Acordei com o sol quente me acertando na cara.

Por um momento achei que estava de volta em meu quarto, que tudo aquilo havia sido um sonho e em poucos minutos minha mãe abriria a porta dizendo que eu estava atrasado para o colégio. Mas não havia sido; O desconfortável banco do carro logo me trouxe a realidade.

Abri os rapidamente e me ajeitei no banco. Não havia sinal de Ellious; apenas um papelzinho meio amassado com meu nome escrito.

O carro encontrava-se encostado fora da rodovia, ao lado de uma placa de boas vindas à cidade. Não lembro-me bem o que dizia a frase, mas na hora havia me parecido interessantíssima. Ao menos Ellious havia cumprido sua palavra, eu pensei.

Consultei o relógio; Eram dez da manhã. Havia dormido mais do que planejara. Só naquele momento percebi que deveria encontrar Arin ali e não fazia ideia de por onde começar. A cidade não era pequena e eu não podia simplesmente esperar que ele viesse até mim novamente. Comecei a pensar que aquilo era loucura. O que eu estava fazendo ali, afinal? Deveria apenas voltar para casa, esquecer tudo isso e com sorte eles me esqueceriam também.

Passei a mão pelos cabelos nervosamente, sem saber o que fazer. O papel continuava no banco ao meu lado, portanto peguei-o e abri. Talvez me desse alguma ajuda sobre o que fazer:

“Caleb, sinto muito. Gostaria de ficar, mas juntos seria ainda mais perigoso.

Tive que correr. Espero que encontra-lo em breve.

Boa sorte.”

Ótimo! Estava sozinho... De novo.

X

Comecei a dirigir então, porque não sabia o que mais fazer. A rodovia me levou até o centro da cidade; Westen era notavelmente maior que minha cidade, e também mais quente. O vento era seco e abafado e o suor agora se acumulava em minha testa e camisa; Nada agradável. E eu ainda não conseguia entender porque Arin havia me pedido para encontra-lo logo ali. Porque não continuar onde estávamos?

Pra completar, eu estava faminto. A última vez que havia comido alguma coisa havia sido na manhã anterior, que agora mais me parecia uma eternidade. Era estranho pensar que há exatamente um dia atrás eu estava sentando tranquilamente em minha aula de Espanhol, completamente ignorante sobre camadas, demônios e todo o resto. Daria tudo para ter continuado dessa forma.

Decidi por fim que não adiantava nada rodar por aí na esperança de encontrar Arin por acaso, tudo que conseguiria com isso seria gastar o combustível que já estava nas últimas. Por sorte, lembrei-me então dos vinte dólares que ainda estavam em meu bolso traseiro da calça.

Dirigi até o posto mais próximo. Pus dez dólares de gasolina e com o troco comprei um pacote de doritos e uma garrafa de água. Havia também um telefone público, mais a frente. Imaginei que minha mãe me devia algumas respostas.

Eu disquei o número de seu celular, pronto para descobrir o quanto ela sabia sobre tudo aquilo e em poucos toques ouvi a voz familiar do outro lado da linha:

“Caleb!”

“Oi, mãe –Espera, como sabe que sou eu?”

“Quem mais me ligaria de um telefone publico? Pelo amor de Deus, Caleb, onde você está?!”

“Olha, aconteceu umas coisas estranhas. Eu, uhm...” Como explicar que estava em Westen, após ter descoberto ser parte demônio? “Eu encontrei meu pai ontem.” Eu disse por fim, esperando que isso esclarecesse o suficiente.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, cheguei a pensar que a ligação havia caído.

“Ellious?” Minha mãe perguntou, soando alarmada. “Escute, Caleb, seu pai... Fique longe dele, por favor.”

“Oh.” Eu disse. “Oh! Você sabe! Você sabe, então.”

“Eu... Eu pretendia contar. Só estava esperando o momento certo.”

Silêncio.

“Claro, o momento certo para me dizer que pai é um demônio.” Eu ri para disfarçar o ressentimento.

“Ellious sempre gostou desse termo; Dêmonio. Soa pior do que realmente é. Mas você deve entender que–”

“Olha, mãe... Eu tenho que ir.” A conversa estava começando a me deixar meio deprimido. “Depois nos falamos, ok?”

“Espera. Caleb...”

Bati o telefone no gancho com força. Ligar para minha mãe? Péssima ideia.

A conversa havia sido o oposto do que eu havia imaginado. Então ela sempre soube... De alguma forma aquilo tornava tudo ainda pior.

Eu estava terrivelmente desanimado então. Não sabia nem exatamente o por quê. Acho que o fato de minha mãe estar ciente de toda essa loucura tornava aquilo mais real e parte de mim ainda não estava totalmente convencida.

