Better Days

24 Capítulo 24


No passado, quando Darcy Williamson pensava em seus futuros filhos com Elisabeta Benedito, sempre imaginava estar presente durante toda a gestão. Pensava nos bebês rechonchudos, com bochechas vermelhas. Nos primeiros passos, nas primeiras palavras, e em todas as maravilhosas experiências que teriam. Imaginava como seria criar um filho com Elisabeta, em tudo o que poderiam aprender juntos.

A vida não fora generosa com suas expectativas, e seu filho beirava os sete anos de idade quando finalmente soubera sobre ele. Mas havia uma coisa, um único detalhe, que fora exatamente como Darcy imaginara: amara Thomas desde o primeiro momento. E a cada dia parecia importar menos que Darcy não estivesse presente em tantos primeiros momentos. Ele estava ali para tudo o que fosse acontecer a partir dali.

E sentia-se genuinamente ansioso por experimentar tudo o que a paternidade tinha a oferecer. Pelo menos era o que costumava pensar, até entrar na casa dos Benedito naquela manhã. Estava tudo mais silencioso que o normal. Nenhum dos primos de Tom estava em casa, e Felisberto e Ofélia não estavam em nenhum lugar à vista. Tornado dormia confortavelmente em seu estábulo, e por isso Darcy foi até o quarto do filho.

Não estava preparado para os olhos caídos que encontrou. A vitalidade que o filho sempre demonstrava agora substituídas por um olhar cansado. Tom tentou sorrir, mas estava cansado. Elisabeta estava sentada à seu lado, com uma expressão tão exausta quanto a de Thomas. Darcy se aproximou rapidamente, sentando-se na cama do filho.

— Ei, o que houve? – perguntou, preocupado.

— Thomas está com febre desde ontem. – Elisabeta suspirou. – Passou a noite acordado.

— Tudo dói, papai. – o menino reclamou, manhoso.

— Meus pais foram buscar Rômulo. – Elisabeta lançou um olhar preocupado para o filho. – Logo estará tudo bem, meu amor. – sorriu para ele.

— Você está dizendo isso desde ontem. – Tom revirou os olhos. – E nada melhorou.

Elisabeta encarou Darcy, cansada. Não havia dormido nada, vigiando os momentos de sono de Tom. Ele raramente ficava doente, e por isso Elisabeta sempre ficava assustada quando acontecia. No dia anterior, após voltar da casa de Darcy, Tom alegou estar cansado. Elisabeta não estranhou, uma vez que havia dormido em um lugar diferente do habitual. Até a febre chegar e não baixar mais.

Agora esperava que Rômulo trouxesse alguma solução mágica, algum remédio milagroso que fizesse Tom melhorar. Era assustador ver seu menino tão desanimado. Enquanto refletia sobre tudo isso, Tom puxou Darcy para perto. Elisabeta observou Darcy se acomodar na cama, puxando Thomas para seu colo. Darcy tinha um olhar aflito e quase desesperado, e Elisabeta sorriu por não estar sozinha.

— Eu vou preparar as suas compressas, enquanto você fica com seu pai. – Elisabeta beijou a testa molhada de Tom.

Assim que Elisabeta saiu do quarto, Darcy sentiu o desespero tomar conta. Não sabia lidar com uma criança doente. Não tinha a menor ideia de que remédio usar, de como fazer compressa, se deveria oferecer um pouco de comida. Acariciou os cabelos do filho novamente.

— Papai, você está com uma cara engraçada. – Tom apontou.

— Eu estou preocupado com você. – Darcy disse, simplesmente. – Eu nunca o vi doente.

— Mamãe disse que logo eu vou melhorar. – o menino deu de ombros.

— E sua mãe está certa. – Darcy sorriu. – Mas é a minha primeira vez como seu pai.

— Você só tem que contar histórias e me obrigar a tomar os remédios. – Tom respondeu, distráido.

Como se fosse simples, como se fosse fácil. Como se Darcy não estivesse sentindo o coração bater diferente por ver Thomas tão frágil. Poderia trocar de lugar com ele em um piscar de olhos. Faria qualquer coisa para retirar o sofrimento de Tom, mesmo que significasse que precisaria sentir o que seu filho estava sentindo.

Darcy continuou ali, na mesma posição. Elisabeta retornou com as compressas e começou a coloca-las em Tom, sob o olhar atento de Darcy. Ela parecia concentrada, enquanto Tom reclamava sobre a temperatura, sobre estar muito molhado, e todas as coisas que uma criança doente tem direito à reclamar.

