Best Friends
3 Chapter Two: Relationships
Alfie dava suas pistas...
— Que “amiga”! Esse teu filho precisa é de uma fêmea! Amiga, amiga…! Daqui a pouco, vão estar compartilhando maquiagem, isso sim!
— Filho, perdoe o Gerald. Ele não sabe o que diz.
— Não sei? Pega esse teu filho mariquinha e joga no meio de uma guerra, para ver se ele sobrevive ao menos cinco minutos! — disse o pai de Alfie, arrancando-o de cima da cadeira com um único arranco pelas costas da camisa. Ele ficou literalmente pendurado – Isso daqui não ganha nem medalhinha de escoteiro! Não sei a quem ele se saiu, porque consegue ser o pior em tudo o que faz!
— Já chega! — gritei – Eu não vou deixar você falar assim com o Alfie, seu velho nojento e bêbado!
O pai de Alfie o soltou, mas fez isso apenas para avançar em cima de mim.
— Repita isso se tiver coragem, sua vagabundinha!
Antes que ele pudesse me acertar, Alfie se colocou na minha frente, e o soco que pegaria em mim o atingiu na lateral do rosto. O óculos dele quebrou no meio.
— Querido…! – escutei a mãe dele murmurar, sem coragem de interferir.
— Papai…! Eu gosto dela…! Não faz isso, por favor…
Eu não entendia…
— Não sai. Seu rosto ficou vermelho… Isso acontece sempre?
Alfie era sempre alegre e atencioso. Eu nunca pensei que ele e a mãe sofressem violência doméstica antes de estar lá para conferir isso pessoalmente.
— Ann, minha filha. Eu consegui acalmá-lo, mas é melhor você voltar para sua casa… — pediu a mãe de Alfie – Vá pela saída de serviço, para ele não te ver… e você, Alfie, não apareça na frente de seu pai, por enquanto. Ele está com muita raiva de você.
Achei melhor não contar para mamãe o que houve, senão ela não me permitiria ver Alfie novamente.
(…)
Lembro de uma vez que eu estava arrancando as asas de uma borboleta no quintal, isso na época que eu ainda morava com meu pai. O animal se agitava desesperado, mas isso me divertia. Quando mamãe me pegou fazendo isso, ela me deu um sermão de que, por pequenas ou insignificantes que as coisas ou pessoas possam parecer, elas também sofrem… porque são grandes e importantes como qualquer um de nós. E Alfie…
— Alfie, o canto do seu olho está roxo.
— É? Mostra aí, Alfie.
— Sério? Ah, deve ser porque ontem eu fui para a porrada com uns caras grandões e botei todos eles para correr!
… era um coitado.
— Tinha que ser! O Alfie é demais!
— Duvido que você tenha mesmo feito isso!
— Fiz sim, se eu pudesse eu tirava fotos para provar!
Um mentiroso.
— Como era seu irmão, Alfie?
— Ele era legal.
— Só?
— Não, claro que não. Ele gostava de rock, e tocava guitarra, violão, baixo e teclado. Ele tinha um cabelo grande que ele arrepiava para ficar igual aqueles punks, sabe?
— Nossa, o seu irmão era demais, então!
— Sim! Às vezes, ele aparecia na escola para dar um susto nos pivetes que vinham me encher. E ele tinha um monte de namoradas! Muitas mesmo! Ele gostava de Guns e Nirvana, e elas se amarravam nos covers dele!
— Você não tem cara de ter um irmão roqueiro!
— Pois é… Mas aí… papai obrigou ele a entrar para o Exército…! Ele teve que raspar a cabeça…
Eu estava de costas para Alfie nessa hora, mas percebi que o tom de voz dele mudou. Ele tinha começado a chorar.
— ...droga… Por que as guerras existem? O que as pessoas ganham com isso?
Apesar da rotina violenta de Alfie, dentre todos nossos amigos, acho que eu fui a única pessoa a vê-lo chorando.
— Não chore…
Porém, eu não sabia que, com o passar dos anos, o motivo de suas lágrimas seria outro. Eu.
— Lilith, minha mãe combinou de fazer uma lasanha. Estou atrasado.
