Notas iniciais
Isso aí, galera! Aqui está o capítulo prometido! Desculpem postar tão tarde, mas não tive escolha. Beijos :* ~LaraEHTeodoro

Henry dormiu bem o resto da noite. Acordou algumas poucas vezes, não mais que três, e quando ocorria, via Thomas, sentado e inerte, olhando para o lugar de onde vieram. Podia jurar que a escuridão pairava aonde Thomas estava e, as vezes, que o garoto tinha virado estátua, até que suspirasse.

Quando realmente acordou, bêbado de sono, o sol inundava o céu. Olhou em seu relógio de pulso e verificou que eram cerca de oito horas da manhã. Esfregou o rosto e sacudiu um pouco a cabeça para tirar o sono.

– Você já acordou — disse Thomas num tom melancólico — Ótimo. Faça-me companhia.

Henry não questionou. Levantou e se sentou ao lado de Thomas.

– Você está bem, cara? — perguntou Henry

– Estou. Um pouco cansado, porém bem.

– Certo. Acha melhor acordá-los?

– Não. Deixe-os dormir mais um pouco. Teremos um longo dia e é melhor que estejam bem descansados — disse ele tranquilamente enquanto fazia uma careta para o sol. Aparentemente filhos de Hades não gostavam muito de luz — Posso te fazer uma pergunta?

Henry engoliu a seco. Temia que Thomas perguntasse sobre o que sentia por Nero que o fez até sonhar com sua morte.

– Você já pensou o que vai acontecer com a gente daqui a alguns anos? — perguntou Thomas. Henry discretamente suspirou com o alívio — Será que vamos acabar que nem os Sete Grandes? Ou seremos esquecidos? E se fracassarmos? E se não forem com a nossa cara?

Henry pensou por alguns minutos antes de responder.

– Certo, vamos supor que morramos na missão. Você não acha que a vida tem um maior propósito do que lutar uns contra os outros? Você não acha que devemos, cada vez mais, nos unir em vez de ficar lutando? No final das contas, somos todos semideuses.

– Tem razão, Henry — disse Thomas — As vezes os sacrifícios de alguns levam os seguintes à vitória.

– Se não gostarem da nossa cara nós morremos — continuou Henry — Se fracassarmos, também. E aí seremos esquecidos, embora seja difícil esquecer uma pessoa tão maravilhosa quanto eu — ele brincou, retornando a ficar sério em seguida — Mas nós não vamos morrer. Somos uma equipe. Seremos lembrados. Seremos, quem sabe, maiores que os Sete. Você não acredita nisso?

– Não acredito que seremos maiores que os Sete, mas acredito que tudo tem um propósito. Os deuses podem falar que acabamos com eles, mas na verdade, eles precisam de nós. Acho que eles manipulam tudo sabendo que algo vai acontecer. Não é possível nos usarem por nada.

– É um outro ponto — ponderou Henry — Aliás, você não acha que tudo está muito estranho ultimamente?

Thomas franziu as sobrancelhas e voltou-se para encará-lo.

– Como assim?

– Guerra entre os acampamentos. Monstros por todo o lugar. Uma nova profecia. Há algo muito maior acontecendo — disse Henry olhando para o céu — Eu acho, pelo menos. Essas coisas não são normais de acontecer.

– Você tem razão novamente, Henry. Mas ainda assim…

Thomas não pôde completar a frase. Um apito ensurdecedor ecoou pela floresta, fazendo com que Thomas, Henry e os recém despertados semideuses tampassem os ouvidos. Henry percebeu que Nero tentou gritar algo, mas era impossível ouvir qualquer coisa.

John, que estava ao lado de Nero, pareceu entender o que o garoto dizia e se comunicou com Lauren, que começou a juntar as coisas para ir embora, assim como todos os outros. Logo todos já estavam com suas mochilas nas costas, prontos para partir.

Ao primeiro passo que Henry deu, o barulho parou, fazendo com que os seis semideuses parassem também. O súbito silêncio passou a tomar conta do ambiente. Henry semicerrou os olhos, forçando sua visão a alcançar uma silhueta disforme que parecia se aproximar mais rapidamente a cada segundo.

Era um impetuoso touro de metal. Possuía rubis do tamanho de punhos no lugar dos olhos e chifres de prata polida na cabeça. Era do tamanho de um elefante, e sua carcaça metálica brilhava ao sol. Suas narinas soltavam vapor, que Henry percebeu não ser uma coisa muito boa.