Não demorou para que Rômulo chegasse, para o alívio de Darcy e Elisabeta. Ele examinou Tom, disse que Vitória estava com um quadro muito parecido e que não passava de um início de resfriado. Deixou algumas gotas para a febre, orientou repouso e alimentação leve – precisando deixar muito claro para Ofélia o que era considerado leve.

Tom reclamou ao tomar as gotas, mas quando começaram a fazer efeito, ele finalmente conseguiu dormir um pouco. Darcy continuava com o filho em seu colo, e Elisabeta sentava desconfortavelmente em uma cadeira improvisada da cozinha. Quando Tom aprofundou o sono, Darcy o moveu com delicadeza para o travesseiro, e o cobriu com um lençol leve.

Caminhou até onde Elisabeta estava e a puxou pela mão. Estava tão cansada e preocupada que não fez nenhum esforço, e Darcy a conduziu até a porta de seu quarto. Sorriu, acariciando o rosto de Elisabeta, colocando algumas mechas soltas no lugar, e então depositou um beijo carinhoso em seus lábios.

— Agora é você quem tem que se cuidar, minha menina. – Darcy manteve o sorriso. – Um banho, um cochilo.

— Tom ainda não está bem. – Elisabeta resmungou.

— Tom está dormindo, a febre finalmente cedeu. – Darcy a beijou novamente. – Está na hora de você também descansar um pouco.

— Eu não consigo, Darcy. – ela o abraçou, deitando a cabeça no peito dele. – Eu fico preocupada de vê-lo assim.

— Eu sei. Hoje foi o dia mais assustador da minha vida. – Darcy riu, acariciando os cabelos de Elisabeta. – Mas ele está medicado agora, Rômulo disse que podemos ficar tranquilos.

— E se ele acordar assustado, se a febre voltar?

— Eu vou ficar ao lado dele, Elisa. – Darcy se afastou, olhando em seus olhos. – Você não está sozinha.

— Eu sei, me desculpe. Eu ainda não estou acostumada. – Elisabeta sorriu. – Você foi maravilhoso com ele.

— Só estive observando como você faz.

Elisabeta acariciou o rosto de Darcy, aproximando-se para beijá-lo. Foi doce, carinhoso. E nenhum deles realmente se importou quando Ofélia e Felisberto os interromperam para perguntar sobre Tom.

##

Elisabeta acordou algumas horas depois, um pouco desorientada. O céu havia escurecido e caia uma forte chuva do lado de fora. Levantou-se rapidamente, e encontrou os pais na sala. Felisberto lia um livro, Ofélia bordava o que parecia uma toalha – e Elisabeta poderia apostar que era para seu próprio enxoval com Darcy.

— Acordou a bela adormecida. – Ofélia sorriu. – Darcy ainda está no quarto de Tom. Não quis sair nem para almoçar.

— E a senhora fez questão de montar um prato e levar para ele, não é mesmo? – Elisabeta sorriu.

— É claro. Tudo para agradar o meu futuro genro. – Ofélia bateu palmas. – Nunca achei que seria tão difícil casar minha número um.

— Ofélia, deixe a menina. – Felisberto resmungou.

— Mamãe, Darcy e eu não estamos pensando em casamento por enquanto. – Elisabeta se aproximou, beijando a testa da mãe. – Estamos nos reconectando e vendo como as coisas vão funcionar.

— É só uma questão de tempo. – Ofélia cantarolou. – Agora vá ver o meu neto, estou ocupada.

Elisabeta encarou o bordado, e não havia qualquer dúvida de que eram as suas iniciais e as de Darcy. Em outros tempos a pressão da mãe a irritaria. Mas, naquele momento, Elisabeta sabia que era mesmo só uma questão de tempo. E, se houvesse alguma dúvida, ela seria sanada ao entrar no quarto do filho.

Thomas ainda dormia, e Darcy cochilava deitado ao lado do filho. Eram tão parecidos que o peito de Elisabeta doía. Os cabelos escuros bagunçados, os traços fortes. Tom era uma miniatura de Darcy, e Darcy se mostrava a cada dia como o pai maravilhoso que Elisabeta sempre imaginou que seria.

Sentou-se ao pé da cama, e pensou em acordá-los. Não conseguiu, é claro. Apenas ficou ali sentada, observando a beleza daquele momento. As respirações tranquilas sincronizadas, o quanto pareciam confortáveis juntos. Quis colocar uma moldura naquela cena e guardar para sempre.

Não soube sequer quanto tempo ficou ali antes que Tom abrisse os olhos, e ali estava sua maior semelhança com ela. Ele sorriu ao vê-la, e sua movimentação fez Darcy despertar. Os dois amores de sua vida estavam ali, com sorrisos sonolentos parecidos. Tom já parecia melhor, suas bochechas estavam menos coradas, os olhos um pouco mais espertos.

