Best Friends

8 Chapter Seven: Bullying


Como a companhia de Alfie e os cuidados com ele me levavam a maior parte do meu tempo, fiquei muito sem ter o que fazer à noite, pois aquele tempo costumava ser dele. Quis convidar mamãe para ver um filme comigo, mas ela tinha que fazer umas planilhas para uma reunião que ia ter no trabalho dela no dia seguinte e não ia poder me acompanhar. Ela também recomendou que eu não ligasse a TV muito alta, para não distraí-la. Por isso, para não atrapalhar seu serviço, eu desisti de ver o filme. Como estava sem tarefas nem trabalhos para fazer, resolvi checar as redes sociais pelo meu computador de mesa.

Passei cerca de duas horas zapeando por itens comuns e trocando mensagens com meus amigos no MSN, elogiando fotos de algumas amigas no Orkut, roubando o topo do depoimento de outras, trazendo para o meu recém criado perfil no Facebook fotos antigas do início do Orkut e selecionando minhas melhores fotos recentes para criar um álbum de inéditas. Eu tinha acabado de escolher uma foto bonita e com boa resolução para trocar a do perfil que não estava muito boa, quando alguém fez um comentário nela. Eu fui conferir o elogio toda empolgada, mas era um endereço de e-mail. Achei que fosse só algum maluco fazendo alguma cantada inconveniente, quando um segundo comentário chegou e ele dizia:

“Precisamos falar sobre as fotos que eu encontrei no seu notebook”.

Fechei os olhos e inspirei profundamente. Fui olhar meu e-mail. Parece que eu estava adivinhando que ia ter alguma mensagem daquele palhaço, e não errei.

“Olha só, a Annie gostosinha, mandando fotos só de lingerie para desconhecidos na internet! De onde vieram essas, eu sei que pode vir muito mais! Estou esperando uma inédita e totalmente nua só para mim até a meia-noite de sexta-feira. Se você não me enviar, já sabe o que vai acontecer.

F.”

Esse “F” era ninguém menos do que um dos moderadores da rede social da escola. Eu não sei como Alfie fez isso, mas o meu notebook foi parar nas mãos dele!

“Olha aqui, seu panaca”, respondi. “Está pensando que eu sou idiota? O que mais tem é foto minha por aí de biquíni. Biquíni e lingerie é tudo a mesma coisa, mostram as mesmas partes do corpo. Acha que eu vou mandar uma foto minha pelada por medo de foto minha de sutiã e calcinha vazar? Está pensando que eu tenho quantos anos? Doze? Palhaço.”

Cinco minutos depois, veio a resposta:

“Então, não se importa de a sua mãe ver suas fotos seminua por aí? Eu vou postar mesmo.”

“Você quer ter problemas com a lei, seu depravado pervertido nojento? Eu ainda sou menor de idade!!”

“Lembrasse disso antes de agir feito uma piranha por aí. Sexta-feira à noite e nem um dia a mais. Pode ser do pescoço para baixo também, eu não me importo. Só quero ver essa bocetinha bem aberta para mim, sua puta.”

“Faça o que quiser, seu excluído social punheteiro de merda! Posta essa porra se tiver coragem! Olhe bem para o meu corpo, você acha que eu tenho alguma coisa do que me envergonhar aí? Eu não tenho nada a perder, já você vai acabar com a sua merda de vida acadêmica se eu botar a polícia na sua cola.”

“É a sua última chance, você já está me tirando do sério! Tem certeza mesmo? Já consigo ver a cara engelhada da sua mãe chorando debaixo do chuveiro.”

“Foda-se, seu idiota. Minha mãe é uma mulher moderna e mente aberta, não uma evangélica fundamentalista gorda com a saia lá no pé que nem a sua deve ser. Aposto que essa porca não consegue nem enxergar a própria boceta.”

Ele não me respondeu depois dessa, e foi aí que eu me situei que eu peguei pesado.

Não vou dizer que eu estava tranquila com essa história toda, porque eu não estava. Acontece que sempre me irritou a ideia de ser uma presença passiva em episódios de bullying. Quando eu via uma personagem de filme sendo chantageada ou ameaçada, por exemplo, meu primeiro pensamento era: “Fala logo o que está acontecendo! Bate nessa pessoa, não deixa barato! Conta para sua mãe, ou vai ser pior!” Bancar a valentona, de certa forma, era, para mim, a afirmação de que eu conseguia conciliar ideia e atitude, que eu não ia dar para trás quando confrontada com uma situação igual. Nós jovens precisamos nos desafiar constantemente, provar a nós mesmos que somos corajosos e pessoas de valor com as quais não se pode brincar e sair ileso. Quem ri de si mesmo nessa fase acaba virando piada na vida adulta também… e, se tem uma coisa que eu não estava disposta a fazer, era ocupar essa posição.

O problema de você imaginar o quanto aguenta de cyberbullying é você achar que pode calcular a capacidade inventiva dos seus algozes. Falando pelo meu próprio exemplo, temos que: o material original que esse cara tinha em mãos eram umas dez ou quinze fotos minhas de lingerie, ou biquíni, ou fotos minhas de costas com as mãos cobrindo os seios ou eu usando roupão de banho escorregando pelos ombros, traduzindo: fotos sensuais sem ser pornográficas, tipo daquelas garotas Tumblr. Eu não mostrei nada que pudesse tornar essas fotos um conteúdo +18, na minha cabeça eu sabia onde estava pisando. Eu podia ser muito jovem e muito louca, mas já tinha em mente que mandar fotos sensuais para alguém pressupõe que essas fotos serão vazadas em algum momento. Por que sei disso? Porque isso sempre acontece, não adianta dizer que seu cavaleiro branco não vai te expor que uma raiva mínima da parte dele e puf, suas fotos ousadas estarão servindo de proteção de tela e enchendo a galeria de zilhares de computadores e celulares mundo afora. Mas sintetizando o raciocínio, por mais que ninguém acredite nisso comigo dizendo isso agora, esse era o conteúdo que tinha no meu computador. De verdade.

