Between Light and Dark - Pride
27 Nero Shadowing
— Isso é segregação social! — Sophie gritou enquanto o segurança do hotel enxotava ela e os outros. Esse era o terceiro hotel do qual eram expulsos, todas as vezes Sophie insistia dizendo que tinha, sim, dinheiro para bancar a estadia do grupo, no entanto, a imagem moribunda que passavam parecia ser um argumento muito poderoso contra as palavras de Sophie.
Não poderia-se dizer, mesmo assim, que os hotéis não tinham razão. Os quatro adolescentes pareciam ter saído diretamente de um buraco — o que não estava muito longe da verdade. Estavam completamente arrasados. Além da evidente sujeira e odor que emanavam, Lauren e Henry ainda apresentavam queimaduras nas roupas e fuligens nos rostos. Era realmente difícil crer que qualquer um deles pudesse pagar o próprio almoço, quanto mais a estadia em um daqueles luxuosos hotéis nos quais Sophie insistia.
Estavam, pela terceira vez, cabisbaixos andando para outro hotel quando Nero resolveu se pronunciar:
— Vocês sabem que eu posso usar o charmspeak, não é?
O rapaz havia perdido seu direito a palpites desde que, enquanto descansavam prostrados à parede da rua, havia recebido uma esmola de uma senhorinha elegante que, aparentemente, havia se movido de compaixão pelas pobres e maltrapilhas crianças abandonadas. Ele precisou de algum tempo para recuperar seu orgulho.
— Você está brincando, não está? — Lauren perguntou, incrédula. Nero limitou-se a manear a cabeça em negação — Você tem algum código de falta de honra que só te permite falar quando não é chamado?
— Henry também sabe disso — ele respondeu franzindo o cenho. O melhor amigo sabia desse poder mais do que ningúem.
Henry arregalou os olhos e assentiu lentamente como se só houvesse lembrado disso na hora. Mas seu aspecto cansado, mais do que os outros, a excessão de Lauren, justificava sua falta de memória. Ele e a filha de Poseidon haviam se esforçado muito havia pouco tempo e sem o descanso necessário, pensou Nero. Estavam claramente exauridos. Lauren, que parecia só poder usar suas reservas de energia para brigar com Nero, se calou perante ao cadavérico amigo loiro. Alguns instantes se passaram em silêncio até que Sophie irrompeu em fúria:
— O QUE ESTÁ ESPERANDO?
Nero decidiu que não valia a pena retrucar e adentrou o prédio. Bastou que desse o primeiro passo sobre o piso de mármore para que um homem — de terno, microfone pendendo sobre o maxilar se aproximasse dele com expressão severa.
— Por favor, garoto, acabamos de expulsar sua companheira. Não é bem-vindo aqui, se não se retirar chamarei a polícia.
— Ah, me desculpe, senhor. Minha prima é um pouco excêntrica. — Nero havia começado seu show. — A verdade é que sofremos um grave acidente. Nossos pais permitiram que viajássemos sozinhos. Sabe quem eles são? Mr. e Mrs. Montgomery? — Ele havia lido este nome em algum lugar, não importava — Eles sempre ficam neste hotel quando vêm a Los Angeles. Às vezes, por temporadas inteiras, aposto que ficariam chateadíssimos se soubessem que não lembra deles, David. — Ele leu o nome no crachá. Colocava todo o charme que conseguia na voz.
Para falar a verdade, aquela era uma das suas piores performances. Usualmente Nero era capaz de convencer aos outros usando somente a verdade, dessa vez estava demasiadamente cansado. Não que fizesse alguma diferença. O atendente — David — mudou sua expressão, de severa, para confusa.
— O que houve com vocês?
— Estava dirigindo a BMW do meu pai na estrada quando um Jeep veio do nada e nos empurrou para fora da estrada. Era noite. Andamos desde o km 37 até aqui. — Nero suspirou profundamente.
— Não estão feridos? — o homem perguntou enquanto apertava o botão em sua orelha sussurrando coisas incompreensíveis.