— Deite aqui, mamãe! – o menino pediu, e Elisabeta não resistiu.

Mal cabiam os três naquele espaço, mas fizeram ser possível. Já estavam mesmo acostumados a se adaptar à nova realidade, a encontrar os espaços que ocupavam um na vida do outro. E, quando passaram o resto da tarde ali, entre risadas e histórias contadas à Tom, não havia dúvida de que era o melhor lugar do mundo.

##

A febre de Tom não retornou mais, mas a chuva continuou castigando o Vale do Café. O garoto adormeceu cedo após tomar uma sopa preparada pela avó. Darcy e Elisabeta o observaram até terem certeza de que o sono de Tom não seria agitado, e então saíram juntos do quarto, deixando a porta encostada.

Quando voltaram para a sala, apenas pareceu natural para Elisabeta recostar-se em Darcy, e ficaram ali abraçados, conversando amenidades com Felisberto e Ofélia. Vez ou outra Darcy depositava um beijo nos cabelos de Elisabeta. Suas mãos permaneciam entrelaçadas. Darcy contou à Felisberto sobre o rumo de seus negócios no Vale do Café e em São Paulo.

Estavam todos cansados, e quando Ofélia ofereceu mais uma xícara de café, Darcy recusou, alegando que precisava ir para casa.

— De jeito nenhum. – foi o que Ofélia respondeu. – Uma chuvarada dessas, no meio da noite. Veja só, Felisberto, que ideia.

— Ofélia tem razão. – Felisberto deu de ombros. – Temos muitos quartos na casa e...

— Ara, quartos na casa. – Ofélia cutucou Elisabeta. – Darcy vai dormir com Elisabeta. Os dois já tem um filho, Felisberto.

— Mamãe! – Elisabeta soou indignada, muito mais do que de fato sentia.

— Estão juntos, não estão? – Ofélia revirou os olhos. – Desde que essas liberdades não impeçam o casamento, não é mesmo Darcy? – a mais velha riu.

— Dona Ofélia, a senhora sabe que é Elisa quem tenta me enrolar desde que somos adolescentes. – Darcy também riu.

— Isso é um complô? – Elisabeta resmungou. – Papai, me ajude.

— Eu não posso ajudá-la, minha filha. Embora eu sempre esteja ao seu lado, é verdade que você enrola o rapaz. – Felisberto também sorriu.

Elisabeta sentiu como se voltasse a adolescência, e poucas coisas a deixariam mais feliz que isso. Houve um tempo em que Darcy Williamson era um assunto proibido naquela casa. Onde a mera lembrança dele fazia seu peito apertar e doer. Não deixara de amar Darcy nem por um segundo de sua vida. Mesmo quando imaginava que ele pudesse ter abandonado o filho deles.

Mas estavam ali agora, abraçados no sofá de sua sala, falando sobre casamento. O filho dos dois estava no quarto ao lado, em um sono tranquilo. Elisabeta não imaginava um mundo onde Darcy escolheria não conviver com Tom, e não havia nada que a deixasse mais aliviada. Darcy era amado por seus pais e por seu filho, e principalmente, por ela.

Era difícil não imaginar como seria dormir e acordar com Darcy todos os dias. Um mundo onde Tom não precisasse se despedir, onde eles não precisassem ter momentos roubados. Onde morassem na Fazenda Ouro Verde, e fossem visitar Ofélia e Felisberto, tal qual suas irmãs faziam.

Quando foram para o quarto de Elisabeta, nenhum deles parecia ter energia para muita coisa. Darcy a abraçou com força, a beijou com delicadeza, mas os dois tinham ouvidos atentos ao quarto de Tom, prontos para resgatar o filho se fosse necessário. Logo viram o sono se aproximar, e trocavam carinhos já com os olhos fechados.

— Darcy? – Elisabeta o chamou, sem abrir os olhos.

— Hm?

— Sobre essa história de casamento... – ela iniciou, e Darcy riu. – Seria bom, não é?

— Seria maravilhoso. – Darcy sorriu, acariciando os cabelos dela.

— Eu sempre quis casar com você. – Elisabeta também sorriu. – Só nunca soube se era o momento correto.

— Eu sei, meu amor. – Darcy beijou a testa dela. – Em breve será nosso momento.

— Você acha? – ela perguntou, insegura, e abriu os olhos para encará-lo

— Eu não tenho nenhuma dúvida. – Darcy abriu os olhos, encontrando os dela.

— Eu te amo, Darcy. – Elisabeta sorriu.

— Eu também te amo, minha menina. Muito.

Não demorou mais do que cinco minutos para adormecerem.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.