Mas eis que, dois dias depois dessa ameaça, quando o cara viu que eu não ia mesmo mandar as fotos que ele me exigiu, apareceu no blog da escola uma foto minha perfeitamente montada no corpo de uma modelo nua com tarjas cobrindo os seios e a parte íntima, o rosto ligeiramente embaçado (mas dava para ver que era eu) e a seguinte legenda:

“Quer ver o ensaio completo e sem censura dessa aluna deliciosa que mandou fotos nuas para um contatinho virtual? Deixe seu e-mail nos comentários!”

Não vou negar que a estratégia foi brilhante: todo mundo podia ver que era meu rosto ali, mas se eu me enfurecesse e comprasse a briga, só ia estar confessando que aquelas fotos nojentas eram minhas de fato. Richelle e Susanna que, sádicas, vieram me contar a novidade:

— Viu a postagem mais recente do F.uck no blog?

— Aquele cara com que você disse que está falando agora te explanou na web! Tem um monte de fotos suas circulando pelo e-mail de todo mundo!

— Você mandou mesmo fotos nua para ele? Eu ainda estou tentando acreditar que você não foi imbecil a esse ponto!

Pacientemente, e fingindo a maior despreocupação possível, eu lhes disse que as fotos originais eram de lingerie e que aquilo tudo não passava de montagens. Na minha frente, elas compraram minha versão, mas, no vestiário, horas depois, flagrei Richelle conversando com uma garota de outra classe bem assim:

— Disse ela que só tirou fotos de lingerie! Mas você olha as fotos, não tem como dizer que são montagem! É lógico que ela está dizendo isso para evitar a vergonha!

— Como se mudasse alguma coisa a foto ser de lingerie ou pelada! Está com fama de piranha assim mesmo!

— Eu não teria coragem de fazer isso jamais, ainda mais com qualquer desconhecido, cuja índole a gente nem faz ideia!

— Imagino o tipo de tiozão tarado que andou batendo uma para essas fotos dela!

— Se duvidar, o F. criou um fake para enganar a otária e ela caiu!

— Já fica a lição: piranhar na internet, não!

— Obrigada por me defender, Richelle – anunciei minha presença em um tom seco e acusador – Seria mais fácil você dizer na minha cara que não acreditava em mim logo, não acha?

Ela e a outra garota se entreolharam um segundo e, quando achei que elas fossem articular uma resposta, um pretexto, uma desculpa, alguma coisa, elas simplesmente estouraram uma gargalhada na minha cara e passaram por mim impunemente. Aquilo me doeu na alma, porque senti como se estivessem subestimando minha inteligência, como se ter fotos sensuais anulasse meus notáveis feitos como estudante. Richelle, especialmente, sempre pegava cola das coisas comigo. Ela dizia e repetia que eu carregava Alfie nas costas, mas não era só ele, ela também!! Eu juro que tive ímpeto de correr atrás delas, especialmente de Richelle, lhe dar uns dois tapas na cara e dizer para ela me respeitar depois de tudo o que eu já tinha feito por ela. Mas fui tão abatida pelo impacto daquela traição que tudo o que fiz foi me debruçar por cima de uma privada e vomitar de nervoso. Uma garota que saía do chuveiro naquele instante me perguntou se estava tudo bem, e eu lhe disse que sim. Ela passou por mim meio desconfiada e foi embora, eu percebi, tomando uma distância cautelosa. Com certeza, ela me reconheceu do blog.

Quando cheguei em sala depois disso, percebi um silêncio súbito, como se todos tivessem se calado ou mudado de assunto. Dei de ombros e entrei assim mesmo. Um garoto nerd que costumava ficar no meio de outros perdedores como ele deu uns passos tímidos na minha direção e falou bem assim:

— Eu sinto muito mesmo pelo que está acontecendo. Fiquei sabendo do caso, mas juro que não olhei foto nenhuma. Pode contar comigo para qualquer coisa.

Essa postura de white knight e essa forçação de intimidade, como se tudo aquilo fizesse ele ter nível para falar comigo, me irritou. Sem falar daquele jeito de quem estava investindo no antes já pensando no depois. Disse para ele:

— Você não vai me comer chegando em mim com esse jeitinho de melhor amigo gay, tá? Tenta outra coisa.

O cara zarpou dali todo errado, e eu percebi que pelo resto da aula os amigos em volta ficaram dando tapas em sua cabeça e rindo da cara dele. Bem feito.

(…)

Pelas próximas semanas, os boatos e a quantidade de fotos com montagens minhas foram aumentando, e as poses estavam cada vez mais indigestas. Para me defender, eu criei um Tumblr comparando as fotos originais com as versões montadas e postei o link no meu Twitter, mas o tiro saiu pela culatra. Eu percebi tarde demais que eu estar de combinação era tão problemático quando eu estar nua, na concepção das pessoas machistas e idiotas à minha volta. Nos fóruns de discussão da escola, o que não faltavam eram fotos minhas com textos “engraçados”, todos no sentido de viralizar minha imagem seminua e me ultrajar de forma pessoal ao mesmo tempo. Chegou a um ponto onde eu nem tinha mais controle de quem estava espalhando o quê, porque era todo mundo fazendo isso.

Alguns professores tinham percebido que toda vez que eu chegava em sala – e eu tinha passado a adquirir o hábito de chegar atrasada, pois ficava acompanhando os comentários do fórum até de madrugada e me esquecia de dormir – eu era alvo de risadas e alguns alunos cutucavam uns aos outros como se dissessem: “ela chegou”.

— Está acontecendo alguma coisa que eu não sei? Perdi alguma piada? — perguntou a Sra. Bates, um certo dia.