— É claro que estamos! — Nero enquanto demonstrava sua indignação, a única coisa verdadeira em sua imagem. Na realidade, eles não estavam feridos, não após comer ambrosia, ainda assim o farsante contou com a sorte: com o cheiro que emanavam e sob toda aquela sujeira era improvável que quisessem inspecioná-los. — Digo mais, meus pais devem estar mortos de preocupação. Imagino o que farão com os hotéis que nos enxotaram.
Esse foi o momento final de persuasão. Nero pôde perceber a suavização da expressão de David ao colocar o dedo na orelha, parecera estar ouvindo algo, Nero imaginou que fosse algum tipo de confirmação.
— Me perdoe, senhor Montgomery — quando Nero olhou para trás assistiu um segurança convidando os amigos a entrarem. — Por favor, desculpe o transtorno mas o senhor sabe como somos exigentes no nosso hotel — Ao voltar com o olhar para David se deparou com um sorriso amarelo e apologético que tratou de corresponder — Posso encaminhá-lo para uma das atendentes para que ela possa tratar da estadia com o senhor?
— Obrigado, mas na verdade… Sophie! Irmãzinha! — chamou, tratando de pôr os demais à par de sua mentira. — Trate com uma das atendentes sobre nossa estadia, sim? — Ele sorriu para ela, que parecia querer vomitar. Nero levantou as sobrancelhas, insistindo no sorriso e só então Sophie cedeu sendo, logo em seguida, seguida por David que insistia na ideia de que “tudo não passara de um grande mal entendido”.
***
Era como se tivessem trazido o próprio Davi, de Michelangelo, para dentro do quarto. Henry fechou a porta do banheiro atrás de si e suspirou:
— Esse banheiro, sozinho, é maior do que meu antigo quarto — Assim como Nero, Henry usava o roupão do hotel, é claro, entretanto, que o efeito emitido pelo loiro era bem diferente. A pele clara, e agora limpa, em contraste com a alvidez do roupão, o fazia parecer feito mármore. Os cabelos loiros, úmidos, lhe caíam sobre os olhos que, por sua vez, perambulavam pelo espaço a sua volta — Olhe essa cama, — ele voltou a falar caminhando até a própria. — de onde eu venho essa seria uma cama para casal. — ele se sentou, sorriu e só então olhou para o amigo.
Nero estava encostado à janela; ele zelava o costume de estar atento à coisas que humanos comuns não podiam ver. O sol brilhava forte às 8 da manhã, nada parecia incomum. Ele se afastou para olhar Henry diretamente, permitindo que raios de sol se estendessem sobre ele quase que magneticamente. Ele sorriu. O sol o propiciava um aspecto indelével. Nero havia se esquecido de como ele era bonito sem estar sob camadas e mais camadas de sujeira, à luz do sol. Havia se esquecido de como era tentador. Todas essas informações perdidas em algum momento enquanto perambulava às cegas debaixo da terra. Uma boa maneira de lidar com os problemas, Nero pensou, se tornar tão desprovido de energia que não é capaz de raciocinar. Então Henry balbuciou algumas palavras surdas e só assim Nero notou que tinha estado o encarando, mudo, pelos últimos instantes.
— O que disse? — perguntou, antes de se direcionar para a própria cama.
— Perguntei se já havia vindo para um hotel como este.
— Ah, — A mente de Nero se pôs a trabalhar, exausta, à procura de lembranças — uma vez. — respondeu por fim. A ocasião parecia ter ocorrido em uma outra vida, tão distante de túneis debaixo da terra, de monstros cuspidores de fogo, de anjos disfarçados de garotos. — Não me lembro muito bem. Me lembro de um saguão enorme, maior do que o nosso, apesar de que… Bem, eu também era bem menor. — Nero pausou, desinteressado na própria história, mas Henry tinha a atenção de um pequeno escoteiro escutando histórias à luz da fogueira. — Acho que ia visitar alguém com a minha família. Acho que não ficamos por muito tempo, eu lembro do carpete vermelho e do lustre de cristal. — Nero sentou-se na cama de frente para o outro. — E quanto a você?
— O que acha? — ele riu.
— É uma pena, se há alguém que combina com esse lugar, é você. — Nero não pensou antes de falar, raramente pensava à companhia de Henry; se dava esse luxo. A verdade é que tudo em Henry parecia combinar com o local: o sol, os lençóis de cetim, os cristais nos lustres, as pinturas nas paredes. Henry fingiu não corar, Nero fingiu não notar. E quando o moreno apercebeu-se estavam deitados, cada um em sua devida e larga cama, preparando o mais bem merecido sono do século.
