Sophie nunca havia visto um sátiro; desde que descobrira ser semideusa, ponderava sobre a possibilidade da existência de tais criaturas. Não ficara tempo o suficiente no Acampamento Meio-Sangue para ver alguns dos que viviam por lá. Mas o que estava na sua frente era exatamente o que esperava ver em um sátiro: pernas de bode completamente cheias de pelo animal, barba e algum toque místico no olhar.

Seu rosto era tênue, que combinava com seu nariz também fino, e possuía uma barbixa na ponta do queixo. Suas sobrancelhas eram grossas de um estilo rústico, e ruivas assim como o cabelo bagunçado com dreadlocks, que caía cerca de um palmo abaixo de seus largos ombros. Seus olhos eram de um verde bem claro e olheiras tomavam conta da região de sua pálpebra inferior. Trajava uma camiseta do Coldplay que ressaltava sua barriga levemente avantajada.

Ao seu lado haviam dois semideuses. Um garoto de não muito mais que 16 anos e uma garota de talvez 15. A menina pareceria uma mortal comum se não estivesse com tantos machucados espalhados pelo corpo; já o garoto dava tiques nervosos e não parecia muito bem. Ele possuía um toque familiar. Seus cabelos lisos e ruivos que caíam-lhe sobre a testa, suas orelhas levemente pontiagudas e seu olhar perturbado não pareciam estranhos à Sophie. Embora ela tivesse plena certeza de nunca o ter visto antes.

A garota que estava sentada ao seu lado poderia muito bem ter saído da turma dos esquisitões da escola de Sophie. Possuía cabelos pretos lisos e com um corte estilo Channel. Suas sobrancelhas eram finas e seus olhos, pequenos. Era bem magra e baixa, sendo um pouco menor que Sophie. Usava uma camiseta preta, calças pretas e botas de couro pretas com muitas fivelas.

Lauren parecia conhecer os três, principalmente o garoto e o sátiro, pois quando Sophie, John e Henry chegaram na pequena clareira que acharam no meio da floresta, a filha de Poseidon estava abraçando forte o sátiro e agora estava jogada nos braços do ruivo e soluçava. O garoto parecia estar compartilhando o mesmo sentimento, embora não chorasse. Thomas observava o ruivo com os olhos arregalados.

– Certo — disse Nero cortando o momento — O que está acontecendo aqui? Quem são vocês?

Todos ficaram em silêncio até que Thomas resolveu explicar:

– Esses são Al, Eve e... Leith.

O último nome não era estranho para Sophie. Ela não demorou muito para lembrar.

– Leith? O garoto que é o irmão mais novo do Lian e que todos pensávamos que estava morto?

– Esse mesmo — respondeu Thomas.

Leith levantou a cabeça.

– Morto? — questionou Leith confuso — Eu estou morto?

Todos o encararam. Até Lauren refreou o abraço para olhar o garoto nos olhos.

– Ele ta louco — anunciou Al, o sátiro, se pronunciando pela primeira vez desde que Sophie chegara até o local. Sua voz era rouca, o que combinava perfeitamente com sua aparência mística.

– Louco? — perguntou Lauren com a voz controlada.

– Espere. Primeiro nos explique o que aconteceu — pediu Thomas gentilmente, mas logo sua expressão mudou, franzindo a sobrancelha — Eve, o que está fazendo aqui? Ontem você estava no Acampamento e até denunciou minha briga com Nero para Percy.

A garota hesitou por um momento.

– Ontem à tarde Percy me pediu para ir vigiar a tropa romana — disse ela — Aí enquanto estava patrulhando a uns 6 km daqui, encontrei esses dois parecendo mais acabados que maratonistas depois de uma corrida.

– Nossa, garota, como você é rápida — ironizou Nero.

Todos o ignoraram. Estavam ficando muito bons nisso. Thomas não parecia muito convencido com a resposta da garota, mas apenas assentiu.

– De qualquer jeito — disse ele — o que aconteceu com Leith?

– Não sei bem, na verdade — disse Al — Achei ele por aí enquanto tava fazendo umas coisas que o Conselho do Casco Fendido me mandou fazer e ele já tava pirado. Dava uns ataques de pânico e gritava alguma coisa sobre monstros e deuses. Isso parou por enquanto.

