Notas iniciais
Oe c: Desculpem a demora para postar, mas nós estávamos preparando algo bem legal para quem quer que esteja lendo isso. Fiquem com mais um capítulo emocionante.

FAITH KOWALSKI

Eu, realmente, não entendi o que acabara de acontecer. No começo, achei que estava sonhando, mas depois vi que Kevin demorava muito para acordar. Ele ainda estava ali, desmaiado. Esse tal de Sr. Brunner disse que voltaria ao acampamento.

— Levem Kevin até sua casa. Ele se recuperará em breve. Depois, peguem um táxi de ida ao acampamento. Seu sátiro sabe muito bem o que fazer. Não se preocupem com nada. Quando chegarem lá, conversaremos — explicou ele.

“Não se preocupem”, disse ele. Claro! Não temos nenhum motivo para estarmos nos escabelando. Não pude ser coroada no baile de inverno porque, por algum motivo, um manticore estava atrás de nós. Kevin é um bode, ou metade de um. Eu sei que termo politicamente correto é sátiro, mas isso não é normal! Eu e Amber descobrimos que somos filhas de um deus e, pelo que parecia, quase causamos uma tempestade.

— Espera — disse eu, — o que falaremos para nossos pais? Eles sabem disso tudo?

— Garanto que terão discernimento sobre o que fazer.

E assim, ele se foi. Uma criatura metade homem, metade cavalo havia nos deixado ali, sem saber o que fazer.

— Ótimo! Por que isso tinha que acontecer logo com a gente? — comecei a andar de um lado a outro. — Eu só queria ser coroada rainha do baile, junto com o lindo do Ryan. Formávamos um casal tão bonito, não acha Amber?

— Só acho que...

— Silêncio. Estou falando. Agora, provavelmente ele nem irá olhar mais para mim. Tudo por conta de um monstro com espinhos na cauda que invadiu a festa dos meus sonhos! — Eu estava revoltada, furiosa. Sentia como se, em breve, os céus se abririam e um raio destruiria tudo.

— Fay... Não quero atrapalhar sua repugnância, mas Kevin está acordando. Precisamos fazer alguma coisa — assegurou Amb. —

— Tudo bem, mas vamos chegar a casa com um bode e vamos falar o que? “Mãe, olha, esse é o melhor amigo de Amber, ele é um sátiro. Somos filhas de um deus e precisamos ir para um acampamento que nem sabemos onde fica.”

Logo que terminei de falar, aconteceu algo que nunca esperei presenciar: Amber estava me abraçando. Diferente do abraço que aconteceu no banheiro, esse me passava segurança. Nós nunca tínhamos nos abraçado e, de repente, foi como se nada tivesse acontecido.

— Irmã, vai ficar tudo bem — Amb disse, me consolando. — Uma vez mamãe não disse que meu pai era um amante das águas? Isso não deve ser só um cara que gosta de pescar nos finais de semana. Vamos para casa. Ela saberá o que fazer. — Amber me apertou no abraço. —

— Meninas, admiro muito o momento gracioso das duas, mas eu ainda estou aqui e precisamos ir para o acampamento com urgência — suplicou Kevin. —

— Ai, gente. Nós iremos caminhando embora? Moramos a uns três quilômetros daqui. — Eu já estava me irritando. Estava toda molhada, com frio e, pelo visto, teria de ir caminhando até nossa casa.

— Não podemos ir caminhando — explicou Kevin. — Morreríamos antes de chegarmos à metade do caminho... Mas podemos mandar uma mensagem de Íris para a mãe de vocês.

— O que seria uma mensagem de Íris? — Perguntou Amb. Tantos nomes.. Ninguém estava entendo mais nada.

— É difícil de explicar.. — Começou Kevin — Eu vou mostrar como funciona.

Ele procurou algum reservatório de água e pegou uma moeda na mão. Esse cara é louco! Ele falou algo que, se eu tivesse uma audição de tigre, teria entendido. Uma espécie de televisão imaginária apareceu e pudemos observar a imagem de Don lá do outro lado. Ele estava com um olhar aterrorizado, como se não acreditasse no que estava vendo. Nesse ponto, nem eu acreditava mais.

— Fay? Amber? Vocês estão bem? O que é isso? Onde vocês estão?

Ele estava atacado. Coitado. Tantos anos no trabalho dele não chegavam nem perto da loucura que está sendo o dia de hoje.

— Don. Don! Acalme-se. Nós vamos explicar — ou tentar — quando chegarmos em casa. Agora precisamos que você venha nos buscar perto do local do baile. Aconteceu algumas coisas e precisamos fugir.

— Fugir? De quê?

