Os ponteiros do relógio se arrastavam lentamente naquela madrugada, como acontecia agora. Ele tentava rascunhar algo nas folhas de seu caderno mas era um esforço em vão. Hoje ele se tornou um escritor de renome, mas naquela madrugada não passava de mais um entre tantos outros aspirantes a semideuses das letras. Mergulhado no negror, sentado em sua escrivaninha, pensou em tantas coisas, tantos enredos, diferentes conflitos, mil clímax, mas nunca encontrou o final. Faltava-lhe também a essência da escrita, a inspiração, o pulsar no peito do autor que tocará o coração do leitor, em uma mesma frequência.

Frustrado, desesperado, folhas amassadas cobriam seus pés. Tintas manchavam sua pele. Um vazio de ideias tomava conta de sua cabeça. Em um último suspiro, pensou em escrever sobre um escritor que não conseguia escrever, assim mesmo, soando repetitivo, sem muito recurso estilístico. Começou a preencher lentamente as linhas azuis traçadas na folha de seu caderno. Todavia, achou por bem omitir duas coisas: a primeira é que a história que retratava impetuosamente era a sua, segundo que havia vendido sua alma para o demônio ou qualquer outro ser que a aceitasse em troca de uma dose de inspiração.

A madrugada se foi, os ponteiros giraram, o dia chegou. A história fluía nas folhas e em suas veias. Foram duas semanas de cárcere privado. Um confinamento exigido pela voz que aquiesceu com o trato, “em troca de um taça de inspiração, 14 dias de reclusão” dizia a voz arrastada em um rima tosca. A voz estava sempre presente, mas o corpo não se via, os olhos do mecenas podiam ser sentidos pelo jovem escritor mirando-o pelas costas. Aquela voz desgastada o corrigia aqui e ali, sugeria novas sentenças, lembrava-o do acordo, isolamento total era uma cláusula pétrea.

Duas semanas, 14 dias, 336 horas. Foi o tempo necessário para o até então invisível escritor produzir a obra que o colocaria no céu estrelado dos autores mais vendidos naquele ano. Em sua sede de inspiração um trato foi feito. Seu nome assinado estava no contrato, mesmo sem saber o nome do mecenas, não houve prudência, não se leu as letras miúdas. Mesmo vendendo tantos exemplares de sua história o vazio persistia. Não mais um vazio de ideias, agora lhe sobrava, graças ás consequências daquele feito, era possível escrever uma trilogia. Livros subsequentes que contariam por exemplo o preço pago pelo escritor ávido por sucesso imediato.

O segundo volume versaria sobre a sua mãe que morrera em um acidente de avião, e ele nada soube. Perdeu a chance de um último adeus. Haveria um capítulo voltado para o seu pai, que desesperado ceifou sua vida saltando do viaduto. O terceiro volume dessa maldita trilogia seria escrito com seu sangue, assim ele desejava e pensava ser mais justo. Um volume que mostraria esse vazio que agora o prendia com suas garras afiadas, um vazio que nem mesmo as cifras geradas pelas vendas do seu livro preenchia. Um vazio que a fama e as citações em revistas e jornais à sua obra não eram suficientes para dissipar. Se ele pudesse escrever novamente, se tivesse forças para tal, encerraria com um lembrete. Tudo nesta vida tem um preço.

Infelizmente ele não poderá escrever outros volumes, não por falta de inspiração, mas sim por falta de pulsação. Falta de vida. Preso neste manicômio, cada folha que rascunha é tida como prova de sua insanidade. Apenas uma pessoa acredita nele, além dele mesmo, claro! Seu mecenas, que ainda sussurra em seu ouvido os detalhes das mortes de seus pais e seus últimos pensamentos. Prolongando um sofrimento, criando vazios dentro de uma alma já vazia e seca.

Notas finais
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