Passaram-se alguns momentos de silêncio até que Henry o quebrasse:
— Ei, — ele sussurrou. — quando saí do banho… Você estava vigiando pela janela, não estava? — Nero não respondeu. — Tudo bem, tudo bem. Qual foi a última vez em que conseguimos dormir todos ao mesmo tempo?
“Há anos”, Nero pensou dando um último vislumbre pela janela por reflexo. E a última coisa que passou por sua mente antes que ele deslizasse para a inconsciência foi: “não, deuses, há apenas alguns dias…”
Nero abriu os olhos já sabendo que era um sonho. Ele sabia que estava em uma sala de aula de primário, embora seus contornos estivessem difusos na esfera onírica. Ao seu redor tinha pelo menos uma duzia de crianças, das quais ele não gostava de nenhuma — mas era realmente raro ele gostar efetivamente de alguém. A professora tentava, sem sucesso, aquietar a turma, mas apenas Nero parecia não querer sair correndo e gritando. Ele ouviu a porta abrir, e sentiu um sorriso aparecer em seu rosto, mesmo contra sua vontade. Uma garota com olhos violeta semi-cobertos pela franja, bem baixinha, vestindo uma roupa preta discreta que, definitivamente não combinava com sua mochila do My Little Pony, acabara de entrar e foi se sentar ao seu lado.
— Oi. — disse ela. Por algum motivo Nero não lembrava seu nome — O que a professora falou?
— Mandou os alunos sentarem, e ficarem quietos. — Nero riu — Não deu certo.
— Eu não perdi nada? — a garota ria — Assim não é legal se atrasar.
— Eve, para de ficar se atrasando, assim eu fico sem fazer nada aqui. — Nero disse inconscientemente. O nome saíra tão naturalmente que ele quase não percebeu.
A professora desistiu de mandar os alunos sentarem pacificamente, e jogou um livro enorme sobre sua mesa, causando silêncio quase que de imediato.
— Bem, continuando a falar dos deuses gregos temos a deusa Nêmesis, alguém sabe do que ela é deusa?
— Deusa da Justiça e da Vingança. — Nero respondeu, agora consciente de suas ações. A sala de aula ao seu redor se desfez, junto com seus alunos, a professora se tornou uma mulher de negros cabelos encaracolados muito magra. Usava uma calça de motoqueiro preta, botas de couro cano alto e um casaco vermelho sangue
— Olá, semideus. — A Deusa olhou-o nos olhos — Vejo que finalmente lembrou-se da primeira pessoa que amou. Minha filha nunca esqueceu você, Traidor de Roma.
— Nêmesis. — disse ele simplesmente com tom amargo. Já ouvira falar da deusa em suas aulas de mitologia e reconheceu-a em um instante. — O que quer?
— Eu? Não tenho nenhum motivo, senão sua sede de vingança. — Nêmesis sorriu, tirou um biscoito da sorte do bolso e o quebrou. — Da Névoa que o fez esquecer sua amada, das regras que o impediram de aceitar que ama outras pessoas. Dos deuses, de Nova Roma, do Meio-Sangue.
— Eu não tenho sede de vingança, deusa. — Nero riu — E não sou tão sensível quanto Henry a ponto de deixar um sonho mudar minha opinião.
— Realmente, você não é Henry. E eu não sou Jano. — A deusa leu o papel que estava dentro do biscoito e riu com desdém — “Você encontrá tudo que precisa” típico, vou mudar para…
— Eu não me importo, Nêmesis. — Nero olhou nos olhos da deusa — Não quero entrar nos seu joguinhos. Conte-me o que você veio me contar.
Nêmesis o encarou. A raiva por tê-la interrompido era tão evidente em seus olhos que eles estavam literalmente soltando faíscas. Um meio sorriso de divertimento aparecia em seus lábios.
— O que me diz sobre o seu feito em Nova Roma então?
Aquilo o atingiu de surpresa. Apenas não esperava que a deusa da vingança e da justiça fosse falar sobre algo que não fosse… vingança ou justiça. Embora… os assuntos não estivessem assim tão longe uns dos outros.
