Orlando se despediu de todos logo depois do discurso bêbado de Albaney. Saiu pela porta da frente e pediu o elevador no vão. Já era tarde da noite.

—Já vai embora? — Ele ouviu uma voz debochada atrás dele e virou. Viu Alice sorrindo.

—Meu plano era sair mais cedo. Você atrapalhou.

—Então estamos quites. — Ela deu um dos risinhos sarcásticos.

O elevador se abriu e Orlando entrou.

—Bom, acho que é aqui que a gente se despede. — Ele falou segurando a porta e ela fez uma cara de impaciente.

—Por favor, me tira daqui. Não aguento mais essa gente.

Ele pensou um pouco e deixou que ela passasse. Ela entrou rapidamente e ele percebeu que ela carregava uma bolsa pequena. O seu rosto estava menos inchado. Ela havia bebido, mas não parecia bêbada. O primeiro impulso de Orlando foi tentar inventar uma desculpa para seu pedido, mas algo nela fez com que ele cedesse.

Eles chegaram ao estacionamento e caminharam lado a lado.

—Qual é seu carro?

—Aquela BMW preta. — Ele apontou destravando o carro.

—Pra onde você vai agora?

—Eu estava planejando ir pra casa.

—Você é assim tão caseiro?

Ele deu os ombros e entrou no carro. Ela fez o mesmo.

—Então fechado, vamos pra sua casa.

—Você quer ficar em algum lugar? Na casa de uma amiga ou sei lá…

—Eu não tenho amigas. E tenho um apartamento no centro.

—Posso te deixar no seu apartamento. Não se sentiria bem em minha casa.

—Porque? Não tem quarto na sua casa? Ou você é casado?

—Eu não sou casado… — Ele falou dando partida no carro. — Mas não seria legal você dormir lá. Sou homem e…

—Ah, por favor… Quer dizer que nunca transou com uma filha de diretor pra conseguir o papel? Ou com a esposa? Ou…

—Olha, não sei qual o seu problema. Mas eu não quero problemas pra mim. Então não desconte sua frustração em mim.

Ela ficou em silêncio. Estava com raiva dele. Era palpável o sentimento dentro do carro.

—Não vou transar com você só pra que você me culpe de alguma coisa depois.

—Você não me conhece.

—Que bom, porque sinceramente acho que você não se esforçou nada pra que eu te conhecesse. E tô realmente achando que não quero te conhecer.

—Você é idiota assim só com desconhecidas ou com todo mundo?

—Quem está sendo idiota a noite toda é você.

Eles ficaram em silêncio até que Alice olhou para o porta-luvas e o abriu, tirando alguns cds de lá.

—Elliot Smith? Não imaginava que tinha bom gosto pra música.

—Quer colocar? — Ele perguntou prestando atenção no trânsito.

Ela colocou o cd no aparelho e começou a tocar. Por alguns minutos ambos ficaram em silêncio.

—Está com fome? — Ele perguntou olhando pra ela.

—Não comi nada hoje. — Ela falou olhando pela janela.

—Come sanduíche? Tem um Burguer King aqui perto.

—Qualquer coisa.

Orlando dirigiu alguns metros e eles viram o letreiro do BK. Então ele entrou no drive thru.

—O que você vai querer?

—Whopper Rodeio. — Ela pediu ainda olhando pela janela.

Orlando ficou alguns segundos olhando pra ela e então virou para fazer o pedido. Quando receberam a comida, ele dirigiu alguns metros para o estacionamento e desligou o carro.

—Se queria comer aqui, por que não descemos e comemos lá dentro? — Ela perguntou enquanto tirava o sanduíche da sacola.

—Evito ir a esses lugares pra não ser reconhecido.

—É tão conhecido assim? — Ela perguntou debochando.

—Eu estava em uma festa onde o Ian McKellen disse que sentia falta de trabalhar comigo.

Ela apenas virou os olhos e comeu uma batata frita.

—Você é um esnobe filho da puta.

—Um esnobe? — Orlando olhou pra ela rindo sem acreditar. — E como chegou a essa conclusão?

—Você finge que não se importa. Finge que não gosta de ser conhecido. Mas adora isso.

—Acho que você não é a pessoa mais indicada pra dizer o que eu sou ou não. Nem me conhecia no começo da noite. — Ele disse já irritado com aquela mulher. Queria se livrar logo dela.

—Porque abandonou os cinemas? — A pergunta foi tão inesperada e sem contexto que Orlando precisou limpar a garganta.

—Como você soube disso?

—Meu pai me disse mais cedo. — Ela voltou a comer.