— Não, professora – respondeu a classe, em uníssono.

— Verdade isso? — ela reforçou, me encarando.

Eu deveria ter dito naquela hora que estava sendo alvo de perseguição, mas fiquei sem responder a pergunta e fui direto para a minha carteira.

— Muito bem. Vamos dar início à aula de hoje. Hoje o tema será a Revolução Francesa…

Minhas notas também começaram a cair, pois as explicações entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Durante esse tempo, não fiquei encarregada de cuidar de Alfie, o que aliviou meu fardo um pouco. Mas nem por isso minha vida era fácil.

Teve um dia que fui repreendida em sala por dormir no meio da aula e, quando acordei, muito surpresa, escutei uma das meninas, Saphire, dizendo em alto e bom som:

— Ela está com sono por causa da gravidez!

Fiquei em choque, e boa parte da sala também.

— O-o quê?

— É verdade! Outro dia, uma menina de outra sala disse que a viu vomitando no banheiro!

Eu fiquei com um nojo daquela idiota, tanto pela mentira que ela disse quanto pela sua evidente vontade de se destacar com essa “novidade”. Pude ver a satisfação na cara redonda e sem pescoço daquela balofa quando todos, inclusive o professor, olharam para ela e depois para mim abismados.

— Além de ser mentirosa – falei para ela – ninguém sabe nem dizer se você está grávida ou não, não é? Seu canhão!

Uma gargalhada geral fez tremer o chão e colocou aquela folgada no lugar dela. Saphire pegou seu fichário às pressas e saiu correndo e chorando, e a minha raiva era tanta que eu nem liguei para isso. Sem jeito, o professor ajeitou os óculos e ordenou, gaguejando e tentando disfarçar sua evidente vontade de rir também, que a aula continuasse.

(…)

Peter, que já tinha espalhado para todo mundo que tinha me comido (esqueci de contar essa parte da história), veio me questionar acerca da suposta gravidez um dia depois disso:

— É por isso que tu já saiu se deitando no sofá, né? Queria que eu assumisse a bronca dos outros!

— Você é retardado? Eu nunca fiz aquilo com ninguém a não ser você!

— Ah, Annie, não ferra! Vai me dizer que você é santinha e pura agora? Se agarrando comigo em banheiro de balada e vem com essa de “nunca fiz isso com ninguém”?

Com as palavras engasgadas na garganta, eu enfiei a mão na cara dele.

— Vem comigo – ele saiu me arrastando pelo braço para o rumo do banheiro e eu podia jurar que ele ia me forçar a fazer sexo com ele.

— Não quero ir! — gritei, apavorada, no meio do corredor vazio.

As aulas já tinham acabado, portanto, não tinha quase ninguém na escola toda. Peter enfiou a mão na mochila, achei que fosse pegar um canivete para me obrigar a fazer qualquer coisa que ele quisesse, mas ao fim de tudo o que ele tirou de lá foi um teste de farmácia para gravidez.

— Mija aí e testa esse negócio na minha frente!

— Você é surdo?! Eu já falei que sou virgem!

— Virgem na minha frente! Pro Derek, pro Norman e pro Eddie tu não é!

— O quê?

— Geral já passou a vara em você! “Virgem”! Depois, vai estar aí empurrando paternidade para o primeiro palhaço que aparecer!

Levantei minha blusa e expus minha barriga chapada.

— Isto é a barriga de uma grávida?

— Não interessa, testa logo! — ele gritou, chutando uma lixeira que ficava do lado da porta do banheiro. Ela virou, espalhando tudo o que tinha dentro. Me encolhi com o susto.

— Eu não estou a fim de fazer xixi.

— Então, bebe água!

Olhei para o bebedouro, que ficava um pouco mais para o lado da lixeira, e consegui calcular mentalmente que se ele me empurrasse um pouco, minha cabeça poderia bater ali.

— Mesmo que eu tome água – expliquei pacientemente – vai demorar para descer. Minha palavra não é o bastante?

— Oh, sua prostituta— ele falou como se grifasse a última palavra – Tá dificultando por quê? Tem algo a esconder aí? Hein?

Ele segurou meu queixo e me obrigou a encará-lo.

— Quer parar de agir feito um idiota? — gritei, tirando a mão dele de mim – Está bem! Eu vou fazer essa porcaria de teste, só para você me deixar em paz!

Bebi água super tensa, pois toda hora eu achava que ele ia me bater na nuca e isso ia machucar minha boca. Esperei uns cinco minutos, mas nada de a vontade de mijar aparecer. E ele ficava me perguntando isso a cada trinta segundos. Teve uma hora que fui para o banheiro só para me trancar dentro de um lugar seguro. Como se eu tivesse acabado de digerir todas as ofensas e acusações que ele me desferiu, comecei a lagrimar. Forcei para sair alguma coisa e parecia que minha bexiga tinha secado, acho que era o medo. O desespero começou a me afligir de verdade, e as lágrimas desceram. Eu fiquei todo esse tempo pensando que esses testes falhavam, e se de repente apontasse que eu estava grávida, o que ele ia fazer? Era capaz de ele me agredir.

— Está demorando por quê? — ele gritou de fora do box e chutou a porta.

O susto fez com que eu rapidamente tivesse vontade de urinar, e imediatamente colhi a amostra para fazer o teste. Agitei meus dedos para fazer cair deles as cataratas de xixi que encharcaram minha mão toda, e quanto mais eu olhava em volta, menos conseguia imaginar como eu ia equilibrar o teste e aguardar os minutos necessários, me limpar e ainda me vestir. Sério mesmo que as garotas conseguiam fazer isso escondidas no banheiro?

— Hein?? Responda!

— Tem que esperar cinco minutos, está dizendo aqui!! — berrei de volta, sem paciência.

Ele usou o cronômetro do celular para me alertar sobre o fim do prazo, acredita?

