Best Friends
10 Chapter Nine: Happy Birthday, Ann!
Durante os dias que se seguiram, notei que quando eu chegava em um lugar, todos se calavam. Quase achei que estava recomeçando uma nova onda de bullying, quando Richelle e Susanna me chamaram de canto e disseram:
— Não querem falar perto de você porque estão te organizando uma festa de aniversário surpresa, mas não vai dar a entender que já sabe!
Elas me deixaram a par do dia que a festa se realizaria, e me deram a sugestão de que eu usasse a minha melhor roupa. Como meu aniversário de 17 anos cairia no fim de semana, eles fariam a festa dois dias antes, na sexta-feira. Alfie, ou não estava participando dessa combinação toda ou estava fingindo muito bem; fato é que, se eu me baseasse nele para ter noção de que qualquer coisa estava acontecendo, estaria perdida.
Com um dinheiro que minha mãe tinha dado e eu estava guardando justamente para me dar um presente no dia do meu aniversário, comprei uma blusa preta com uma linda estampa prateada. Ela tinha um detalhe trançado no decote, mangas caídas que iam até a metade superior do braço e era bem justa na cintura. Tinha um estilo meio rocker. Eu já conseguia imaginar as fotos que tiraria com ela – ou melhor, eu ia ter que contar com a caridade das meninas para ter minhas fotos, já que Alfie tinha estragado minha câmera nova e meu equipamento antigo estava com a bateria viciada.
Aparentemente, o tratamento de todos para comigo deixou de ter aquele tom sarcástico e cético. Quando revelei os detalhes dos meus últimos meses ao lado de Alfie, eu passei a ser vista como uma vítima, e ele, como alguém vingativo, maquiavélico e manipulador. Ninguém duvidava mais de que eu era inocente na questão das fotos nuas – Alfie passou a ser visto até mesmo como a pessoa por trás das montagens, sendo que seu conhecimento em informática mal consistia em saber ligar um computador e abrir o Paint para fazer seus rabiscos horríveis. Mas eu também não me importava em justificá-lo, o importante era meu nome sair da fogueira.
Quando eu entrava com ele em sala, todos demonstravam o pesar por mim, por eu ter que sustentar aquela amizade inconveniente por pressão de nossas mães. As garotas imediatamente me chamavam a pretexto de alguma coisa e me faziam ficar ao lado delas pelo resto da aula, literalmente como se quisessem me “salvar” dele. Eu me sentia assistida e confortada por essa atenção. Os vícios da popularidade nunca iam sair do meu caráter, ou pelo menos era assim que eu pensava.
(…)
Chegada a tal sexta-feira de comemoração do meu aniversário, eu me vesti com a blusa preta que mencionei antes e fiz cachos no cabelo com um babyliss. Na falta de uma calça nova, usei a mais limpa e bem conservada. Avaliei meu estado umas duas vezes no espelho antes de sair. Eu estava maravilhosa.
Quando vi Alfie no meio da minha sala parado com aquela cadeira de rodas, meu sorriso desapareceu. Eu usei uma base pesada para esconder qualquer imperfeição da minha pele e tinha me esquecido completamente de que o levaria até o ponto de ônibus, ou seja, o esforço de empurrá-lo ia acabar com meu trabalho todo.
— Oi – falei, sem esconder o desânimo.
Ele deu mais uma vez aquele arremedo de sorriso dele. Cara, como eu o odiava quando ele fazia essa expressão!
— Vamos? — convidei, como se ele tivesse alguma escolha.
Coloquei minha mochila sobre seu colo como fazia sempre e seguimos o caminho até a parada. Ele não deu um pio sobre a festa, o que me levou a crer que de fato não sabia dela.
Antes de entrar em sala, tentei olhar através do vidro da porta se já tinha algo pronto. Eu adoraria que não tivesse aula e tirássemos o dia todo para comemorarmos meu aniversário, mas pelo silêncio que imperava em sala e pela falta de decoração temática, eu pude perceber que teríamos aula pelo menos até uma certa parte do dia e depois, talvez sim, uma festa acontecesse. Isto é, se as meninas não estivessem mentindo para mim só para ver minha cara de frustrada. Apesar de minha relação com elas ter melhorado muito nas últimas semanas, eu que não colocava a mão no fogo por elas: uma vez elas tendo a chance de me humilhar novamente, não duvido que o fariam.
