Better Days
5 Capítulo 5
A casa dos Benedito estava exatamente igual e ao mesmo tempo, não havia uma só semelhança. Pois embora as paredes continuassem com a mesma cor, as plantas permanecessem bem cuidadas, o que Darcy notou ao chegar próximo daquele espaço não foram os animais, os objetos pendurados ou o sino que Dona Ofélia mantinha intacto. Seus olhos foram atraídos para as crianças que corriam pelo jardim.
Aquelas crianças. As que estavam em todos os lugares, metidas nas mais diversas confusões. As que variavam de tamanho e de personalidade. As que agora, em mais uma olhada, eram evidentemente descendentes dos Benedito. Elas não eram apenas parecidas entre si. Eram parecidas com suas mães, com sua avó e com seu avô.
Darcy secou o rosto com a manga do paletó, um misto de suor e lágrimas. Observava uma a uma as crianças que corriam, gritavam e riam. Se pudesse observá-las agora, quase podia ver o rosto das cinco Benedito, todos misturados em um mar de lama e felicidade.
Viu os olhos de Arthur serem os primeiros a se virarem para ele, e quase se surpreendeu de não ter notado antes a semelhança com os olhos de Jane. Lembrou-se de todas as participações do menino nas conversas, sua sinceridade habitual, e não poderia haver uma criança mais parecida com Jane e Camilo.
Sentiu seu peito voltar a ficar apertado. Um a um ele identificava os meninos. Julieta dissera que era um menino. Mas Arthur lembrava Jane, e Augusto e Otávio tinham os olhos de Lídia. Mário não lembrava nenhum dos Benedito, e com seus olhos escuros e cabelos encaracolados, não seria o menino que Julieta mencionara. E outra lágrima escapou quando virou sua cabeça rápido demais e encontrou os olhos de Tom.
Os olhos como os da mãe. Mas com os seus cabelos, mais alto do que os outros meninos. E aquela semelhança no sorriso que se abriu ao vê-lo não era uma impressão. Já vira aquele sorriso tantas vezes que quase arrancou seus cabelos por não ter feito a associação antes. Era o sorriso que via toda vez em que se olhava no espelho.
Mas não poderia ser Tom. Não o menino que sentia falta de um pai. Elisabeta não seria tão cruel de negar a ele sua presença. Viu-se tomado pelo pavor, pois não haveria outra possibilidade. Era ele o filho da mulher que escrevia, que o intrigava pelas constantes lições sábias que Tom mencionava. Era o filho da mulher que tinha um cavalo, e que o fazia dividir com outras crianças.
Fez sentido, de repente, que Brisa ficasse calma com Tom. Os cavalos eram sábios, sensitivos. Não haveria como a égua ser arisca com um fruto das duas únicas pessoas que ela confiava. Por isso Tom montara escondido, por isso a égua naquela manhã ficara mais calma em sua presença.
Mas ao mesmo tempo, não poderia ser. Não podia ser ele o pai do garoto que comandava todos os primos. Que passara a manhã em seu estábulo resmungando sobre a sujeira dos cavalos, ao mesmo tempo em que fazia todo o trabalho e lhe contava histórias. Não seria ele o pai do menino que era bom em português e em matemática.
Pois não poderia perdoar-se, e nem perdoar Elisabeta, se soubesse que não estivera ali para ajuda-lo a melhorar no piano. Que estivera ausente enquanto o garoto imaginava as coisas divertidas que um pai deixaria que ele fizesse. Que impedira que ele pulasse de uma pedra por mero acaso, e não por estar por perto quando ele precisava.
— Darcy! – a voz do garoto o tirou dos pensamentos, e Darcy mais uma vez limpou o rosto.
As outras crianças também se viraram curiosas, e Darcy respirou fundo, buscando a coragem para se aproximar daquele lugar.
— Como você sabia onde eu morava? – Tom perguntou, assim que Darcy chegou perto.
— Eu disse, garoto. Não seria difícil descobrir. – tentou sorrir, bagunçando novamente os cabelos do menino.
E foi diferente tocá-lo. Porque podia ser seu filho. Podia ter seu sangue correndo nas veias, e tantas outras características suas que ainda não conhecia.
— Você veio contar sobre a cachoeira? – Arthur pareceu preocupado.
— Ou que estivemos em sua casa? – Augusto coçou a cabeça.
— Não, garotos. Eu vim conversar com...
— O que está acontecendo aqui? – a voz de Felisberto foi ouvida, e então todos os pares de olhos se voltaram para ele.
Felisberto pensou que poderia engasgar naquele momento. Ofélia havia comentado que Darcy estava na cidade, mas havia também dito que ele não pretendia procurar Elisabeta ou Tom. Mas agora estava em frente ao menino.
— Você veio falar com minha mãe? – o garoto perguntou, esperançoso, a medida que o avô se aproximava.
