Better Days
14 Capítulo 14
O gosto de Darcy ainda estava em sua boca, na manhã seguinte. Seus lábios formigavam e sua pele parecia fogo onde ele havia tocado. Custara a dormir e fora impossível não sonhar com ele. E Elisabeta perguntou-se onde estava com a cabeça ao beijá-lo na noite anterior, quando era tão óbvio que um beijo não bastaria para ela.
Nunca havia bastado. Desde o primeiro beijo, parecia sempre precisar de mais dele, mais um beijo, mais um toque. Lembrava-se da primeira noite juntos, quando ele a esperara na casa da árvore e mostrara a ela um mundo de possibilidades e prazeres. Eram bons juntos, mas uma noite não fora suficiente, e outras se seguiram.
Então não era uma surpresa a sensação de urgência, o pensamento de largar tudo e bater na porta de Darcy. Mas era mais responsável agora. E precisava pensar com clareza, priorizando seu filho, e não seus desejos. Agradeceu quando Cecília bateu à sua porta, a tirando daquela tortura.
— Elisa? Posso entrar? – Cecília abriu uma fresta, e seu sorriso iluminou o quarto.
— Entre! – Elisabeta também sorriu. – Tive uma noite péssima.
— Verdade? – Cecília preocupou-se. – Mas parecia tudo tão bem ontem.
— Cecília, eu vou lhe contar. Mas tem que prometer que não vai falar nada. – Elisabeta disse, séria. – Nem às meninas, e nem à Rômulo.
— Eu sei guardar segredos, Elisa. – ela deu de ombros.
— Eu vou saber se você contar à Rômulo. – Elisabeta sorriu.
— Está bem, eu não vou contar. – Cecília resmungou, porque era óbvio que contava tudo ao marido.
— Eu e Darcy nos beijamos... – Elisabeta abriu um sorriso ainda maior.
— O que? – Cecília tapou a boca, em surpresa. – Como? Aqui?
— Ontem eu precisava agradecê-lo por ter me ajudado com Tom. E uma coisa levou à outra.
— Como um agradecimento leva a um beijo? Me conte detalhes! – Cecília sempre precisava da história completa.
— Darcy disse que eu era uma mãe maravilhosa, e eu o beijei. – Elisabeta tapou o rosto.
— E como foi? – Cecília soltou uma gargalhada.
— Foi surpreendente, familiar, doce, quente. Tudo ao mesmo tempo.
— Elisa! E como vocês ficam agora?
— Do mesmo jeito. Precisamos pensar em Tom, Darcy precisa se aproximar dele. E ainda não sabemos o que aconteceu.
— Você sabe que foi uma armação, não sabe? – Cecília não tinha mais dúvidas.
— Eu sei que minhas cartas nunca chegaram à Darcy. Ele não teria porque mentir. – Elisa suspirou. – Mas chegaram a alguém, alguém as respondeu.
— Eu estive pensando... Foram os funcionários de Lorde Williamson que entregaram as cartas à você. E quando você respondia, entregava à eles para que enviassem.
— Era sempre a governanta dos Williamson, lembra-se dela? Susana era odiosa e muito ardilosa.
— Mas por que ela faria isso?
— Minha irmã, por que alguém faria isso? – Elisabeta lamentou-se. – Tom viveu até agora sem o pai por perto, eu tive um filho sozinha, Darcy não o viu crescer. É muita crueldade.
— Ele está aqui agora. – Cecília segurou a mão de Elisa, confiante. – E vocês se amam. Eu tenho certeza que em breve essa mágoa vai se dissolver.
Elisabeta assentiu, sem tanta confiança quanto a irmã.
— E o que faz aqui tão cedo? – Elisabeta perguntou.
— Ah, sim! – Cecília pareceu lembrar-se de porque estava ali. – Eu e Rômulo vamos levar as crianças à cidade, e Mário insistiu para que Tom fosse junto. Tudo bem se o levarmos?
— É você quem está procurando trabalho ao juntar Mário, Tom e Vitória. – Elisa deu de ombros. – Boa sorte com isso.
— Ótimo! O traremos de volta à tarde. – Cecília beijou a bochecha de Elisabeta, saindo do quarto em seguida.
##
O dia passou lentamente. A casa ficava silenciosa sem a presença das crianças, e Elisabeta já estava tão acostumada com o barulho que a ausência dele era estranha. Tentou trabalhar, mas seus pensamentos estavam muito agitados, e estava cogitando a ideia de um passeio com Tornado quando seu pai entrou na sala.
— Olhe quem eu encontrei lá fora. – Felisberto disse, sorrindo, apontando para um Darcy que o seguia.
