Better Days

6 Capítulo 6


Elisabeta Benedito não percebeu quanto tempo se passou até que pudesse acalmar seus pensamentos. Viu suas irmãs irem e virem de seu quarto, ouviu Jane dizer à Tom que ela não se sentia bem, ouviu Ofélia difamar Darcy na porta de seu quarto, sentiu o abraço do pai, o beijo na testa de cada um de seus cunhados, e já era noite quando teve a sensação de que seu corpo voltava ao normal.

Darcy Williamson estava de volta. Mal sabia quantas vezes imaginara aquele momento. Com ansiedade, antes de descobrir a gravidez. Com apreensão, ao enviar a carta que informara ao quase noivo sobre o que acontecera. Com tristeza, ao receber a resposta de Darcy. Com raiva, quando ele parou de responde-la. E com medo, enquanto seu filho crescia e se tornava ainda mais difícil explicar onde seu pai estava.

Não sabia quem era aquele homem. Era muito diferente de quem ela acreditava que ele era. Diferente do homem que a levara para passear tantas vezes, com quem trocara tantos beijos apaixonados, à quem entregara seu corpo e sua alma, e dividira tantos sonhos e fizera tantos planos.

Soube disso no dia em que a carta chegou. Entre lágrimas leu que Darcy não tinha interesse em ser pai. Estava na Inglaterra, iniciara um novo curso. Não era momento, e ele sentia muito. Poderia ajudar financeiramente, mas não queria seu nome naquele bebê, não queria mais ser procurado.

Soou tão estranho e tão alheio ao que conhecia de Darcy, e por isso ela escreveu novamente, e quando a terceira negativa chegou – com um pedido de que, por favor, não pedisse novamente, Elisabeta entendeu que fora enganada. Ainda assim, por seu filho, fizera questão de enviar informações. Sobre o nascimento, uma foto, seu progresso no primeiro ano.

Mas, ao fim do primeiro ano de Tom, Lorde Williamson retornou à cidade. E quando não fez menção de conhecer o neto, e inclusive ignorou Elisabeta na rua, decidiu-se à proteger aquela criança que a ensinava tanto. E por isso nunca mais entrou em contato com os Williamson, e esperou ansiosamente que nunca entrassem em contato com ela.

Enfrentou os julgamentos do Vale do Café enquanto sua barriga crescia. A cara feia, os comentários maldosos, os deboches e os olhares de pena. Enfrentou até que não sentisse mais pena de si mesma, ou de seu filho. E então coube a ela informar a todos que, se Darcy não queria aquela criança, ela queria.

Amou Thomas desde o momento em que soube de sua existência, e desde então, cada dia mais. Amou os olhos brilhantes e as mãos pequenas, os choros de madrugada, os primeiros sorrisos. Vibrou com seus primeiros passos, orgulhou-se de ouvi-lo chama-la de mãe pela primeira vez. Dedicou-se ao presente que a vida havia lhe dado.

E ainda hoje, Thomas Benedito era uma descoberta diária. Ficava impressionada com as mesclas de personalidade. Com sua aparência que lembrava tanto os Williamson, mas com aquele olhar rebelde que era tão dela. Assim como seu temperamento curioso, questionador, por vezes impaciente.

Tom advogava por seus primos, questionava suas regras e alimentava seus sonhos de aventuras. Ao mesmo tempo era observador, por vezes sério e desconfiado demais, em tantas características que lembravam Darcy e faziam seu coração doer. Não havia como negar que era um fruto do amor dos dois. Do amor que imaginava que compartilhavam.

Era um desafio diário mostrar à Tom o caminho correto, e por isso valorizava tanto sua família. Não apenas seus pais, que a acolheram sem questionamentos, que nunca deixaram que Elisabeta se sentisse diminuída ou menos digna. Também suas irmãs, que eram colo e fortaleza. E seus cunhados que eram os melhores tios que Tom poderia ter.

Aos poucos deixou de se sentir sozinha, de lamentar a ausência de Darcy, e percebeu o quanto era afortunada por ter tantas pessoas por perto. E fez questão de mostrar à Thomas, todos os dias de sua vida, o quanto ele era amado por todas aquelas pessoas. E, quando menor, parecia que aquela grande família era o suficiente para ele.

Fazia pouco mais de um ano que as perguntas sobre seu pai iniciaram. Elisabeta esforçava-se para explicar que eram uma família diferente, e a explicação que parecia suficiente no começo, aos poucos já era seguida por outras perguntas. Foi por respeito à Tom que nunca mentiu.