— Espere aí, que eu vou me vestir.

Eu nem terminei de abrir a porta e ele me escaneou em um segundo, tomando de imediato o teste da minha mão. Eu agitei as mãos, preocupada. Queria ver, nem eu tinha olhado o resultado porque estava preocupada em me secar e me vestir.

— E aí? — perguntei, preocupada com o que ia aparecer. Não porque tivesse qualquer dúvida sobre ser virgem, mas por ter medo do teste falhar e dar um resultado errado.

Ele nem me respondeu, atirou o teste em mim. Me defendi com os braços para ele não bater no meu rosto e em seguida me agachei para pegar o teste que caiu no chão. Vi que isso salvou minha vida, porque Peter socou a divisa do banheiro bem na direção onde estava minha cabeça antes de eu me abaixar. Olhei para aquela direção, espantada com o barulho, enquanto ele gemia e massageava a mão dolorida.

— Que merda é essa, hein?

— Que merda o quê? — tremi nas bases, enquanto olhava o resultado: um palito em um vermelho bem vivo e outro um pouco mais claro, mas quase da mesma cor que o outro.

— Deu positivo, e tu aí pagando de virgem!

— Não deu positivo, não pode ter dado positivo!

— Tu vai tirar, não quero nem saber!!

Eu nem sequer entendia do que ele estava falando.

— Tá me entendendo? — ele levantou minha cabeça puxando os cabelos da direção da minha nuca e, apontando o dedo na minha cara, repetiu: — Tu vai tirar essa porcaria, que eu não quero ninguém dizendo que esse filho é meu!

— Ninguém ia dizer isso se você mesmo não tivesse resolvido se gabar por coisas que nunca fez!

Ele empurrou meu rosto e tenho certeza de que fez isso para que minha cabeça batesse na divisa dos banheiros, mas eu estava a uma distância considerável delas e não funcionou. Tentando controlar a respiração e arrumar os fios de cabelo desgrenhados, molhei o rosto para esconder as lágrimas e livrar meus olhos da maquiagem borrada enquanto ele ia embora.

Nos dias que se passaram, outros garotos que espalharam por aí que tiveram contato íntimo comigo vieram me questionar se era verdade a tal da gravidez. Confesso que no dia que o teste deu aquele resultado ambíguo, eu me apavorei. Rememorei o dia em que me agarrei com Peter no sofá da sala e onde ele, sem me avisar nada, estava com o pênis para fora. Se não fosse Alfie, talvez a coisa toda tivesse acontecido naquele dia. Mas, e se Peter, por um acaso azarado do destino, tivesse deixado cair em mim alguma gotícula de sêmen, mesmo sem ter feito o principal? Minha tranquilidade só foi resgatada quando a menstruação enfim desceu.

Mas eu não tive tempo para ficar feliz. Um certo dia, ao sair do banheiro, uma garota me deu um tapa no rosto porque o cristal precioso do namorado dela foi pego vendo “minhas” fotos no e-mail dele. Naquele dia eu fui parar na diretoria, mas arrebentei com a cara daquela doida também. Ganhei três dias de suspensão e tive que levar um ofício para a minha mãe assinar. Tomei a identidade dela e imitei sua rubrica. Para a minha sorte, isso não passou daí: a presença dela não foi requisitada na escola.

Fingi sair para a aula uns dois dias em paz, mas no terceiro dia minha mãe esqueceu algo em casa e voltou no meio do horário de serviço para pegar, e me encontrou por lá. Quando ela me perguntou o que aconteceu, o que eu fazia ali, eu lhe disse sem pestanejar que uma aluna tinha sido assassinada pelo namorado e a escola decretou luto oficial. Eu nem sei onde estava com a cabeça quando disse isso e até hoje não acredito que mamãe levou essa desculpa a sério, mas deu certo. Ela simplesmente disse “ah, tá” e saiu apressadamente em busca do que veio pegar.

Foi uma desculpa estúpida, não vou negar, e facilmente desmentível, ainda mais em cidade pequena. Dois dias depois, mamãe falou com uma vizinha que ficou sabendo que sua filha mais nova estava namorando, e então ela tocou no assunto como forma de orientar que a filha dela tivesse cautela com namoros precoces. Resultado: mamãe chegou em mim possessa dizendo que eu menti e que nenhuma garota tinha sido assassinada na cidade e muito menos na minha escola.

— Por que você mentiu? — ela me indagou, duramente.

— Uma garota me acusou de estar dando em cima do namorado dela.

— E ela teve motivos para achar isso?

— Claro que não, mãe! Eu não tenho nada a ver naquele idiota. Ele nem faz o meu tipo!

— Acho que está acontecendo mais do que você anda me falando.

Aquele meu lado mais valente reclamou uma revelação, mas eu não sabia como colocar a coisa toda em palavras simples. O medo do castigo, dos julgamentos, me imobilizou. Se mamãe soubesse que os boatos já tinham chegado ao ponto de dizer que eu tinha abortado um filho que nunca sequer esperei…

— Eu achei que você fosse acreditar nesse lance de eu querer roubar namorado dos outros, por isso não disse nada – menti.

— Filha, eu sempre te disse quando pequena e torno a repetir: se alguém te fizer alguma coisa, qualquer coisa que for, pelos piores motivos que você jamais queira me contar, apenas me conte. Com qualquer segredo seu, nós nos vemos mais tarde. Mas é prioridade minha, como sua mãe, saber se alguém está te perseguindo ou te prejudicando de qualquer maneira.

