Better Place

1 Capítulo único


Notas iniciais
Minha segunda oneshot, espero que gostem, eu particularmente gostei do resultado :3
Fic baseada na música Take me Home - Jess Glyne ♥

Boa leitura.

A dor que eu tinha em mim era indescritível, ver Robin morrer me tirou as esperanças de um suposto final feliz, ele era meu segundo amor verdadeiro a morrer, e ambos por minha culpa, meu maior erro foi confiar, confiar em Snow, confiar em minha mãe, confiar em Emma Swan. A salvadora, se não fosse por ela tentando invadir a prefeitura nada disso teria acontecido, Robin estaria vivo, teríamos cuidado da situação de Hades do melhor jeito sem prejudicar ninguém. E aqui estou eu, onze horas da noite no Granny’s bebendo uísque, nem sei mais em qual dose estou, mas considerando minha tontura estou aceitando um “bastante” como resposta. A mais velha já me aconselhou diversas vezes a ir pra casa, mas não posso ir pra lá, nada faz sentido ali, eu olho para os cômodos e encontro nada, encontro o vazio, o silêncio. Eu já tinha me acostumado com o barulho, o choro da pequena Robin, as risadas, a companhia e precisava disso tudo novamente, precisava de Robin de volta, mas esse caso não tem volta, não tem submundo, não tem busca incessante para acha-lo.

Ouço o sino da porta tocar ao se abrir, olho de soslaio sem me mexer e já identifico as mechas ruivas que se aproximam e sentam na banqueta ao meu lado.

— A vovó pediu pra você vir me buscar? – pergunto sem olhá-la, minha expressão fria.

— Não. A Robin está com a Snow, passei na mansão mas você não estava lá. Imaginei que estivesse aqui.

— Estou me tornando previsível. Ótimo.

— Pensei que fosse precisar de companhia. Sabe, eu entendo pelo o que você está passando, nós duas perdemos o nosso amor verdadeiro.

— Não preciso de discurso motivacional, preciso ficar sozinha.

— Tudo bem! – disse um pouco ríspida – Só estava tentando ajudar. Quando precisar de mim sabe onde me encontrar.

Ela se prepara pra sair, mas seguro sua mão a impedindo. Ela não me olha, espera que eu diga algo, mas eu realmente não sei o que dizer.

— Me desculpe... – digo depois de certo esforço – Eu... só preciso um tempo meu. Preciso colocar meus pensamentos em ordem.

— Eu sei – ela suspira e sai.

Me esqueço que a mesma dor que eu sinto Zelena também sente, ela está aqui por mim, mas não pode estar, não agora. Agora eu tenho que lidar com a minha dor do jeito que sempre lidei como Regina. Preciso me isolar, caso contrário a Evil Queen dentro de mim ganha vida e coisas ruins podem acontecer. Granny aparece atrás do balcão com seus olhos piedosos, podia ver sua preocupação, ela estava me servindo uísques há bastante tempo agora.

— Quer que eu chame alguém? – ela perguntou me servindo mais um copo.

— Não. Se quiser me expulsar fique à vontade.

— Ta brincando? Eu já cuidei de casos parecidos e sei do que você precisa, de alguém pra te servir bebidas.

— Obrigada Granny.

— Se quiser que eu chame alguém...

— Pode deixar – a corto não deixando terminar a frase

Sei que mesmo eu dizendo não, em algum momento Zelena ou Snow aparecerão com seus discursos e apoio moral. Elas não entendem que preciso apenas de mim, preciso aprender a não depender de mais ninguém, sei que não devo, sei que tenho que confiar nas pessoas, e continuarei confiando, mas preciso confiar em mim mesma no momento, preciso confiar que não deixarei a Evil Queen se soltar e ir matando o primeiro que encontrar, preciso me acostumar com a dor da perda, com a frustração de ter alguém que amo correndo perigo, pois sei que terei de conviver com muito disso na nova vida de heroína. Mas eu sei que no final tem algo melhor, tem a vitória, tem a satisfação. Sei que tem um lugar melhor que esse chão frio que me deito psicologicamente, sei que existe esse lugar em algum lugar.