—Eu… Eu não quero falar disso. Vamos te levar ao teu apartamento.

Ele deu partida no carro. Quanto mais rápido se livrasse dela, mais paz teria. Quase se arrependera de ter salvado aquela mulher.

—Você deve ter se perguntado porque eu sou negra, ne? — Ela disse dando a última mordida no sanduíche.

—Na verdade não…

—Não seja cínico. — Ela disse segurando o riso. — Ora vamos, você não pode ser tão mente aberta assim.

—Creio que se você quer falar, não posso fazer nada a respeito.

—Ele me adotou. — Ela disse com a voz amarga quase rindo. — Aquele maldito foi ao Brasil me adotar.

—Isso não é bom?

—Ele me tirou da minha família.

—Ele te adotou. E te deu tudo. Pelo que vejo, você é uma ingrata.

—Eu sei muito bem quem eu sou.

Eles permaneceram em silêncio e ela voltou a falar minutos depois.

—Eu sempre fui um peso que ele teve que carregar. Ele queria mostrar que era bom. “Olha como eu sou demais, adotei essa negra pobre e dou tudo a ela”.

—Não está sendo injusta e racista?

—Ai meu Deus, você acredita mesmo nisso?

Orlando não falou nada. Sabia que isso existia. Sabia que existiam artistas que faziam isso pra se promoverem. Mas ele não conhecia tão bem Albaney para julgá-lo daquela forma. Na verdade nem se importava.

—Você está arrependido, não é? — Ela falou olhando pra ele e, pela primeira vez, viu tristeza em sua voz e em seus olhos. — Arrependido de ter me tirado daquele batente.

—Não estou arrependido. — Ele falou sinceramente. — Só não entendo você.

Ela não falou nada. Orlando então desviou o caminho do centro para Hampstead.

—Aonde estamos indo? — Ela perguntou quando ele desviou.

—Para minha casa. Estou muito cansado pra desviar até o centro. Você dorme lá essa noite e amanhã peço pro motorista te levar até seu apartamento ou a casa do seu pai, como preferir.

Ela nada disse.

O som ainda tocava uma música triste de Elliot.

Drink up, baby, stay up all night

The things you could do, you won't but you might

The potential you'll be that you'll never see

The promises you'll only make

Drink up with me now and forget all about the pressure of days

Do what I say and I'll make you okay and drive them away

The images stuck in your head

People you've been before that you don't want around anymore

That push and shove and won't bend to your will

I'll keep them still

A casa de Orlando era uma mansão. No estacionamento haviam no mínimo uns quatro carros. Na propriedade também ouviam-se latidos. Orlando estacionou e ambos saíram do carro e entraram na casa pela cozinha.

—Ainda tem fome? — Ele perguntou abrindo a geladeira.

—Você cozinha?

—Não muito. Mas sei me virar.

—Tem leite? Eu não tomei refrigerante.

Ele procurou mais um pouco e viu uma caixa de leite. Tirou da geladeira e procurou nos armários onde tinha copo. Achou onde Maria guardava os copos e pegou dois.

Encheu ambos e entregou um a ela que sentou em cima da bancada.

—Você tem uma casa legal.

—Foi uma dos poucos bens físicos que ficou pra mim depois do divórcio.

—Você foi casado.

—Fui. Mas não sou mais. — Ele terminou de tomar o copo de leite. — Eu vou subir. Pode escolher qualquer quarto lá em cima pra dormir. Não tenho roupa pra você. Mas todos tem toalhas e roupões. Não vai fazer nenhuma loucura de se matar em minha propriedade, não é?

—Não, não. — Ela disse descendo da bancada e colocando o copo de leite na pia. — Er… Obrigada por hoje.

Aquilo fora inesperado. Orlando olhou pra ela por alguns segundos e engoliu em seco.

—Tudo bem… Não foi nada. Só não tente nada.

Ela assentiu e ele também.

—Boa noite. — Ele falou e saiu da cozinha subindo as escadas deixando Alice sozinha na cozinha.

Entrou no quarto e trancou a porta. Tirou o terno e caiu na cama. Estava exausto e sem entender o que havia acontecido ali. Pode ouvir os passos passando em frente ao seu quarto e parando. Foi até a porta e colocou o ouvindo nela tentando ouvir o que estava acontecendo.

Os passos voltaram até sumir. Orlando presumiu que ela havia escolhido algum quarto ali para dormir. Agradeceu mentalmente por isso. Voltou pra cama e tirou toda a roupa entrando embaixo das cobertas. Mais uma noite de insônia, ele presumia.