— O que quer dizer? — ele respondeu apenas.
— Quero dizer… — começou a deusa, fingindo escolher as palavras que usaria, mesmo que Nero soubesse que ela já as tinha prontas — Traição é uma forma de vingança. Uma das mais comuns. Eu sei que você quer simplesmente largar a missão, mas seu amiguinho não pode ser deixado para trás, e ele nunca permitiria sua fuga. O que o torna tão diferente dos outros legionários?
Nero ficou em silêncio. Ele já não sabia mais o que falar, ou pensar. As palavras que Eve perguntara para ele na colina Meio-Sangue ecoaram em sua mente: “Você não é um traidor, é?”, e finalmente entendeu o motivo de a ter achado tão familiar.
— N-não… — A voz de Nero falhou. — Ela não pode ser… Por quê?
— Fiz a Névoa apagar sua memória, para não permitir que gregos e romanos amassem uns aos outros, ao menos durante a guerra.
A voz de Nêmesis começou a se distanciar. “Não!”, ele gritou silenciosamente em sua mente. Nero lutava para não recobrar a consciência — precisava fazer mais perguntas, saber o que tudo aquilo significava — mas sabia que essa era uma batalha que começara perdida.
Henry estava de pé ao lado de sua cama repetindo seu nome tentando acordar Nero. Era uma visão do céu.
— Lauren e Sophie propuseram ir a uma festa no hotel. Elas trouxeram roupas — o loiro ergueu duas sacolas da Comme des Garçons indentificadas por caneta com seus nomes. O sorriso que exibia era deslumbrante, infantil, um alívio perante toda aquela turbulência.
Nero não se lembrava exatamente do porquê havia aceitado comparecer àquela festa. Pessoas em trajes elegantes conversavam ao redor do salão, seus amigos não estavam à vista. Aparentemente uma reunião social ocorreria em breve, ou talvez fosse uma palestra. Nero já não se lembrava. Na verdade, a tal festa poderia até mesmo ser um bacanal e ainda sim ele pouco perceberia. Afinal, já fazia algum tempo que estava no bar testando sua resistência alcoólica; tinha esperança de que bebidas o fizessem se sentir menos cansado. E não estava de todo errado, ainda que a energia só servisse para fustigar sua mente tenebrosa.
Para Nero, a bebida tem o seu pior efeito. Agora lembrava-se mais vividamente de seu pesadelo e aquilo o atormentava. Seus pensamentos o consumiam. Afinal ele era um traidor ou não? Traidor à quem? Para quem? Nada mais fazia sentido em sua cabeça: fragmentos da história do imperador Nero rondavam por ela. Ele definitivamente fora um traidor. Ele quem? Nero, o imperador, ou Nero, o semideus?
E eis que surgira a sua salvação. Uma cabeleira loira se aproximara enquanto seus pensamentos perturbadores se distanciavam proporcionalmente. Ele soltou um suspiro e se sentou ao lado de Nero colocando um copo raso com uma colorida bebida leitosa sobre o bar à sua frente.
— Por onde você esteve? — Henry tinha as bochechas coradas. — Não fazia ideia de onde procurar você. Pensei que não gostasse de beber.
— Eu não gosto, — Nero bufou — não é como se estivéssemos fazendo só o que nos convém por aqui.
Henry sorriu.
— Fazer o que lhe convém é o objetivo de festejar, Nero — Ele levou a bebida aos lábios e piscou para o amigo com seus estúpidos e longos cílios, por detrás do copo de vidro. A cena forçou Nero a se esconder atrás de seu copo também. Passado um instante, Nero retomou:
— O que está bebendo?
Henry encarou seu copo como se o visse pela primeira vez.
— Uh… Não sei ao certo. Me deram essa batida e, na verdade, é realmente boa. Tem gosto de sorvete… — Henry umedeceu os próprios lábios e inclinou sugestivamente o copo para Nero. O outro, por sua vez, não podia acreditar no que acabara de ouvir.