Henry. Ele precisa de mim, mas ele me entende, acredito que já leu tanto sobre mim em seu livro que já se acostumou com meus sumiços repentinos depois de alguma crise, assim como se acostumou e desacostumou com meus antigos ataques de raiva. Sorrio ao lembrar-me dele, meu filho era sempre o primeiro a quem eu recorria, ele sempre acreditou em mim, acreditou que eu seria boa, que eu seria uma heroína, e aqui estou eu nos últimos meses, andando com a família do ano os ajudando a combater os vilões.

Ouço o sino da porta tocar mais uma vez, não me incomodo de olhar, continuo bebericando meu uísque, e então sinto o cheiro de baunilha e canela misturados. Swan. Não poderia lidar especialmente com ela no momento, a culpo pelo o que aconteceu, se tivesse esperado, se tivesse combinado com todos e feito um plano... São muito “e se” e eu sempre odiei incertezas e hesitações. Não a queria perto de mim, não por ódio – talvez um pouco –, mas por medo do que pudesse acontecer.

— Como está aguentando? – ela me pergunta tentando não parecer insensível.

Penso em sua pergunta e não encontro respostas, são tantas coisas que mal sei por onde começar.

— Aguentando – me limito dizer.

— Sabe, essa raiva e confusão não vão levar a lugar algum. Por que não conversa comigo? Assim simplificamos as coisas.

— Robin está morto, Daniel está morto, meu pai, minha mãe, todos mortos. Como quer que eu acredite em amor quando todos que eu amo morrem?

A vejo abaixar a cabeça e pedir um café para Granny.

— Muitas pessoas sabem pelo o que você está passando, eu mesma sei. Neal está morto, Hook, passei vinte e oito anos da minha vida pensando que meus pais me odiavam e não ligavam pra minha existência. As coisas melhoram Regina.

— Eu só preciso ficar sozinha.

— Você acha que precisa ficar sozinha. Do que você precisa é de um ombro amigo, precisa de alguém pra te reerguer.

— Eu não consigo. Não consigo me levantar do chão, preciso de um tempo.

— Com o tempo você vai se acostumar com o chão e nem vai notar que ainda está nele, vai pensar que está tudo bem quando na verdade não está.

— Nossas situações são diferentes. Você sabe que o pirata seguiu do submundo, sabe que a alma dele ainda existe. Robin não. Robin não teve submundo, não teve como seguir em frente. Ele parou de existir, simples assim.

— Eu não vou deixar você ficar no chão.

— Você não precisa ser a salvadora comigo, deve ter mais o que fazer.

— Eu estou bem, bem aqui.

Viro os olhos e volto a me deliciar da minha bebida, mas que de repente se torna amarga e forte, posso finalmente sentir o gosto do uísque, eu estava bebendo este tempo todo sem nem ao menos prestar atenção ao sabor, o silencio toma conta do lugar, vejo Emma conversar com Granny na cozinha, no meio da conversa elas lançavam seus olhares para mim de vez em vez, logo as duas saem da cozinha e voltam para o balcão.

— Eu estou deixando a chave com a Emma, se cuidem – Granny disse fechando o caixa e se preparando para sair.

Assim que a mais velha saiu, Swan se pôs atrás do balcão em minha frente e tomava seu café calmamente enquanto me observava.

— Se espera que eu diga algo mais, pode esquecer.

— Você está brava comigo – afirmou – Se eu soubesse que acabaria como acabou eu não teria feito o que fiz. Teria esperado.

— Por que você não me deixa em paz Swan?

— Que tipo de amiga eu seria se fizesse isso? Quero te ajudar.

Amiga. Era engraçado ouvir essa palavra sair da boca de Emma, mas era a verdade, éramos amigas, somos inclusive. Ela não deixa um momento o silencio dominar o local, e aos poucos por algum motivo a angustia que eu tinha dentro de mim, que esmagava meu coração, estava sumindo, quanto mais ela falava mais fácil ficava pra aceitar. Em um ponto da conversa eu percebi que eu não queria mais estar ali, queria minha casa, queria meu conforto, minha família, meu normal novamente.

— Eu quero sair – disse quase em um sussurro.

— Quer ir pra sua casa?

Aceno com a cabeça. Imediatamente ela dá a volta no balcão para me acompanhar, lentamente me levanto e então percebo o quão tonta estou, mas a tontura é a única coisa que tenho, minha fala não escorrega, meus pensamentos estão sãos. Quando levanto sinto o chão desaparecer e me vejo caindo ao chão, mas Emma foi mais rápida e me impediu da queda.

