A escuridão pareceu ficar ainda mais profunda nos segundos que se sucederam. Sombras se agitaram ao redor formando formas vagas e confusas.

O frio da noite pareceu se intensificar e senti meu estomago se retorcer quando as criaturas saíram da escuridão e marcharam em minha direção. Elas haviam literalmente surgido das sombras e de alguma maneira assumido forma física no processo. Agora eu entendia o que Arin havia dito.

E lá estavam as bestas como a que havia ido atrás de mim horas antes. De perto, pareciam ainda mais assustadoras. O corpo colossal era todo coberto por escamas escuras e os dentes afiadíssimos não pareciam nem um pouco amigáveis. Os diversos pares de olhos amarelos fixavam-se em mim furiosos.

Bizarro, eu pensei, estremecendo.

Ao lado dos animais estavam homens, igualmente corpulentos e ameaçadores. Pareciam todos muito iguais para mim. A pele era de um tom canela e possuíam expressões um tanto selvagens e rigorosas. A roupa era também a mesma; sobretudo preto cobrindo a maior parte do corpo. Cabelos compridos e lustrosos caíam pelos ombros, e os olhos carmins eram de certo a coisa mais perturbadora ali.

Olhei para Arin, esperando algum sinal para atacar ou correr, mas ele apenas balançou a cabeça negativamente e deu um passo a frente.

–Kiehl. – Disse ele.

Como resposta, um dos homens também deu um passo frente.

–Arin.

–Como sabe, é meu dever proteger o garoto. – Prosseguiu Arin.

O homem sorriu. Apesar da expressão tranquila, os olhos tinham um brilho maníaco.

–Como sabe, é meu dever vingar Reubben. –Respondeu ele. Tinha a voz soava rouca e profunda.

–Ora, então veio atrás da pessoa errada. Caleb não possui culpa alguma nos erros do pai.

É, bem, e eu também gosto dele tanto quanto vocês. Pensei em responder, mas os caras me davam medo demais então achei melhor ficar quieto.

–Não é tão simples assim, é? Se fosse, você não seria um guardião de primeiro grau agora... –O homem retrucou.

–Isso não...–Arin deixou a frase pairar inacabada. Respirou fundo. –Não precisamos fazer isso, Kiehl. Por favor.

Pareciam tão absortos na conversa que por um momento achei que haviam se esquecido de minha presença. Perguntei-me se talvez fosse capaz de dar o fora dali sem ser notado. Improvável, mas como já estava prestes a morrer o que de pior poderia acontecer?

Como se capazes de ouvir meus pensamentos as bestas se aproximaram ainda mais, rosnando furiosamente para mim. Ok, péssima ideia, pensei. Correr estava fora de questão.

Kiehl virou-se então para mim, um sorriso perturbador esticando-se em seu rosto.

–Estou um pouco decepcionado, devo dizer. Sabia que se tratava apenas de um garoto, mas... Imaginei que seria um pouco mais desafiador.

–Ahm... Desculpe? –Foi a única coisa em que consegui pensar em responder.

Ele ignorou. Ao invés de responder algo, puxou de dentro das vestes uma espada longa e aparentemente extremamente afiada. Olhei para a pequena adaga em mim mão; Era ridícula em comparação.

–Saía da frente, Arin. Por favor.

–Não vai acontecer, desculpe. Você não vai se aproximar do garoto hoje, Kiehl. –Arin subitamente parecia mais velho e ameaçador que antes; Sua expressão rígida e tensa deixava claro que não estava brincando. Virou-se para mim, puxando a adaga das minhas mãos suadas. –Eu não acredito que irei fazer isso... Você me deve uma, Hopkins.

Kiehl olhou para ele em confusão. E então, quando a compreensão se fez já era tarde demais. Arin ergueu a adaga e cravou em sua própria barriga. Eu tentei gritar ou ir até ele, mas estava chocado demais para me mover.

Era esse o meu fim, pensei. Se com Arin ao meu lado as chances já eram mínimas, agora eu estava ferrado de vez.