— Lasanha? Eu também quero! Hoje eu vou voltar com você! Vamos!
Eu não me dava conta da grande crueldade que estava fazendo.
— Ann, você poderia dar uma força para o Alfie nos estudos? Faz tanto tempo que eu não vejo esse conteúdo dele, eu não sei como ajudá-lo. Ele etá meio arrastado em Matemática, quase para repetir de ano…
— Sem problemas, D. Melissa.
— Duvido que com Luigi era assim.
Todo voltamos nossos rostos espantados para o pai de Alfie. Quando ele falava uma palavra, era como se o teto caísse sobre nossas cabeças. Naquele dia, fazia pouco tempo que eu já estava podendo visitar sua casa de novo. Eu não queria que chegássemos àquele extremo outra vez.
— Esse teu filho é um retardado preguiçoso! E você, uma imprestável que passa o dia todo na frente da TV e não ensina nada de útil para ele!
— Gerald, já discutimos sobre isso antes. E já até procuramos ajuda especializada! O que Alfie tem é dislexia.
— Ou seja, doença de retardado! — ele riu e fez um barulho nasal igual ao de um porco – E você, hein, Little Ann? — arrepiei ao ouvir meu nome envolvido naquela conversa quando tudo o que eu queria era ficar invisível – Está começando a ficar gostosinha, hein? Já estou vendo um progresso aí na frente, está na hora de começar a aumentar o tamanho do decote!
Eu e Alfie nos entreolhamos, e depois olhamos para a mãe dele, que imediatamente reagiu:
— Gerald!
— E eu estou mentindo? Está com inveja, porque há anos não tem merecido um elogio, com esses seus peitos murchos? Sua velha caída! Levanta aí, Annie, dá uma voltinha para a gente ver! Mostra para essa velha derretida como uma mulher de verdade tem que ser!
— Eu acho melhor ir para casa – sugeri, gaguejando.
Ele prosseguiu:
— Imagina o sortudo que possuir tudo isso…
Eu só tinha treze anos, é lógico que eu fiquei em choque. Eu não conseguia tirar os olhos do meu prato, me perguntando se minha blusa um pouco acima do umbigo era indiscreta, ou se aquela bermuda justa que eu estava usando tinha gerado esse tipo de comentário absurdo. Na minha cabeça, naquela época, meu corpo era infantil. Eu simplesmente não via como alguém normal conseguiria sexualizar meus poucos atributos. Meu namorado tudo bem, tínhamos idades próximas. Mas até o pai do Alfie?
Ao perceber meu extremo constrangimento, Alfie também se intrometeu:
— Pai, por favor… A Annie está ficando envergonhada… pare com isso.
O pai dele, que estava sentado numa cadeira de balanço, levantou. Veio mancando até a mesa, com aqueles passos arrastados que tinham garantido sua aposentadoria. Mas muito de sua antiga força ainda se fazia notar, ou ele não teria arrancado aquela mesa de seis lugares do chão como se tivesse levantado um pedaço de isopor. Mais uma vez, ele levantou Alfie pela gola da camisa.
— Hein, Alfie? Parar com o quê? Seu moleque metido a besta! O que é? Está se achando “hominho”, só porque bate umas bronhas para a sua amiguinha?
Alfie era sacudido por ele como uma boneca de pano nas mãos de uma criança. Eu não sabia se reprimia um grito com as mãos ou se cobria os olhos com elas. Segundos atrás, eu estava diante de uma farta porção de lasanha, e uma fração de tempo depois, tudo o que havia na mesa, incluindo a própria mesa, estava esparramado no chão.
— Manda ver! Não é você o homem da casa? Esqueceu de quem manda aqui? Qual é, franguinho? Não é você que fica me dando ordens na minha própria casa?
— Querido, não faça isso! Olha para o estado de Alfie, ele ainda está…
— Não… mãe!
Alfie estendeu a mão para a mãe, como se não quisesse que ela terminasse o que estava dizendo. Eles trocaram um olhar que eu não entendi e ela imediatamente se calou, mas não sem antes deixar sobre mim um olhar de pesar. Eles estavam me escondendo algo, eu sabia.
