Better Days
23 Capítulo 23
O sol passou a brilhar mais intensamente no Vale do Café. Mas, nem o sol, nem as estrelas ou a lua, se comparavam ao sorriso de Elisabeta Benedito. E por isso não houve como esconder de suas irmãs ou de seus pais que seu relacionamento com Darcy havia sido retomado. Não conseguiria disfarçar nem se quisesse. Não quando seu coração batia tão forte a cada vez que ele entrava pela porta da frente, ou quando seu olhar se enchia de ternura a cada vez que o observava com Tom.
A relação de Darcy e Tom se fortalecia a cada dia. Era como se quisessem recuperar o tempo perdido, e mais do que isso, como se conseguissem recuperar. Como se pai e filho fossem capazes de transformar minutos em dias, ou como se o destino nunca houvesse sido tão cruel. A sintonia era tanta, que por vezes Elisabeta precisava controlar a sensação de que era deixada de lado. Mas, quando adormecia, levava um sorriso no rosto ao perceber que sua presença não era mais fundamental para estabelecer uma ligação entre Darcy e Tom.
Estava difícil, porém, fugir dos olhares de interrogação de Tom toda vez que via os pais juntos. Era óbvio para o menino que algo estava acontecendo, ainda que não soubesse o que. E, como nos velhos tempos, era difícil para Darcy e Elisabeta tirarem os olhos um do outro, as mãos um do outro, os lábios um do outro. Por isso, toda vez que Tom estava no ambiente, trocavam olhares cheios de promessas.
Era o que faziam naquele momento, enquanto Brandão e Mariana ofereciam um jantar para a família em sua casa. Darcy era o convidado de honra do chá de bonecas de Júlia, Helena, Clara e Vitória, e embora fosse requisitado pela ala masculina para ser um dos soldados do batalhão, o inglês era incapaz de decepcionar suas anfitriãs. Por isso, segurava uma pequena xícara de porcelana em uma das grandes mãos. E, naquele momento, Elisabeta perguntou-se se era possível amá-lo ainda mais.
— Pai, vamos brincar! Deixa essas meninas chatas! – Tom reclamou, se aproximando de Darcy.
— Tom, não fale assim de suas primas. – Darcy respondeu, sério, e chamou o filho para mais perto. – Você sempre deve tratar uma dama da melhor forma possível.
— Elas não são damas! – Tom cruzou os braços.
— Toda menina é uma dama. Peça desculpas à elas. – Darcy sorriu.
Tom revirou os olhos, e então encarou as quatro garotas de laços na cabeça.
— Me desculpem. Eu gostaria de brincar com o meu pai. – disse, em voz baixa.
— Tio Darcy está tomando chá. – Vitória disse, com um sorriso. – Não pode agora.
— Papai! – Tom reclamou.
— Tom, eu estou tomando chá. Não é educado sair em meio a um evento social. – Darcy sorriu, fazendo Elisabeta gargalhar.
— Melhor ouvir o seu pai. – Ofélia disse, com um sorriso. – Afinal meu neto é um futuro Lorde, precisa aprender a se comportar como tal.
— Eu não sou nada disso. – Tom cruzou os braços. – Sou um soldado, como o tio Brandão e o tio Randolfo.
— Vovó Julieta é uma rainha. – Júlia disse, com nariz empinado. – A rainha do café.
— Você é muito metida. – Tom implicou, colocando a língua para fora.
— E você é muito chato. Tio Darcy está brincando com a gente. – Júlia deu de ombros.
— Crianças, não briguem. – Elisabeta revirou os olhos. – Darcy vai brincar com você quando terminar o chá, Tom. Agora vá brincar com seus primos.
— Mas, mamãe...
— Thomas Benedito Williamson. – Elisabeta ralhou, e mal percebeu suas palavras, até todos os adultos se virarem para ela. – O que foi? É o nome dele.
— Desde quando? – Mariana perguntou.
— Desde que Darcy conseguiu uma autorização especial para registrar Tom. – Elisabeta sorriu para Darcy.
— E por que não comemoramos essa notícia ainda? – Jane cruzou os braços.
— Ainda não assinamos todos os papeis. – Darcy disse, com as bochechas coradas.
— Mas isso merece um brinde, meu amigo. – Camilo aproximou-se, entregando uma taça a Darcy.
Darcy levantou-se, e foi surpreendido por um Rômulo com lágrimas nos olhos. O cunhado o abraçou, e sem que notasse, Darcy também estava emocionado. Aos poucos recebeu o cumprimento de cada um dos Benedito. Aquela família que tanto amava, que sempre fora sua, e agora brindava à sua maior alegria.