— Henry… Você perdeu a cabeça? Não pode aceitar bebidas assim, — Nero suspirou, massageando as próprias têmporas. — poderiam ter te dopado. — disse simplesmente, por horror à outras palavras. — É isso que dá você ficar bêbado. Onde estavam Lauren e Sophie nessa hora?
A expressão de Henry era menos divertida agora.
– Eu não estou bêbado, — reclamou, e Nero teve de admitir que embora Henry não parecesse completamente sóbrio, também não aparentava estar ébrio. — Eu realmente nem bebi tanto, sabe… E você também está bebendo, para a surpresa geral. — Nero o encarou, suspirou e se contentou em tomar outro gole do whisky.
Era simplesmente demais para pensar. Não podia pensar em Henry, em ataque à acampamentos, em seus supostos amigos perdidos no outro lado do estado, nas suas supostas amigas perdidas no outro lado da sala, no fantasma de seu passado emergente de seu sonho, em Nêmesis, em justiça, em vingança, em Eve, em traição. Era demais.
— Nero? Está tudo bem, sério. — O moreno estava ocupado encarando o líquido acobreado em seu copo. — Você está fazendo aquela cara…
— Eu sei, eu sei. Eu não — Meu humor fica estranho quando eu bebo.
— Só quando bebe? — Henry deu uma risada suave. Nero sabia que era o único em quem podia confiar com o todo de si. E sabia que se continuasse a guardar tudo para si, explodiria muito em breve.
— Henry… — Nero começou, e Henry olhou para ele com os olhos faiscando, a cabeça apoiada nos ossos dos dedos — Você não está preocupado com a nossa situação? Digo, nós estamos indo encarar pessoas que traímos. Que eu tive a brilhante ideia de trair para salvar vidas que me não me dão mais valor do que dão à uma lata de lixo.
Henry ponderou por um instante tombando a cabeça para o lado.
— Culpa de sobrevivente não faz o seu tipo, Nero. — Nero bufou, estava cansado de adiar aquela discussão.
— Eu sei que você está me entendendo. Não ignore. É sério. Quero dizer, aquelas pessoas nos deram casa, comida, treinamento. Nós as retribuímos roubando seus prisioneiros de guerra.
— De guerra? — repentinamente Henry pareceu ficar aborrecido. Era patético dizer mas Nero temia todas as vezes que Henry alterava seu tom de voz, não apenas porque era inusitado, mas especialmente porque essa alteração normalmente vinha seguida de um argumento fatal. Por sua sorte, Henry estava muito tonto para ficar bravo e apenas passou a mão pela própria face. — Não deveria haver uma guerra. Não deveria haver guerra e eu simplesmente sei que se há um inimigo, não é um monte de crianças.
Nero o encarou com atenção. O que o outro havia dito fazia sentido mas não alterava em nada a circunstância na qual se encontravam. Portanto, recomeçou:
— Ah, mas… — apenas para ser interrompido.
— Me escute, Nero. Não deveria haver uma guerra, e eu senti isso, você sentiu isso. Honestamente, estou decepcionado por não termos sido seguidos por outras crianças porque, honestamente, todos lá, e provavelmente no Jupiter também, sentiram que estavam fazendo a coisa errada. — Ele parecia como se estivesse antecedendo uma tempestade. Animais que prevêem tsunamis e furacões e encontram abrigo com antecedência. — E se eles acharam que estavam fazendo o certo, guerreando por absolutamente motivo nenhum, então eles simplesmente merecem ser traídos. Nós todos estamos sempre brincando de guerra como brincadeira de criança. Guerra. Isso é ridículo.
Tudo o que Henry havia dito era autêntico, o que criou angústia em Nero.
— Queria pelo menos não ter te trazido pro meio disso.
— E sobre mim, você não ouse se sentir culpado. Porque lá atrás, quando você pediu minha ajuda e sentiu piedade por Sophie e John, você me deu confiança para seguir com o que eu acredito, que é em não matar inocentes, mesmo que isso faça mais o seu estilo. — Nero fingiu não ter sido atropelado por aquelas palavras. — Eu conheço sua raiva.
Henry colocou a mão sobre a do moreno em um ato de demonstração de confiança. Nero não se esquivou.