— N-não tenho… mais nada a dizer, pai… me desculpe.
Alfie foi largado de volta em cima da cadeira onde estava sentado ao meu lado com toda a violência. Só não virou porque eu o equilibrei.
— Viu como você ainda consegue ser um bom garoto? — e, se dirigindo à mãe de Alfie, o pai dele disse bem assim: — Agora, limpa essa sujeira e ensina esse teu filho a moderar o tom quando for falar comigo.
— Annie, leve Alfie lá para cima enquanto eu arrumo isso tudo.
Eu queria mesmo era ir embora, mas não consegui desobedecer.
— Está bem.
— É, Alfie, sobe com ela pro seu quarto e mostra que ainda existe sangue nessas suas veias! Prove que é meu filho!
— Gerald, por favor!
Dormir com Alfie, naquele tempo, para mim, era algo impensável. Eu tinha um namorado atraente de quem eu gostava, enquanto Alfie, mesmo estando maior do que eu, ainda não tinha abandonado os trejeitos de criança. Mas, naquele dia em que eu entrei no quarto dele a sós, fora o desespero natural de quem tinha acabado de sair daquela situação, tinha algo mais em sua fisionomia. Eu finalmente percebi ali que Alfie tinha crescido, mas ele não estava exatamente bonito. Ele estava pálido, magro, eu diria até mórbido. Alfie percebeu que sua aparência me causou espanto, e quando isso aconteceu ele se agarrou em mim e começou a chorar descontroladamente. Pensei no que seria de mim se a mãe dele, ou pior, o pai, chegassem lá e vissem aquilo. Pensei até no meu namorado, Walter. Mas nada foi o bastante para me impedir de retribuir aquele abraço dele…
Naturalmente, como ensaiado, eu e Alfie demos alguns passos, eu o conduzindo, ele regredindo. Ele não se deu conta do que eu fazia, ou pelo menos assim me pareceu, pelo susto que ele teve quando caiu de costas na cama. Eu caí por cima dele. Ficar naquela posição poderia ser completamente estranho para quem olhasse de fora, mas para amigos que até trocavam de roupa na frente um do outro, aquilo não queria dizer nada. Não sei o que eu estava pensando naquele momento, nem lembro… mas eu me lembro que tirei os óculos de Alfie, e então pude ver melhor seus olhos, que tinham imensas olheiras. Parecia que…
— Alfie… o que você tem?
Ele apenas me respondeu com um carinho no cabelo que eu nunca vou esquecer. Eu não fazia ideia do que ele tinha, mas sabia que ele estava sofrendo muito. Enquanto eu o abraçava e colocava minha coxa flexionada sobre suas pernas, percebi que sua outra mão que não me abraçava agarrava o lençol de tempos em tempos. Seu peito também sacudia, e a respiração descompassava. Era como se ele quisesse abafar um grito. Alfred estava tremendo e ficando gelado, e pela primeira vez me ocorreu a ideia de que ele poderia morrer.
Tudo parecia quieto e eu estava quase adormecendo em seus braços, quando subitamente ele se levantou e saiu tateando o quarto todo atrás da porta do banheiro, e eu, sem acreditar no que estava acontecendo, fazia perguntas aleatórias do tipo:
— Alfie, o que está acontecendo?
Eu não entendia nada, e ele não me explicava. Completamente desorientado, ele tropeçava e se batia por onde passasse. Entendi que ele não estava enxergando um palmo à sua frente, então tentei ajudá-lo, encaixando os óculos em seu rosto e o guiando.
— Você quer ir ao banheiro, é isso? É por aqui.
Mas não deu tempo de chegarmos ao banheiro, pois ele já tinha vomitado pelo quarto todo.
— Ann, o que houve? Eu escutei gritos, e…
— Eu não sei, D. Melissa! Eu não sei!
— Mãe…! Mãe… tira ela daqui…
— Alfie! O que aconteceu?
— Ann, querida, já está ficando tarde. Sua mãe deve estar ficando preocupada.
— Não, eu preciso saber o que ele tem!!
— Eu vou dar um remédio ao Alfie e ele vai ficar bom. Vá para casa, eu cuido dele.