Assim sendo, dei uns passos para dentro e fui para o meu lugar como se aquele dia fosse apenas mais uma data comum. Transcorreram algumas aulas e eu já estava ficando desanimada: a festa seria no segundo tempo? Terceiro tempo? Quarto tempo? Na aula final? Para mim, não tinha graça que estudássemos normal o dia todo e no finzinho fizéssemos uma confraternização, mas esperei pacientemente aula a aula. Até uma prova aconteceu normalmente, e eu acho que minha ansiedade me fez ter um péssimo resultado. Após a avaliação, Richelle e eu fomos para fora de sala esperar que os demais a terminassem e eu fiquei meio que “quando isso vai ser mesmo?”. Eu já não tinha clima nenhum quando o último aluno saiu. Richelle me apontou discretamente que todo mundo que fazia a prova dava uma volta como se estivesse indo embora, mas na verdade estavam todos indo para a biblioteca.
— A gente combinou que eu te distrairia, então a gente tem que fingir que vai fazer alguma coisa, tipo fofocar no refeitório, depois eu te levo para a sala.
Fiquei conversando aleatoriedades com ela e tentando o mínimo possível dar a entender que estava ansiosa com a festa, embora meu olhar constante na direção da porta de sala me desmentisse. Imaginei que Richelle pudesse – olha meu estado de paranoia – me gravar perguntando sobre a celebração para depois espalhar por aí quando, de fato, nada acontecesse. Mas então eu vi aluno a aluno devagar levar sacolas coloridas com cartazes e lembrancinhas, centos de salgados, uma travessa com um bolo maravilhoso e outros itens de festa. Richelle fez um sinal discreto para os outros quando terminaram de levar tudo e enfim me chamou.
— Está na hora – ela disse.
Meu coração galopava no peito de expectativa.
— Eu saí de sala quando terminei a prova – comentei – Mas o que vocês fizeram com o Alfie, que deve ter terminado muito mais tarde? Ele está sabendo da festa?
— Sim, está. Disse a todos que quer um espaço para preparar alguma homenagem para você. Imagino que vai declamar alguma poesia de amor em sua homenagem, ou sacar aquele pinto pequeno dele para fora e bater uma na frente de todo mundo!
— Que horror!
— Vindo dele, imagino qualquer vexame! Meu Deus, esse moleque não tem noção! Alguém tinha que matar ele!
Sorri, não de seu comentário, mas por imaginar que Alfie também estava preparando algo para mim. Isso quase me fez sentir culpa pelo meu pensamento de mais cedo, o de ficar contrariada em trazê-lo. O que ele iria me preparar? Seria um jogral, um recital ou um presente especial? Com o padrasto rico que ele tinha agora, com certeza poderia me dar algo muito bom, quem sabe até uma câmera nova no lugar da que estragou! Estava torcendo para que ele não fizesse nada constrangedor que pudesse me envergonhar. Aliás, estava mais rezando por isso do que estava rezando antes para a festa em si acontecer.
Entramos em sala e, como eu imaginei, começaram a aplaudir e cantar parabéns. As mesmas pessoas que riram de mim pelos corredores por uns dois meses agora batiam palmas, me jogavam confetes e tomavam minha mão afetuosamente, para eu me sentar numa carteira ornamentada de flores, fitas e glitter. Tentei tirar essas ideias ressentidas da mente e pensar exclusivamente no que tinham preparado para mim, mas a verdade era uma só: eu estava preocupada que após toda aquela pompa e regalo viessem novos episódios de bullying, como enfiar a minha cara no bolo, rasgar minha roupa e me jogar para fora da sala nua, eu não sei. Pelo que andava acontecendo com Brenda, a garota que foi filmada transando, eu podia esperar tudo das pessoas que estavam ali. Esses eram os meus “amigos”.
(…)
Vários minutos se passaram e apesar de nada de anormal acontecer, estava me incomodando aquela tensão invisível entre cada um dos convivas daquela festa estranha onde claramente todo mundo odiava ou desejava ver pelas costas a aniversariante. Em vez de homenageada, eu me sentia caçoada por todos. Tudo parecia falso, ou meus traumas me faziam ver as coisas desse modo. Richelle, especialmente, queria tirar fotos de tudo, falar antes de todos, quando uma pessoa falava ela queria completar o que a pessoa dizia, sabe quando a pessoa não parece espontânea? Mas ela estava tão feliz e querendo tomar parte de tudo, a festa parecia tão mais dela do que minha, que eu deixei para lá. Até porque ela fez questão de dizer a todos que foi a cabeça por trás do empreendimento, então deixei ela curtir seu momento como promoter.