— De uma manticora, acho — falou Amber, se achando a tal.

— Manticore — a corrigi. — Duvido que Don saiba o que é um. Mas Don, é sério. Precisamos que nos busque o mais rápido possível. — Implorei. Segundo Kevin, algo muito ruim iria acontecer em breve.

— Ok, ok. Estou indo. Tentem sinalizar com alguma coisa. Não façam movimentos bruscos. A ajuda já..

— Don, esse não é um de seus trabalhos. É só nos buscar. Mas rápido.

— Gente — interrompeu Kevin, — o tempo da mensagem está acabando. Falem o que precisam falar logo.

Foi só o tempo de Kevin terminar de falar e vimos algumas falhas surgirem na tal mensagem. A imagem de Don estava sumindo. De repente, não víamos mais nada.

— Gostei disso. Poderei conversar com minhas amigas o tempo todo. É só ter as moedas.

Amber me olhou com repugnância.

Estávamos dependendo de Don. Era tudo ou nada. Por algum motivo, eu queria muito estar nesse tal acampamento. Algo me dizia que lá era o único lugar que estaríamos verdadeiramente protegidas.

Começamos a escutar uns ruídos na mata perto de nós. Amber começou a dar os primeiros indícios de medo dos últimos minutos. Kevin estava com os olhos arregalados. Para nossa sorte, no exato momento que ouvimos uns passos se aproximando, um Corolla 2015 apareceu na estrada. Nossa salvação. Corremos em sua direção e foi o quanto antes que entramos.

— Don, obrigado por salvar nossas vidas. — Kevin se atirou dentro do carro como se dependesse disso, o que, de certo modo, era verdade.

— Não sei o que está acontecendo, mas pela exasperação de vocês, é de sorte que eu estava aqui por perto. — Don estava com um olhar de curiosidade. — Tudo bem. Temos um longo caminho até nossa casa. Podem começar a explicar.

Eu e Amber não falamos nada. Estávamos com plena certeza de que Kevin explicaria tudo. Olhei para ele e ele não dava nenhuma pista de quem falaria algo. Dei uma cotovelada nele e ele se ligou no que estava acontecendo.

— Oh, sim. — Kevin se mexeu no banco do automóvel como alguém que, realmente, não sabia o que fazer. — Desculpe, Sr. Kowalski, mas eu não posso contar muita coisa. Só posso dizer que, tudo o que o senhor sabe sobre mitologia grega, é verdade. Eu estou aqui para proteger essas duas meninas de todos os monstros mitológicos de que o senhor já ouviu falar. Alguns deles já descobriram quem elas realmente são e eu preciso leva-las para o acampamento.

Don estava fascinado na história como se fosse um conto infantil para crianças. Por um momento, ele se desligou ma estrada e quase saiu da faixa. Sorte nossa que ele acordou a tempo.

— E quem elas realmente são?

— Semideusas. Filhas de deuses gregos. Faith é filha de Zeus e Amber, de Poseidon.

A expressão de Don mudou de fascinação para tristeza. Coisa que eu não entendi porque. Motivos para ficar bravo, ele tinha. Mas por que triste?

— Don, você está bem? — Eu estava preocupada, nunca tinha o visto com tal expressão. Nem quando perdera um de seus homens.

— Eu tenho pleno conhecimento de que não sou o pai de sangue de vocês, mas ficar sabendo disso me fez pensar sobre a vida. É como se tudo o que eu aprendi fosse mentira. Deuses olimpianos? Monstros? Semideuses?

— Eu sinto muito, Don. Se eu pudesse escolher, preferiria que nada disso fosse verdade. Pelo menos, não conosco. — Tentei acalma-lo.

Em parte, me sentia culpada por isso. Era como se eu tivesse a obrigação de saber de tudo e devesse contar toda a história à Don.

Amber também estava me preocupando. Ela estava mais sentimental do que nunca. Novamente, estava segurando minha mão. Ela era minha irmã caçula e estudos dizem que é normal que irmãs mais novas achassem conforto nas mais velhas, mas ela nunca foi assim.

— E sua mãe? Trisha sabe disso?

— Ela sabe que Zeus existe, que é um deus, e tal, mas nem em seus sonhos mais absurdos ela imagina que sejamos filha de um deles. — Eu expliquei.

Amb olhava para Kevin com um olhar de curiosidade.

— Kevin — ela começou -, me responde uma coisa: eles, você sabe, os deuses.. Eles sabem que existimos?

— É provável que sim, como também tem uma chance de não saberem.

— Então meu pai nem sabe que eu existo? — Eu pergunto, percebendo a situação.

