Between
2 Romeu e Julieta
Notas iniciais
Jack e Amy sempre foram amigos desde pequenos, mesmo sem saber que eram opostos e não poderiam conviver um com o outro. Seus pais evitavam ao máximo que eles andassem juntos, pois para a época em que viviam, era totalmente proibido o contato entre Iluminados e Obscuros, mas levavam a vida normalmente. Depois de anos convivendo próximos, acontecera a primeira separação: o Conselho de um Deus Superior acaba descobrindo a ligação entre os dois, e graças a isso, teve início a caçada. Amy era procurada por todos os lugares – se capturada, receberia sentença de morte, por se aproximar de um Iluminado.
Era preciso tomar medidas drásticas: a família de Amy mudaria de país, apenas para fugir do Conselho. Restava apenas uma semana até a viagem. Jack tentou aproveitar ao máximo o tempo que lhes sobrava. Saíram juntos todos os dias, mesmo que fosse uma semana, era um tempo muito curto. Sempre voltavam para suas casas perto do nascer do sol, faziam tudo que podiam para aproveitar.
Invadiram a escola e fizeram o máximo de desordem possível, picharam seus nomes em muros pela cidade toda, destruíram casas atirando pedras, garrafas e quaisquer outras coisas que encontrassem. Invadiram uma casa abandonada, roubaram um carro, arrombaram uma loja de roupas e quase foram presos por isso, porém a última noite foi inesquecível. O plano era ir até o lago que ficava no meio da floresta, saíram cedo para arrumar todas as coisas necessárias: algumas cervejas, vários energéticos, pacotes de batatas chips que pareciam não acabar. Mas ainda faltava algo...Jack comprou um colar como presente de despedida para a única amiga de verdade que teve.
Estava tudo pronto, o ponto de encontro era uma cabana perto da entrada da floresta. Jack foi o primeiro a chegar e logo entrou, um espaço pequeno e inabitado, colocou o que havia trazido na mesa de jantar que ficava no meio da sala, e esperou a chegada de Amy. Ela estava atrasada e a cada minuto que passava Jack se sentia mais preocupado, andava de um lado para o outro, olhando fixamente para o relógio. Depois de quase uma hora de espera ela finalmente chegou.
— Caralho! Porque demorou tanto? – Disse Jack revoltado.
— Desculpa senhor pontual, eu tive que esperar meus pais dormirem. Caso você não se lembre, eu viajo amanhã. – Respondeu ela sarcasticamente.
— Eu sei, mas cê pelo menos podia ter me avisado.
— Verdade… Enfim, você trouxe o que eu pedi?
— Sim, os energéticos estão na mochila e as batatas na sacola.
— Beleza, eu tô com as cervejas e os remos.
— Pera, pra que esses remos?
— Você vai descobrir, só pegue as coisas e vamos para o lago.
Após se organizarem, partiram para a entrada da floresta. Era uma caminhada razoavelmente grande até o lago.
— Bom Jack, daqui até o lago é quase um quilômetro. Ainda bem que chegamos cedo. – Disse Amy empolgada.
— Você quis dizer que eu cheguei cedo. – Contestou Jack.
— Não precisa me lembrar disso a cada 5 minutos, tinham muitas malas pra arrumar, sabia?
— Tá. Acho que é melhor pararmos de discutir e ir logo pro lago.
— Quem começou foi você, mas tudo bem, já é uma da matina, e tamos ficando sem tempo.
E assim foram caminhando lentamente, conversavam como se fosse um dia normal, como se não houvesse viagem, e nem a chance de nunca mais se verem. Eles só queriam aproveitar esse último momento da melhor forma possível. A tranquilidade de ambos se expressava pelos olhares que trocavam, estavam tão calmos que não perceberam que já tinham chegado ao lago.
Colocaram as coisas que traziam debaixo de uma árvore perto do píer, Jack ficou irritado, pois Amy deixou todas as coisas jogadas – e ele teve de arrumar sozinho. De repente ela sumiu;.Jack entrou em desespero, não sabia o que fazer, onde ela poderia estar? Olhava para todos os lugares possíveis, tentando encontra-lá, foi então que se deparou com um barco vindo da margem mais distante do lago, era ela.
