Between Light and Dark - Pride
18 Nero Shadowing
Nero levantou o tronco e sua visão demorou cerca de vinte segundos para se acostumar ao escuro. Todos ainda descansavam. Olhou para o visor de seu relógio e constatou que já era quase meia-noite. Mesmo sendo um horário não muito favorável a risos, — ainda mais no meio de uma floresta — Nero podia jurar que ouvia-os. A responsabilidade que presenciava sua mente veio à tona e, depois de um longo suspiro, levantou-se cuidadosamente e andou na direção do som.
Cerca de 50 metros à frente, quando as conversas, risadas e passos já estavam mais perto, Nero estancou. Seus pelos arrepiaram e ele rapidamente se escondeu atrás de uma moita. Mesmo à distância conseguia distinguir uma dúzia de meninas descalças. Eram adolescentes com vestidos largos como túnicas feitas com seda roxa e vermelha. Os cabelos estavam trançados com folhas, e muitas usavam guirlandas de louro. Algumas carregavam estranhos cajados que pareciam tochas. As meninas riam e rodopiavam, tombando na grama e rodando como se estivessem tontas. Eram todas lindas.
Nero se aproximou cautelosamente, indo de arbusto em arbusto. Quando estava a cerca de 20 metros, parou novamente e olhou com mais atenção. Nero percebeu alguns detalhes estranhos. Os cajados não eram tochas, eram galhos retorcidos, cada um deles com uma pinha gigante na ponta, e alguns eram envolvidos por cobras vivas. As guirlandas de louro das meninas também não eram guirlandas. Os cabelos eram trançados com pequenas víboras. As garotas sorriam e cantavam em grego antigo, o que era uma pena já que Nero não sabia muito de grego, enquanto dançavam pelo espaço entre as árvores. Pareciam estar se divertindo muito, mas tinham na voz um tom de ferocidade selvagem. Se leopardos pudessem cantar, Nero acreditava que o som seria aquele.
“Elas estão bêbadas?”, pensou Nero. A descrição das jovens — que pareciam ser de alguma espécie de ninfa — não era estranha a ele. Ele com certeza ouvira falar delas em suas aulas de mitologia, mas agora não se lembrava muito bem quem poderiam ser…
– Olá! — uma das meninas que estava com um vestido vermelho-sangue sorriu para Nero — Você é Dioniso?
Enquanto devaneava sobre quem as garotas poderiam ser, de alguma maneira uma delas o avistou e percorreu a distância entre os dois sem ele nem mesmo perceber.
Assim que a garota estranha se pronunciou, Nero lembrou. Mênades. Elas eram as Mênades, ninfas seguidoras de Dioniso que frequentavam suas festas. Quando ficavam muito agitadas… Bem, tendiam a destruir as coisas. Nero se recompôs rapidamente e se arrependia profundamente de ter ido até ali.
– Olá. Sinto que cometeu um engano — agora todas as ninfas o encaravam e Nero começou a se sentir agitado, ainda que não pudesse demonstrar isso — Não sou Dioniso, apenas estava…
– MENINAS! — gritou uma voz familiar que estava atrás de Nero — Quanto tempo!
O rosto das mênades se iluminou e elas aplaudiram.
– Dioniso? Meu senhor Dioniso? — disse a de vestido vermelho-escuro.
– Mas é claro, minhas queridas! — disse Henry, lançando um olhar de nervosismo para Nero.
As ninfas começaram a comemorar ainda mais e a aplaudir Henry. Nero sabia que aquilo não teria bons resultados. O garoto louro colocou o braço por sobre os ombros do filho de Mercúrio.
– Senhor Dioniso, esse garoto fedorento é um sacrifício para a festa? Devemos rasgá-lo em pedacinhos?
– Não! Não, isso já está fora de moda — respondeu Henry — Sabe como é, sacrifícios em festas não estão com nada hoje em dia! Mas ir embora antes da festa começar é que é chique! Por isso, eu e meu amigo aqui estamos indo. Foi bom vê-las novamente!
A ninfa se adiantou e duas outras grudaram ao lado de Henry.
– Não se vá assim tão rápido, meu senhor! — disse uma delas que usava um vestido roxo — Fique um pouco mais!