—

Orlando acordou de supetão. Sonhara que Alice havia pulado da varanda de um dos quartos. Na verdade ainda achara que tinha ouvido. Correu pra varando do seu quarto pra olhar pra baixo mas parecia que nada havia acontecido. Era de manhã. Pra ser mais exato, dez da manhã. Ele havia pegado no sono quase que imediatamente após ter deitado.

Vestiu um calção e saiu do quarto. O dia estava correndo como os conformes na casa. Havia barulho das pessoas trabalhando. Orlando desceu as escadas e foi a cozinha. Encontrou Maria ordenando algo como sempre.

—Oh, bom dia Sr. Orlando. Deseja tomar café.

—Quero sim, Maria.

Ela então começou a preparar o café.

—Maria, sabe me dizer qual quarto a nossa hóspede está?

—Hóspede? — Ela parecia surpresa com a pergunta.

—Sim, a Alice. Você deve ter percebido que ela está dormindo em um dos quartos.

—Sr. Bloom, não havia ninguém hoje cedo nos quartos de hóspedes. Nem se quer havia indício de que alguém dormiu neles.

Orlando então coçou a cabeça. Será que Alice teria ido embora no meio da noite? Mas pra onde?

—Sr. Bloom? Tudo certo? — Maria perguntou preocupada. Certamente achava que ele estava ficando louco.

—Não, não. Er… Eu não vou mais tomar café. Preciso sair. Peça para o Johnny aprontar o carro. Preciso que esteja limpo daqui a meia hora.

—Sim senhor. Vai dirigindo ou quer que ele…

—Vou dirigindo mesmo. Usarei o conversível.

Orlando subiu as escadas correndo e tomou um banho rápido. Pegou o roteiro do filme e nem se quer leu uma linha. Colocou uma roupa nada formal e saiu.

—

—Orlando! Que bom vê-lo! — Albaney falou se levantando da sua cadeira. — E, devo dizer, tão cedo.

—Fico feliz que tenha me recebido. — Ele falou sorrindo. — Liguei para o seu escritório e disseram que estava em casa.

—Acabei bebendo mais do que devia ontem. — Ele piscou e apontou para a cadeira enquanto voltava para a sua poltrona. — A que devo a honra? Espero que sejam boas notícias.

—Creio que para você sim. — Ele colocou o roteiro na mesa. — Eu vou confiar no senhor. Preciso e quero voltar pros cinemas.

—Então nem leu o roteiro?

—Nem uma página se quer. Mas estou dentro.

—Mas Orlando…

—Vamos, Albaney. Você queria isso, não era? Estou dentro. Estudarei o personagem e você me diz quando começarão as filmagens.

O rosto de Albaney se abriu em um sorriso.

—Obrigado pela confiança. Isso merece um brinde. Que tal um copo de whisky?

—Nada me deixaria mais feliz. — Orlando falou com um sorriso forçado.

O diretor sorriu e foi até o bar do escritório.

—E a sua filha?

Albaney virou de repente com um rosto curioso.

—O que tem ela?

—Ela está em casa?

O diretor trouxe o copo e entregou nas mãos de Orlando que agradeceu.

—Não. Na verdade ela não aparece desde ontem. Provavelmente está em seu apartamento no centro. Ela faz isso as vezes.

—Faz o quê?

—Some. Não dá notícias. Se eu não tivesse um detetive tão confiável que ficasse de olho em minha família, teria já tido um infarto. Alice é uma moça muito peculiar.

—Como assim?

—Ela nunca… Digamos… Se sentiu a vontade com a fama, dinheiro ou tudo o que a gente deu pra ela.

—Entendo… — Orlando murmurou enquanto tomava um gole do whisky.

—É uma hipócrita as vezes. Grita comigo, fala coisas absurdas e vai se abrigar no apartamento que eu dei a ela. — Ele balançou a cabeça como se lembrasse de algo. — Toda essa bosta ela tem porque eu a tirei daquela família pobre e dei tudo a ela.

Orlando não disse nada. Albaney parecia incomodado ao falar aquilo.

—Da última vez tivemos que interná-la em uma clínica por causa do uso abusivo de álcool. Claro que ninguém soube mas… Ela sempre foi uma decepção.

Orlando então entendeu toda a raiva de Alice pelo pai adotivo. Ela não era nada do que ele esperava e a humilhava por isso.