Teve lá também uns professores que se abateram das salas onde estavam dando suas aulas para dar uma bicada no meu bolo, e entre gente que queria um pouco para si e gente que ia levar para os colegas, o bolo, que era imenso, chegou a menos da metade. Foi quando ele chegou a esse ponto que eu me dei conta de que nem tinha sido convidada a cortar uma fatia e dedicar ela a alguém.
De qualquer modo, minha maquiagem estava perfeita demais para eu arruinar ela comendo. Nem tinha almoçado, apenas chupado umas balinhas para enganar a fome, e retocar o batom não parecia uma boa ideia. Tirei fotos que, pelo que eu vi nas prévias da telinha da câmera digital de Richelle, Susanna, Munich e outras meninas, ficaram ótimas. Todas elas, até aquelas com quem eu não era muito chegada, quiseram colar em mim para tirar fotos, em dupla ou coletivas, eu achei até estranho que eu fosse ainda tão popular assim. Para todas, disse algo do tipo: “Adiciona lá no Orkut, que depois eu salvo para mim!” e eu realmente queria todas as imagens possíveis para recordar esse dia. Desejava essas fotos da mesma forma que mamãe tinha as dela e me apontava seus registros do colegial para dizer: “Veja, é sua mãe e essas as amigas dela.” E eu me sentia honrada de ser muito mais bonita do que mamãe foi em sua época de adolescente. Richelle também era mais bonita do que D. Melissa. Éramos o grupo de amigas que todo mundo da escola queria ser: bonitas e populares. Ia ser gratificante lembrar disso. A transição da escola para a vida profissional arranca num tapa a soberania de garotas como eu.
(...)
Teve uma hora que eu disse que não ia mais tirar foto com ninguém, que chega, eu ia me esbaldar nos alimentos. Todo mundo já estava farto de fotos, os meninos que não ligam para essas coisas principalmente, e todos já tinham uma ou mais poses comigo, quer dizer, quase todos: Alfie não estava no meio dessas pessoas. Sabendo que ele estava preparando algo para mim, eu me aproximei dele e perguntei:
— Quer tirar uma foto comigo antes de eu atacar esse bolo e estragar minha maquiagem toda?
Alfie me encarou como se eu fosse uma estranha. Consegui me arrepender imediatamente da pergunta que fiz, ao passo que ele me surpreendeu com sua resposta:
— Vamos.
Não foi um “vamos” tipo “Nossa, como estou exultante!”, mas também não foi indiferente. Ele parecia comedido, eu diria até ressentido. Sentia nas entrelinhas da fala dele algo como: “Agora que você tirou fotos com todos, vem procurar por mim?”, mas tudo isso debaixo de um sorriso simpático forçado.
Chamei alguém para bater a foto, e esse alguém foi ninguém menos que Daniel. Posei me recostando na cadeira de Alfie de um modo que minhas curvas ficassem bem acentuadas. Sensualizei mesmo. Alfie, de cabeça erguida e mãos no colo como se estivesse posando para um anuário escolar, olhava para a frente, sem interagir comigo. Mas eu estava com os olhos fixos em Daniel, então o que quer que ele estivesse fazendo, não me importava. Pelo sorriso que trocamos, meu novo crush parecia ter gostado do que viu.
— Fiz só uma! Tinha feito outra, mas você se mexeu no instante final!
— É o bastante – tomei a câmera de sua mão e a entreguei à dona, Richelle.
Trocamos um sorriso. Como ele não parava de me encarar, baixei os olhos, com timidez.
— Fico aliviado que você e o Alfie tenham voltado a se falar – disse ele, olhando para a cadeira de Alfie, que já rolava alguns metros além.
— Pois é, a gente briga feio mas logo se reconcilia – dei de ombros, nervosa, sem entender se ele estava feliz com essa suposta reconciliação mesmo ou se estava sendo irônico.
— No final de semana, eu vou revelar todas essas fotos lá no meu tio, que tem estúdio! — escutei Richelle dizer.
— Sério mesmo que você pediu para tirar uma foto com o perdedor? — Munich pegou a câmera de Richelle e fez essa pergunta como se me convidasse a eu me juntar a elas. Daniel sinalizou com os olhos e a cabeça que eu acompanhasse minhas amigas enquanto ele ia embora se juntar aos garotos novamente.