Poderia inventar que seu pai falecera, que estava viajando, mas apenas dizia ao filho que na hora que ele estivesse pronto conversariam sobre isso. Porque tinha convicção que era um direito de seu filho saber quem era seu pai, e quando estivesse pronto para lidar com isso, saber que fora uma escolha de Darcy não participar de sua vida.

Agora, tudo seria diferente. Não acreditava, nem por um segundo, que Darcy não soubesse a respeito de Tom. Aprendera, com sua negativa em participar da vida do filho, que não era o homem digno que Elisabeta acreditava. E, embora não pudesse ou quisesse impedir seu filho de ter um pai, recusava-se a cair novamente em um jogo.

Sequer conseguia entender como Darcy tivera coragem de sugerir que não sabia. Não quando sua letra estava naquelas cartas tão dolorosas. Gostaria de não tê-las queimado, apenas para confrontá-lo, fazê-lo admitir seu desinteresse. Mas, conforme as horas passaram, e sua respiração voltou ao normal, Elisabeta pensou sobre tudo.

A verdade é que não importava. Não importavam os motivos de Darcy para abandoná-la com um filho dele no ventre. Não importavam os motivos dele para agora se aproximar de Tom. Importava que seu filho merecia um pai. E se Darcy estava disposto, não haveria nada que pudesse fazer.

Não precisava gostar de Darcy, não precisava confrontá-lo sobre o passado, não precisava ouvir suas desculpas. Precisava apenas proteger seu filho de uma decepção, evitar que Darcy magoasse Tom. Todo o resto não importava à ela. Caberia à Darcy, um dia, explicar ao filho seus motivos.

Mas não seria fácil aceitar Darcy em sua vida. Ao longo do tempo enterrara aos poucos o amor que sentia por ele. E irritava-se consigo mesma por sua reação ao vê-lo mais cedo. Não era apenas por Thomas. Por alguns segundos vira-se presa no passado, naquele olhar que tantas vezes fora apenas dela.

E controlara o misto de sentimentos, a vontade de gritar com Darcy, e a vontade de pular em seus braços e abraça-lo. Era dolorido perceber que ainda era capaz de amá-lo tão profundamente, dedicar tão nobre sentimento à alguém que fizera tão mal a ela. Era inevitável, e precisava também proteger seu próprio coração.

Sentiu-se observada e levantou seu olhar, apenas para encontrar aqueles olhos tão parecidos com os dela, e as feições preocupadas do filho. Secou as lágrimas que ainda caiam e tentou sorrir.

— Meu amor... – disse, e sua voz saiu diferente.

— Tia Jane disse que você não estava bem. – o garoto coçou a cabeça. – Por que você está triste?

Elisabeta abriu os braços, e Tom subiu na cama. Aninhou-se no peito da mãe, e Elisabeta passou os braços ao redor dele.

— Eu não estou triste. – disse, secando mais uma lágrima.

— Você está chorando. – Tom tinha a voz baixa.

— Não é de tristeza. – Elisabeta acariciou os cabelos dele. – Foi apenas um dia muito, muito longo.

— Me desculpe. – o garoto a abraçou com força.

— Por que você está me pedindo desculpas? – Elisabeta o apertou, beijando o topo de sua cabeça.

— Se eu soubesse não teria deixado Darcy atrapalhar para falar sobre cavalos. – Tom resmungou, fazendo Elisabeta rir.

— Desde quando você conhece Darcy? – ela respirou fundo.

— Eu não sei. Ele estava na cachoeira, e depois descobrimos que ele morava na casa do Lorde. Eu pedi para montar Brisa, mas Darcy disse que eu precisava pedir. – o garoto contava, e Elisabeta surpreendia-se com tantos encontros. – E hoje limpamos os estábulos.

Elisabeta o abraçou mais forte. Darcy estava tentando se aproximar de Tom. E a irritava que fizesse isso sem falar com ela, ao mesmo tempo em que a emocionava que Darcy tivesse a sensibilidade de dar tempo ao filho.

— E foi divertido? – ela perguntou, curiosa.

— Não. – Tom suspirou. – Mas Darcy disse que não poderia montar Brisa se não fizesse isso. Disse que temos que cuidar dos cavalos.

— Darcy tem razão. – Elisabeta o afastou e olhou em seus olhos. – Mas eu já falei isso para você.

— Vovó não me deixa cuidar de Tornado. – ele deu de ombros.