Duas outras se precipitaram e começaram a acariciar Nero nos braços e nos ombros. Elas cheiravam a pinheiros e eram diferentes de outros espíritos da natureza que geralmente possuíam uma coloração esverdeada por causa da clorofila. Essas mênades pareciam ter suco de cereja no lugar do sangue. Os olhos também eram muito vermelhos. Os lábios eram mais vermelhos que o normal. A pele era riscada por capilares brilhantes.
– C-certo! — disse Henry vacilando levemente — Mas só ficaremos por mais alguns minutos. Sabem como é a vida dos deuses, meninas. Eu e meu amigo aqui temos mais algumas coisas para resolver.
A ninfa de vestido vermelho-escuro começou a estudar Henry minuciosamente.
– Escolheu uma forma interessante dessa vez, senhor. Ainda que cabelo louro não combine muito com o glorioso deus do vinho. Muito bonito mesmo assim, meu senhor.
Henry passou a mão pelo cabelo. Nero sabia que o amigo adorava seu próprio cabelo e que não gostava quando alguém o criticava.
– Bem, o cabelo louro é uma tendência muito forte aqui na América, vocês sabem.
As outras mênades cercaram Nero e Henry, sorrindo e cantarolando.
– Queridas, me ajudem a recordar seus nomes. Estive muito ocupado festejando e acabo por esquecer alguns nomes por ventura.
– Como pode não se lembrar de mim, senhor? Sou Babette! — disse a de vestido vermelho-escuro cerrando os olhos.
– Babette! Sim! — Henry colocou a mão na testa enfaticamente — Já estava quase me lembrando!
– E essas são Buffy, Muffy, Bambi, Candy, Trixie,... — Babette começou uma lista de nomes que parecia infindável. Nero obviamente não prestou atenção. A ninfa cerrou ainda mais os olhos ao se virar para ele. — Meu senhor, quem é esse? Ele tem um cheiro meio… mortal.
Henry logo se apressou.
– Esse? Ah, Babette, minha querida, esse é meu companheiro de festas! Ele me pediu ajuda porque não sabia festejar direito. Estou ajudando-o desde então. Não se preocupem com ele, só está aqui para observar — ele fingiu consultar seu relógio — Ah, minhas mênades! Sinto tanto mas agora tenho de ir! Ou chegarei atrasado na festa de Boston!
– Não se preocupe, senhor Dioniso — disse Buffy que estava acariciando Henry — Você pode aparecer lá em menos de um minuto! Beba conosco, senhor!
Buffy bateu com a ponta de seu cajado no chão e um gêiser branco borbulhou.
– Certo, certo — disse Henry parecendo mais nervoso do que o normal — O que estão bebendo aí?
– Eggnog! — Muffy bradou.
As mênades correram para encher suas taças.
– Feliz carnaval! — gritou uma delas.
– Festa! — disse outra.
– Matem todos! — berrou uma terceira.
Nero decidiu nunca mais beber eggnog. Babette parecia estar ficando desconfiada e seus olhos tornaram-se de um vermelho ainda mais profundo.
– Por que meu senhor Dioniso está tão interessado em ir embora cedo? Onde está seu leopardo? E sua caneca de vinho?
Henry bateu em sua própria testa enfaticamente de novo.
– Minha caneca de vinho! Como sou tonto! Devo ter deixado no Olimpo! Mas que cabeça de vento a minha! E meu leopardo… — ele olhou para os lados — Onde ele está? Jurava que ele estava aqui há alguns momentos atrás… Ah, leopardo mau! Vive fugindo!
Babette não parecia convencida. E algumas outras ninfas também não. Nero precisava intervir antes que a situação piorasse.
– Vamos festejar, meninas! Vamos lá, começamos com a Canção do Bacanal, certo? E depois a Macarena! — Nero se sentia aliviado por ter prestado atenção nas aulas de mitologia. Leo Valdez, Jason Grace e Piper McLean, três dos Sete Grandes Semideuses já haviam encontrado essas mênades nos bosques do Acampamento há muito tempo atrás. Desde então, os semideuses têm estudado-as profundamente — Vamos lá! Um, dois, três!
– Não. Deixe nosso mestre Dioniso cantar a Canção do Bacanal — disse Muffy — Vamos lá, senhor, cante!
