Between Bites And Kisses
4 Paredes Coloridas
Notas iniciais
P.O.V Tobias
Deixei a baixinha no endereço que me passaram, dando graças a Deus por ter me livrado dela, contudo senti algo vazio assim que ela entrou no elevador. Não que ela fosse legal, mas também não era insuportável. Acho que ela era o que eu sempre quis ser, alguém destemido e que não media a consequência de seus atos, principalmente sob aquela raiva psicopata que tinha.
Deixei esses pensamentos de lado e em encaminhei lentamente ate o carro. Estava prestes a dar a partida, quando meu celular toca. Número bloqueado, só poderia ser o Senador Prior.
–Tobias! Que bom que atendeu!–era a voz de Tori, assessora do Senador–tenho um trabalho para você, talvez não goste e decida não fazer, mas ficaria muito grata...
–Tori simplifique.
–Tá, tá bom. Parece que Beatrice não gostou muito da ideia de ter uma governanta em casa e, como você conviveu com ela nessa ultima semana, pensei que pudesse ajudar.
–Eu não quero ser esquartejado tão cedo mulher!
–Mas podemos suar a desculpa do guarda-costas! E sim, eu já liguei para quase todas as governantas do EUA. Ninguém quer a Beatrice, só achei que você poderia aturar ela um pouco e não deixa-la fazer besteira. Você ainda me deve uma!
Ótimo! Teria que virar babá de uma garotinha por causa de uma divida antiga. Concordei meio fulo da vida e escutei as orientações de como viver com a baixinha, como se eu nunca tivesse visto ela na vida. Eu ficaria cuidando dela apenas ate as aulas voltarem e então teria minha vida normal novamente, ou seja, ficaria os próximos dois meses na cola dela.
Acelerei o carro com uma certa raiva, doido para chegar em casa e esvaziar a mente. Depois de estresse do transito de Nova Iorque chego a uma rua pacata, com casinhas coloridas dos dois lados da rua, meu bairro.
Quando me mudei para cá achei estranho como todos se conheciam, como todos eram gentis e pareciam ter uma vida perfeita. Talvez seja porque eu cresci em um lugar mais retirado, mas odiei como sempre queriam saber mais sobre mim, por isso sou chamado de tiozinho antissocial pelas crianças da rua.
Destranquei a porta e a primeira coisa que vejo é a sala cheia de poeira. Esqueço de tudo, correndo ate o armário na garagem e pegando tudo o que preciso pra limpar a casa. Eu não suporto nada sujo, principalmente na minha casa, fui criado assim e muita gente me diz que sou compulsivo, porém não concordo com isso.
Só parei para pensar quando a casa inteira tinha cheiro de lavanda e estava reluzindo. Sentei no sofá sentindo falta de algo e, automaticamente, vi uma parede branca, limpa e me chamando incessantemente. Ela ficava no único corredor da casa e abrigava apenas um quadro de eu com meu pai pescando, contrastando estranhamente com a moldura.
Saio correndo até a garagem novamente, quase caindo no caminho, e peguei as primeiras tintas que vi na frente. Com um monte de latas eu volto ate aquela parede que me esperava no mesmo lugar, ainda clamando para ser pintada.
Em uma hora eu consegui sujar mais que uma criança com infinitos pirulitos na mão, deixando aquela parede muito mais bonita. Estava pronto para arrumar tudo, quando o telefone toca e saio correndo de novo.
–Alô?– digo, saindo com o telefone no ombro enquanto lavo minhas mãos.
–Tobias!–era Tori, parecendo meio desesperada–preciso da sua ajuda!
&0&
–Quando você disse que precisava de mim, eu pensei que ela tinha fugido de novo, não ficado com vontade de sair.
Tori me puxa ate a cozinha e aponta para a parede. Havia um grande buraco nela, com o papel de parede rasgado e molhado e um vaso abaixo em ruinas. Agora eu entendia porque me chamaram.
Fui guiado ate a sala e vi a baixinha sentada de pernas para cima no sofá, comendo pipoca e assistindo Dragon Ball calmamente. Sentei-me ao seu lado, pegando um pouco da sua pipoca e, assim que me viu, ela saiu correndo pela casa. Tinha ido pegar uma mochila e quando voltou tinha os olhinhos brilhando.
–Vai ficar ai comendo ou vamos sair?
Levantei rindo um pouco e sai dali dando um aceno a Tori, que me olhou confusa. Fizemos o caminho ate o carro em silencio, entretanto isso foi o suficiente para preencher o vazio dentro de mim. Acho que poderíamos ser chamados de quase amigos.
–Aonde você quer ir Srta. Prior?
–Pelo amor de Deus, pare de me chamar assim. Faz eu me sentir uma velha solteirona, me chame de Tris– ela meche em um dos seus anéis.
–Tudo bem Tris, aonde quer ir?
–Cinema?
Concordei com a cabeça e acelerei pela cidade, pensando onde esse emprego iria dar.
&0&
P.O.V Tris
Não foi tão ruim assim. Eu e Quatro nos divertimos bastante hoje. Fomos ver um filme no cinema, depois comemos pipoca na frente do Central Park e agora estamos passeando pelas ruas de Nova Iorque a procura de aventura.