Tive vontade de chorar, mas me segurei para sustentar meu segredo. Mamãe prosseguiu:

— Eu não quero filha minha sendo vítima de bullying, Annie. Olha, eu vou te contar uma história. Quando eu namorei com o primeiro cara com quem eu fiquei de verdade, uma pessoa que até então eu achava que era da minha confiança ficou sabendo disso. Enfim, eu confidenciei a ela meu maior segredo e ela usou isso para me chantagear. Fazia joguinhos psicológicos, com indiretas, me colocava para fazer as tarefas e trabalhos dela, sabe? Me excluía e debochava de mim na rodinha de amigos e seu, avô, Annie, ele era muito conservador! Imagine como isso foi um terror para mim…! Sem mais alternativas, e depois de um ano e meio sofrendo com isso, eu finalmente contei tudo para sua avó. Então, ela preparou todo o terreno para que eu também pudesse confessar isso ao papai, e só assim eu pude ter paz. Lógico que ele não deixou passar em branco: disse que ficou aborrecido e temia que eu engravidasse, normal, coisa de pai. Ficou sem falar comigo uns dias, também. Mas, Annie, falar a verdade sempre foi o melhor caminho! Depois, as coisas se assentaram e meu namoro, que nem durou tanto assim, teve o fim que deveria ter. Mas quando eu me uni a outros namorados, já não enfrentei mais aquela pressão, entende? Hoje eu fico pensando: eu precisava mesmo ter sofrido tudo aquilo?

Inspirei fundo, e as lágrimas começaram a rolar. Virei o rosto para que ela não percebesse. Ajeitei o cabelo enquanto discretamente tentava enxugar uma lágrima. Chorei outras lágrimas por cima daquela.

— Não, mãe. Tranquilo. Não tem nada acontecendo, não. Essa idiota foi um caso isolado, não vai se repetir. É que ela nem me ouviu e já chegou batendo, aí eu perdi a cabeça!

— Está bem, filha. Não vá mais se sujar com essas confusões, está bem? Você é uma boa estudante, fez reputação em sala por isso, eu sempre ouço elogios dos seus professores nas reuniões! Sem falar do anjo que você está sendo agora com o Alfie, tentando se redimir por aquela brincadeira cruel no aniversário dele. E por falar nele…parece que ele volta a ficar com a gente a partir de amanhã.

— Sério?

Eu não sabia exprimir direito o que eu estava sentindo. Um parte minha estava feliz por ele estar bem; outra, preocupada que ele voltasse daquele jeito que estava antes de se internar.

(…)

Alfie veio para a minha casa na manhã do dia seguinte, exatamente como mamãe advertira. Pela sua cara logo que ficou a sós comigo, deu a entender que ele continuaria a agir do mesmo modo que antes. Diferente do Alfred desligado dos velhos tempos, eu também percebi que ele estava atento ao bullying de todos para comigo. Quando chegamos, a sala se dividiu em dois grupos: os que se preocuparam em rir discretamente e os que não fizeram a menor cerimônia e saíram gargalhando e apontando o dedo.

— Alfie, você não sabe o que a sua namoradinha andou aprontando na sua ausência! — comentaram os garotos, aos risos.

— “Namoradinha” seria a Annette? — Alfie perguntou, não manso e tímido como antigamente, mas claro e direto, com a altivez e seriedade de um professor.

Os garotos saíram gaguejando respostas do tipo “É, ela sempre está andando com você, e...”, mas ninguém conseguiu levar a ideia além – ficaram envergonhados. Qualquer pessoa com meia banda de cérebro era capaz de compreender que jamais seríamos namorados. Alfie falou justamente com o tom de quem subestimava a inteligência de quem estava espalhando isso.

Porém, a sós comigo, no intervalo, Alfie quis saber:

— Do que eles falavam em sala?

— Do que você aprontou ao entregar meu notebook a um desconhecido.

Ele se ajeitou na cadeira de rodas, sugerindo numa linguagem não verbal que ia, a partir de ali, me ouvir mais atentamente.

— Eu tirei umas fotos… mais ousadas.

Alfie olhou em volta para saber se não estava sendo ouvido e perguntou:

— Nudez?

Mordi os lábios, pensando que o Alfie de antigamente sairia dizendo essas coisas alto e sem nenhum filtro, como uma criança. Ele me encarou como se indagasse meus pensamentos. Respondi, com a voz embargada de raiva:

— Não. Fotos de sutiã e calcinha.

Ele cerrou os olhos e os apertou por um instante, como se eu tivesse dado a ele algum tipo de notícia trágica. De qualquer modo, em sua fisionomia eu não pude captar o menor arrependimento.

— O moderador daquele blog da escola fez montagens de fotos minhas com mulheres peladas de verdade, porque não acatei sua chantagem em mandar fotos minhas sem roupa! Agora, geral está acreditando que eu tive fotos nuas explanadas na web, Alfie! Eu acho que não preciso dizer quem é o culpado disso.

Assoei o nariz, pois prender o choro estava causando o acúmulo de secreções naquela região.

— Você deve estar muito feliz agora! Nossa! Conseguiu fazer da minha vida um inferno!

— E você já contou isso para sua mãe?

— Cara – eu quase gritei de impaciência, mas logo em seguida reprogramei o volume da voz: — Você é retardado? Minha mãe vai me matar se souber! Se eu estivesse mandando fotos para um namorado, ok! Mas minha mãe, primeiro: não conhece nenhum namorado meu; segundo: eu mandei para um cara da internet, e se eu mentir que mandei para um namorado ela vai querer saber quem é e vai querer acertar as contas com ele por ele ter me explanado!

— Você pode dizer que tirou as fotos e não mandou para ninguém, só deixou no note – ele disse simplesmente, encolhendo os ombros.

Inspirei profundamente de alívio. Era uma boa ideia, definitivamente era. Como eu explicaria, no entanto, o sumiço do notebook?

— É isso!… E eu posso falar que esqueci o meu note em algum lugar da escola, mas…

Alfie me encarou atentamente, aguardando a conclusão do raciocínio.

— Afff! Mamãe ia mandar olhar nas câmeras quem pegou. Isso ia ser péssimo, porque eu nunca ia ter como provar que…

— Os banheiros não têm câmeras.