##
Muito mais tarde, naquela mesma noite, Darcy colocou um adormecido Thomas no banco de trás do carro. A maioria dos convidados de Mariana e Brandão já estavam em casa, e não era uma surpresa que Darcy e Elisabeta fossem os últimos a sair. Algumas taças de vinho a mais haviam sido consumidas, o suficiente para nublar parcialmente seus julgamentos.
Por isso Darcy não impediu Elisabeta de jogar-se em seus braços, assim que Darcy fechou a porta do carro. A boca de Elisabeta estava na dele antes que pudesse reagir, e Darcy apenas encostou-se na parte externa do automóvel, puxando-a para ele, envolvendo Elisabeta com seus braços. A língua dele tocou a dela, e Elisabeta conteve um suspiro.
As mãos dela invadiram os cabelos de Darcy, no momento em que os dentes dele se fecharam levemente no lábio inferior dela. Elisabeta deu um passo a frente, fazendo Darcy abrir levemente as pernas para que ela pudesse ocupar aquele espaço. Mas uma risada de Mariana fez com que os dois se afastassem rapidamente.
— Vim conferir se não havia algum problema com o carro. – a irmã desculpou-se, com um sorriso cúmplice.
— Já estamos indo. – Elisabeta deu uma piscadela.
— Não tenham pressa. Não querem deixar Tom aqui? – Mariana ofereceu.
— Não, vamos a casa de Darcy. – Elisabeta sorriu.
— Vamos? – Darcy perguntou, confuso.
— Tom não fala em outra coisa a não ser dormir na sua casa. – ela sorriu travessa.
— Mas será uma boa ideia? – Darcy coçou a cabeça. – Seus pais podem não gostar.
— Meus pais não gostam de muitas coisas. E agora Mariana está de prova que foi ideia minha.
Mariana sorriu, acenando para os dois, antes de voltar para casa. Elisabeta virou-se novamente para Darcy, depositando um beijo em seus lábios.
— Meu amor, eu não sei se devemos... – ele disse, incerto.
— Eu quero ficar com você esta noite. – Elisabeta olhou em seus olhos. – Eu não tenho exatamente uma reputação, Darcy.
— É claro que tem. – ele resmungou.
Elisabeta aproximou-se, beijando o pescoço de Darcy, que instintivamente levou a mão a cintura da namorada. A barba dele roçou na pele de Elisabeta, que mordiscou o lóbulo da orelha dele, antes de cochichar.
— Você nunca se preocupou com isso. Não foi respeitando minha reputação que fizemos um filho.
Darcy levou a outra mão aos cabelos de Elisabeta, segurando-os firmemente, ainda tentando segurar-se ao que tinha de controle.
— Como é que eu vou te levar pra casa amanhã? Com que cara eu vou olhar para seus pais?
— Darcy Williamson, você não combina com inocência. – Elisabeta riu contra a pele dele. – Ou eu devo lembrar a você que a última vez que estivemos assim foi embaixo do teto de Dona Ofélia e Seu Felisberto?
— Elisa! – Darcy ralhou, afastando um pouco Elisabeta.
— Tudo bem. – ela sorriu, afastando-se completamente dele. – Então vamos embora, é longo o caminho até o sítio.
— Espera. – Darcy a puxou pelo braço, grudando a boca na dela.
A outra mão de Darcy rapidamente desceu pelo corpo de Elisabeta, a puxando contra ele, que já estava começando a sentir os efeitos daquele beijo. Suas línguas se tocaram em choque, em uma mistura do gosto deles e do vinho. Darcy a girou rapidamente, encostando Elisabeta delicadamente no carro, erguendo levemente uma das pernas dela.
Elisabeta sorriu quando a boca de Darcy deixou a sua, e desceu por seu pescoço e colo, em beijos molhados e intensos. A noite agradável rapidamente se transformou em quente demais, quando o centro dela tocou o dele, arrancando um gemido baixo. E foi o que fez Elisabeta o empurrar levemente.
— Tom... – ela disse, em voz abafada.
Darcy acenou com a cabeça, voltando a um beijo mais tranquilo, enquanto controlava sua respiração. E não disse mais nada quando entrou no carro e seguiu o rumo de sua casa.