Mas Kiehl e os outros não pareciam pensar da mesma forma. A confusão em suas expressões se tornou medo, e logo estavam recuando para a escuridão de onde havia saído.

–Isso não muda nada, Arin. Agora faço questão de não apenas matar o garoto, mas a você também. –A ameaça não combinava com a expressão espantada em seu rosto.

Arin riu; Uma risada maníaca e fraca, enquanto o sangue escorria da ferida... Espera. Aquilo não era sangue. Não poderia ser. O líquido que agora manchava sua camisa e se acumulava no chão era prata. Arin estava prateado! Brilhava tanto agora que estava se tornando doloroso olhar para ele.

–Aconselho a recuar e desviar os olhos, Hopkins. –Disse ele com esforço.

A rua, que antes praticamente escura e deserta, estava completamente iluminada agora. Já não se via Kiehl ou aos outros. Só restava Arin ali, agora ajoelhado na calçada imunda.

–Mas que porra foi essa?! –Eu gritei, incapaz de conter o tom esganiçado. – Deus do céu, Arin, mas que merda você fez?!

–Acalme-se, por favor.

–Me acalmar? Você se apunhalou e agora... Puta que pariu, o que aconteceu aqui?

–Eu sou um guardião, Hopkins. É meu dever o proteger a qualquer custo.

–Eu não pedi pra você morrer por mim, Ok? Eu não...

Arin riu suavemente. E então tossiu; mais sangue prateado vindo à tona.

– Não estou morrendo. E nem sou um ser corpóreo, é preciso bem mais que isso para me matar. Isso apenas nos fez ganhar algum tempo.–Explicou ele, tossindo mais uma vez. –Só estou fraco demais para me manter nessa camada.

–O que isso quer dizer?

Arin não respondeu. A julgar pela careta em seu rosto não estava tão bem quanto insistia em dizer.

–Pegue a picape e dirija até Westen. Estarei lá ao amanhecer.

–O quê? Não... Como? Olhe pra você!

–Você faz perguntas demais, Caleb Hopkins, e prometo que irei respondê-las. Amanhã. Mas nesse exato momento eu preciso que você comece a correr para bem longe daqui, porque a qualquer momento Kiehl pode voltar.

–Não vou te largar aqui!

–Não seja ridículo. Não permanecerei aqui por muito tempo. –Ele sorriu com dificuldade. –Westen. Estarei lá, eu prometo.

Naturalmente, o lugar não se chamava Westen. Mas achei pôr aqui dessa forma melhor dessa forma. Acredite, é mais seguro para mim e para você, leitor.

De qualquer forma... Eu me levantei a contragosto, ainda não completamente convencido, mas acenei com a cabeça mesmo assim.

–Ok. –Disse por fim. –Eu vou, mas... Você realmente ficará bem?

Arin fechou os olhos. Parecia loucura deixa-lo ali, quando o cara parecia prestes a morrer, mas aquele havia sido um dia bastante confuso, então eu já não sabia no que acreditar.

–Farei o possível. –Respondeu ele. –Agora vá.

Eu respirei fundo, tentando fazer com minhas pernas parassem de tremer. Dei às costas a Arin hesitantemente, caminhando devagar. Parecia impossível que ele teria forças para ir a qualquer lugar, mas eu decidi acreditar, porque não havia nada mais a fazer.

Caminhei pela noite fria tentando me manter o mais distante possível das sombras. Havia uma parte minha que parecia gritar, Foda-se isso, vamos apenas para casa e esquecer tudo que aconteceu! E por um momento me senti tentado a fazer exatamente isso. Mas então lembrei-me de minha mãe. Não poderia coloca-la em perigo, não mesmo.

A velha picape continuava no mesmo lugar onda a deixara. Aparentemente, nem ladrões se interessavam pelo carro, já que a chave ainda estava na ignição como havia deixado ao sair dali às pressas.

