Bestseller Divergente: Contos
3 Capítulo III
Notas iniciais
Os tempos de aula foram reduzidos para que tivéssemos todas as aulas até a hora do almoço. Ficamos sentados esperando no refeitório, existem dez salas na escola que só apenas usadas para os Testes de Aptidão, nunca entramos nele antes e não entraremos novamente, a menos que sejamos voluntários para aplicar os futuros testes nas novas gerações. Dez crianças são chamadas de cada vez, o teste dura apenas alguns minutos, mas quando se está do lado de fora parece que o tempo não passa nunca.
O sistema funciona de forma simples: nós da Erudição desenvolvemos e aprimoramos o teste, o soro e tentamos entender os resultados. Como o trabalho é voluntário a maioria é da Abnegação, um da Audácia e um da Amizade. A franqueza sempre mostrou-se imparcial, o que é até bom, já que eles são nossos juízes.
A fila anda, esta cada vez mais perto da minha vez. Vejo rostos conhecidos, como o de Isaac, Aaron, Miranda... e então finalmente chega a minha vez.
Empurro a porta e vejo que a sala é toda espelhada, inclusive no teto. Posso ver cada parte do meu corpo, minhas costas, minha nuca, meus cabelos. Sentada de costas para mim está uma mulher loira de cabelos presos e pele alva, na frente de um computador e ao lado de uma poltrona estranha, com tubos e eletrodos.
– sente-se por favor – diz a mulher da Abnegação, virando-se para mim. É Marian Stanton, a mãe de Miranda – oh, eu... eu...
– você está bem senhora Stanton? – pergunto preocupado, a mulher parece estar perturbada – você precisa de alguma coisa?
Ela ri, singelamente, como se estivesse voltando de um devaneio intenso – não, obrigada, é muita gentileza sua!
– ah, tudo bem então. O que preciso fazer?
– deite-se, irei conectar alguns eletrodos em você e depois em mim, ficaremos ligados por um breve momento, enquanto durar a sua simulação – ela esta nostálgica, seus olhos estão mais úmidos agora do que antes.
– você tem certeza de que não precisa de algo? Eu poderia fazê-lo, sem problema algum, pode confiar.
– estou bem – reafirma ela – só estou um pouco tonta. É que você... você me lembra alguém do passado... só isso.
– e quem seria este alguém? – estou tenso, esta mulher me parece um pouco debilitada mentalmente para me aplicar um teste importante como este. Mas não é só o que me preocupa, nunca vi ninguém da Abnegação expor seus sentimentos dessa maneira.
– alguém que está morto agora – diz ela, torcendo o nariz – morreu a muito tempo.
– então eu não sou este homem – reafirmo – sinto muito.
Ela recompõe-se e me dá um liquido azul, pouco denso.
– beba tudo – diz ela – e relaxe sua mente.
É o soro de simulação. Um dos maiores feitos da Erudição. Assim como os demais soros, seu efeito é imediato, espalhando-se pela corrente sanguínea, scaneando sua anatomia e transmitindo dados cerebrais através de transmissores microcelulares, presentes no soro.
Bebo tudo e encosto a cabeça na poltrona, fechando os olhos. Não ouço mais nada, então abro-os novamente. Ela desapareceu, simplesmente foi embora, junto com todos os seus equipamentos e seu aroma delicioso de ameixa adocicada. Estou completamente sozinho, alias estou acompanhado de milhares de reflexos meus, por toda a parte.
– escolha – diz uma voz firme. Uma voz familiar, inclusive. É quando me dou conta: é a voz dos meus sonhos.
Olho para o lado, há varias bandejas, umas com carne e outras com uma faca de dois fios.
– escolha – diz a voz novamente – escolha antes que seja tarde. Escolha.
Então eu escolho. Pego a faca. No exato momento que tomo a faca nas mãos todo o resto some, num piscar de olhos, como se fossem miragem. Aperto bem a faca para ter certeza de que ela é real. Ainda estou com ela.
Ouço um latido firme. Viro-me rapidamente. Um cachorro preto e enorme esta olhando apara mim. Seus olhos brilham com a iluminação da sala, ele parece com fome, agora aquele pedaço de carne não seria nada mal, mas escolhi a adaga, não poderei fazer nada para acalmá-lo. Então percebo o motivo dessa opção. Eles querem que ou eu o mate, ou eu o alimente. Mas eu tenho outra opção: irei amansá-lo, cachorros são animais domesticáveis, tornam-se dóceis, companheiros. Ele apronta-se para me atacar, eu dou um passo para frente e estendo minha mão direita para ele.
– aqui cachorrinho – que coisa mais ridícula para se dizer, o animal come arrancar minha mãe se quiser – cachorrinho, aqui.
Ele rosna, mas fecha sua boca, eu aproximo-me mais dois passos, olhando fixamente em seus olhos grandes e totalmente negros. Emito um som quem a boca, um chiado, para tentar acalmá-lo, não sei se isso dará certo, mas preciso tentar. ele rosna mais uma vez, e perco a paciência desta vez:
– senta agora! – digo tão firme que nem mesmo eu entendo porque, mas curiosamente o cachorro obedece, ele se senta e acalma-se rapidamente, curvando a cabeça para a direita, com um olhar de curiosidade.
– bom garoto – digo, aproximando-se para acariciar-lhe o focinho – aqui, isso...
É quando ouço um gemido fraco, que se converte em choro. Chore de bebê. Olho para o lado e tem um bebê dentro de um cesto de palha no chão, ele chora cada vez mais rápido e o cachorro vira-se para ela, novamente em posição de ataque.
– não – digo ao cachorro negro, mas ele não me atende – senta!