— Agora, com certeza já sabe. Afinal, vocês quase destruíram um colégio com uma tempestade.

Amber estava paralisada. Parecia estar absorvendo a informação com certa dificuldade. Não parava de resmungar algo para si mesma que só ela entendia. Don virou-se para comentar algo, mas foi interrompido quando um cachorro gigante quase atravessou o capô do Corolla 2015. E dizer que esse carro seria meu.

— Santo Cristo, que porcaria foi essa?

Don levou um susto tão grande que quase nos tirou do acostamento. Acho que qualquer um levaria um susto, não é sempre que um cachorro do tamanho de um rinoceronte ataca nosso carro. Ficamos um tempo parados no meio da faixa até escutarmos os estrondosos passos do monstro se afastarem.

— Kevin! O que foi isso? — Todos nós estávamos apavorados. Kevin era o único que podia saber algo nesse momento.

— Um Leão de Neméia. — Ele parecia mais confuso que em qualquer hora que eu o vira. — Mas... Por algum motivo, não estava à nossa procura.

Don continuou jornada até nossa casa. Torcíamos para que nada mais nos atrapalhasse. Chegamos em casa e Trish, digo, mamãe, quase não nos reconheceu. Nem eu me reconhecia. Parecíamos um dos monstros que nos atacara: cabelos pareciam maçarocas ambulantes, nossos vestidos, que tinham custado um bom dinheiro, agora estavam virados em um trapo. Sem contar o nosso emocional. Depois disso tudo, ficamos destruídas, tanto por dentro quanto por fora.

Entramos na casa e, de certo modo, senti um aperto no coração. Olhei ao redor, as paredes esculpidas de mármore entravam em um perfeito contraste com o cobre do chão. Móveis em cores neutras nos lembravam nossa origem britânica. Alguns lenços feitos sob medida revelavam pequenos enfeites de ouro. Era uma verdadeira obra dos deuses e, lá no fundo, eu sabia que nunca mais veria aquele lugar.

— Ah meu Deus! — Exclamou minha mãe. — O que aconteceu? Olhem essas roupas! Ah, não me diga que foram assaltadas?

Kevin estava tentando explicar a situação. Eu e Amber também, mas só estávamos atrapalhando. Do nada, Trish fica histérica e começa a chorar. Amber tenta consolá-la, mas no mesmo momento, vimos Kevin olhando para o que seria uma mensagem de Íris. Era o Sr. Brunner dizendo que um tal de Argos estava a caminho, vindo nos buscar. Também disse que Ártemis avisou que estavam caçando um Leão de Neméia.

— Mãe —Trish levantou os olhos para ver Amber se levantando —, a senhora sabia que Poseidon é meu pai? — Mamãe apenas balançou a cabeça afirmando. — Então por que não me disse? A senhora me deixou esse tempo todo acreditando que meu pai não me amava! Quatorze anos pensando que ele me abandonara.

Amber estava, de fato, muito zangada. Nunca a havia visto tão revoltada. Ela saiu de um modo que deixou até Don impressionado, e minha mãe, perplexa. Certamente foi esperar nossa carona lá fora, para não ter de ouvir o discurso que nossa mãe acabara de começar. Kevin nos olhava como se tivéssemos em meio a uma reunião familiar.

— Acho que vou... Falar com ela. — Don se manifestou sem jeito e saiu.

— Então... A senhora está bem, dona Kowalski?

Neste momento, eu sentia pena de Kevin. Ele tentava soar respeitoso, mas apenas piorava a situação. Ele se atrapalhava com as palavras como se recém estivesse aprendendo a falar. Era até engraçado de se ver, se não fosse uma ocasião crítica. Até diria para ele se acalmar, se não fosse o alarde de uma buzina. Trish me olhou com súplica no olhar. Ela não queria que fôssemos.

— Desculpe, mãe, mas é preciso. — De relance, vi Kevin sair para, talvez, conversar com nosso motorista. — Ou iremos morrer.

— Não, me desculpe você. Eu não queria ter escondido isso de vocês esse tempo todo, mas foi necessário para a sobrevivência de vocês. Mas eu juro que não sabia que Poseidon era um deus. — Trish parecia prestes a perder a pouca calma que recuperara nos últimos cinco minutos.

— Fay, precisamos ir. Argos não nos esperará por muito tempo. Até por que ele é o chefe da segurança. — Kevin entrou correndo na sala. Não sei como ele consegue correr com aqueles cascos de bode.

— Ok. — Abracei forte minha mãe, afinal não sabia quando a veria novamente.