E talvez tenha sido a presença de Felisberto que fez com que Darcy apenas conseguisse balançar a cabela afirmativamente. E antes que o avô pudesse impedir, o menino já corria em direção a casa. Foram segundos eternos, onde o ar faltava, seu coração errava as batidas, e de repente o menino saiu da casa de mãos dadas com Elisabeta.
Darcy se aproximou se forma instintiva, parando ao pé da escada. Os olhos apavorados de Elisabeta encontraram os dele e não havia como apontar quem era o mais surpreso. Elisabeta franziu a testa, como se duvidasse de seus próprios olhos. Depois piscou uma, duas vezes, antes de perceber que era real.
Darcy Williamson estava parado em frente à sua casa, anos depois da última vez que o vira. Anos depois de escrever tantas cartas a respeito de sua gravidez, de enviar a ele tudo sobre Thomas até o dia em que o menino completou um ano. Anos depois de não receber nenhuma resposta além de total desprezo por seu filho.
E foi por isso que Elisabeta instintivamente puxou Tom para perto de si, o braço protetoramente em volta do filho. Felisberto observava tudo atônico, mas respirou fundo ao perceber que o melhor a fazer era dispersar os netos. Aquele encontro era inevitável, e em sua opinião, necessário.
— Mamãe, Darcy veio falar com você. – a voz de Tom quebrou os olhares de Darcy e Elisabeta, e ambos olharam para o garoto.
Elisabeta sentiu o coração parar ao ouvir Tom falar o nome de Darcy. Fora cuidadosa por tantos anos para não citá-lo em nenhuma conversa, para que Tom nunca tivesse curiosidade a respeito do pai. E agora ele estava ali, olhando para seu filho com olhos marejados.
— Darcy veio pedir permissão para que montar Brisa.
Elisabeta levou a mão a boca, antes que conseguisse conter um soluço. Darcy tentava encontrar as palavras, mas parecia improvável que conseguisse falar. Observou Tom encarar a mãe, e então o menino virou-se para ele, ansioso e perceptivo.
— Sim. – Darcy viu-se dizendo. – Podemos... podemos conversar?
Felisberto chamou Tom, antes que a filha desmoronasse em frente ao neto. Sob protetos o garoto encontrou o avô, e Elisabeta, a contragosto, entrou em casa, com Darcy em seu encalço.
Darcy surpreendeu-se ao vê-la entrar no quarto. O ambiente era quase igual ao que ele lembrava-se, desenhado em sua memória após tantas vezes em que entrara pela janela para passar algum tempo com ela. A cama de Jane não estava mais ali, a de Elisabeta agora era maior. Uma escrivaninha estava no canto, a decoração era diferente.
Mas o cheiro dela estava em toda parte, e Darcy a encarou novamente. Elisabeta parecia um pouco mais madura, mas Darcy jamais diria que sete anos separavam a última vez que vira aquele rosto. Seus cabelos caiam em cachos, e se fosse possível, parecia ainda mais bonita do que ele lembrava-se.
Viu quando ela respirou profundamente, antes de virar-se para ele, e sustentaram o olhar um do outro. Elisabeta mal podia acreditar que Darcy estivesse ali. Era um misto de incredulidade, angústia e revolta. E aquele olhar pareceu durar uma eternidade, antes que as palavras saíssem da boca de Darcy, em voz baixa.
— Ele é meu?
Elisabeta conteve a vontade de gritar. Depois de tantos anos, de tantas cartas, a primeira coisa que Darcy apresentava era uma dúvida. Como se houvesse outra possibilidade, como se pudesse ser filho de mais alguém.
— Por favor, eu preciso ouvir. – ele disse, angustiado.
E o olhar dela era gelado quando confirmou com a cabeça. E só então Darcy percebeu que Elisabeta ainda não havia dito nada, que ainda não ouvira sua voz.
— Por que você... – Darcy respirou fundo. – Por que você não me contou?
Ela virou-se inteiramente para ele, antes que pudesse se conter.
— Eu o que? – ergueu a sobrancelha, o tom de voz quase ameaçador.
— É meu filho, Elisa. Pelo amor de Deus, como você foi capaz? – Darcy deixou mais lágrimas caírem.
— Eu acho que não estou entendendo. – Elisabeta cruzou os braços, seu corpo todo pronto para uma batalha.
— Era meu direito. Era direito dele. – Darcy sentou-se na cama dela, sem pedir permissão.
— Você não vai lançar essa cartada, Darcy. – o tom de voz dela se elevou sem querer. – Você não vai aparecer na porta da minha casa sete anos depois e fingir que não sabia de nada.
Darcy encarou Elisabeta, confuso. Como poderia fingir? Como poderia negar seu filho de propósito?
— Eu não sabia porque você não me contou. – ele levantou-se, limpando as lágrimas. – Porque você preferiu me afastar.