— O que cê tá fazendo aí, sua louca!? – Disse Jack, desesperado.
– Eu disse que você ia descobrir pra que serviam os remos. – Respondeu ela com um sorriso no rosto.
— Você meu deu um susto enorme, eu já tava ficando maluco.
— Era uma surpresa! Pegue uns pacotes de batata e umas cervejas, e me espera aí no píer.
— Tá bom. Só não faz isso de novo.
Jack pegou o que Amy lhe pediu e esperou ela chegar. Colocou as coisas no barco e os dois foram remando.
— Onde você conseguiu esse barco? Perguntou Jack, curioso.
— É do pai de uma amiga minha, eu conversei com ele há uns dias, e ele deixou pegar emprestado, só faltavam os remos.
Quando chegaram ao centro, ancoraram o barco e começaram a conversar e beber.
— Sabe, até que essa semana foi divertida, deu pra aproveitar bastante antes de eu ir. Foi engraçado zoar a escola toda, principalmente quando você caiu do muro na hora de sair de lá. – Disse Amy enquanto ria.
— Nem me fala, minha perna tá doendo até hoje. – Suspirou Jack.
— Não sei como você não quebrou essa merda. Pichar os muros foi mais legal que eu pensava, é muito relaxante dá até um alívio.
— Sim, só não achei muito inteligente da nossa parte pichar nossos nomes.
— Quando pensei nisso eu não sabia o que fazer, nossos nomes foram a primeira coisa que me veio na cabeça naquela hora. Foi muito louco ver o rastro de destruição que deixamos pelas casas da cidade, só não foi legal aquele caco de vidro que prendeu na minha perna. Dei sorte de você saber primeiros socorros.
— Deu sorte mesmo, aquela ferida foi bem funda.
— Cê lembra de quando entramos na casa abandonada? Você devia ter visto sua cara quando aquela porta abriu do nada, parecia uma criança vendo filme de terror.
— Não esquece do susto que eu te dei antes disso, cê tava tão pálida que parecia um fantasma.
— Também não exagera. Só me arrependi de tentar roubar aquele carro, por pouco não fomos presos e perdemos esse último dia juntos.
— Verdade, mas também teve a loja de roupas.
— Esse nem aconteceu nada, só arrombamos a entrada e caímos fora.
Depois de conversarem sobre tudo que haviam feito, Amy resolveu nadar um pouco. Ela ficou de pé e começou a levantar sua blusa preta com desenhos psicodélicos, por baixo, um biquíni escuro com uma cor imperceptível. Jack ficou boquiaberto com o que viu, nunca passou por um momento assim com Amy antes. Ela se jogou no lago – era impossível vê-la dentro do lago, mas rapidamente ela surgiu das águas iluminadas pela lua.
— O que cê tá esperando? Tira logo essa camisa e se joga. – Disse Amy, enquanto passava as mãos no rosto.
— Calma, tenho que tirar as coisas do bolso.
— Anda logo, parece até uma lesma.
Jack terminou de guardar as coisas que havia em seu bolso, e de esconder o colar que comprara de presente para Amy. Então pulou, em um mergulho profundo.
— Pensei que não fosse pular.
— Desculpa, é que tinham coisas demais no meu bolso.
— Relaxa! Que tal uma corrida até o final do lago? – Propôs Amy.
— Ida e volta, quem chegar primeiro ganha. – Completou Jack.
— Fechado!
Eles apertaram as mãos para que pudessem começar de vez a corrida, mas Amy se aproveitou do momento para usar o corpo de Jack, assim ganhando vantagem.
— Que o mais esperto vença. – Disse ela com um sorriso no rosto.
— Ei! Isso não vale. – Jack grita, irritado com a trapaça.
— Ninguém disse que não valia trapacear.
— Você vai perder do mesmo jeito!
Os dois começaram a nadar. Mesmo ganhando vantagem, Amy foi alcançada, estavam lado a lado mesmo depois de fazer a virada. Foi decidido que quem batesse no barco primeiro ganhava. Porém, houve um empate.