– Al, onde e quando você o achou? — perguntou Lauren já completamente recuperada.

– Foi em Washington há mais ou menos dois meses atrás.
Sophie engoliu em seco.

– Não foi mais ou menos quando aconteceu o ataque romano? — perguntou ela se juntando a Lauren para confortá-la.

Al franziu as sobrancelhas e olhou para John, Sophie, Henry e Nero.

– Laury, quem são eles? — perguntou o sátiro.

Lauren deu um pulo.

– Ah, esses são John, Sophie, Henry e Nero. Henry e Nero são dois romanos que se juntaram a nós e trouxeram John e Sophie com eles. Descobrimos que John é meu irmão gêmeo.

– Seu O QUÊ? — pasmou Al — Caramba, muié! Eu mal fico longe de você e tu já arranja essas confusão?

Sophie estranhou o modo de falar do sátiro. Também nunca vira alguém usar um léxico caipira.

Lauren riu.

– Ah, cale a boca! — ela disse voltando a ficar séria — Gente, esse é Al, meu melhor amigo. Ele que me salvou quando estava vagando por aí, procurando um lar — ela se virou para o sátiro novamente — Mas continue falando!

– Ah sim… Leith. Encontrei ele em Washington dois meses atrás quase comendo um poste. Nem me pergunte como! Ele tava mastigando um poste de rua e eu o impedi. Acho que algum monstro poderoso tentou usá-lo mas não deu certo.

– MEU IRMÃO!! — Leith de repente gritou. Ele agarrou Lauren pelos ombros, mas não tanto a ponto de machucar — ONDE ESTÁ MEU IRMÃO?? PRECISO AVISAR MEU IRMÃO!!

– Aé, ele também sempre chama o Lian — disse Al — Como que ele ta, aliás?

Lauren olhou para John, que olhou para Nero com uma cara de desprezo. Após esse movimento de John todos os outros se viraram para encarar o romano, menos Henry que encarava o chão.

–Ér… Pessoal. Vocês não vão criar mais uma confusão, não é? — disse ele.

Lauren cerrou os olhos e encarou Nero; o chão começou a tremer de leve. Al, conhecendo Lauren como conhecia se adiantou e a impediu de cometer um erro colocando a mão sobre seu ombro. O chão parou de tremer.

– Laury, o que aconteceu com Lian? — perguntou o sátiro.

– Diga para eles, Nero! O que aconteceu com Lian? — Lauren quase rosnava as palavras.

Nero engoliu seco, e Sophie percebeu que havia um pouco de vergonha em sua face. Vergonha que ele tentava esconder sem sucesso.

– Bom, espero que o maluquinho aí não consiga entender… Mas… Eu matei o Lian.

As ultimas palavras saíram da boca de Nero não como palavras de desculpa, ou até mesmo arrependimento, mas sim como palavras de triunfo, como se para ele aquilo fosse a coisa mais incrível do mundo. E para o azar de todos, e principalmente de Nero, Leith entendeu cada palavra que ele disse.

Leith, que estava de cabeça baixa tendo seus devaneios, levantou-a cuidadosamente, o que fez todos prestarem a atenção nele.

– O que você disse? — perguntou Leith.

– Quem? Eu?

Leith surtou.

– MEU IRMÃO! VOCÊ NÃO PODE TER MATADO MEU IRMÃO! ELE NÃO TA MORTO!

– Ho ho ho. Parece que alguém não quer aceitar a verdade — disse Nero rindo.

Sophie fez uma anotação mental: nunca provocar um cara que ficou louco. O rosto de Leith parecia que ia explodir de tão vermelho que estava. Parecia que ele inteiro ia pegar fogo, ainda mais com o cabelo ruivo que tinha. Seus olhos castanhos agora se destacavam. Pareciam dois botões dentro de um vulcão em erupção.

De repente Leith estendeu os braços e correu em direção a Nero tentando enforcá-lo. Thomas logo se moveu e agarrou os braços do garoto, impedindo-o de seguir em frente e imobilizando-o por completo. O ruivo se debatia brutalmente em seus braços e gritava como se estivessem matando-o. Não muito depois, os gritos se transformaram em um choro ruidoso. Thomas o soltou e Leih desabou no chão.