— Eu não acredito que eu estou ouvindo isso. – Elisabeta virou as costas, e então voltou-se para ele novamente. – Você não pode estar me dizendo isso.
— Por que você não me contou? – ele perguntou novamente, um pouco menos de paciência agora.
— Eu descobri muitas coisas sobre você naquele tempo, Darcy. – Elisabeta deixou o desprezo escorrer em suas palavras. – Mas eu não imaginei que você fosse capaz desse teatro. Não combina com você.
— Teatro? – Darcy bufou, tentando não elevar a voz. – Era por isso que você não queria que eu voltasse ao Vale do Café? O que passou pela sua cabeça pra afastar meu filho de mim?
— Você nunca quis essa criança! – Elisabeta gritou.
— Como eu poderia querer uma criança que você escondeu de mim? – Darcy viu-se elevando a voz também.
— Eu o proíbo de dizer que escondi Tom de você. Eu o proíbo de entrar na minha casa e tentar inverter o que aconteceu. Você sabia sobre ele, você só nunca se interessou.
— Como eu poderia saber? Elisa, como eu poderia saber? – ele passou a mão pelos cabelos.
— Darcy, você passou os últimos seis anos enviando dinheiro mensalmente. – Elisabeta soltou o ar, de repente exausta. – Eu entendo que agora você tenha voltado ao Vale do Café, que milagrosamente surgiu em você a vontade de conhecer seu filho.
— Você não está falando coisa com coisa. – Darcy sentou-se novamente. – Eu nunca enviei dinheiro nenhum.
Elisabeta cruzou os braços, cansada e sem paciência.
— Por favor, não tente me convencer de que você não sabia sobre ele. – ela pediu. – Diga isso a si mesmo, se for melhor para a sua consciência, mas...
— Eu não sabia! – Darcy gritou, e em seguida baixou a voz. – Você acha mesmo que eu teria aparecido seis anos depois? Você acha que eu seria capaz de negar o meu filho?
— Eu não sei do que você é capaz. – ela o encarou, mortal. – Eu não conheço você. Eu não sei por onde você esteve, o que você fez.
— Eu tenho direito de conhecer esse menino, Elisa. – Darcy passou a mão pelos cabelos. – Independente do que você quiser pensar de mim. Eu não sei porque você escondeu Tom.
Os dois se desafiavam. Não havia nada que pudesse convencê-los de que estavam errados.
— Você já o conheceu. Aparentemente o meu filho conhece você, conhece inclusive seu cavalo. – Elisabeta elevou o tom de voz.
— Conhece. – Darcy também se exaltou. – E não por escolha sua. Eu tive que conheceu meu filho como um completo desconhecido.
Antes que os dois começassem uma nova série de acusações, a porta se abriu. E atônitos os dois observaram Rômulo, Brandão, e as quatro irmãs Benedito entrarem no ambiente.
— Acho que foi o suficiente por hoje. – Brandão disse, em voz baixa, olhando para a porta.
Darcy observou Jane, Mariana, Cecília e Lídia correrem em direção à Elisabeta. As quatro irmãs de Elisabeta o encaravam com desprezo e irritação.
— O que é que você fez? – Lídia pulou na frente das outras.
— Nada, eu... – Darcy tentou dizer, mas foi interrompido por Mariana.
— Chega. Está ficando barulhento, as crianças estão estranhando.
Darcy sentiu o coração apertar novamente ao ouvir o soluço de Elisabeta, antes que Jane a envolvesse em um abraço.
— Vamos? – Rômulo virou-se para ele, em uma pergunta retórica.
Saiu do quarto sem um último olhar para Elisabeta. Mal podia acreditar que ela fora capaz de algo tão cruel.
— Sua sorte é que Dona Ofélia não está aqui. – Brandão disse, tentando quebrar a tensão.
Mas Darcy apenas encarou os dois. Aqueles homens que um dia viveram tantas coisas à seu lado, que dividiram toalhas de piquenique, passeios, e as dificuldades de tentar conquistar o coração de uma das irmãs Benedito.
— Eu não sabia sobre ele. – viu-se dizendo, antes das lágrimas caírem. – Eu nunca faria isso com meu filho.
Surpreendeu-se quando Rômulo colocou a mão em seu ombro, e depois Brandão fez o mesmo.
— Existe muita coisa para ser explicada. – Rômulo tentou sorrir. – Nós nunca entendemos tudo isso.
— Mas vocês precisam de tempo.
Darcy assentiu, limpando o rosto, e saindo rapidamente da casa dos Benedito. Antes que pudesse chegar à seu cavalo, Tom correu até ele, sem que Felisberto pudesse impedir.
— Você conseguiu convencer minha mãe? – o garoto perguntou, esperançoso.
E Darcy não conseguiu dizer nada, apenas passou a mão nos cabelos do garoto, e com um sorriso triste foi embora.
Fale com o autor