Olha, eu vou ter que dizer que estava realmente impressionada com Alfie. Ele inventar histórias dentro de um tempo hábil era novidade.

— Eu vou organizar minhas ideias e contar tudo para ela em algum momento.

— Enquanto isso, você vai ficar vivendo assim?

Dei de ombros, tentando me desvencilhar do assunto.

— É melhor a gente contar isso para algum professor, para a conselheira estudantil ou para o diretor.

— Não sei se é uma boa ideia. Eles podem acabar me julgando, sempre culpam as meninas por isso.

— Você não vai saber se não tentar.

— Alfie, até parece que você não sabe como funcionam essas coisas de perseguição! Quantas vezes sua mãe veio aqui falar com autoridades escolares para pararem de te zoar? Pararam? Não! É porque o máximo que pode acontecer é obrigarem todo mundo a se calar diante dos poderosos daqui, mas veladamente, na surdina, eles seguem fazendo as mesmas coisas! A coisa só passa de escancarada para disfarçada, mas funciona igualzinho, do mesmo jeito! Não altera nada! Com a diferença de que vai ter professor, além de aluno, me chamando de puta quando não tiver ninguém vendo!

Sem me responder, Alfie ficou olhando para o nada com um semblante aborrecido.

— Eu só quero que você saiba, Alfie, que você é responsável por isso, nada disso estaria acontecendo se não fosse você, tá bom? Não tenta bancar o anjinho que quer ajudar só agora! O mal já está feito. Parabéns, você acabou com a minha vida com sucesso! — eu me levantei da mesa, exaltada, atraindo os olhares curiosos de todos. E aquela cambada de gente filha da puta que sempre maltratou o Alfie ficou me olhando com cara de censura por eu deixar ele sozinho no refeitório.

(…)

Passaram-se algumas horas e eu continuei assistindo às minhas aulas normalmente. Até que, na hora da saída, eu estava conduzindo a cadeira de Alfie para fora quando o professor, que eu notei, esperou todos irem embora, me chamou (eu sempre acabava ficando por último por causa dos cuidados que Alfie demandava para guardar seu material e não deixar nada para trás).

— Annette, posso falar com você um instante?

— Claro, Sr. McAllister. Em que posso ajudar?

— Bom, eu soube, não me pergunte com quem, das coisas que estão falando a seu respeito naquela página dos alunos do colégio.

— Ah… — eu falei, encarando Alfie – Acho que faço uma vaga ideia de quem contou isso.

— Então – o professor gaguejou um pouco antes de continuar – Ao que me parece, o responsável pelo site é um de nossos ex-alunos, logo, uma pessoa maior de idade. Você pode processá-lo por posse e distribuição de fotos íntimas suas, com o agravante de você ser menor de idade. Acho que sabe disso, não sabe?

— É, eu sei.

— E por que não fez nada a respeito ainda?

— Em primeiro lugar, eu não tenho foto íntima nenhuma espalhada na web. Aquele palhaço ficou sabendo de fotos sensuais, sabe?, fotos de sutiã e calcinha que garotas costumam tirar de si mesmas na frente do espelho... Eu esqueci meu notebook por aí – falei, olhando para Alfie – e dias depois ele entrou em contato comigo porque não sei como meu note foi parar as mãos dele. Eu já fiz até um dossiê disso num blog, postei prints do nosso diálogo e dele tentando me chantagear, mas agora o estrago à minha reputação já foi feito, e quer saber? Eu acho isso até bom.

— Bom??? Como pode dizer isso?

— Eu sei do que estou falando! Isso serviu para revelar que eu não tenho amigo nenhum nesta escola! Minha versão já passou pelo computador de todos os alunos daqui, até porque o mesmo idiota que fez montagens pornográficas com fotos minhas, fez questão de divulgar o link do Tumblr que eu criei contando tudo e criou uma tréplica desacreditando minha história! Fora isso, eu mesma já postei esse link exaustivamente no meu Twitter, mas mesmo assim todo mundo comprou a versão daquele panaca! Podem mandar prendê-lo e fazer com ele o que quiserem, o mal já está feito. Ninguém vai conseguir prender uma escola toda, professor, porque é todo mundo aqui que está me chamando de puta pelos corredores!

Me desculpei rapidamente assim que vi sua reação chocada à palavra “puta”.

— Além do mais esse cara, seja lá quem for, não obrigou ninguém a fazer isso! Estão sendo escrotos comigo de livre e espontânea vontade!

— Sua hesitação é sobre contar isso aos seus pais? Você sabe que em algum momento isso vai ter que chegar ao conhecimento deles, não sabe?

— Nem pensar! Pode tratar de deixar isso para lá. Eu me viro. Daqui a pouco, estarão falando de outra coisa.

Mas, diferente do que eu pensava, o professor McAllister não deixou para lá. No dia seguinte, eu estava no meio de um debate em sala quando o secretário da escola apareceu dizendo que eu precisava ir até a diretoria. Os alunos em volta vaiaram, achando que eu deveria ficar preocupada, e não eles. A professora pediu silêncio, e assim pude me retirar debaixo de cochichos mais discretos.

Lá chegando, bati à porta do diretor duas vezes e escutei aquele comando clichê que todo aluno que está na pior ouve nessas condições: “Entre”. Entrei e me sentei, pois ele gesticulou no sentido de me dar esse comando.

— Boa tarde, me disseram que o senhor gostaria de falar comigo.

— Sim, temos algo importante a tratar – eu já não gostei do tom dele – Mas acho que você pode me dizer o que está acontecendo melhor do que eu.

Franzi o cenho e comprimi os lábios, tentando pensar em algo não tão estourado para dizer.

— Eu estou sendo exposta a algum tipo de interrogatório? — indaguei, para aclarar logo as coisas.

— Entenda como quiser.

— Como assim, “entenda como quiser”? Do que estamos falando, afinal? Diz aí.