— Calminha aí. Te segurei, ta tudo bem – ela envolve minha cintura, penso em protestar, mas dada a minha situação eu poderia usar uma ajuda.

— Você não deveria ficar aqui comigo – digo enquanto andamos para fora da lanchonete – Não quero que a Evil Queen saia pra brincar, ela está com muita raiva de você.

— Avise pra ela que eu não tenho medo dela.

Paramos para que Emma pudesse trancar a porta, me encosto na parede de fora e observo enquanto ela esconde a chave debaixo de uma pedra.

— Que original – digo sarcástica.

— Foi a vovó que pediu, agora vamos. Onde está o seu carro? – ela volta a me ajudar a caminhar.

— Ele está... em algum lugar. Acho que do outro lado da rua.

— Lá está ele – Emma aponta para o automóvel que estava a pouca distância de nós.

Caminhamos entre tropeços, mais por minha parte claro. Sempre que eu tinha chances de cair Swan dava um jeito de me segurar, eu me senti segura, me senti em casa, era uma sensação que eu não sabia descrever. Entramos no carro e Emma nos levou até a mansão, fez questão que me acompanhasse pra que nada de ruim acontecesse, mas ao chegar a única coisa que eu queria era deitar no meu sofá e observar o fogo crepitante na lareira. Emma me ajudou novamente a entrar e me sentou no sofá com delicadeza, sentou-se ao meu lado e deixei que minha cabeça deita-se em seu ombro.

— Eu estou quebrada – digo tão baixo que mal consigo me ouvir.

— Por pouco tempo, logo estará completa novamente.

Nunca tivemos essa proximidade e provavelmente nunca teremos novamente, essa é uma situação única, eu não estava bem e ela está ali cuidando de mim e me auxiliando.

Faço uma bola de fogo com a mão e observo a magia que eu controlava tão majestosamente.

— Não vai me matar né? – Emma pergunta brincando e pela primeira vez depois de um longo tempo eu solto uma risadinha.

— Não hoje – e então jogo a bola de fogo na lareira.

Depois de um tempo apenas com o crepitar do fogo como som na casa digo sem tirar a atenção das cores vibrantes na lareira:

— Obrigada.

— Pelo que? – Swan vira seu rosto pra me olhar, e eu retribuo.

— Por me levantar do chão, por me trazer em casa, pela paciência, tomar o controle quando eu não tinha algum. Por cuidar de mim mesmo depois de tudo, juntar alguns dos cacos, me ouvir, me segurar... Você sabe como estou.

— Você não vai ficar assim pra sempre, com o tempo vai melhorar e curar, logo não vai mais se sentir... quebrada. Eu te dei a mão, você segurou, isso mostra o quanto você mudou e eu fico mais que feliz por isso. Cuidar da mãe do meu filho é o mínimo que posso fazer.

— Eu não quero mais sentir esse aperto – sinto uma lágrima solitária correr, Emma a limpa com seus longos dedos como se fizesse carinho em minha bochecha.

— Vai ficar tudo bem. Não importa quantas vezes você cair, eu vou sempre estar ali pra te segurar. Afinal, que tipo de amiga eu seria se não fizesse isso? – ela sorri.

Não sorrio, estou focada no tom esmeralda claro de seus olhos, sua feição, seu olhar, o jeito que seu cabelo cai perfeitamente, seus lábios bem desenhados. Eu já sabia qual era a sensação que eu sentia. Emma sem tirar a mão do meu rosto, se aproxima lentamente insegura, seus olhos parecem pedir permissão, e sei que meu olhar diz que sim, tudo em mim diz que sim, mas é claro que sempre tem aquela voz que dizia não. Eu a abafei então e fechei meus olhos. Me deixei levar. Sentir os lábios macios de Emma nos meus era a melhor sensação do mundo, nossos lábios dançavam juntos lentamente apreciando o momento, e sinto a energia fluir, sinto meus cacos voltando aos lugares, meus quebrados se consertando.

Agora eu sabia a sensação, era essa, era ela. Ela me tirou do chão gelado, me guiou, me ouviu e me ajudou, juntou os cacos, me consertou, reintegrou minha fé no amor, me esticou a mão, me segurou antes que eu atingisse o chão, me deixou segura, tirou os pensamentos sombrios. Ela me mostrou qual era o lugar melhor depois da crise, era ela, ela era o meu lugar melhor.

Notas finais
Espero que tenham gostado :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!