Só fui me dar conta do quanto estava cansado quando sentei-me no banco traseiro e quase instantaneamente sentiu o sono tomar conta. Não. Não podia dormir agora.

–Cansado?

Juro por Deus, eu dei um pulo ali mesmo. No banco da frente havia um homem que definitivamente não estava lá segundos antes.

–Como? –Ou ao menos, era o que eu teria perguntado se algum som houvesse saído da minha boca.

–Sombras. –O homem respondeu calmamente, como se explicasse tudo. E de fato, meio que explicava. Malditas sombras!

Olhei desconfiado para ele, porque bem... O cara se parecia pra caramba comigo. Os mesmos olhos castanhos e a mesma pele cor de bronze; A diferença é que usava os cabelos penteados impecavelmente para trás, ao contrário dos meus que pareciam ter vida própria.

Se eu chegava a quase 1 metro e 90, ele facilmente ultrapassava os 2. Usava apenas uma espécie de saia e sandálias de couro, o que era bastante ridículo, mas seu físico definido e a expressão rígida em seu rosto parecia desafiar qualquer um a fazer graça.

Algo nele parecia estranhamente familiar, eu só não conseguia identificar exatamente o quê.

–Quem é você?

–Me chamo Ellious, achei que saberia.

Agora sim estava claro; aquele era meu pai.

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–O que faz aqui? –Perguntei tentando soar agressivo. Puxei a adaga presa em minha calça e apontei para Ellious. Ele apenas sorriu.

–Acalme-se. Estou aqui para desculpar-me, ou algo assim.

–Pelo quê? –Perguntei. –Abandonar a mim e minha mãe ou por graças a você eu estar sendo perseguido por malditos vampiros?!

–Vampiros? Hum, os dois, eu acho. –Ellious respondeu calmamente. –Olhe, Caleb, eu sei que não estou sendo exatamente o melhor pai possível, mas sou um demônio, o que exatamente você esperava de mim?

Eu pisquei algumas vezes, meu cérebro parecia estar com problemas para assimilar a nova informação.

–Você O QUÊ?

–Oh, seu guardião não o contou?

–Aparentemente Arin não me contou nem o começo. Tudo que sei é que por sua culpa estou sendo perseguido por vampiros psicóticos.

–Vampiros psicóticos? Não, não... Acredite, é pior que o mito. Ao menos sabe sobre as camadas?

Lembrava-me vagamente de Arin ter mencionado algo sobre isso antes, mas acabara deixando para lá, assim como todo o resto.

–Não.

–Oh. Ótimo. –Ellious resmungou. –Veja bem, existem três camadas diferentes no mundo. Imagine que você more em um prédio –

–Eu moro em um. –Interrompi.

–Certo. Bom pra você. –Respondeu ele, irritado pela interrupção. –Basicamente é o seguinte: A raça humana vive no primeiro andar, criaturas sombrias no segundo e guardiões no terceiro.

Eu sacudiu a cabeça. Tinha a impressão que só agora começava a entender a verdade sobre o mundo, e pra falar a verdade, não tinha nem certeza se realmente queria saber.

–Ok. Acho que estou acompanhando.

–Ótimo. –Ellious tentou sorrir, mas o resultado foi desastroso. –Na primeira camada, há uma rigorosa organização. Arin, seu amigo, é um guardião de primeiro; o mais baixo da hierarquia. Há também guardiões de segundo grau que são encarregados de criaturas como eu e da organização das demais camadas. Existem apenas quatro guardiões de terceiro grau. Evros sendo o guardião supremo, líder não só de sua camada como das demais. Esse é definitivamente um cara do qual você não gostaria de irritar.

Em minha camada as coisas já não são exatamente tão, humm, organizadas. Grande parte das criaturas sombrias são selvagens e violentas. Cada clã vive em seu canto e evita interação. O mais forte comanda e os outros obedecem. Caso não o façam, morrem. É simples.