Naquela época, eu era muito jovem e influenciável…
— Alfie… o que aconteceu com você?
— Nada, querida. Ele só está nervoso por causa da discussão com o pai.
...talvez por isso, tenha me deixado convencer pela primeira hipótese viável que me foi oferecida. E eu também não queria enxergar a verdade.
— D. Melissa! Espera! Eu também quero cuidar dele! Minha mãe vai entender!
— Ele vai ficar bem. Boa noite.
Ela literalmente me arrastou para fora e fechou a porta na minha cara. Eu nunca imaginei que ela pudesse fazer uma coisa dessas comigo.
— D. Melissa… Alfie…
Acho que eu me lembro de quando Alfie demonstrou na minha frente um sintoma adverso pela primeira vez.
— Bati!
— Já? Poxa, você é boa mesmo em jogo de cartas…
— Alfie, não é possível, eu acho que você está me deixando ganhar!
— Não, não – disse ele, balançando a cabeça grande de um lado para o outro – Eu perdi de novo!
— Mostra aqui esse jogo – cobrei, tomando as cartas da mão dele – Alfie, a carta que eu descartei na outra jogada ia completar este jogo. Você ia bater antes de mim.
— Mas ele não completava só com o rei vermelho?
— Não, Alfie! Eu já não te falei que o importante é a sequência e o naipe? E ás e rei nem ficam no mesmo jogo com naipes diferentes…
— Ah! Eu não entendo esse jogo então!
Alfie ficou emburrado, levantou da cadeira onde estava sentado à mesa, cruzou a sala toda, sentou no sofá e cruzou os braços.
— Você não entende é nada, para falar a verdade! Você parece que é todo burro!
— Minha mãe disse que eu não sou burro! Eu tenho uma doença que me faz confundir as coisas! — ele explicou, exaltado.
Imediatamente, ele tocou na cabeça. Gemeu como se tivesse dado com ela em algum lugar. Achei até que ele estava fingindo, para a discussão acabar logo.
— Alfie… o que foi?
— Eu me joguei de mau jeito… de vez em quando, quando eu faço isso, minha barriga dói…
— “Barriga”? Mentiroso, você bateu a cabeça, que eu te vi tocar nela! Você não sabe nem mentir!
— Está doendo muito…!
— Deixe de brincadeira! Mal começou e já ficou sem graça, pode parar.
Alfie baixou a cabeça e inspirou forte.
— Ei, ô, Alfieee! Eu vou te sacudir até você falar comigo!
Cumprindo minha promessa, eu fiquei balançando seus ombros para frente e para trás, aborrecendo-o para ele parar com aquilo. Mas ele não parou.
— Chama a mamãe!
— Eu não! Chama você, folgado! Por que não se levanta e vai? Você está só fingindo mesmo.
— Eu não consigo… Mas, quando ela vem, a dor passa… ela me coloca nos braços e me balança até eu adormecer… e a dor vai embora…
Não foi a primeira vez que aquilo aconteceu, pelo que eu tinha entendido.
— É verdade isso, Alfie?
Chamei a mãe dele e, como ele mesmo disse, a D. Melissa “o curou”. Mas ela comentou algo como “levá-lo ao médico na manhã de segunda”. O que eu achava que era uma brincadeira de Alfie, era algo sério, e a mãe dele sabia.
(…)
— Então… vamos ficar aqui só falando do seu amigo?
— Walt, eu…
— Hah! Não vai me dizer que você tem algo com aquele lixo!
— Claro que não! Walt, assim você me ofende! Sou sua namorada, você deveria confiar mais em mim!
— Ah, qual é? Vai me dizer que não está sabendo do que estão falando de vocês dois? “Aquele Alfred está doido para comer a idiota da Annette, só ela não vê”! Quer que eu diga mais?
— S-são todos uns idiotas. Eles jamais compreenderiam o que há entre nós.
— E o que há entre vocês? Posso saber?
— Amizade! Uma amizade muito grande, só isso!
Eu dizia isso sem pensar duas vezes. É que, para mim, eu não estava mentindo. Mas… será que o mesmo valia para Alfie?