Henry começou a cantarolar uma música qualquer e as ninfas que abraçavam os dois semideuses se afastaram até se juntar às outras. Seus olhos estavam totalmente cor de cereja agora.
– Essa não é a Canção do Bacanal. É uma das aberturas de Naruto — sibilou Trixie.
– Morte aos infiéis! — bradou Babette.
Henry ergueu o braço e Nero já sabia o que fazer: fechou os olhos com força e cobriu-os com os braços. Isso ainda não impediu que o forte clarão penetrasse nas pequenas aberturas que ainda ousavam existir. Essa capacidade de Henry de emitir raios de luz era incrível e muito útil.
Nero abriu os olhos na hora em que Henry apertou seu braço e puxava-o para correr. Começou a cooperar com o amigo e assim os dois corriam juntos. Com uma rápida olhadela para trás, percebeu que as ninfas ainda estavam atormentadas e quase cegas por causa da luz de Henry.
– Corra! Você pode olhar para trás depois! — gritou o
garoto louro.
– Eu ESTOU correndo! — respondeu Nero ofegante.
– ENTÃO CORRA MAIS!
Não demoraram muito tempo até chegarem ao pequeno Acampamento, onde os outros semideuses estavam acordados, embora ainda sonolentos. Provavelmente haviam acordado por causa do raio de luz de Henry.
– O que está acontecendo? — perguntou Lauren com uma cara de sono horrível, mas ainda fofa.
– NINFAS PSICÓTICAS E BÊBADAS DE EGGNOG ESTÃO NOS SEGUINDO! — berrou Henry juntando rapidamente suas coisas.
Já era possível ouvir as risadas e a música que as mênades entoavam enquanto perseguiam suas presas.
Ninguém questionou; rapidamente juntaram suas coisas e alguns instantes depois todos já estavam correndo pela floresta.
– Como vocês conseguiram se meter nessa? — perguntou Sophie enquanto corriam.
– É uma longa história! — respondeu Nero.
A distância entre os dois grupos ficava cada vez menor. As ninfas eram muito rápidas e ágeis. Nero conseguia ouví-las chamando ele e Henry. Por alguma razão, o filho de Mercúrio não estava muito tentado a aceitar o convite.
– Elas são mênades! Não podemos matá-las! — disse Henry — Quem as mata é amaldiçoado por Dioniso e geralmente enlouquecem, ou são transformadas em animas ou coisa pior!
– Ah, que maravilha! São as mênades que escaparam do Acampamento há 2 anos! — disse Lauren.
– De qualquer jeito, — enunciou Thomas — temos de bolar um plano para sairmos dessa!
– Certo — começou John — que tal irmos…
Infelizmente John não pôde terminar sua sentença pois havia um enorme cão infernal dormindo cerca de 20 metros a frente deles. Parecia que Sophie tinha um plano.
– Deêm a volta no bicho e se escondam em algum lugar! — ela anunciou.
Ninguém a questionou e assim foi feito: assim que contornaram a enorme besta, esconderam-se em diversos arbustos.
Alguns instantes depois as mênades apareceram e ficaram confusas e irritadas.
– Saia da nossa frente, criatura deplorável! — bradou Babette cutucando o cão infernal com seu cajado.
A fera acordou e se levantou, voltando-se para encarar ferozmente as ninfas. Nero notou que cães não ficam muito felizes quando alguém interrompe seu sono.
– Ande, saia! — ordenou Trixie.
Infelizmente cães infernais também não gostam de quando alguém lhes dá uma ordem.
A enorme fera abocanhou três das ninfas e começou a mastigá-las. As mênades, que geralmente são duras como aço, começaram a se despedaçar na boca da criatura. Quando enfim o cão engoliu seu saboroso lanche noturno, não havia mais nenhuma ninfa nos arredores; elas fugiram ao ver as amigas sendo torturadas.
O cão infernal, antes grande e majestoso, se transformou em um pequeno e delicado chiuaua, deixando um monte de confete espalhado pelo chão por conta da transformação. A “fera”, ao perceber a situação, correu para dentro da mata, na direção oposta à dos seis semideuses que assistiam à cena, boquiabertos.
– E é por isso que não devemos mexer com Dioniso — disse Henry — Mas relaxem. Pior não po...
– Você não sabe mesmo quando calar a boca? — interveio Nero.
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