–Ellious deu os ombros, limpando a garganta antes de continuar:

Bem, aí é que está. Recentemente me envolvi em uma pequena briga com o atual líder de minha camada, e acabei, hmm, acidentalmente o matando. E é por isso que estamos sendo caçados.

Eu abri a boca e o encarei sem saber o que dizer, completamente incrédulo.

–Você matou o cara? –Disse após alguns segundos. –POR QUE DIABOS VOCÊ MATOU O CARA?

–Como eu disse: foi um acidente. Mas é claro que não me ouviram quando tentei explicar. –Deu os ombros novamente. –Agora querem a mim e minha família morta.

Deixei uma risada indignada escapar, repuxando meus cabelos nervosamente.

–Só há um pequeno problema, Ellious. –Disse eu, forçando a voz a soar num tom normal. –Eu não sou sua família.

Família? Ele certamente não era minha família. Só possuía uma lembrança dele e por mais que eu tentasse ignorar ou fingir que fora um sonho ou algo assim, lá no fundo eu sabia a verdade. É até engraçado, eu não possuía muitas lembranças da minha vida antes dos quatro anos de idade, mas aquela em particular havia ficado comigo.

Eu deveria ter uns três anos, algo assim. Ellious nunca havia sido um pai presente, mas minha mãe dizia que ele costumava me visitar quando ainda era bem pequeno. Acho que foi numa dessas visitas... O filho da puta tentou me matar. Estou falando sério! Eu conseguia lembrar perfeitamente da lamina contra a minha garganta. Até hoje não consigo lembrar o que o impediu, mas eu juro, o cara estava decidido a me matar naquela noite.

–Você tentou me matar. –Eu por fim disse as palavras em voz alta. –Meu próprio pai.

Por um momento Ellious não demonstrou reação. Parecia surpreso por eu me lembrar, acho. Mas havia alguma outra coisa em seus olhos que poderia ser, ou não, arrependimento.

–Você não entende, Caleb. –Disse ele após alguns segundos. –Estava lhe fazendo um favor. Estou longe de ser um bom pai, sou perigoso; e uma hora ou outra sabia que você sofreria as consequências por isso.

–E por isso tentou me matar?! Você é louco!

–Caleb... –Ellious suspirou. –Eu apenas queria evitar tudo isso que está acontecendo agora. Eu só...

Deixou a frase pairar inacabada e fechou os olhos.

–Não é permitido interação entre as camadas, com exceção dos guardiões. Originalmente híbridos não deveriam existir. Mas a regra não foi respeitada e Evros se viu obrigado a designar guardiões para a proteção deles; vocês. Híbridos são perigosos, Caleb, tendo ou não consciência disso.

Veja bem; Existem três tipos de híbridos, sendo os mais comuns humanos demoníacos e humanos divinos. Híbridos das duas primeiras camadas são extremamente raros e além disso, uma combinação perigosa; Poderosos demais para seu próprio bem. Entende?

–Certo, mas... Esse não é o meu caso, é? Minha mãe é humana, então o que isso faz de mim?

Ellious se mexeu, desconfortável.

–Certamente, não é o seu caso. –Prosseguiu ele. –Você é um humano demoníaco.

–Isso soa... estranho. –Fechei os olhos, desanimado, e então completei: –Esse negócio de ser “especial” não é tão legal quanto parece.

–Não mesmo. –Ellious concordou. –Olhe, Caleb, você está cansado. Teve um dia estranho por culpa minha, eu sei. Descanse um pouco, eu dirijo até Westen.

Eu não me lembrava de ter mencionado Westen e certamente não confiava em Ellious, mas estava de fato terrivelmente cansado.Precisava dormir.

–Como sei que não tentará me matar de novo? –Perguntei.

–Não sabe. –Deu os ombros. –Mas não vou. Você está destinado a grandes coisas, Caleb Hopkins. Percebo isso agora.

Eu não queria estar destinado a nada. Só queria ser um estúpido humano comum! Teria dito isso à Ellious, mas antes que pudesse sequer abrir a boca o sono já havia tomado conta e me arrastado para a inconsciência.