##
Darcy sentiu um aperto no peito quando viu Tom deitado na cama do cômodo que, aos poucos, ia ganhando os contornos de um quarto infantil. Os livros e brinquedos que mandava trazer da capital já tomavam o local, naquela que Darcy pretendia que fosse a casa de Tom, o mais breve possível. Elisabeta acariciou seu rosto ao ver a emoção estampada, fazendo com que Darcy beijasse sua mão.
Tom havia despertado brevemente, o suficiente para que Elisabeta e Darcy explicassem onde estavam, e embora Darcy temesse que o filho pudesse estranhar o ambiente, Elisabeta estava tranquila. Qualquer lugar perto de Darcy era um lugar seguro, e no passar dos últimos dias, Darcy fizera questão de levar Tom para visitas frequentes, seja para cuidar dos cavalos, seja para que o filho passasse um tempo em seu quarto.
Os dois saíram em silêncio, e Darcy parou no meio do corredor, aflito.
— Eu queria muito levar você para o meu quarto, mas eu não saberia explicar para Tom a sua presença. – Darcy coçou a cabeça, sorrindo.
— Eu gostaria muito de ir para seu quarto, mas acho que não calculamos exatamente os riscos. – ela também sorriu.
— Não acredito que vou dormir sob o mesmo teto que você, em quartos diferentes. – Darcy a puxou para ele.
— Bem-vindo à paternidade. – Elisabeta deu de ombros, aconchegando-se em seu abraço.
— Ser mãe costuma impedir esse tipo de atividades para você? – Darcy resmungou.
— Sim. É bastante comum eu levar meu filho para dormir na casa de estranhos. – Elisa revirou os olhos em um sorriso.
— Eu sinto sua falta. – Darcy beijou a testa de Elisa. – Talvez seja uma boa ideia nós deixarmos Tom na casa de Mariana e Brandão.
— Talvez seja uma boa ideia inventarmos algum compromisso amanhã a tarde. – Elisabeta mordeu o ombro de Darcy.
— Eu não acredito que precisamos namorar escondidos do nosso próprio filho. Tom entenderia nosso relacionamento. – Darcy a abraçou ainda mais forte.
— Vamos pensar em uma forma de contar para ele. Mas ainda é tudo tão novo. Ele ainda está deslumbrado com a sua presença.
— Você também está. – ele implicou, beijando os cabelos de Elisa.
— Deslumbrada com a sua presença? – Elisabeta riu, escondendo o rosto na curva do pescoço de Darcy.
— Sim.
— Você pode ter razão. – Elisabeta disse, de repente séria, e afastou-se um pouco para fitar os olhos de Darcy. – Todos esses anos separados, acreditando em tantas coisas, eu nunca realmente pensei que poderíamos estar assim novamente.
— Eu sinto tanto, Elisa. Tanto... – Darcy sorriu, triste.
— Não. Não vamos lamentar. Vamos comemorar essa segunda chance, por estarmos aqui, com nosso filho. – Elisa sorriu.
— Eu te amo, Elisabeta Benedito. Não houve um segundo, em todos esses anos, em que eu deixei de te amar. Mesmo quando imaginava encontrar você casada, mãe dos filhos de outro homem.
— E você deve ter odiado muito esse outro homem. – Elisabeta riu baixo.
— Nunca odiei tanto alguém quando odiei seu marido inexistente. – Darcy abriu um grande sorriso.
— Eu também te amo, Darcy. E, se isso for possível, eu te amo ainda mais hoje do que quando éramos mais jovens.
Darcy a levantou sem qualquer esforço, e Elisabeta cruzou as pernas em sua cintura. Seus lábios se encontraram em um beijo calmo, tranquilo, apaixonado. Darcy caminhou alguns passos até o quarto de hóspedes, onde Elisabeta dormiria. E quando a depositou naquela cama, com um beijo rápido nos lábios, esperou que fosse a única vez em que dormiria naquela casa longe da mulher que amava.
Não se arrependeu de sua decisão, porém, quando acordou no dia seguinte e encontrou o quarto de Tom vaziou. Em passos lentos e silenciosos, caminhou até o quarto de hóspedes, apenas para encontrar Tom e Elisabeta dormindo abraçados. Foi incapaz de resistir ao impulso de se aproximar. E, mais tarde, quando Elisabeta abriu os olhos, encontrou seus dois meninos adormecidos, com sorrisos iguais nos lábios. Finalmente tinha tudo o que precisava para ser feliz.
E mal podia acreditar que a vida pudesse ser tão generosa. Aquela mesma vida, que anos antes parecia ter tirado tudo o que tinha, agora finalmente parecia estar no rumo certo.
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