Eu acabei sentando na calçada mesmo. Apoiei a cabeça nas mãos e fiquei observando o movimento. Deveriam ser umas quase duas da tarde agora e eu não sabia nem por onde começar a procurar Arin. De uma coisa eu tinha certeza agora: Se não encontrasse-o até o anoitecer estaria totalmente ferrado. Eu meio que esperava que ele tivesse um plano caso eu conseguisse o encontrar, porque também não estava exatamente afim de correr para sempre.

Fiquei lá por poucos minutos. Comi meu pacote de doritos rapidamente e ainda sentia fome quando acabei, mas só me restavam quatro dólares agora. Imaginei que era mais sábio guarda-los para alguma emergência.

Comecei então a caminhar de volta para o carro, que ainda encontrava-se estacionado em um canto do posto. Mas antes que pudesse abrir a porta alguém pôs a mão em meu ombro e me puxou para longe.

–

–Caleb Hopkins! O garoto exclamou como se fosse um grande conhecido meu.

Não era. Tinha certeza que jamais o havia visto em minha vida. Era um cara grande, meio robusto. Parecia um daqueles jogadores de futebol de colegial. Tinha a pele bem clara e olhos castanhos, confiantes.

–Como sabe meu nome? –Perguntei, tentando me afastar dele.

–Oh. Você não me reconhece, não é?

Aquilo estava ficando estranho.

–Ahm... Eu Deveria?

O rapaz deu os ombros, parecia divertido com a situação.

–Sou eu, Caleb. –Ele disse. Por um instante seu rosto tremeluziu e eu imaginei ter visto em Arin em seu lugar. Deveria estar ficando doido, era a única explicação...

Ou talvez não... Quais eram as chances, certo? Senti-me meio tonto com aquilo. Me apoiei na picape e tentei não surtar.

–Co...Como? –E só então me dei conta que aquilo poderia ser uma armadilha. Puxei a adaga da calça jeans e a apontei na direção do rapaz, tentando parecer ameaçador. Provavelmente não deu muito certo, pois ele não pareceu nem um pouco intimidado.

–Ei, ei. Calma. –Ele levantou as mãos, parecendo confuso. –Achei que gostaria disso. Você que pediu por um guardião mais intimidador, lembra?

.. Era verdade. Eu lembrava-me de ter pensado no assunto, mas não de ter mencionado à Arin. Olhei para o rapaz a minha frente com desconfiança. Era mais alto e corpulento, e sim; Mais ameaçador... Mas havia algo familiar também. Era loucura!

–Olhe, eu ainda não tive tempo para lhe explicar tudo, portanto é normal que você esteja confuso. Te deixei em uma situação complicada na noite anterior e peço desculpas por isso. Mas sou eu, Arin, e preciso que você confie em mim. –Prosseguiu ele cautelosamente.

Eu apenas o encarei sem reação. Abri a boca e tomei fôlego; Pensei em ressaltar novamente o quanto tudo aquilo era insano, mas já estava se tornando cansativo.

–Ok. –Disse por fim. Não sabia mais o que falar.

–Ok? –Arin pareceu aliviado e ao mesmo tempo confuso. Limpou a garganta antes de continuar; –Certo, imagino que você tenha perguntas.

Sim, eu tinha várias. E ainda não estava completamente convencido de que o cara a minha frente era Arin. Mas eu perguntei mesmo assim:

–Que diabos aconteceu noite passada?

–Bem... A esse ponto já deve ter notado que não possuo um corpo fixo, como você, certo? –Eu balancei a cabeça em confirmação. –Guardiões são seres de energia. E o que acontece quando venho a essa camada e assumo um corpo físico é que contenho toda essa energia em um pequeno receptáculo. Livrando-me dessa restrição acontece o que você presenciou na noite anterior, libero poder suficiente para ao menos espantar criaturas sombrias como Kiehl. É bem simples, na verdade.

Não, não era, não.

–Mas é, ok, entendo que posso ter dado a impressão que estava morrendo. Desculpe. –Ele completou rapidamente ao ver a minha expressão indignada.

–Você... –Eu disse. –Você é realmente ele?

O cara balançou a cabeça em confirmação. Arin, quero dizer.

–Sou eu, Caleb. Juro.

–Ok... Por que Westen?

–O quê?

–Westen. Por que me fez vir até aqui?

–Ah sim! –Ainda era muito estranho pensar nele como Arin. Fisicamente não se assemelhava em nada. –Há um portal aqui. É mais fácil se locomover de uma camada para a outra dessa forma.

–Isso não que dizer que torna mais fácil Kiehl e os outros virem até nós?

Arin balançou a cabeça negativamente.

–Não, não exatamente. Apenas guardiões têm acesso aos portais. Mas, bem... –Arin limpou a garganta; A expressão subitamente séria. –Há um pequeno problema, no entanto...

Não são apenas Criaturas sombrias atrás de você agora. Evros designou guardiões à sua caça também.

Oh, merda.

Notas finais
Eu particular não gostei taanto assim do capítulo, provavelmente irei reescreve-lo depois. Mas resolvi postar mesmo assim porque senão acabaria esquecendo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.