– Touro de Colchis — reconheceu Lauren.

– Acho melhor a gente começar a correr — pontuou Henry.

– Você acha? — ironizou Nero.

– Acho. CORRE, NEGADA — berrou Henry e todos irromperam a correr para dentro do túnel.

O túnel era feito de paralelepípedos de rocha coberta com musgo e sua entrada era uma enorme semicircunferência com um diâmetro de aproximadamente dez metros. Em suas paredes, tochas com fogo grego flamejavam a cada metro dando visibilidade.

Bem na entrada havia uma longa escadaria também de paralelepípedos — embora estes não estivessem com musgos — que levava ao subterrâneo. Desceram-na rapidamente e se depararam com um chão plano de terra batida. Continuaram correndo e, alguns metros à frente, quando Henry olhou para trás, percebeu que os touros nem se deram ao trabalho de descer degrau por degrau, apenas pularam da entrada e aterrissaram com um estrondo no chão.

Pelo visto não era só ao Acampamento Júpiter que o túnel levava, pois haviam vários outros caminhos que desaguavam nele. Todos estavam correndo em formação, um ao lado do outro, quando outros dois touros apareceram da entrada de duas comunicações e começaram a perseguí-los também, obrigando os seis semideuses a correrem ainda mais.

A adrenalina percorria as veias de Henry como um atleta percorre uma pista de corrida. A fadiga tomava conta de seus braços e pernas, mas o medo impediu-o de parar. Seus olhos estavam focados em apenas duas coisas: correr e continuar indo para frente. Não demorou para o mesmo admitir que estava em completo pânico. Não havia chance dos semideuses vencerem os touros. Mal percebeu que o túnel desaguava em outros três caminhos e que, sem querer, havia escolhido o da esquerda, junto com Lauren, enquanto os outros foram para os outros dois caminhos. Mas ele e Lauren não podiam parar, pois um dos monstros seguiu-os por essa entrada e já se aproximava, obrigando os dois semideuses a correrem cada vez mais rápido.

– Corra e não olhe para trás! — ordenou Lauren, e Henry não teve vontade alguma de desobedecê-la.

Continuaram a correr pelo o que pareciam ser quilômetros até que chegaram em uma curva. Subitamente Lauren puxou Henry para uma comunicação que desaguava no caminho que percorriam logo após a curva, e tapou sua boca para pedir silêncio — não utilizando os meios mais educados e gentis, mas ainda assim, pedindo silêncio. Permaneceram assim pelo o que pareceram ser dez minutos, mas nada do touro aparecer. Após mais cinco minutos Lauren finalmente destapou a boca de Henry, e este puxou uma grande quantidade de ar ao ver a boca livre.

– Isso sinceramente não era necessário — reclamou Henry — Eu sei muito bem quando calar a boca.

Lauren olhou para ele com uma expressão carrancuda.

– Não sabe não.

– Que seja — disse Henry revirando os olhos e se acalmando — Onde está o touro?

– E você acha que eu sei? — retrucou Lauren.

Ambos saíram ao mesmo tempo da entrada do caminho e notaram que o monstro havia desaparecido. Não havia nem um parafuso que anunciasse sua estadia por ali. Até o barulho de metal que seu mecanismo produzia havia sumido.

– Como ele foi embora sem que nós nem percebêssemos? — questionou Lauren.

– Nunca duvide da mitologia grega — disse Henry balançando a cabeça — Mas o que fazemos agora?

Lauren pensou um pouco antes de responder.

– Se eu conseguisse arranjar pelo menos um pouco de água e luz, poderia mandar uma mensagem de Íris para os outros. Mas pelo o que posso sentir, não há muita água nas redondezas, só muito no subterrâneo e a pouca que infiltra nas paredes. Muito menos luz natural.

– Sim. Infelizmente só posso produzir raios solares que ofuscam a visão — disse Henry — Na verdade eu nunca tentei produzir em menor quantidade. Talvez eu consiga se tentar.

Lauren ponderou por um instante.

– Acho melhor não. É muito arriscado e não podemos perder energia enquanto estivermos aqui.

– O que faremos então? — perguntou Henry.

Lauren mordeu o lábio, pensativa. Henry notou que era um hábito corriqueiro dela.

– Acho que o melhor a fazer é verificar aonde esse túnel leva. Se voltarmos, iremos gastar muito tempo e poderemos até nem achar os outros.