— Boa tarde, Elisa. – Darcy sorriu, com um olhar cúmplice que a aqueceu.
— Boa tarde, Darcy. – ela retribuiu. – Infelizmente Tom saiu com Cecília e Rômulo.
— Seu pai me disse, mas Dona Ofélia estava lá fora e insistiu para que eu entrasse para um café. – Darcy sentou-se. – Ela disse que teria biscoitos, e eu não resisto aos biscoitos de Dona Ofélia.
— E faz muito bem. – Felisberto deu um tapinha nas costas dele. – Vou terminar meus afazeres e já me junto à vocês.
Felisberto saiu apressadamente, e Elisabeta e Darcy olharam um para o outro, um pouco constrangidos. Nenhum dos dois conseguia não pensar na noite anterior, e estarem sozinhos não os ajudava nessa tarefa.
— Como passou a noite? – Darcy perguntou, sem qualquer malícia.
— Bem, foi... agitada? – Elisabeta arqueou a sobrancelha, fazendo uma careta.
— Eu não estava falando dessa parte. – Darcy revirou os olhos, fazendo-a rir.
— Nem eu! – ela defendeu-se. – Darcy!
— Me desculpe, eu só queria saber se dormiu bem. – ele deu de ombros.
— Dormi pouco e tive sonhos perturbadores. – ela o encarou sugestivamente. – E o senhor?
— Muito perturbadores. – Darcy sorriu de lado. – E então, onde o tratante do Rômulo levou meu filho?
— Foram à cidade. Não me pergunte o que foram fazer, pois não saberia dizer.
— E o deixou ir mesmo assim? – ele fingiu espanto.
— Mário insistiu. – Elisa sorriu. – Você quer que eu vá buscar o seu café?
— Não, eu não tenho pressa. Bem, tenho que ir à casa de Julieta, mas não estou com pressa.
Nesse momento os dois foram surpreendidos pela entrada de Felisberto, que segurava um rapaz pelo braço. O homem vestia roupas simples e não devia ter mais do que vinte anos. A expressão de seu pai era severa.
— Elisa, Darcy... Me desculpem entrar assim. – Felisberto segurava um envelope na mão, um envelope que Elisabeta reconheceu instantaneamente.
— O dinheiro... – Elisabeta foi em direção à eles, segurando o envelope nas mãos.
Era o mesmo envelope branco de todos os meses. Seu nome estava escrito nele, com a caligrafia de Darcy. O recebia mensalmente, e guardava a quantia em um cofre, para que Tom decidisse o que fazer quando fosse mais velho.
— Me desculpem, eu não estou entendendo... – Darcy também levantou-se.
Elisabeta entregou à ele o envelope, e Darcy o examinou com curiosidade.
— É minha letra, mas eu não... – foi quando a realidade o atingiu, de súbito.
Antes que Felisberto e Elisabeta pudessem reagir, Darcy já segurava o rapaz pelo colarinho, sua expressão em fúria.
— Quem mandou entregar esse envelope? – ele sacudiu o rapaz. – Quem?
— Darcy! – Elisabeta ralhou, e Darcy diminuiu o aperto, sem soltá-lo.
— Diga! – gritou, irritado.
— Eu só estou cumprindo ordens, senhor. – o rapaz disse, temeroso.
— Eu sei que está cumprindo ordens. Eu quero saber de quem, antes que eu acabe com seus dentes.
— Foi o velho Lorde... eu não sei de nada, eu juro.
Darcy soltou o rapaz, em choque. Havia cogitado todas as possibilidades, mas essa era a que menos parecia provável. Seu próprio pai o afastaria do filho? Aquilo não fazia sentido.
— O Lorde está morto. – Elisabeta sentenciou. – Não pode ter sido ele.
— Explique-se. – Felisberto pediu.
— Eu não sei de nada, eu juro. Minha mãe trabalhava na casa do Lorde.
Darcy cruzou os braços, aguardando.
— Ofereceu à minha mãe um dinheirão, se eu entregasse esses envelopes todos os meses. Eu nunca os abri, eu juro.
— Quantos desses ainda existem? – Darcy perguntou.
— Muitos. Cem ou mais. – o rapaz falou, sem jeito. – Eu posso trazê-los.
— Não. Pode abrir os envelopes, fique com o dinheiro que há neles. – Darcy se aproximou. – E nunca mais apareça nesta casa.
— Sim, senhor. Me desculpe. Muito obrigado por sua generosidade. – o rapaz agradeceu, mas o olhar severo de Darcy fez com que ele saísse o mais depressa possível.
Felisberto deixou Elisabeta e Darcy sozinhos. Elisabeta ainda encarava a porta, e Darcy sentou-se no sofá, as mãos escondendo o rosto. Respirou fundo, tentando conter o choque, tentando conter as lágrimas. Seu pai. Seu próprio pai tirara dele a chance de ser feliz, de ver o filho crescer.