— Sua idiota! — falei – Pare de falar assim do Alfie perto do Daniel! Não reparou ainda o que está prestes a acontecer?
As meninas boquiabriram-se, surpresas.
— É isso mesmo que vocês estão pensando! E, diferente dos outros bad boys da sala – segredei, quase sussurrando – ele parece se importar com o bem estar de Alfie. Por isso, pelo menos na frente dele, não falem mal do Alfie para mim. Ele vai achar que eu concordo com o que vocês dizem!
— E não concorda?
— Ele não precisa saber, né?
Elas estouraram uma gargalhada.
— Rapaz, a Annie é rápida como uma flecha! — Richelle estendeu a mão para Munich bater, e as duas encostaram as palmas, em sinal de concordância.
— Ei, ei, ei, o que está acontecendo, que eu ainda não fui atualizada? — Hellen, uma das minhas amigas mais distantes, se sentou entre nós.
— Annie vai investir no gostosão do Daniel, esse é o resumo! — Munich atalhou.
— Também não é assim! Pare com isso, ele está olhando para cá! – falei, apreensiva, sobre Daniel.
— Mostra como ficaram as minhas fotos? — Hellen estendeu a mão para pegar a câmera que estava com Munich.
Munich passou a câmera para ela e, mal abriu a pasta de fotografias, ela disse, surpresa:
— Gente!… Este daqui é mesmo o Alfred, aquele Alfred?
— Oi? Do que está falando? – indagamos, curiosas.
— Cara, eu não sou chegada no perna-de-rodas, mas nessa foto ele tá gatíssimo!
Richelle tomou a câmera da mão dela e observou a imagem. Ela, que era crítica mordaz do Alfie, não disse uma palavra.
— Cadê? — Susanna, cética, também quis ver a foto. Sua reação, ou falta dela, se assemelhou à de Richelle.
— Vocês estão brincando? – Munich pegou a câmera de volta. Como as duas garotas anteriores, fez um silêncio reverente após observar por um espaço de quase um minuto a foto tão comentada.
— Mostra? — pedi, sem acreditar que elas agiam a sério.
Quando peguei a câmera para ver a imagem, o rosto ampliado do meu melhor amigo se revelava diante dos meus olhos. Alfie – e essa era a primeira foto dele que eu via dessa forma – fitava a câmera diretamente. Tinha o semblante e a postura rígida, firme, ereta; não os olhos baixos, o sorriso tolo e as costas arqueadas de antigamente. Sua expressão não era mais a de um adolescente tímido, e sim a de um adulto no sentido mais absoluto da palavra. Esse envelhecimento de alma causou nos seus traços quase infantis grande impacto. A boca fechada em linha reta, o queixo erguido, o cabelo bem penteado, mas sem exageros, o nó da gravata centralizado, a posição simétrica dos ombros, as sobrancelhas arqueadas, o olhar confiante, duro e certeiro, suas mãos delicadas tão calculadamente dispostas sobre o colo davam a ele ares de membro de alguma família imperial; se não tivesse sido tirada por um estudante secundário em um momento de descontração, eu pensaria ter visto aquela imagem em algum livro de história. Combinado ao alinho e riqueza de suas roupas novas, era como se ele estivesse posando para um fotógrafo profissional, ou um pintor de tela. Daniel que deveria ser muito bom no que fazia, porque aquilo não parecia ser proposital. A pessoa naquela foto definitivamente não era meu amigo Alfred de todos os dias, com certeza não.
E lá estava eu plantada ao seu lado: quadril quebrado para o lado, ombros mal posicionados, cabelo ondulado artificialmente, umbigo à mostra e carão sexy, parecendo vulgar, ridícula e patética. Mesmo que eternamente envergonhada por esse contraste, hoje admito que gostaria de ter aquela foto comigo.
— Ah, não! Quero ver isso de perto! — Hellen disse, e sob assobios e comentários de incentivo de todas as meninas, ela foi rebolando na direção de Alfie.
Antes de realmente chegar perto dele, ela deu uma piscadinha para nós e de uma forma bem teatral e exagerada o cutucou, como se representasse um ato infantil. Tunc-tunc, ela o tocou duas vezes com o indicador no ombro. Alfie, que estava de costas, voltou-se para ela. Estranhando essa aproximação, ele olhou em volta, talvez por acreditar que Hellen estivesse querendo transmitir o recado de alguém.
