Como é que eu havia me metido nessa confusão? É uma história um tanto interessante, na verdade. Achei que valia a pena compartilhar.

Para isso, voltemos há cinco horas antes da cena que lhes acabei de contar...

5, 4, 3, 2, 1...

Então lá estava eu, contando ansiosamente os segundos para o fim da aula. Finalmente! Eu pensei quando o barulho estridente soou pela escola. Não estava certo se aguentaria ouvir a voz arrastada do Sr. Gonzalez por muito mais tempo.

A melhor coisa sobre o St. Matthews Educational Institute, era certamente, sua pontualidade. O último sinal batia exatamente à uma e meia da tarde, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Era, talvez, a única coisa boa sobre aquele lugar.

Entreguei meu teste incompleto ao professor e joguei a mochila sobre os ombros, cruzando a sala o mais rápido que meus passos desajeitados permitiam. Não demorou muito para que o corredor começasse a encher com adolescentes igualmente ansiosos para cair fora dali.

–Caleb Hopkins! – Alguém gritou em meio à confusão de vozes e passos.

A verdade é que eu não era exatamente o cara mais popular por ali, então quando ouvia meu nome ser chamado automaticamente assumia que vinha de algum professor ou membro da diretoria, e isso nunca, nunca significava coisa boa.

Eu parei próxima a porta. Puxa, tinha chego tão perto da liberdade! Pensei eu.

Mas antes que pudesse me virar em busca da voz, mãos extremamente pequenas cobriram meus olhos. Cara, como eu odiava esse negócio!

–Hopkins! – Exclamou a garota; A voz infantil e aguda agora de perto era inconfundível.

–Ah, oi, Sophie. –Respondi desajeitadamente, enquanto ela me atacava em uma espécie de abraço.

–Finalmente encontrei você! –Prosseguiu ela animadamente. –Estamos pensando em ir ao McDonalds e aproveitar para estudar pra prova de Matemática, você vem?

Sophie raramente falava no singular. Era meio engraçado. Suas frases geralmente começavam com “Nós estávamos pensando...” “Nós queríamos...” “Nós decidimos...” Esse ‘nós’ na maioria das vezes se referia a ela, Ann e Josh. Eu poderia até lhes dar um breve resumo sobre Ann e Josh, mas 1) eles não eram pessoas interessantes, e 2) isso seria totalmente irrelevante para minha história.

De qualquer forma, eu prontamente respondi a pergunta de Sophie com um clássico:

–Uhm, não hoje não vai dar. Marquei de ajudar minha mãe no trabalho depois da escola. Foi mal.

Na verdade, eu só não estava afim de ir mesmo. Havia passado as últimas cinco horas assistindo a aulas das quais eu tinha certeza que não ajudariam em nada em minha vida adulta, então era compreensível que a única coisa que eu gostaria de fazer no momento era ir pra casa e passar o resto da tarde no sofá assistindo à péssimos programas de televisão, certo?

Eu gostava de ser um observador por ali, esse negócio de interação social não era muito minha praia. Via a escola como um mal necessário; Não me entenda mal, mesmo achando toda aquela porcaria de ensino médio meio inútil eu executava o melhor possível minhas obrigações –Que eram, em ordem: Tirar notas acima da média e não arrumar confusão com meus professores por mais arrogantes e sacanas que eles fossem. Atividades extracurriculares e amigos não faziam parte dessa lista, portanto não eram de meu interesse. Além do mais, grande parte dos alunos daquele lugar eram imbecis mimadinhos dos quais eu não tinha a menor vontade de me relacionar.

Sophie não era de todo ruim, apesar de todo o falatório e de seu vício absurdo em Project Runaway, mas seu esforço em tentar se tornar minha amiga era por vezes cansativo.

Oh! Eu acabei de perceber que da forma como acabo de me descrever deixo a entender que sou algum tipo de sociopata ranzinza e sem amigos. Não é bem assim, ok? Eu tenho amigos, mas todos eles calhavam de estudar a alguns quarteirões dali.

Isso não é necessário a minha história mais irei acrescentar mesmo assim: Veja bem, um ano atrás meu antigo professor de inglês havia feito um infeliz comentário de que eu tinha muito potencial e blah blah blah, e minha mãe ficou logo toda orgulhosa. Coincidiu de ela ter sido promovida no trabalho, então foi logo imaginando que a coisa mais inteligente a se fazer com o dinheiro extra era investir na minha educação, já que eu tinha um grande futuro pela frente e coisa e tal (Eu mesmo duvidava muito disso, mas ok); Isto é, me tirar do colégio do qual havia estudado a minha vida inteira–Que sim, era realmente uma tremenda merda, e me enfiar no St. Matthews Educational Institute, famoso por toda aquela porcaria de disciplina e tradição que esses colégios caros e desnecessários costumavam ter.