O cachorro começa a correr em direção a criança e eu me lanço sobre ele, quando abro os olhos estou sentado no banco de um ônibus. Há um senhor sem-facção sentado, frente a mim, do outro lado do onibus. Não há muitas pessoas, mas as poucas que estão aqui não se movem, não piscam, seus olhos parecem estar perdidos, hipnotizados.
O homem sem-facção olha para mim e aponta para uma imagem na capa do jornal.
– você conhece esta mulher? Esta aqui?
Dou de ombros, porque eu falaria com um sem-facção? E porque ele estaria dentro de um coletivo?
– você não me respondeu, meu jovem? — disse ele perdendo a calma — diga-me, você conhece esta mulher?
Seu rosto é comum, portanto é bastante familiar, mas não sei de quem se trata, embora tenha a sensação de que seja alguém da Erudição.
– não sei de quem se trata, senhor – digo-lhe analisado cada traço de seu rosto – há muitas pessoas por ai, não imagino quem poderia ser – dou de ombros e viro-me pela janela, tudo o que vejo são borrões, de todas as cores e formas.
– você tem certeza? – ele grita, levantando-se – você tem que conhecê-la – ele esta agitado e com raiva. Seu rosto redondo e cabelos embaraçados, roupas puídas e completamente sujas – ela fez isto comigo – ele bate no peito – ela arruinou minha vida! E também arruinará a sua!
De repente sinto como se o ônibus despencasse de uma altura enorme, prestes a se chocar com o chão, fecho os olhos desesperados. É uma simulação. Isso não é real.
Acordo de relance.
Recupero o fôlego.
Estou de volta a sala do teste.
– eu sinto muito – diz a mulher – eu não... eu não queria...
– do que você esta falando? Eu não estou entendendo? O que houve com meu teste? Algo errado?
– seu teste – ela soluça – não valeu de nada.
– como não? é um simples teste de aptidão. EU DEVO TER APTIDÃO PARA ALGO!
– e você tem – diz ela sem saber se ri ou se fecha a cara — e muita! Este é o problema.
– eu realmente não estou entendendo – digo sem muita paciência – explique-se, senhora Stanton.
– sua mente funciona de uma forma diferente – diz ela. Seus olhos trepidam, quase saltam de seu rosto – ela não segue o padrão lógico de um única facção. Muito pelo contrário, ela lida com cada situação de forma diferente e inusitada.
– e o que isso tem demais, afinal?
– tudo! Você não segue um padrão lógico da Erudição, ou Abnegação, ou Audácia.
– preciso de clareza senhora Stanton, não de filosofia!
Ela ri – você fala igualzinho a ele sabia?! – ela cala-se logo depois, como num soluço inaudível.
– ele quem? Do que estamos falando? Responda-me, como minha mente funciona?
– bem, na situação de perigo em que eu te coloquei, espera-se que você aja de forma corajosa, da forma como a Audácia agiria, no entanto, você acha uma forma mais prática, mais inteligente para sair dessa situação. Isso o levaria para a erudição, contudo você jamais pensou em matar o cachorro, o que levaria você para a Abnegação, mas você se recusou a ajudar o sem-facção, mesmo sabendo que se dissesse a verdade o ajudaria. Isso te afasta da Franqueza e da Abnegação. Porém você manteve tanto o bebê quanto o cachorro vivos, resolvendo o problema e isso te levaria até a Amizade.
– isso não me parece nada demais – dou de ombros.
– isso significa que você se encaixa em várias facções, mas ao mesmo tempo não se encaixa em nenhuma delas.
– porque tantos rodeios? Diga logo, afinal... qual o resultado do meu teste?
Ela hesita – inconclusivo – diz ela, para meu espanto – seu teste não serve para absolutamente nada. Só para lhe por em perigo.
– como isso é possível? O teste é feito para nos orientar em nossa escolha. Um teste que não nos orienta não tem serventia.
– é exatamente isso o que estou lhe dizendo Weston. Digo senhor Latier. Você corre perigo, não pode voltar para a Erudição.
– claro que posso – digo irritado – é minha casa.
– a Erudição não é lugar para um Divergente.
– Divergente? Só pode ser brincadeira, isso existe mesmo? E eu sou um? – rio descontroladamente. Se for verdade, estou ferrado – eles matam divergentes sabia?
– seu teste de Erudição e Abnegação e Audácia e Amizade.
– quatro facções? Isso é impossível?
– raro, mas não impossível. A questão é que você não poderá voltar para a Erudição, nem contar a ninguém sobre isso. Do contrário, não encontrará redenção.
– mas então o que devo fazer – digo aflito – o teste deveria me dizer o que fazer.
– saia da cidade, vá para a Amizade. Foi o que registrei aqui no sistema Amizade, pois acho que você, vindo de sua facção, não se daria muito bem na Abnegação. Lá terá uma vida tranquila.
– está brincando? Quer que eu passe minha vida inteira cuidando da terra, sorrindo para os outros e me vestindo de amarelo e vermelho?! Não irei para a Amizade.
– mas você precisa! Você não compreende.
– a decisão é minha, e não irei para a Amizade.
– você precisa ir. Faça o que seu coração mandar, mas escolha com sabedoria. Que seu coração pense e seu cérebro sinta.
– eu conheço estas palavras...
– vá – ela me corta – você deve ir agora. E lembre-se, não confie em ninguém.
Saio da sala, ainda atônito. A porta se fecha e não ouço mais nada, mesmo em meio a milhares de vozes. Estou imerso nas palavras “a Erudição não é lugar para um Divergente”. Estou morto. Porque eu sou diferente? porque eu sou divergente?
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