— Estamos falando disto – ele virou o computador para mim e expôs uma foto salva, eu percebi, na galeria do seu computador, nem na internet aquilo estava – e de como sua conduta fora deste colégio pode causar danos à imagem de toda a instituição!

Eu imagino que fiquei com cara de idiota, a boca aberta e os punhos fechados por uns dez segundos antes de conseguir fazer minha voz esmagada de ódio dizer o seguinte:

— Você tá de brincadeira, né?

— Tem certeza de que é você que pode falar nestes termos?

— O quê?

— Você sabe o quanto esta escola secundária tem trabalhado, ano após ano, para conservar uma reputação ilibada, à altura da comunidade onde está inserida? O que acha que dirão a respeito da gestão deste colégio se uma de nossas alunas aparece dessa forma na internet?

— Primeiro: essa foto não é minha, isso é uma montagem! Depois...

— Poupe-se – disse o diretor, estendendo a palma da mão para mim – Eu já conheço de A a Z sua historinha, e ela não me convence nem um pouco! Já li a sua versão e já li a versão do moderador do site, também. E me dei o trabalho de fazer isso justamente para não cometer injustiça alguma!

— Ainda que essa foto falsa fosse minha de verdade – desafinei o tom da voz de tanta raiva, impotência e ódio – o fato é: um cara maior de idade pegou as fotos eróticas de uma garota de 16 anos e postou na rede! É isso que tem que ser avaliado! Como eu me comporto, o que eu faço ou deixo de fazer não tem nada a ver com o assunto!

— Ora menina, não me venha com essa! Ele teve acesso a e-mails onde você mesma mandou essas imagens a um contato da internet, que por sinal você também sabia que se tratava de uma pessoa maior de idade! Sua preocupação não parece ser com crimes cibernéticos, nem atentados à própria reputação!

— Será que você não entendeu que o corpo é meu e eu mostro para quem eu quiser? “Reputação”? Isso daqui não é o século XVIII não, senhor!

— Discursinho feminista. Típico. Era o que estava faltando! Você fez as fotos e você as sujeitou ao risco de exposição! Do que está se queixando agora? E por que está envolvendo a escola nisso, por algo que aconteceu lá fora? A responsabilidade é toda sua!

— Cara! — eu ri de raiva, é sério – Eu não me queixei disso para professor nenhum! Quem veio me procurar para falar desse assunto foi o Sr. McAllister, eu não fui atrás de ninguém! Foi ele que veio te contar isso, não foi??

— De qualquer modo, os resultados disso – ele clicou uma tecla qualquer do seu note para que a tela, que já tinha entrado em modo de descanso, mostrasse aquela montagem nojenta de novo – respingarão em nós! E você deve estar bem ciente disso, antes de tomarmos as medidas cabíveis!

— Que medidas? Me expulsar? Me suspender de novo? Que medidas são essas?

— Eu não gosto do seu tom, menina!

— E acha que eu estou gostando do seu? — eu me levantei da cadeira, pois sentia que ele queria me intimidar – Eu sou a vítima dessa história, e você quer me tratar como se eu fosse uma criminosa!

— Vítimas seremos nós, enquanto escola, se isso se espalhar para fora dos portões desta instituição!

— Eu não me importo com a porcaria desse lugar, e sabe por quê? Porque, enquanto escola, vocês não fizeram nada por mim! Não me deram a menor proteção!

— “Proteção” não é algo que se dá a pessoas do seu nível! Aliás, é o contrário, é mais fácil as pessoas terem que se proteger de você!!

— O senhor está se dando conta dos absurdos que está dizendo?

— Não há absurdo nenhum em afirmar que você é uma má influência! E que comportamentos como o seu são inadmissíveis em qualquer escola séria!

— Pensei que o que eu tivesse feito fosse “fora das dependências da escola”, foi o que você me disse quando me botou para assumir a completa responsabilidade do que estão fazendo comigo! — respondi, com firmeza.

A ira estava me dando forças. Por pior e mais revoltada que eu estivesse, eu não ia dar àquele porco a oportunidade de me ver chorando.

— E digo mais – completei, ao vê-lo querer se levantar da sua cadeira, novamente para me intimidar – Eu como menor de idade posso ter sido inconsequente, vulgar, você pode me chamar do que quiser nesse seu vocabulário de conservador arcaico ai — “mas é um absurdo!”, ele exclamou, querendo me cortar, eu não deixei – Posso ter mandado fotos ousadas a um adulto, como você falou! Mas eu consenti isso, mandei porque quis, para um cara que eu confio! Praticamente um namorado meu, se quer saber!

— Pelo que já me falaram, todo mundo namora com você aqui!

— Não te interessa! — bradei, e ele começou a discar uns números no telefone dele para chamar alguém e me arrancar dali, provavelmente. Tomei o telefone de sua mão e o bati no gancho. Nem sei de onde eu tirei coragem.

— Você vai sair daqui agora! — ele anunciou aos gritos, querendo encontrar a saída. Barrei sua passagem.

— Não! Agora você vai me ouvir! — gritei mais alto ainda — Eu enviei de fato minhas fotos para um cara, mas eu consenti que elas fossem para um cara, não para a internet inteira! Eu, como menor de idade, posso no máximo sair daqui e levar uma bronca da minha mãe, ficar de castigo e não poder ver TV e acessar a internet por umas semanas ou meses, mas quem está fazendo isso comigo merece ir para a cadeia! E o senhor, se eu contar por aí o seu papel omisso em tudo isso que está acontecendo, pode perder o seu cargo e até sua carreira toda!