Tiro a blusa e amarro ela na cintura, deixando parte da minha clavícula a mostra. Só percebo que Quatro estava me olhando quando ele abaixa minha camiseta e depois a coloca novamente no lugar e pergunta:
–Porque corvos?– vejo aqueles olhos azuis escuros me fitando com duvida e respondo sinceramente, já que não tenho nada a esconder nessa questão.
–Eles são lindos, mas tenho trauma com eles, então decidi tatuar.
Ele ri fracamente e aponta para algo no outro lado da rua. Uma loja de discos. Agarro a mão dele e marchamos ate a loja, louca para comprar algum álbum novo. Não tive nem tempo nem vontade de ir às compras nos últimos seis meses, por isso só saí dali quando tinha comprado todas as novidades que tinha visto ali.
–Você é diferente – levante uma sobrancelha para o dono daquela voz rouca e acenei para ele continuar – a maioria das garotas que conheço gastaria isso em uma loja de roupas.
–Acho que já percebeu que não sou normal. Sem falar que não fizemos nem metade do que eu quero fazer hoje–ele sorri maroto levantando as sobrancelhas, então percebo que a frase teve duplo sentido e me corrijo.
–Que mente suja Quatro! Eu quis dizer que tenho muitas lojas de doces para ir!
–Que tipo de doces?–ele amplia aquele sorriso, o deixando mais maroto ainda.
–Puta que pariu, porque todo mundo acha que minhas frases têm mais de um sentido? Poxa eu só queria comprar umas barras de chocolate e umas Red Vines, só isso.
Faço uma carinha de dó e ele me abraça rindo um pouco. Quatro agarra meu pulso, me puxando pelas ruas enquanto rio. Paramos em frente a uma linda sorveteria e o vejo de soslaio sorrindo.
Era um lugar bonitinho por dentro, ate fofo; com suas paredes em azul e rosa claros, o chão de tacos reluzente e janelas amplas. Nos sentamos no balcão de ladrilhos coloridos e fazemos nossos pedidos, mas, quando Quatro foi ver as horas no celular, pude ter um relance de alguma coisa colorida nas mãos dele.
Enquanto esperávamos os sorvetes, minha curiosidade crescia ate não aguentar mais e eu finalmente perguntar:
–Porque tem tinta nas suas mãos?–ele pareceu surpreso por um momento e então olhou para elas, parecendo admirado com o que tinha encontrado.
–Sou estudante de belas artes, é normal ter tinta nelas–disse apontando para as mãos, atiçando ainda mais a minha curiosidade, contudo nossos pedidos tinham acabado de chegar e eu não iria parar de comer apenas para perguntar alguma coisa para ele.
Só de pensar que tive um dia legal com o cara que ate ontem era meu sequestrador é estranho. Acho que estamos nos tornando amigos, pois mesmo em tão pouco tempo, parece que já o conheço desde sempre.
–Tris, já são quase onze horas–ele diz estalando os dedos na minha frente. Pego meu celular, quase o derrubando, para ver se ele estava correto. E estava. Pagamos a conta e quando ele estacionou na frente da casa do meu pai, eu não aguentei e perguntei:
–Podemos tomar café amanhã no Starbucks?–santo Deus, eu preciso aprender a controlar a língua. No entanto, ele sorriu de lado e senti as minhas bochechas formigarem.
–Claro que sim, sou sua babá de qualquer modo–acenei para ele e sai do carro ainda com as bochechas formigando. Eu pensei que com o tempo que passei com a gangue me deixaria menos suscetível a ficar com vergonha de tudo, mas parece que meu corpo não entendeu isso.
Subi correndo ate meu quarto, ignorando as perguntas da assessora do meu pai, doida para tomar um banho. A água gelada queimava em contato com a minha pele quente, porem eu precisava daquilo.
Sai do banheiro bem mais calma, só que toda essa calma foi embora quando eu vi as paredes do meu quarto cor de rosa. Sempre odiei esse lugar, todo trabalhado em rosa e branco, com florezinhas por todos os cantos, como se me vestir como uma princesa já não bastasse.
Coloquei meu pijama e uma luzinha, aquelas de desenho, brilhou em cima da minha cabeça. Peguei meu celular, a única coisa que não tinha ganhado rosa, e procurei nos meus contatos Quatro. Nada, provavelmente não queriam que conspirasse com ele para fugir de novo.
Pensa, Prior! Pensa!
Minha consciência só pode ser bipolar. Não falou comigo o dia inteiro e agora quando eu tento achar o cara com nome em forma de número, você vem me atrapalhar!
–EU TE AMO CONSCIÊNCIA!–gritei o mais alto que pude, com certeza assustando alguém.
Achei ele na minha lista de contatos e quase fiz uma dancinha da vitória. Mandei uma mensagem para ele perguntando se já tinha pintado um quarto inteiro, mas não me respondeu. Ele deveria estar no trânsito ou com o celular desligado.
Acabei dormindo daquele jeito mesmo, com o celular na mão e com os travesseiros nos pés.
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