— Mas você cuida dos patos e dos porcos. – Elisa cutucou a ponta do nariz do filho. – Não é assim tão diferente.

— Os porcos são mais bagunceiros. – o garoto sorriu.

Os dois ficaram novamente em silêncio, e Tom novamente encostou-se em Elisabeta, enquanto ela acariciava seus cabelos.

— Foi por isso que você ficou triste? – ele insistiu.

— Eu não estou triste. – Elisabeta repetiu, uma risada saindo espontaneamente.

— Mamãe, eu não sou um bobo. – o garoto reclamou.

— Tom, seu amigo Darcy e eu já nos conhecíamos. – optou pela verdade, sempre a verdade. – E fazia muito tempo que eu não o via.

— Verdade? – ele afastou-se, olhando para Elisabeta com olhos arregalados.

— Sim, e as vezes quando encontramos uma pessoa depois de tanto tempo, isso traz lembranças.

— Ruins?

Elisabeta suspirou. Seu filho era curioso, observador, e não se contentava com meias palavras.

— Boas e ruins. – ela deu de ombros, e sorriu.

— Então eu vou dizer para ele não vir mais. – Thomas sorriu, decidido.

Elisabeta riu, puxando o filho novamente para um abraço.

— Não vai, não, mocinho. – beijou sua testa. – Quando você vai perder essa mania de me proteger?

— Mamãe, eu sou o homem da casa. Tio Brandão disse que é meu dever. – o garoto cruzou os braços.

— Tio Brandão não sabe o que está dizendo. – Elisabeta riu.

— O que tem o Tio Brandão? – Mariana entrou no quarto, sorrindo para a irmã.

— Disse que é meu dever proteger a mamãe. – Tom informou.

— E eu estou dizendo que Tio Brandão está errado. – Elisabeta fez cócegas no menino.

— Tio Brandão nunca está errado. – Mariana pulou na cama, puxando o sobrinho para um abraço. – Mas estamos indo para casa. As meninas estão exaustas.

— Tom, vá se despedir de suas primas. – Elisabeta pediu, e Tom saiu do quarto entre resmungos.

— Como você está? – Mariana perguntou, em voz baixa.

— Destruída. – Elisabeta confessou. – Mas sempre soubemos que isso poderia acontecer...

— Brandão disse que ele falou que não sabia sobre Tom. – Mariana franziu a testa.

— Tom acaba de me dizer que já encontrou Darcy mais de uma vez. Ele sabia, minha irmã. – Elisabeta sorriu, triste. – Mas não importa agora.

— Minha filha? – Felisberto bateu na porta, entrando em seguida.

Sentou-se ao pé da cama, e puxou Elisabeta para seu colo. Mariana deu um beijo na irmã, despedindo-se do pai.

— Não sei o que fazer. – ela disse, quando Mariana fechou a porta.

— Não faça nada. – Felisberto sorriu. – Hoje você só precisa descansar.

— E amanhã ainda não saberei o que fazer. – Elisabeta sorriu também.

— Não há escolha, Elisa. – ele acariciou os cabelos dela, tal como Elisabeta fizera com Tom alguns minutos antes. – Ele é o pai.

— Justo agora, papai? Depois de anos Darcy resolve ser pai. – ela reclamou. – Eu tenho medo que seja apenas uma aventura.

— Você não precisa contar agora para o Thomas. – ponderou. – Mas não pode impedir essa aproximação. E sei que nem seria do seu desejo.

— Eu jamais faria isso. – Elisabeta suspirou. – Mas eu não confio em Darcy.

— Nenhum de nós confia, Elisa. Mas o rapaz insiste que não sabia de nada. Julieta esteve aqui para se desculpar, estava apavorada com a ideia de ter contato para Darcy sobre Tom.

— Pai, eu não acredito que ele não sabia sobre Tom. – Elisabeta sentou-se, olhando nos olhos do pai. – Eu li as cartas, era a letra de Darcy. Eu guardo todos os meses o dinheiro que ele envia.

— Tudo que eu estou dizendo é que não devemos ter tantas pedras nas mãos. – Felisberto acariciou o rosto de Elisabeta, limpando uma lágrima. – Independente do que aconteceu, Darcy é o pai de Tom.

— E Tom merece conhecer o pai. Eu sei disso.

— Então descanse. Tudo virá a seu tempo.

Elisabeta assentiu, e recebeu um beijo do pai. Mas não dormiu naquela noite, e não sabia como agir. Talvez o melhor mesmo fosse esperar.