—Ontem vocês estavam conversando, não é? Ela não foi…

—Eram banalidades. Me pareceu uma pessoa normal. — Orlando quase riu da afirmação. Alice não parecia nada normal. Mas não queria que o pai soubesse do que havia acontecido. — Gostei bastante da sua companhia. Queria saber se poderia me dar o endereço…

—Esqueça Orlando. Alice é problema. É o meu problema. E eu não queria que ela se tornasse problema pra outra pessoa. Muito menos pra pessoa que vai fazer um filme comigo.

Orlando entendeu que aquilo era sua última palavra. Não conseguiria arrancar nada do diretor. Na verdade uma parte dele estava aliviado. Sabia que ela não era normal e nem era problema dele.

Conversou alguns minutos com Albaney e se despediu. Estava com um trabalho novo, seu foco era fazer o seu trabalho e estudar seu personagem. Sabia que isso requereria tempo e esforço. Alice só atrapalharia o processo.

—

—Anda, Alice! Sai dessa cabine logo! — Millie quase gritava com a amiga que só deixava a cabeça do lado de fora.

—Estou ridícula.

—Não está. E todas minhas madrinhas vão usar esse modelo.

Alice saiu da cabine e os olhos da amiga brilharam.

—Você está linda.

—Eu estou horrorosa! — Alice falou olhando no espelho. — Não sei porque aceitei participar desse casamento idiota.

—Por que você me ama. — Millie disse levantando e nem se importando com as palavras da amiga. Ela sabia que aquilo não era verdade.

Alice se olhou no espelho novamente e então bufou.

—Você está me devendo uma.

Millie nem deu ouvidos e estava falando com a costureira para acertar os ajustes.

Minutos depois as duas estavam saindo da loja de vestidos e indo em direção a algumas lojas caras.

O incidente do dia do aniversário do seu pai já havia sido há três meses. Desde então, pisou lá para vê-lo pouquíssimas vezes. E deu graças a Deus por ele ter viajado para Brighton para as filmagens do seu novo filme.

Aparentemente Orlando Bloom havia aceitado o papel principal para o filme, o que deixara seu pai muito feliz e ouriçado. Alice estava com vergonha do ator. Depois de tudo que ele havia feito por ela, ela havia agido de uma forma totalmente descortês. Aquela noite em especial, ela estava bêbada e drogada. E ele a havia salvado de um destino muito cruel. Ele a ajudou, ofereceu comida, ofereceu sua casa e ela havia sido mal educada. E ainda saiu sem avisar no meio da noite.

Coisa que Alice imaginou que não fez nenhuma diferença já que ele não a procurou pra nada. Não poderia ficar ali. Não depois de tudo que havia feito. Não teria cara para encará-lo na manhã seguinte. Não depois de ter se insinuado pra ele.

Pensou em escrever algum bilhete pra ele explicado e agradecendo. Mas depois de muitos papéis amassados, decidiu que ficaria em silêncio. E certamente faria papel de boba, afinal ele nem deveria pensar mais nela. Se é que um dia pensou. Ela nem se quer sabia por que ainda pensava nisso.

—Ei, o George queria conhecer o set de filmagens do O Indomável. — Millie falou após sentarem em uma mesa de restaurante.

—O quê?

—Sim, Alice. O set de filmagens onde seu pai trabalha. Onde é diretor.

—Em Brighton? Olha, não acho que seja uma boa ideia.

—Alice, pelo amor de Deus. Você é filha do diretor. Conseguiria fácil nos colocar pra dentro.

—Você não entende, Millie, eu não queria me envolver nas filmagens do meu pai. Ele já me acha intrometida o bastante.

—Quando ele filmou o último filme você nos levou.

—Foi em Londres e eu não estava brigada com ele.

—Por favor… É o seu presente de casamento para nós.

—

—Claro que pode trazer Millie e George pro set pra verem as filmagens e falarem com alguns atores. Eu gosto deles. Tenho que lembrar de comprar o presente de casamento…

—Tem certeza pai? Não vamos atrapalhar nada?

—Não. Claro que não. Podem ficar no hotel que os atores ficam.

—Tudo bem…

—Ah, Alice… Por favor, eu só te peço pra…

—Não se preocupe pai. Não vou sair da linha. Eu estou sóbria. Só quero levar meus amigos.

—Tudo bem.

Ambos ficaram alguns segundos em silêncio.

—Eu vou voltar ao trabalho. Diga aos dois que a estadia de vocês serão por minha conta.

—Obrigada pai…

Eles se despediram e Alice deitou na cama. Era o que mais temia. Que o pai aceitassem eles em Brighton. Provavelmente todos trabalhariam muito e prestariam pouca atenção neles.

Era isso que ela desejava.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.