— Ok. Chega de conversar sobre Alfred por hoje. Vamos pensar em nós.
Após um longo e sufocante beijo, eu me esquivei:
— Walt, assim você me assusta! Já disse para tomar cuidado quando for me beijar desse jeito. Uma hora dessas, eu vou acabar desmaiando!
— Olha, eu ia gostar que isso acontecesse.
Fiquei apavorada com esse seu comentário, mas não disse nada. Eu estava dentro do carro dele, e instintivamente sabia que o dono da situação ali era ele. Eu teria que contornar suas objeções com cuidado.
— Eu já te falei que ainda não estou preparada para isso!
— Tá bom, Annette. Continue assim, e eu vou começar a dar ouvidos para o que o pessoal tá dizendo, ô namoradinha do Alfie!
— Não dá para conversar com você hoje, Walt.
— E dá para conversar com ele, né?
— Eu vou embora – falei, mexendo a porta do carro dele para abri-la. Não consegui sair, pois estava presa pelo cinto de segurança – Droga!
— Ei, garota! Volta aqui!
Walt fechou de novo a porta que eu tinha aberto. Estávamos no estacionamento de um drive-thru, e eu não pensava que ele fosse tentar fazer qualquer coisa comigo naquele lugar público. Só que, para o meu completo azar, ali estava completamente deserto naquela noite.
— Está pensando que é quem para me deixar falando sozinho, hein? — ele agarrou meu braço e me sacudiu.
— Sai, Walt! Não quero mais ficar com você hoje, quer me deixar ir embora?
— Ah, não quer? Mas com ele você quer, não é, sua vadia?
Ele retirou meu cinto de segurança e, num rápido movimento, me empurrou deitada na cadeira dianteira do carro. Quando tentei me defender empurrando-o com as pernas, ele agarrou meus tornozelos.
— Para, Walt! Me solta, seu idiota! Eu não quero mais nada com você!
Quando achei que tudo estava perdido, senti uma lanterna muito forte nos meus olhos.
— Algum problema aí, casalzinho?
— Não, sabe como é, eu e minha namorada só estávamos conversando umas coisas – Walter gaguejou, encaixando de volta os ombros sob o cinto de segurança e batendo nos meus joelhos para que eu me sentasse de volta na cadeira.
Um casal quarentão que estacionou atrás da gente percebeu o que estava acontecendo comigo e veio me socorrer.
— Essa sua namoradinha é muito mais nova do que você, hein, rapaz?
— Venha conosco – a mulher do casal abriu a porta e me arrancou de lá de dentro sem nem consultar Walter.
Intimidado por eles, meu então namorado me deixou em paz. Eles pediram dicas de como chegar até minha casa e me devolveram sã e salva. Chorei por todo o caminho, pensando as piores coisas possíveis sobre todos os homens do mundo. Por que todos os garotos não poderiam ser puros e inocentes como Alfie?
(…)
— 897. 898. 899. 900. 901.
— Alfie…? O que você está fazendo?
— Hã?
— O que você ainda faz aqui?
— Me mandaram contar até mil antes de procurar todo mundo.
— Mas, Alfie… todo mundo já até parou de brincar de esconde-esconde! Eu acho que brincaram com você quando disseram isso. E você levou mesmo isso a sério?
Alfie baixou a cabeça, envergonhado, triste, não sei.
— Eles pararam de brincar? Eu ainda não terminei de conferir, eles não podiam ter parado!
— Você acreditou no que aqueles garotos zueiros disseram? Alfie!
— Fiz errado?
Estávamos em uma colônia de férias naquele ano. Alfie e eu esperamos por meses esse acontecimento, pois íamos a um lugar que até meus pais em seu período de criança tinham frequentado.
— Hihihi! É verdade que o tonto continuou contando?
—É! A Annette foi lá acabar com a brincadeira, que chata!
É lógico que nenhum dos amigos de verdade do Alfie faria isso com ele.
— Hehehe, eu não sabia que vocês estavam brincando comigo.
— Nossa, cara. Só sendo muito burro mesmo!
— Pois é! Eu não sou muito esperto.
Eu odiava ver Alfie rindo de si mesmo dessa forma.