— GANHEI! – Gritaram os dois ao mesmo tempo
— Nem vem, eu saí na sua frente, Jack!
— Eu te alcancei e ainda por cima te passei! Quem ganhou fui eu!
—Nada disso, eu tava do seu lado! Eu bati antes! – Disse Amy com um suspiro profundo.
— Amy cê tá bem? Cê ficou pálida do nada.
— Eu...tô...bem…– disse ela com o tom de voz cada vez mais baixo.
– Amy, se segura nas minhas costas. Eu vou te colocar dentro do barco.
— Tá bom…
Os dois subiram no barco. Jack procurou por algo para aquecê-la, cada segundo que passava, ela ficava mais fria. Porém, as únicas coisas que haviam eram a blusa de Amy e sua camisa. Eles precisavam chegar rápido no píer.
— Amy, me escuta. Coloca sua blusa e usa a minha camisa pra você se aquecer.
— Ok Jack… — Amy não conseguia se mexer muito.
— Eu vou tentar chegar o mais rápido possível, tenta ficar acordada.
Jack começou a remar o mais forte e rápido que conseguia, era uma corrida contra o tempo. Amy precisava se aquecer ou algo ruim poderia acontecer. Logo chegaram ao píer, com o barco ancorado, Jack carregou sua amiga para fora e correu até as mochilas. Lá dentro havia uma toalha que tinha trago para poderem se secar.
— Se seca, eu tô com um casaco aqui dentro, você pode se aquecer com ele – disse Jack, com um tom um pouco mais calmo.
— Obrigada. Cê me salvou! – Agradeceu Amy ainda abatida.
— Tá tudo bem.
— Jack...Posso deitar no seu colo?
— Claro!
Jack se encostou na árvore onde estavam suas mochilas, se ajeitou e então esticou suas pernas para que Amy pudesse se deitar. E ficaram em silêncio, chegava a ser perturbador...Estavam conversando há pouco e agora se viam calados, sem saída daquela situação. Foi então que Jack ouviu algo, era sua melhor amiga chorando.
— Amy...Tá tudo bem? – Perguntou ele.
— Não. Eu estraguei tudo – respondeu ela enquanto as lágrimas escoriam – era pra ser uma despedida feliz, e eu fui lá e fiz merda.
— Ei! Não fica assim, ainda temos bastante tempo sobrando pra aproveitar.
— Jack...Eu NUNCA mais vou te ver! – gritou Amy. Meus pais tinham que arrumar emprego justamente em outro país, eu odeio eles por isso.
Não importa o que fizesse, Jack não conseguia consolá-la, foi então que lembrou do colar que comprou para ela. Ele se levantou e saiu correndo até o barco para pegá-lo.
— O que foi, Jack? – Amy secava suas lágrimas enquanto perguntava.
— Eu esqueci uma coisa dentro do barco.
Ele correu o mais rápido que pode para pegar o presente, isso poderia trazer um pouco de alegria aquele rosto deprimido.
— O que você foi buscar lá? – Perguntou Amy, curiosa.
— Isso aqui – Jack mostrou o colar – eu comprei como presente de despedida.
— Sério? – Ela começou a chorar novamente.
— Sim. Comprei isso pra que você sempre se lembre de mim.
— Obrigada Jack – mesmo em meio as lágrimas, um sorriso surgiu em seu rosto. Cê pode me ajudar a colocar?
— Mas é claro!
Ela se virou e levantou os cabelos para poder ajudá-lo. O colar era uma lua crescente e no meio dela, uma pedra azul muito brilhante, que refletia a luz do luar.
— Ele é lindo. – Amy estava muito feliz por causa do presente.
Os dois ficaram em silêncio, apenas olhando nos olhos um do outro. Restavam apenas pouquíssimas o dia já estava quase amanhecendo. Jack colocou sua mão no rosto de Amy. Nisso, ela ficou muito envergonhada. Mas mesmo assim eles se beijaram. Mesmo sendo amigos desde crianças, nunca demonstraram um sentimento desse tipo, a única coisa que podiam fazer era aproveitar esse pouco tempo que restava.
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