– Certo — concordou Henry. Não conseguia parar de pensar no bem-estar do resto do grupo — Será que eles ficarão bem?

– Você já viu algum deles fraquejando perante um desafio? — perguntou Lauren em um tom de incentivo.

– Não.

– Então pronto. Eles ficarão bem. Muito bem — concluiu ela tentando convencer mais a si mesma do que Henry. Sua preocupação com Thomas era evidente — Vamos. Em frente, soldado!

– Certo.

– Eu não ouvi direito! — gritou ela brincando.

– Sim, senhor! — repetiu Henry, dessa vez com mais ênfase.

– Senhor? — disse Lauren fingindo raiva.

– Quer dizer, senhora!

– Muito bem!

Os dois riram ao mesmo tempo. Começaram a andar e quando o relógio de Henry marcou meio-dia, estavam exaustos e famintos. Decidiram parar para comer algumas coisas que haviam trazido na mochila. Por sorte Lauren havia se equipado bem e encontrou alguns sanduíches de peito de perú, além de frutas que havia colhido no caminho desde o Acampamento Meio-Sangue.

Henry também tinha alguma comida; trouxera sacos de salgadinhos e doces, além de barrinhas de cereal e vitaminas que ajudavam a manter os músculos — embora não precisasse mais desse tipo de suplemento havia dois anos. Porém, mesmo que houvesse até que bastante alimento, guardaram grande parte para o resto do trajeto, afinal não sabiam quanto tempo ainda ficariam confinados ali dentro.

Após o almoço, Henry e Lauren retomaram a caminhada. Cerca de meia hora depois, uma tocha a sua frente se apagou. Eles estancaram imediatamente.

– Que estranho — comentou Henry.

– Realmente. Fogo grego geralmente não se apaga tão fácil. E não sinto nenhum vento — Lauren deu de ombros — Que seja, vamos continuar.

Não deram nem um passo quando a tocha que estava exatamente do outro lado do corredor da que se apagara antes, extinguiu seu fogo também. Antes que resolvessem andar, as tochas foram apagando sequencialmente de ambos os lados e por todas as direções. Lauren tirou uma lanterna da mochila e a acendeu.

– Melhor nos apressarmos. Isso não é nada bom — ela disse.

O feixe de luz de sua lanterna correu pelo chão de terra batida como uma cobra. Ao sentir um vento frio contra seu rosto, Henry observou que Lauren parou com a lanterna como se temesse o que quer que fosse se estender depois daquele perímetro. Henry deu um passo em falso, ansiando pela descoberta mais que temendo-a, e assim a lanterna de Lauren completou seu caminho.

A luz embebeu uma pequena pata e não tardou a revelar o animal por inteiro. Um chihuahua. Lauren e Henry suspiraram de alívio.

– Que susto! — exclamou Lauren.

– Sim! — concordou Henry — Achei que era um monstro horrendo, mas é só um pequenino chihuahua com uma coleira e uma placa.

O chihuahua soltou um rugido monstruoso.

– Henry? — chamou Lauren.

– Sim?

– Ainda restam dúvidas quanto a você não saber quando calar a boca?

– É... — Henry ponderou por um instante — Não.

– Ótimo.

O monstro começou a aumentar de tamanho. Primeiro ficou do tamanho de um doberman, depois de um leão. Chegou um momento em que estava tão alto que suas costas tocavam o teto. Tinha cabeça de leão, com a juba untada de sangue, o corpo e os cascos de um bode gigante e uma serpente no lugar da cauda. Losangos de três metros de comprimento brotavam do traseiro peludo.

Ainda tinha no pescoço a coleira de falsos brilhantes e a placa, do tamanho de um prato, era agora fácil de ler: QUIMERA – RAIVOSA, HÁLITO DE FOGO, VENENOSA – SE ENCONTRADA, FAVOR LIGAR PARA O TÁRTARO – RAMAL 954.

– Lauren? — chamou Henry.

– Sim?

– Veja se estou certo. Isso aí é uma quimera, não é?

– É sim.

– E não temos muita opção para onde correr, de acordo?

Lauren emitiu um ruído para concordar.

– Você não teria um telefone que liga para o Tártaro, teria?

– Não.

– Então estamos ferrados, certo?

– Sem dúvidas.

O monstro abriu a boca e soltou um jato de fogo.