— Você foi um herói lá, e um herói quando apareceu no túnel para mim e Lauren. E pode ser que você tenha um caráter duvidoso, que você tenha cometido grandes erros. Isso não faz de você um homem mau. E, pelo menos sobre o que planejamos fazer agora, eu só gostaria que você soubesse… Você está fazendo a coisa certa. Estamos fazendo a coisa certa. Pra mim, pelo menos.
Ao final do discurso de Henry, Nero estava perplexo. Era como se o loiro tivesse lido sua mente e respondido à todas as perguntas que o atormentavam. As palavras fugiram de sua boca, pensamentos escaparam de sua cabeça e tudo ao redor deles perdeu forma. Exceto Henry, é claro, que passou a ser o único objeto de seu desejo, e que deve ter notado a perplexidade no olhar de Nero, pois desviou seu olhar e, após alguns instantes, concluiu:
— Eu acho que você se preocupa demais — e em seguida recuou com a mão que havia aparado sobre a de Nero, como se acabasse de perceber ter cometido um erro. Involuntariamente, entretanto, Nero não permitiu seu recuo e acabou por segurar as pontas dos dedos do outro. Ambos olharam para as próprias mãos.
Nero não sabia exatamente o que estava fazendo, era como se estivesse em um transe. Começou a brincar levemente com os dedos magros e longos do loiro. Até seus dedos eram bonitos, pelos deuses! Henry desvencilhou seus dedos dos do moreno e apertou levemente sua mão. Logo em seguida a mão dele subiu, trilhando um caminho pelo braço forte de Nero, e continuou subindo pelo seu ombro e pescoço até se alojar em seu rosto. Nero não fez nada além de acompanhar o trajeto com os olhos. Estava extasiado com o toque do outro garoto.
Seus olhares se cruzaram. Então Henry fez o mais simples ato de todo o universo. Se debruçou e o beijou. O que fez com que o mundo de Nero caísse.
Sentia como se estivesse perdido em um nada obscuro, a única linha tênue que o ligava ao mundo real era os seus lábios entrelaçados aos de Henry. Neste limbo escuro, a única coisa que emitia a luz intensa que fazia com que Nero se sentisse seguro era Henry e seus cabelos loiros de um brilho aconchegante. Mas de repente o filho de Apolo se afastou.
— Eu… — Henry disse, as palavras caindo de seus lábios enquanto ele não conseguia parar — Eu não… Eu… Me desculpe. — Ele olhou ao redor, lembrando a Nero onde estavam, fazendo-o olhar também. As pessoas estavam olhando ou, pelo menos, pareciam estar. Olhares fugidios acabavam encontrando com o seu e disfarçavam-se de maneira reprovadora. Só então o embaraço começou a surgir. Nero ainda estava tentando se acostumar ao recém surgido mundo ao redor dele quando Henry se levantou. — Me desculpe mesmo, Nero. Eu não quis… Você só… Pode… Esqueça. — seu rosto estava ainda mais avermelhado do que antes, ele suspirou como se tivesse sido fisicamente ferido. — Me desculpe. — Então, repentinamente, ele passou a caminhar de maneira apressada para a porta do salão. Nero, ainda em sua hipnose, não teve tempo de reação. Observou enquanto o rapaz começava a correr após ter chegado ao corredor, e percebeu que tinha uma decisão a tomar.
Nero permaneceu alguns segundos imerso naquela consumição, seus pensamentos estavam estranhamente difusos, ele sabia que tinha escolhas a fazer naquele instante, sentenças irremediáveis, e mesmo assim ao olhar para Henry sentia-se confortável de maneira peculiar. Por fim, tomou a decisão, se levantou e caminhou apressadamente atrás de Henry.
O elevador tinha acabado de abrir as portas quando Nero passou pelo lobby, ele deu passos maiores mas Henry só o viu após entrar no elevador e olhar para frente. As portas começavam a se fecharem novamente quando, para sua maior surpresa, o loiro estendeu o braço e
tocou o painel do elevador fazendo com que as portas voltassem a se abrir.