Eu havia decidido que odiava o lugar e não queria me envolver ali mais do que o necessário logo na primeira semana de aula, e isso faziam seis meses. Felizmente, mais seis meses e eu estaria livre de vez do ensino médio, –Não foi bem o que aconteceu, mas eu chego lá.

Onde é que eu estava mesmo?

Ah sim! Sophie e McDonalds. É, não; Não iria rolar.

–Ah, vamos lá, Hopkins! Tenho certeza que sua mãe vai entender se você ligar pra ela. Por favorrr. – Uma coisa sobre Sophie que havia me esquecido de mencionar: Ela era extrema e irritantemente persuasiva.

Então 10 minutos depois lá estava eu dirigindo para o maldito McDonalds com Sophie sorrindo ao seu lado.

–Josh e Ann vão nos encontrar lá. –Disse ela. –Você é bom em Matemática, não é? Porque nós estamos completamente perdidos nessa matéria.

–Nah, mais ou menos. –Eu respondi dando os ombros. Na verdade eu era ótimo em matemática, mas geralmente responder isso me rendia olhares indignados, como se existisse alguma regra dizendo que todos os adolescentes deveriam ser uma porcaria em matemática e caso não fosse você era algum tipo de aberração genética.

Sophie continuou falando sobre coisas aleatórias e vez ou outra eu balançava a cabeça ou dizia algo como “Uhum” “Uau” ou “Pois é”. Não tinha erro.

O percurso até o tal McDonalds normalmente duraria uns dez minutos ou menos, mas acontece que, bem... A coisa ficou estranha.

Eu não sei o que se passou pela cabeça de Sophie naquele momento, mas ela imaginou que a hora perfeita para tentar me beijar era ali enquanto eu estava dirigindo. Estávamos parados no sinal vermelho, mas isso não tornou a situação menos estranha. Porque por mais incerto que eu ainda estivesse sobre a minha sexualidade, eu tinha certeza de uma coisa: Eu não estava afim de beija-la. Veja bem, Sophie era fofa e tudo mais, o único problema é que eu não me sentia atraído por ela... E naquele momento, parando pra pensar no assunto, eu me dei conta de que nunca havia me sentido atraído por nenhuma garota.

Isso passou pela minha cabeça nos breves segundos em que Sophie se inclinou até mim de olhos fechados. Eu, meio em pânico, me inclinei ainda mais pra trás e limpei a garganta desconfortavelmente.

–Eu acho que sou gay. –Disse rapidamente.

Não, caro leitor, eu também não era gay.

Caro leitor? Não, isso ficou estranho. Risquemos isso, por favor...

Eu meio que não sentia atração por ninguém, eu percebi. (E sim, eu só havia me dado conta daquilo com 17 anos de idade, você tem total permissão para me zoar.)

O negócio é que Sophie me olhou se possível mais sem graça do que eu estava.

–Oh, eu... eu... –Ela abriu e fechou a boca sem saber o que dizer.

Por sorte o sinal abriu naquele momento e eu acelerei sem prestar muita atenção, querendo apenas me livrar daquela situação.

Foi aí que a coisa ficou ainda mais estranha...

O garoto apareceu do nada. Literalmente do nada. Numa hora a rua estava praticamente deserta, no outro, havia um garoto gordinho no meio da estrada fazendo gestos estranhos com a mão.

–Mas que porra... –Eu nem tive tempo de completar a frase. A picape bateu com força sobre o garoto, que foi parar no chão.

Olhei para Sophie completamente confuso, o incidente do beijo logo esquecido:

–Eu realmente acabei de atropelar o gordinho?

x

–Será que ele morreu? –Lembro de perguntar, sacudindo o garoto mais uma vez.

–Não seja idiota, Caleb. Ele está respirando.

Era verdade, sim. Mas já haviam se passado uns bons minutos e ele continuava estirado no asfalto. Não era um bom sinal, certo?

–Deveríamos ligar para alguém?

Antes que Sophie pudesse responder alguma coisa o garoto abriu um dos olhos e levantou num pulo.

–Caleb Hopkins! –Ele gritou, sorrindo com entusiasmo. –Finalmente nos encontramos.