Pegou o envelope e o encarou, em choque. Era sua letra. Sua letra em um envelope que nunca vira. Provavelmente contratara alguém para simular sua caligrafia e a de Elisabeta. Fora cruel e dissimulado. E Darcy sequer sabia o motivo de seu pai querer separá-lo de Elisabeta.
— Meu pai... – ele sussurrou. – Meu próprio pai.
Elisabeta aproximou-se de Darcy, sentando-se à seu lado. Ele mantinha os cotovelos apoiados nos joelhos, o rosto escondido.
— Me desculpe, Elisa. – ele a encarou, de repente, com olhos brilhantes de lágrimas contidas.
— Você não precisa me pedir desculpas. – ela foi sincera.
Estava tão chocada quanto ele, mas sabia que a dor de Darcy era maior que a sua. Para ela era apenas a comprovação de que fora tudo uma armação, era quase um alívio. Mas para ele era uma decepção com o pai, com sua única família.
— Foi meu pai. Um Williamson. Eu não consigo entender.
Elisabeta queria consolar Darcy, mas não sabia como. Porém, quando as lágrimas correram pelo rosto dele e o inglês insistiu em secá-las com irritação, Elisabeta passou seus braços em volta dele, o trazendo para perto dela.
— Ele me impediu de ver meu filho crescer. De ver Tom dar os primeiros passos, dizer as primeiras palavras. – o choro dele se intensificava. – Era assustador pensar que alguém tivesse feito isso, mas justo o meu pai?
— Darcy, ainda há muito para viver com Tom. – ela acariciou os cabelos dele. – Acalme-se.
— Como eu vou me acalmar? Você precisou passar por tudo isso sozinha, pensando que eu havia negado nosso filho, virado as costas.
— Ao menos temos uma resposta. – sussurrou.
— Não me basta. – Darcy separou-se dela, olhando em seus olhos. – Meu pai destruiu minha vida e eu preciso saber o porquê.
— Seu pai não destruiu nada. – Elisabeta levou as mãos ao rosto dele. – Estamos aqui, Tom está aqui.
— Como você pode não se revoltar? – Darcy passou a mão no rosto de Elisabeta.
— Eu estou revoltada, tanto quanto você. – ela tentou sorrir. – Mas eu estou feliz de saber que você não foi o responsável por tantas palavras horríveis, que não virou as costas para Tom.
— Eu jamais faria isso com você. – Darcy encostou a testa na dela, em reflexo. – Como pudemos acreditar? Depois de tudo o que prometemos um para o outro?
— E é isso que nos martiriza, e nos mantém afastados. – ela fechou os olhos. – Seu pai não teria nos feito nenhum mal se estivéssemos certos das nossas escolhas, se confiássemos um no outro.
Darcy afastou-se dela, e os dois ficaram em silêncio. Sabiam que Elisabeta havia dito a cruel verdade. Podiam culpar alguém pela armação, mas a realidade é que poderiam ter duvidado, buscando um ao outro. Eram tão culpados quanto Lorde Williamson por aquela situação.
— Você tem razão, está coberta de razão, como sempre. – ele soltou a respiração. – Mas se foi o meu pai, existe uma chance de que as nossas cartas ainda estejam na fazenda.
— Você acha? – Elisabeta arqueou a sobrancelha. – Por que seu pai guardaria nossas cartas?
— Eu não sei. Eu não consigo pensar agora. O certo é que ainda não abri todos os cofres, o quarto dele está intacto.
Darcy levantou-se, decidido. Se havia uma chance de recuperar aquelas memórias, por mais doloridas que elas fossem, ele a agarraria com unhas e dentes. Acabaria de vez com o passado, para que pudesse construir uma nova vida.
— Eu vou procurá-las. – informou.
— Eu vou com você. – Elisabeta suspirou. – Não sei em que isso pode nos ajudar, mas eu vou com você.
— Então vamos.
E em pouco tempo estavam a caminho da Fazenda Ouro Verde. Os cavalos galopavam, o vento batia em seus rostos, e a tristeza por toda aquela situação tomava conta deles. Elisabeta dava-se conta de que nunca saberiam as motivações do pai de Darcy. O homem levara aquele segredo para o túmulo, e não fosse por Julieta, Darcy talvez nunca soubesse da existência de Tom.
E então culpou-se por acreditar em tal barbaridade, por não ter tentado novamente, por outros meios. E Darcy a via cavalgar, pensando em como poderiam reconstruir a confiança, em como poderiam suportar a dor que fizeram o outro passar.
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