Lauren se agachou e o abraçou. Todos que estavam ali ficaram desconfortáveis. Sophie tentou ver a reação de Nero, mas ele e Eve tinham sumido.

– Laury — disse Leith depois de um soluço — Por que ele matou o meu irmão?

Lauren se soltou do abraço e segurou seus ombros.

– Porque ele é um idiota.

Leith ponderou por um momento.

– Por que então vocês estão do lado dele? Por quê?

– Porque nós não temos escolha. Percy vai te explicar — Os olhos de Lauren se iluminaram — Oh meus deuses! Percy vai ficar tão feliz ao ver que você está bem, Leith!

Leith franziu as sobrancelhas.

– Quem é Percy?

O rosto de Lauren pareceu se quebrar em milhares de pedaços. A reação de Thomas não foi diferente.

– Seu pai — disse Lauren — Percy é seu pai, Leith. Percy, Perseus Jackson.

O rosto de Leith se acendeu com reconhecimento, fazendo Lauren e Thomas emitirem um ruído de alívio.

– Papai? — perguntou ele.

– Sim! Papai! — Lauren estava radiante.

Então o ruivo caiu para trás e desmaiou. Al logo se apressou:

– Relaxem, isso sempre acontece quando ele se lembra de Percy.

Lauren se levantou e parecia bem abatida. Ficou em silêncio por um bom tempo.

– Você realmente não sabe o que causou a loucura dele?

– Não, não sei.

– Certo — disse Lauren fechando os olhos — Leve-o para o Acampamento o mais rápido possível.

Al fez uma careta.

– É isso que eu tava fazendo.

– Então continue!

Ele estreitou os olhos.

– Antes me digam: o que que ocêis tão fazendo aqui?

Sophie notou que John estava cansado de ficar calado.

– Estamos saindo em uma missão para achar destroços dos gregos que atacaram os romanos quando os romanos atacaram os gregos — disse ele.

Al não estava entendendo nada.

– Quê?

Lauren revirou os olhos.

– Resumidamente estamos indo ao Acampamento Júpiter achar pedaços de semideuses.

O rosto do sátiro escureceu.

– Ocêis vão pegar o túnel?

Henry estranhou.

– Que túnel?

– Quando os romanos nos atacaram, construímos um túnel subterrâneo que leva até o Acampamento Jupiter em cerca de dois dias ou uma semana. Depende da sua velocidade — explicou Thomas aparecendo atrás de Henry de repente.

Henry deu um pulo ficando atrapalhado e vermelho.

– Ei! Por que ninguém te deu um sininho de pescoço ainda?

Thomas riu.

– Sim, isso que o túnel faz — disse Lauren — E vamos usá-lo sim, Al. Por quê?

Al ficou quieto apenas encarando Lauren.

– Laury, por que ocê acha que nóis não usou o túnel pra voltar?

Lauren ficou branca.

– O túnel foi destruído?

Ele balançou a cabeça.

– Não. Mas farejei monstros lá. Muitos deles. Acho que quem passar por lá vai se sentir andando no Tártaro.

Sophie se adiantou.

– Mas não podemos perder tempo. E se esse túnel realmente existe, os gregos provavelmente passaram por lá para atacar os romanos.

Lauren olhou para Leith deitado no chão e esperou uns segundos para responder.

– Vamos ver o que podemos fazer. Mas leve Leith para o Acampamento agora, Al.

– Ta bão. Mais toma cuidado, Laury — disse o sátiro. Olhou para os outros semideuses — Todos vocês, tomem muito cuidado.

– Vamos tomar — disse John confiante.

Eve e Nero saíram das árvores.

– Já posso sair sem ser atacado? — perguntou o romano.

Todos o ignoraram. Al se abaixou e colocou Leith nas costas, com Thomas ajudando. Olhou para os seis semideuses e disse:

– Tudo bem então. Boa sorte procêis! Vamo Eve.

Eve se despediu com um aceno de cabeça e seguiu Al floresta adentro.

Os seis ficaram olhando o sátiro e a garota irem embora por um bom tempo.

– Ah — disse Henry quebrando o silêncio — Atravessar esse túnel não deve ser tão terrível assim. O que pode acon...

– Cale a boca, Henry! — Sophie, John, Lauren, Thomas e Nero disseram em uníssono.