— Alfie! Se liga! Vai deixar eles zombarem de você?
— Qual é, Annie! Se une com a gente para zoar esse retardado!
— Fala aí, Alfie! Quanto é dois mais dois?
— Hã?
— Dois mais dois! Além de doido, é surdo?
— Alfie, vamos embora.
— Mas eu sei responder isso, eu não vou não.
— Mesmo assim, eles só querem provocar você! Você não percebe?
— É nove!
— Putz…! O quê?
A resposta de Alfred gerou um coro de gargalhadas que me perturba até hoje.
— Ah, não...o nove é aquele que tem uma bolinha na ponta…!
Eu não conseguia acreditar que existisse alguém tão pobre de espírito na face da terra.
— O moleque é muito burro! Eliott, chega aqui e escuta essa…
— Não fale assim dele, ele é meu amigo! — gritei.
— E daí? Ele ser seu amigo vai tornar esse imbecil inteligente?
Fiquei sem resposta, e arrastei Alfie dali. Por sorte, ele não fez mais objeções.
— Não acredito que você não ficou nem um pouquinho com vontade de dar um soco naquele infeliz!
— Por quê?
— Alfie, fala sério! Você está de gozação, né? Os caras te esculacharam!
— É? Não sei… eles pareciam estar se divertindo.
— Alfie, eles te chamaram de burro, pelo amor de Deus! Não me faz concordar com eles!
— Ah, mas é verdade, eles não estão mentindo. Eu sou burro mesmo. Papai vive me dizendo que eu sou burro, e eu sei que a mamãe também acha isso. E você pensa como eles, e todo mundo na escola também. É por isso que eu tenho que ficar chateado?
— Alfie…
— Você está triste porque eu não liguei? Então, eu prometo que quando eles falarem isso de novo, eu vou dizer que estou triste, tá bom? É assim que eu tenho que agir? Ah, Lilith, não vá me dizer que eu fiz errado de novo! – ele concluiu, ao sondar minha completa cara de incrédula diante da metralhadora de besteiras que ele estava falando.
Com a vaga sensação de que o protegeria daquilo tudo com esse simples gesto, eu o abracei.
— Alfie… como você consegue se vestir sozinho? Seu bobão!
Alfie poderia não entender muita coisa, mas ele sabia reconhecer um gesto de carinho. Era tão boa aquela época onde éramos crianças… Sem namorados, sem outras amizades, quando éramos apenas eu e ele…! E eu estraguei tudo. Abandonei Alfie quando ele mais precisava de mim.
(…)
Naquela noite do ataque de Walt, como eu disse, fui deixada na porta da minha casa. O casal queria entrar para falar com meus pais, mas eu implorei a eles que não fizessem isso. Menti que tinha um pai muito bravo e que ele brigaria comigo, me inspirando no pai de Alfie para compor esse personagem inventado. Eles não insistiram, e me desejaram boa sorte. Nem sequer entrei em casa; do jeito que estava, fui para a casa de Alfred. D. Melissa me atendeu.
— Annette?
— D. Melissa… cadê o Alfie?
— Está no quarto, mas… está tão tarde… o que houve com você? Pensei que fosse se encontrar com seu namorado hoje. Foi o que você disse quando se despediu de Alfie mais cedo nos estudos de hoje.
— Eu sei, mas… eu queria falar com ele.
— Alfred está dormindo, ou pelo menos estava. Ei, espere!
Sem esperar seu aval, apenas avancei para dentro e subi as escadas que conduziam ao quarto dele. A posição que ele estava dormindo era estranha. Alfred sempre dormia de peito para cima, mas naquela noite ele estava deitado em posição fetal. Ele sempre me disse que, se não dormisse completamente esticado na cama, inclusive com os braços e pernas retos, ele acordava um caco. Para ele estar dormindo daquele jeito, deveria estar sentindo uma dor muito grande. Foi o que eu pensei na hora. Eu não perguntei a D. Melissa o que ele tinha, com medo de ouvir a resposta. Ela também não me pediu para sair, porque não queria que qualquer barulho acordasse o filho dela. Mas era tarde demais. Como se sentisse minha presença, ele acordou. Eu nem precisava me anunciar.