Ele me olhou com cara de abismado, eu não liguei. Prossegui:

— Não pense que está falando com alguém que não sabe se defender! Você não quer fazer nada? Ótimo, não faça! Mas não venha me chamar aqui para me dar liçãozinha de moral achando que eu vou baixar a cabeça ou me convencer de que a culpada sou eu! Você é a autoridade máxima deste lugar, deveria estar levantando a bunda daí e prestando melhor atenção nos seus alunos, para que nenhum deles tivesse que passar pelo que eu estou passando! Eu estou levando na boa porque eu sou eu! Mas, e se eu fosse uma suicida em potencial, não ia ser um escândalo maior para a escola ter uma garota morta de tanto sofrer bullying aqui?

Eu tomei o caminho da saída, mas ele tentou agarrar meu braço (eu o desviei de seu alcance antes que ele conseguisse) e eu tenho certeza de que escutei um “Espere, o que você vai fazer?”. Nem esperei ele concluir o raciocínio. Disse apenas, apontando o dedo em sua cara:

— Eu não tenho mais nada para falar com você! E se quiser mandar chamar minha mãe, chama! Pode chamar! Ela é duas vezes pior do que eu!

(…)

Quando saí da sala do diretor, vi pessoas plantadas ao longo do corredor todo. Eu já estava entendendo mais ou menos como funcionava a dinâmica dessas calúnias, e imaginei que isso fosse render para além dali. Não errei: quando fui até o meu armário guardar meus livros para sair, vi uma garota falando com a outra:

— Você viu o escândalo que a Annie das fotos deu na sala do diretor?

É isso que eu tinha me tornado: a “Annie das Fotos”.

— Não, o que aconteceu?

— Estão falando que eles dois têm um caso!

— Séééério? Me conta tudo!

— Escuta, vocês duas não têm o que fazer não? — eu as interrompi. Quase sorri internamente ao ver que elas ficaram da cor das folhas do meu caderno – Antes de ficarem espalhando histórias maldosas sem cabimento, que tal averiguar se o que estão repassando é verdade ou não?

Elas ficaram em silêncio, se entreolhando. Uma delas tomou o braço da outra e as duas se distanciaram de mim, andando do lado oposto ao meu no corredor. Eu as persegui e agarrei no braço de uma delas.

— Ai! Me solta, garota!

— Sabe o que eu estava fazendo na sala do diretor? — perguntei a ela e esperei que a menina respondesse, o que não aconteceu. A outra quis agarrar minha mão e arrancá-la de sua amiga, mas eu estapeei seu braço antes que ela me segurasse – Eu fui justamente lutar pelos direitos de garotas como nós, para que nenhuma de vocês tenha que escutar os delírios machistas de um velho caduco que sequer entende como funciona a vida virtual de uma garota jovem moderna!

— “Jovem moderna”, olha o nome que ela dá para “vadia que manda fotos pelada para pedófilos da internet”!

Sorri, com asco daquela fedelha. É uma expressão contraditória, mas reflete exatamente o que aconteceu.

— Vocês vão se ferrar em algum momento, por isso eu não vou esquentar a cabeça – disse, cerrando os dentes.

— Eu? Eu não, tá doida? Com o seu exemplo, eu duvido que qualquer garota vá ser idiota de cometer o mesmo vacilo!

— Você, suas irmãs, suas amigas, sempre vai ter alguma mulher que você conhece para passar pela mesma coisa! Mas sabe da maior? Dane-se! Vocês vão ter a merda que merecem no momento certo, porque na hora que poderiam defender uma de vocês, me deram as costas!

— Vá se foder, vadia! Está na pior e agora fica rogando praga para os outros!

— É, hoje, a vadia sou eu! Amanhã, pode ser qualquer uma de vocês!

Minhas palavras foram proféticas. No dia seguinte, tive uma surpresa: eu, que há muito tempo não falava com Susanna, Richelle e as outras meninas, de repente fui abordada por elas porque elas faziam questão de me revelar, em primeira mão, a novidade: uma tal de Brenda, do terceiro ano, foi gravada pelo namorado fazendo sexo e o vídeo vazou. Nem preciso dizer que isso ofuscou totalmente meu escândalo com as fotografias.

— Você só posou para fotos, mas essa fez muito pior, se deixou gravar transando! Ai-meu-Deus! Quem é louca de fazer uma coisa dessas? — Richele perguntou, revertendo toda sua lógica de censura das últimas semanas.

— Parece que ela queria terminar o namoro há meses, mas ele estava chantageando ela com os vídeos! Que menina burra! Como você se deixa gravar se não sabe nem se vai ficar com o cara? — Susanna acrescentou.

— E mesmo que fique, olha o caso da Annie: ela esqueceu o notebook na escola e alguém catou! Com essas coisas, não se pode dar mancada, não! — sentenciou Munich.

Eu fiquei meneando a cabeça, sem saber o que dizer diante da quantidade de absurdos que eu estava ouvindo. Eu sabia exatamente o que a tal Brenda estava sofrendo… Minto, eu nunca ia saber, o caso dela era infinitamente pior: traída pelo ex-namorado, julgada pelas amigas, rechaçada pela diretoria, envergonhada para sempre perante a sociedade... Só que, eu não sei como explicar, deixar que as meninas falassem mal dessa garota que eu nem conhecia perto de mim me reaproximou delas. Blindada novamente por um grupo, ninguém mais se atrevia a falar sobre as fotos, pelo menos não na minha frente. E ter alguém “pior do que eu” tirou dos meus ombros o peso de ser a garota mais mal falada da escola. Eu estava aliviada. Eu também estava me sentindo culpada por não dizer nada, por não tomar partido dessa pobre Brenda que deveria estar passando o inferno dos infernos, mas mesmo assim conseguia me ver feliz com o fim do meu fardo. Esse sentimento dúbio de tristeza e felicidade marcou minha reconciliação com aquelas que foram, durante os últimos cinco ou seis anos, as mais próximas companheiras que eu tinha.

E, como fiz a minha vida toda, apenas me deixei levar pelo lado vencedor. Pelo menos, não era mais eu.