Estendeu uma das mãos energeticamente, mas eu o ignorei.

–Como sabe meu nome? –Perguntei ao invés disso.

Ele apenas riu, achando que eu estivesse brincando.

A conversa se sucedeu mais ou menos assim:

–Ora, isso é óbvio, não?

–Não, na verdade, não. –Eu estreitei os olhos. –Quem é você afinal?!

–Sou Arin, ora essa. Seu guardião. –Ele respondeu como se fosse óbvio, o que definitivamente não era.

–Ok... Por que eu precisaria de um guardião?

–Como assim, por que você.... –Oh, espera. Você não sabe de nada mesmo? Seu pai, ele não...?

–Eu não o conheci. –Interrompi rapidamente. Era mais ou menos verdade.

–Oh.

–Por que eu precisaria de um guardião? – Repeti a pergunta.

–Porque assim que a noite chegar eles virão por você. –Arin respondeu todo sério. Lembro-me de ter achado aquilo hilário na hora.

–Acho que a pancada o afetou. –Sophie sussurrou. Pra ser sincero, eu meio que havia esquecido que ela estava ali.

–Estou te ouvindo, humana. E precisaria muito mais que um carro enferrujado para isso.

Pensei em dizer algo e defender meu velho carro, mas ele era uma merda mesmo. E antes que eu pudesse sequer abrir a boca um barulho surgiu no céu. Nós três olhamos para trás no mesmo momento e lá estava: Algo que definitivamente não parecia amigável voando em nossas direções.

–Aquilo é...

–Um cachorro voador? –Sophie completou.

–Um deles. – Arin respondeu, mais para si mesmo. –Veio na frente.

–O quê? E agora?

–Agora você corre.

Eu tentei não entrar em pânico, mas não deu muito certo.

–Mas e quanto a Sophie?

–Eles vieram por você. Ela estará segura aqui.

Olhei novamente para besta cada vez mais próxima, e então para Sophie. Não lembro exatamente do que se passou pela minha cabeça naquele momento, mas por algum motivo eu decidi confiar no garoto e abandona-la por ali mesmo.

–Desculpe. –Eu murmurei antes de entrar no carro com Arin e pisar fundo no acelerador.

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–Mas rápido! – Arin gritou.

–Estou tentando! –Respondi também aos berros.

A picape chegava aos 80km/h com muito esforço e nada mais que isso. A besta se aproximava a pelo menos 110km/h.

Ok, era oficial. Estávamos ferrados.

–Por que eles estão atrás de mim? O que eu fiz? –Perguntei repassando mentalmente todas as merdas que fizera em minha vida. Nenhuma delas justificava uma besta gigante voando em minha direção.

–Existem três camadas... –Arin começou. –Quer saber? Esquece, eu te explico depois. Você só precisa saber de uma coisa no momento: Seu pai arrumou briga com o clã errado e agora eles estão furiosos com a sua família.

–Oh, ótimo! Como sabem sobre mim?

–Mesmo sangue. É fácil rastrear. –Ele respondeu dando os ombros. –Diga-me, Caleb, o que você sabe sobre vampiros?

–O quê?

–Vampiros. –Arin repetiu. –Sua espécie possui um mito sobre eles, não é?

–Hum... Sim. – Ok. Eu havia enlouquecido, pensei.

–Esta é parte da verdade. Vampiros, lobisomens... Não exatamente da forma como você os conhece, mas ainda sim...

Eu sacudi a cabeça, ainda incrédulo. Estava começando a me sentir meio tonto com tudo aquilo. Aquela era, definitivamente, a pior segunda-feira da história das segundas-feiras! Estava realmente tendo uma conversa sobre vampiros e lobisomens com o garoto que eu havia atropelado poucos minutos antes enquanto uma criatura gigantesca voava em minha direção?

–Você é terrível nesse negocio de ser guardião, Arin. Já te disseram isso?

Arin deu os ombros.

–É, já sim. – Respondeu. –Mas ele foi embora, não foi? Devo estar fazendo algo certo.

–O quê? –Olhei pelo retrovisor. Nem sinal do cachorro voador. –Há quanto tempo?

–Uns dois minutos. Achei que você havia notado.

Eu pisei no freio. Por mais que eu quisesse ficar puto com Arin por não ter dito antes estava confuso demais para fazer qualquer coisa senão apoiar a cabeça no volante e respirar aliviado.

–E agora?

–Agora nos restam duas horas até o anoitecer. Precisamos de um plano até lá.