— Oi… Alfie.
— Já é tarde… e o seu encontro?
Hoje eu fico me perguntando…
— Eu e Walt terminamos.
… quantas esperanças eu não devia dar a ele quando repetia essa mesma frase. Mas a tristeza que ele sentia por mim…
— Por quê?
...era autêntica. Em vez de pensar em si mesmo, ele me abraçava, me aconselhava e eu tenho certeza, pode até não ser verdade, mas eu acho que ele também chorava comigo. Mesmo não vendo Alfie como um namorado em potencial, eu gostava de estar nos braços dele. Se eu soubesse que era ele quem precisava ser protegido...
(…)
— Amanhã a Drielly chega na colônia, Alfie!
— É verdade mesmo? — ele disse, a pular – Aí, podemos nos reunir os três, como antigamente!
— Alfie, pare! Está todo mundo olhando.
(…)
— E aí, Drielly? Como é lá onde você está?
— Fora a escola, estou fazendo um curso de informática. Estou perdendo todas as minhas séries, um saco! Sem falar que o professor sabe menos do que a gente!
— Não acredito!
Alfie, sem prestar atenção em nós, apontou para um carrinho de sorvete que passava.
— Olha, sorvete! Vou comprar para a gente! Já volto!
Na verdade, eu nunca gostei de deixar Alfie fazer nada sozinho por aí, por que, sem mim, ele não fazia nada direito.
— Tá! Encontramos você no salão central!
Como naquele dia em que, em vez de fazer o que combinamos, ele se perdeu de nós. Estranhamos sua demora e fomos atrás dele e, quando finalmente o encontramos, ele estava sendo maltratado, mais uma vez, pelos mais velhos. Percebi que eles derrubaram e pisaram o sorvete que Alfie vinha trazendo com ele.
— Por que fizeram isso? Vocês são maus…
— “Maus”? É claro que somos, ô babaca! Ou você acha que explodimos teu sorvetinho no chão porque achamos que você fosse gostar? Otário!
— Alfie, o que você faz aí com esses…?
— Ih, chegaram as amiguinhas, ui, ui, ui! Que medo!
— Eu não tenho medo de você, e você trate de deixar o Alfie em paz, seu gordo feio espinhento! — bradei, furiosa, pisando no pé dele.
— Ai, sua pestinha! Você vai ver só!!
O moleque fechou em mim e me deu um soco no alto da cabeça. Na verdade, se ele não acertou o meio da cara, foi porque deu tempo de eu me abaixar um pouco.
— Lilith! — Alfie veio em meu socorro, enquanto Drielly ficou com uma cara de quem estava se perguntando por que ele estava me chamando daquilo.
Em seguida, ela me tomou dos braços de Alfie como se esperasse que ele, como o homem da situação, fosse fazer alguma coisa. Vendo que ele ficou estático no mesmo lugar, contentou-se em xingar de longe:
— Seus filhos da mãe!
— Vai reagir? Quer levar um soco também? Vem para cima, fedelha!
— Parem com isso!
Tentei identificar o dono daquela voz, e era um garoto mais velho do que nós todos, maior inclusive do que os moleques que estavam nos batendo. E foi assim que conhecemos o Kurt.
— Qual é o problema de vocês? Precisam bater em crianças para se sentirem melhor?
Apesar de ter apenas três anos a mais do que nós, ele parecia bem mais velho.
— Seu palhaço!
Kurt, em dois ou três golpes, botou aqueles malucos para correr, e assim conseguimos restabelecer a paz.
— Francamente, viu?
— Uau! Você é bom de briga mesmo! — elogiei – Qual o seu nome?
— Pois é. Meu nome é Kurt.
A partir dali, passamos a ser não mais um trio, mas um quarteto. Não sei o que Kurt viu na gente, mas juntou-se a nós. Ou melhor, eu sei: ele me viu. Enquanto ele me defendia daqueles brutamontes, nós cruzamos olhares por um segundo, e isso bastou. E ele era impressionante! Ao contrário de Alfie, era o melhor em tudo o que fazia. Ele era muito bonito e popular, e quando andávamos por aí, as meninas da nossa idade não tiravam os olhos dele.