— Pode me emprestar seus óculos um instante?
Alfie olhou para ela e para nós, que contínhamos o riso, já sabendo que estávamos lhe pregando uma peça. Ele recuou a cadeira, querendo se afastar, ao que Richelle, que foi lá dar um suporte no bullying, segurou os pegadores de sua cadeira de rodas e falou algo como “na-na-na-na-não”, não deu para escutar muito bem, apenas ver o movimento de seus lábios. Eu já estava começando a me preocupar com o que aquelas duas malucas iam aprontar. Munich e Susanna também se levantaram e foram para lá, saltitando e rindo. Eu as acompanhei em passos receosos que externavam a minha preocupação, mas, de qualquer modo, não queria tomar muito partido dele ou interpretariam minha intervenção como ciúme.
— Tire os óculos, Alfie! Prometo que não irei quebrá-los – Hellen insistiu, fazendo biquinho.
— É, tira! Você nem precisa entregar para ela. Se você quiser, pode você mesmo segurá-lo! — Munich quis negociar.
— O que estão tramando? — ele perguntou, desconfiado.
— Só queremos ver você melhor – Munich imitou em seguida um lobo, fazendo alusão à frase clássica do livro Chapeuzinho Vermelho.
Todas as garotas riram dessa referência, inclusive eu.
— Essa foi podre! — gargalhou Susanna, muito tempo depois de nós todas já termos terminado de rir.
— Pare de rir, sua doida! — Munich, a autora da piada, a repreendeu com um tapa no braço.
— Sabe qual é? — Richelle falou por trás de Alfie, em seu ouvido – é que a Hellen te achou bonitinho na foto, e quer ver se isso é verdade olhando beeeeem de perto!
— Até parece que foi só eu! — Hellen rebateu.
— Você também babou, que eu vi! — acusou Susanna, apontando para Richelle.
— Ah, cala sua boca, sua ordinária! — Richelle ficou realmente ofendida, e isso resultou numa crise de risos geral.
— Mostra seu rostinho aí, Alfie! — as meninas mendigaram, sem reservas. — Mostra! Mostra!
— Aproveita seus quinze minutos de fama, porque depois que essas daí virarem a cara para você, você nunca mais vai ter outra chance! — um dos garotos, que acompanhou a zoação desde o começo, se manifestou.
— E quem disse que eu…? – Alfie quis avançar, recuar, ir para o lado, não adiantou: estava cercado de todos os lados. Ainda assim, reuniu toda a coragem que tinha nessas palavras: – Saiam da minha frente, me deixem em paz!
Ele tentou pegar nos aros condutores das rodas de sua cadeira, mas não teve chance. Munich agarrou seu pulso direito, Susanna o esquerdo, e Hellen, não sem fazer caras e bocas sensuais antes, arrancou seus óculos. Sem querer olhar para ela, Alfred tinha a cara virada para o lado, e seus olhos perdidos de míope encaravam o chão. Isso não foi trabalho nenhum para Hellen, que tomou o rosto dele por entre as mãos e, erguendo sua cabeça e o apresentando a cada uma das meninas, perguntou:
— E aí, que tal?
— Uma pena que é burro que dói! – Susanna até tentou fazer um comentário ofensivo, mas não soou convincente.
— Burro e agora inválido – acrescentei, numa tentativa de tornar Alfie menos atraente para elas (?), realmente não sei o que eu pensei na hora.
— Dá até raiva de pensar que ficamos tanto tempo sem olhar para isso! – riu Hellen.
Mesmo sem querer admitir, as outras meninas pareceram concordar, mas nenhuma estava animada a externar isso em palavras.
— E aí? Será que burros inválidos sabem beijar bem? — Hellen se sentou no colo de Alfie, arrancando grande comoção da ala masculina, que exclamou palavrões e riu de espanto e hilaridade.
Ela, que adorava destaque, achou ali uma rica fonte para obter a atenção que desejava.
— Hoje o Alfie tá com sorte! — berrou Alex, um dos garotos, referindo-se ao fato de Hellen ser uma das garotas mais bonitas da sala. Aliás, todas que estavam cercando ele ali eram.
— Isso é nojento! – Richelle meneou a cabeça, mas seus olhos prontos a capturar qualquer coisa que acontecesse denotavam que ela estava pensando o contrário do que dizia – Você não vai beijar esse fracassado na minha frente! Nós sequer trouxemos bebidas alcoólicas para você dizer que estava bêbada!