Nero adentrou o elevador e apertou o último andar no painel ao seu lado. Henry havia se acomodado em um canto, parecia envergonhado mas, ainda assim, mantinha seu olhar no outro. Nero deu um passo, depois outro, e então estendeu a mão para puxar Henry para perto, pensou que talvez nunca tivesse coragem para fazer isso caso o flerte não fosse seu melhor amigo, o que o remetia ao fato de que Henry não era uma garota e que Nero o desejava mesmo assim. O filho de Apolo deixou-se ser aproximado, colocou as mãos delicadamente sobre as clavículas de Nero e desviou o olhar pela primeira vez, para baixo; Nero aproveitou a oportunidade para fazer seu clichê: tocou o queixo do amigo de forma sutil chamando seu olhar de volta para cima e logo em seguida voltou a colar seus lábios.
Dessa vez, previamente ciente, pode entregar-se a sensação; Henry era quente. Nero sentiu-se também quente após o primeiro momento, o sangue subindo para seu rosto. O loiro separou seus lábios permitindo que Nero aprofundasse o beijo, o sabor o invandindo de maneira tóxica, nociva, tornando a sua mente completamente entorpecida. Inclusive, esse entorpecimento mental foi uma das coisas que mais deleitavam a Nero, a forma tão prática com que todos os seus problemas e pensamentos obsessivos escorreram para fora de seu cérebro, fazendo com que todas as suas ações fossem puramente instintivas: a forma com que sua mão apoiara a cabeça de Henry, como a outra segurava-o firmemente para perto, os movimentos sutis da cabeça. Era como se realmente não houvesse nenhuma guerra. Como se tudo estivesse bem.
A campainha do elevador soou, indicando que haviam chegado no andar desejado, mas Nero não se preocupou em se separar dos lábios de Henry. Ele não conseguia controlar seus atos, uma parte mais obscura de seu ser não deixava. Seu desejo pelo outro era crescente; não queria parar, queria continuar naquela dormência e deleite que a maciez dos lábios do outro lhe proporcionavam. Empurrou-o para fora do elevador e o prensou contra a parede oposta. Só nesse momento abriu os olhos e viu a face de Henry corada, seus olhos brilhando. Nero hesitou. Nunca vira Henry daquela maneira, e aquela visão o encantava. “O que nele não encanta?”, pensou. Mas o loiro não aguentava mais esperar. Agarrou Nero pedindo por mais beijos enfurecidos de amor e vontades tomadas de um certo tom obscuro de ambos os lados.
O que nenhum deles esperava era a reação de Henry, calor corculhava sob sua pele e queimava em seus lábios. Nero pressionava Henry contra o interior da porta do quarto onde haviam se alocado, e não fazia ideia de como haviam chegado ali; todo o seu corpo respondia ao do outro de forma instintiva, e o único momento em que se permitiu desgrudar seus lábios foi para trilhar, com seus lábios, um caminho em Henry que ia desde o maxilar até o pescoço. A pele do outro era tão macia, Nero respirava sua essência como se fosse ópio. Henry retesava no momento em que Nero atingia seu pescoço, fechando seus braços ao redor do pescoço do moreno, sensível. Dada aquela reação, pareceu impossível a Nero não pregar mais beijos ali, não marcá-lo naquela área. Quando Henry voltou a reagir sua respiração escapou em um suspiro selvagem, o que fez com que o sangue de Nero fosse bombeado para todos os lugares que não deveria.
— Eu te quero tanto — Nero confessou, antes mesmo de perceber o que dizia e se arrependeu de ter dito, embora fosse verdade. Ele notou a hesitação de Henry após ouvir aquelas palavras, se afastou para observar a expressão do loiro que parecia estar se decidindo. Ao encontrar o olhar do outro, Henry mordeu os lábios inferiores, injustamente vermelhos e procurou com uma das mãos a mão de Nero. Após encontrar a mão em sua cintura, Henry começou a guiá-la para cima, passando-a por todo o seu corpo: Nero tateou o abdômem de Henry de perto, lascivo e divino, e se aproximou para voltar a beijá-lo quando sentiu sua mão tocar uma superfície metálica. Olhou para Henry, ele sorriu.
— Tranque a porta — ele disse antes de entregar-se ao beijo. Nero também sorriu e prontamente obedeceu o amigo.
A porta só voltou a ser destrancada horas e horas depois, no dia seguinte, quando Nero pôde se recuperar daquela longa, longa noite, e não voltou a se arrepender do que havia dito.
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