— Venham! Entrem na água também.
Foi fácil eu me deixar levar pelo seu espírito desbravador, livre e aventureiro.
— Vamos lá! — gritei, tirando minha blusa e me preparando para pular de um pequeno despenhadeiro, às margens de uma lagoa.
Nem preciso dizer que esse era um lugar proibido para as crianças, mas eu não estava nem aí para isso e Drielly, que adorava água, também não.
— Esperem, meninas! — Alfie estendeu a mão, tentando nos dissuadir de pular.
Ninguém o escutou.
— Vem, Alfie! Pula você também! — Kurt o convidou.
— Mas eu… não sei!
Alfie não sabia nadar. Essa foi a primeira de muitas outras exclusões a que o submeteríamos durante todo o tempo em que Kurt esteve do nosso lado.
— Já que não sei nadar, vou ficar aqui, olhando vocês nadarem! — Alfie gritou de lá de cima, mas ninguém nem prestou atenção nele.
Dissemos que íamos ficar por lá só por alguns minutos, mas as horas se passaram num estalar de dedos, e brincamos a tarde toda sem nos darmos conta de que Alfie ficou todo esse tempo afastado de nós. Também, no meu caso, eu só estava pensando no Kurt. Era uma sensação estranha, muito estranha. Eu só me lembrei de Alfie porque Drielly, ao se dar conta do nosso vacilo, gritou algo como “Meu Deus, o Alfie!”, e saímos desbaratados atrás de uma subida que nos conduzisse ao lugar onde ele estava. Encontramos Alfie na beirada da rocha, deitado meio corpo e prestes a cair de lá de cima. Ele se assustou um pouco quando o acordamos, mas, salvo uns matos grudados no rosto e no cabelo, ele estava muito bem.
O problema maior não era ele, e sim eu. Mal saí dali, comecei a tremer de frio e precisava de cuidados. E Alfie…
— Lilith, trouxe um chá quentinho que achei pela copa!
— Obrigada pelo chá, Kurt.
— Imagina, Ann, que é isso… Eu é que não deveria ter levado vocês para o meio do lago num dia frio como hoje. Sinto muito por isso.
Kurt era muito bonito, além de gentil e atencioso com todos.
— Sorte é que a Drielly não adoeceu também.
— Verdade!
Não bastando isso, colecionava um monte de histórias de heroísmo… digo, verdadeiras. Por isso e mais um pouco, sou capaz de entender como Alfie deve ter se apavorado quando Kurt apareceu.
— Que barulho é esse? — meu mais novo amigo perguntou, sem entender.
Era Alfred, que havia largado sua bandeja com chá no chão e saído correndo. Eu tinha visto que ele tinha trazido um chá para mim e até escutei ele falando comigo, mas estava tão entretida conversando com Kurt que achei que estava tudo bem ignorá-lo por um ou dois segundos. Acabou que eu me esqueci completamente de que ele estava ali. Imagino como deve ter sido terrível para ele cada segundo daquela tortura…
— Alfie. Era ele.
— Pois é, eu também vi.
E eu me recusava terminantemente a enxergar o óbvio. Primeiro, porque talvez fosse trabalhoso demais namorar com alguém como ele… Depois, porque fingir não perceber suas intenções era uma forma conveniente de preservar sua amizade sem alimentar suas expectativas. Mas, naquela época, falando realmente a sério, eu não era capaz de entender nada do que estava acontecendo.
— O Alfie endoidou.
— Eu vou lá falar com ele, fica aqui descansando.
Eu escutei a voz de Drielly no corredor. Ela falava com Alfie coisas que não pareciam fazer sentido para mim:
— Não. Tudo bem. Vai dar tudo certo.
— Com licença – Kurt interveio, e eu apurei os ouvidos para ouvi-lo. — Alfie… posso falar com você um instantinho?
(…)
— E o que foi que eles conversaram? — perguntei, curiosa – O Kurt deve tê-lo ofendido um bocado, porque, no outro dia, Alfie parecia furioso.
— Será? — Drielly olha para cima, pensativa – Pode ser. Isso é questão de ponto de vista.
Continua...
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