–Por quê? O que acontece quando anoitecer?

–Escuridão. Eles virão pelas sombras.

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–Que tal uma igreja?

–Por que uma igreja? – Arin perguntou.

–Sei lá, território sagrado. Algo assim, não?

Ele riu.

–Precisamos de luz, não de mitologia. E pessoas, eles não irão atacar se houver risco de se expor aos humanos.

–Acho que há um shopping há algumas ruas daqui. Bastante iluminado.

Que fique bem claro que em momento algum expressei certeza naquilo, ok?

–Ótimo! –Arin se alegrou. –Precisamos ser rápidos, eles chegarão em breve.

Ele já ia saindo do carro, caminhando apressadamente. O ruim de se morar numa cidade pequena é que a maior parte das ruas eram estreitas demais, e consequentemente o transito se arrastava vagarosamente, assim era muito mais fácil ir andando do que seguir à carro. Eu também saí, mas não fui atrás de Arin. Ele percebeu poucos passos depois.

–O que foi? –Perguntou.

–É esse o seu plano? Não podemos fugir para sempre. Você sabe disso, não é?

–Não precisamos. –Ele respondeu seriamente. –No momento essa é a única coisa que posso fazer já tecnicamente ainda não foi quebrada nenhuma regra. Eu só preciso convencer o conselho de que você corre perigo...

–Conselho? Não, quer saber, deixa pra lá. –Balancei a cabeça. –Como você pretende convencê-los, quem quer que sejam eles, então?

Arin sorriu nervosamente. –Essa é uma excelente pergunta. Mas por agora concentremo-nos em correr, por favor.

Imagino que a cena tenha sido patética para um observador comum. Dois adolescentes (Arin não agia como um adolescente, porém parecia um. Isso contava, certo?) correndo desesperadamente pelas ruas; Os passos atrapalhados e a respiração ofegante.

Eram por volta de cinco e meia da tarde; O céu já quase escuro. Eu não havia entendido muito bem aquela história de sombras, mas não me parecia boa coisa, então eu continuei correndo por mais patético que pudesse ser.

–Rápido! –Arin berrou.

–Não consigo! –Respondi com esforço. Comecei a me arrepender de ter matado a todas as aulas de educação física daquele ano, mas ei! Como é que eu iria adivinhar que algum dia teria que correr por minha vida?

Por sorte, o shopping não era muito longe dali. Sabia que não poderíamos passar a noite toda lá, mas imaginei que pensaríamos em algo enquanto estivéssemos já em segurança.

Não foi bem assim, é claro. As coisas quase nunca tendiam a sair como o planejado para mim.

–Ah, não... – Arin murmurou, parando subitamente. –Não, não, não!

Ele olhava com decepção para algo do outro lado da rua.

–O que... – Eu não precisei terminar a pergunta.

Lá estava o shopping. Fechado.

~X~X~

–Ei! –Arin perguntou para um senhor lá em frente. –O que aconteceu aqui?

–O shopping? Foi fechado há um mês mais ou menos.

Arin olhou para mim com desespero e irritação. (Note, por favor, que eu não tinha o costume de sair de casa tão frequentemente. Então, que fique bem claro, a culpa não havia sido minha, ok? Não havia como eu ter adivinhado.)

–Obrigado. –Disse ele ao senhor, que logo continuou seu caminho. Então virou-se para mim novamente. –Estamos ferrados, cara.

–

–Aqui. –Disse ele puxando uma adaga de sua calça jeans. –Fique com isto. Você precisa mais que eu.

Achei melhor não perguntar o que ele queria dizer com aquilo. Apenas balancei a cabeça e peguei-a com as mãos trêmulas.

–O que você viu hoje cedo são apenas mascotes. –Prosseguiu ele. – O que está atrás de você é muito pior.

–Oh, muito obrigado. –Respondi com sarcasmo. Eu quase sempre tendia a recorrer ao sarcasmo sempre a coisa se tornava desconfortável ou difícil. – Isso fez eu me sentir bem melhor.

Arin deu os ombros. Fixou os olhos no horizonte; Já não se via mais o sol no céu alaranjado e a escuridão se aproximava com rapidez.

–Está com medo?

Eu respirei fundo e segurei a adaga o mais forte que minhas mãos suadas permitiam. Tentando reunir o pouco de coragem que ainda me restava, respondi:

–Não.

Arin sorriu de uma forma um tanto perturbadora.

–Pois deveria estar.