— Mas e essas roupas? Vai chegar desse jeito no acampamento? — Ri comigo mesma. Típico de minha mãe se preocupar com roupas em uma hora dessas. — Não dá tempo de se trocar e arrumar alguma mala antes de ir?

— Não! Precisamos ir... Agora! — Kevin gritou quando percebeu que Trish não me soltaria tão cedo.

— Ok, ok. Estou indo. — Caminhamos, minha mãe e eu, em direção à porta.

Tenho certeza que mamãe saiu para dar tchau a Amber, mas ela já estava dentro da...

— O quê? Nós vamos ir dentro... Disso? — Eu estava indignada. Além de ter perdido o baile e não ter sido coroada, teria de chegar a um lugar que nem conheço em uma van?

— Desculpe, criança, mas não podemos entregar morangos em um Bugatti Veyron. — O motorista vociferou ofendido. Isso me fez olhá-lo, e ele estava me olhando com seus vários olhos espalhados pelo rosto.

— Mas o que...

— Fay, este é Argos, nosso chefe da segurança. — Kevin me interrompeu inseguro. — Ele irá nos transportar até o acampamento.

Don se aproximou lentamente de onde estávamos e olhou para mim, abatido.

— É... Acho que nos despedimos aqui. — Eu sussurrei.

— Você está falando como se estivéssemos nos vendo pela última vez. — Ele exclamou com um meio sorriso no rosto.

— E não é?

— Não! Óbvio que não. Se precisar, as busco eu mesmo no acampamento.

Dei uma pequena risada e o abracei. Kevin murmurou algo, mas tão baixo que não pude compreender. Finalmente olhei para Amber. Afastei-me de Don e entrei na van. Argos deu partida e a última coisa que vi foi minha defensora se abraçando em meu único amigo, enquanto Amber observava o cenário.

***

A visão do acampamento era drástica. Mesmo da autoestrada já víamos a fumaça subir. Olhei o tamanho da colina e desanimei. Aquilo tinha mais de 30 metros de altura!

— Não me diga que teremos de subir tudo isso a pé!? — Só o pensamento já me cansava.

— Deixe de ser preguiçosa, Faith! — Amber finalmente nos agraciou com sua presença. — Argos, o que está acontecendo lá em cima? —Acrescentou preocupada.

— Creio que, pelos meus anos de experiência, estão tentando atacar a Colina. — Argos falou aquilo de modo que nos fez pensar que aquilo acontecia todo dia.

— É, Argos... Acho que conseguiram ultrapassar a barreira mágica. — Kevin decretou comendo o cinto de segurança. Eca.

— Ah... Ótimo! Tinha que ter magia, é claro! Não sei como não suspeitei disso. — Eu estava farta de tudo isso.

— Quem sabe deixamos para reclamar depois que tudo isso acabar e estivermos bem confortáveis em uma cama quentinha? — Minha irmã não tinha o dom de acalmar alguém!?

Olhei para meus pés descalços e pensei em como ficariam depois disso. Mas dessa vez não era apenas eu. Amber também parecia preocupada. Tomei coragem e dei o primeiro passo até a cerca que delimitava a propriedade. Esses seriam os primeiros passos dessa nova vida. E eu entraria nela como um farrapo. Que bela ironia!

Conforme passávamos por árvores e mais árvores, ouvíamos o desespero de crianças e adolescentes. Gritos de guerra eram clamados por uma garota. Pelo menos não eram machistas.

— Quem está gritando? — Amber parecia aflita. Seu cabelo era um emaranhado de folhas. Eu até a zoaria, mas entendia sua situação.

— Uma valentona do chalé de Ares. Não se metam com ela. — Kevin nos alertou.

— Desde quando valentões me colocam medo? Eu convivo diariamente com uma! Nem a conheço, mas tenho plena certeza de que Fay a fará chamar pelo pai! — Isso era um elogio. Cântico aos meus ouvidos.

Aos poucos começamos a avistar um grande cachorro avançando para uma linha de mulheres-cobras que mantinham nossa visão de qualquer outro campista bloqueada. A imagem era assustadora e ao mesmo tempo deslumbrante. Parecia uma cena de filme. Completamente perfeito.

— Oh meu Deus! — Amber arfou parando ao meu lado.

— Isso é coisa dos deuses! — Eu percebi que mantinha minha expressão em pura fascinação.

— Parece que temos trabalho a fazer. — Mal chegamos e já temos trabalho. Quem diria!

À vista disso, cruzamos o grande pinheiro a nossa esquerda para o que de agora em diante seria a nossa realidade.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Esse capítulo nos rendeu muitas gargalhadas. Queremos reviews e favorites. Até o próximo capítulo. Beijos, Ferry e Lyne.