko soltou uma risadinha e balançou a cabeça, divertido com o embaraço do menor.
— Deixe disso. Vá logo pra aula, ou vai se atrasar. Eu estarei na quadra mais tarde, treinando. Se precisar de mim, sabe onde me encontrar.
Entregou-lhe os livros com um sorriso aberto e seguiu seu caminho, deixando Daeron parado no corredor, ainda tentando se recompor.
O sinal para a primeira aula ecoou pelos alto-falantes, e Daeron respirou fundo.
“Engenharia Química... meu sonho se tornando realidade.” pensou, ajeitando os papéis. Ainda custava a acreditar que estava tão perto de se formar, de enfim trabalhar com o que mais amava.
Apurou o passo pelos corredores até alcançar a sala. Quando chegou, o professor ainda não havia entrado, mas estava à porta conversando com um rapaz alto, de postura firme e olhar sereno. Pela forma como falavam, parecia um diálogo animado.
Daeron hesitou em interromper, baixando discretamente a cabeça. No entanto, antes que pudesse entrar, ouviu seu nome ser chamado:
— Bom dia, Sr. Rodrigues. No que posso lhe ser útil? — perguntou o professor, com um sorriso.
Daeron corou instantaneamente. Manteve o olhar baixo, os cabelos caindo sobre os olhos, sentindo o rubor subir-lhe ao rosto enquanto percebia que agora dois pares de olhos estavam sobre ele.
Mas o professor logo prosseguiu:
— Quero lhe apresentar meu afilhado. Derek, há quanto tempo você chegou mesmo?
— Um mês, padrinho! — respondeu o rapaz com um sorriso leve, porém seguro.
A voz de Derek tinha um timbre firme e agradável, e, ao ouvi-la, Daeron levantou discretamente o olhar. Arrependeu-se no mesmo instante: o novo visitante o observava com curiosidade, quase analisando-o, o que o deixou ainda mais sem graça.
— Isso mesmo! — continuou o professor, animado. — Derek acabou de retornar de Tóquio, onde passou três anos estagiando em um dos laboratórios químicos mais renomados da atualidade. Voltou após receber uma proposta da Quimiks Marks, para assumir o cargo de diretor geral de pesquisas.
O professor fez uma pausa e completou com entusiasmo:
— E, com tanta experiência acumulada, pensei que seria interessante ele ministrar uma pequena palestra para vocês. Seria uma excelente oportunidade de aprendizado — e, claro, valeria alguns pontos extras.
Então, virou-se para Daeron:
— Mas antes, gostaria de ouvir sua opinião. Afinal, você sempre participa e sugere ótimos temas nas aulas. O que acha da ideia?
Daeron endireitou a postura. O rubor no rosto cedeu lugar à seriedade. Quando colocava sua “máscara profissional”, seu tom ganhava firmeza e respeito.
— Creio que seria uma oportunidade valiosa, senhor. — respondeu, com calma. — Poderíamos compreender melhor o que nos aguarda no mercado de trabalho, além de adquirir uma visão mais ampla sobre o funcionamento real de um laboratório. Acredito que sua proposta é excelente e deve ser levada adiante.
O professor sorriu satisfeito.
— Muito bem colocado, Daeron. Pode entrar e avisar aos grupos de apresentação molecular que se preparem, por favor.
— Claro, senhor. — respondeu com leveza. Voltou-se para Derek e fez um breve aceno. — Prazer em conhecê-lo, senhor Derek.
— O prazer é meu. — disse Derek, com um olhar que pareceu se demorar um pouco demais.
Daeron, sentindo o coração acelerar, desviou o olhar e entrou na sala. Lá dentro, o ambiente era animado: grupos conversavam, ajustavam anotações, trocavam risadas. Colocou seus materiais sobre uma das carteiras da frente e ergueu a voz:
— Licença, pessoal! Um minutinho de atenção aqui! — falou, gesticulando para que os mais animados fizessem silêncio.
Quando todos se voltaram para ele, explicou as instruções do trabalho e ajudou na organização dos grupos. Pouco depois, o professor entrou acompanhado de Derek.
— Obrigado, Daeron, por me ajudar mais uma vez. — disse o professor, antes de se sentar. — Assim que terminarmos as apresentações, lhes apresentarei o meu afilhado oficialmente.
As apresentações começaram. Um a um, os grupos foram se sucedendo. Alguns ainda demonstravam insegurança, mas o esforço era visível. Quando chegou a vez de Daeron, o ambiente pareceu mudar.
Sua voz, antes tímida, ganhou firmeza. Falava com paixão, clareza e domínio. Era como se todo o nervosismo desaparecesse, dando lugar a um brilho confiante e intenso.
Quando terminou, a sala ficou em silêncio por alguns segundos — até que uma salva de palmas ecoou. Todos o aplaudiam, inclusive o professor. Daeron, ruborizado até as orelhas, apenas sorriu, murmurou um tímido “obrigado” e fez uma leve reverência antes de voltar ao seu lugar.
Derek o observava, com um sorriso discreto no canto dos lábios. Havia algo em Daeron que o intrigava profundamente.
Continua…
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