Hellen respondeu o comentário com uma risada.
— Você passou do limite do grotesco, saia daí – eu a puxei pelo braço, levantando-a de cima do meu amigo.
Aos risos, ela disparou:
— Qual é! Está com medo de ele esquecer da paixãozinha que tem por você nos meus braços, Annie?
— Você é a porra de uma vadia — falei para Hellen muito séria, mas acho que ela entendeu que eu estava brincando, ou não teria se afastado de Alfie rindo como fez.
— Você tem também que perguntar ao Alfie se ele quer ser beijado por você! — Susanna acrescentou — Ele pode não querer!
— É, Hellen! Poder de consentimento! — Munich disse, de um jeito sarcástico.
— Ah, fala sério! Um cabaço desses, resistir à oportunidade de beijar uma garota? É o sonho de qualquer punheteiro com o mínimo de bom senso! — Hellen, se aproximando do meu amigo e afagando os ombros dele como se estivesse fazendo massagem, se defendeu — Não é como se eu estivesse abusando dele!
Alfie, se desviando dela como se estivesse enojado, não dizia palavra alguma. As meninas riam dele e diziam coisas do tipo:
— Já pensaram como deve ser o Alfie se masturbando?
— Oh, Annie! Oh, Annie! Aaaaannniiie, vou gozar!
— Para com isso! Isso é nojento! — pedi à Susanna e Munich, respectivamente — Vocês fazem algo impossível parecer cem vezes mais impossível do que já é!
— Annie, sua bunda é sensacional! — Susanna insistiu na piada, batendo no meu traseiro.
— Já mandei parar!
— Alfie, fala aí: o que você achou das fotos da Annie? — um dos garotos perguntou.
Com o resgate desse assunto, minha cabeça esquentou imediatamente:
— Qual é o seu problema? Não tem nada melhor para falar não?
— Ô! Desculpa, Annie!
— Palhaço! — xinguei, ainda estressada.
— Que tal uma música para animar? — Richelle, com um CD pirata na mão, trouxe para perto de uma tomada um daqueles micro systems pequenos, iguais a uma bolinha.
— A favor! — Daniel ergueu seu copo descartável com refrigerante.
— E eu sou a favor também de um verdade ou desafio! Mas com desafios decentes dessa vez! — disse Anthony, um veterano e repetente.
— Eu que não me arrisco! — Richelle o cortou — Vocês são um bando de virjões que só sabem fazer desafios relacionados a sexo ou mostrar calcinhas! Pelo amor de Deus, cresçam, seus idiotas!
Os garotos vaiaram o tal de Anthony, e eu achei foi bem feito. Richelle pode ter todos os defeitos do universo, mas dessa vez não mentiu. A música começou a tocar e eu fui chamada por Munich a dançar. Primeiro, fiquei tímida e me mantive apenas naquela dancinha onde você pisa com um pé e depois pisa com o outro, mas logo o ritmo me contagiou e eu comecei a mexer os braços e quadris e me movimentar de uma forma bem sensual. Eu e Munich demos um espetáculo sexy para deleite dos meninos, e ficamos alguns minutos nos encarando e fingindo que íamos nos beijar apenas para escutar o grande alarido que isso causava. Por fim, dançamos de costas uma para a outra descendo até o chão e, ao término da música, os meninos clamaram insistentemente por um beijo lésbico. Obedecemos, e eu finalizei o contato puxando de leve o piercing labial da Munich com os dentes. Ela riu e limpou a boca. Nunca senti tantos flashes na minha direção na vida, era como se eu fosse uma atriz de cinema ou coisa assim. Já que aquela escola inteira estava me chamando de vadia, eu ia fazer justiça à fama e não estava nem aí se o tal F. ou qualquer outro filho da puta ia tornar aquelas fotos públicas. Até ansiava para ver os comentários invejosos e moralistas das meninas e a saliva dos garotos escorrendo via internet.
Eu me sentei numa cadeira com um pedaço de bolo na mão e nem tive tempo de comê-lo quando um fracassado desses que passam o intervalo todo conversando sobre jogos de tabuleiro com os amigos se aproximou de mim.
— Annie, posso falar com você?
Olhei para ele de alto a baixo: a cara espinhenta, os dentes tortos e amarelos, as sardas ao longo dos braços magros, ruivos e de veias grossas, que pareciam cabos de alta tensão, a calça jeans amarelada de encardimento, a blusa xadrez, o tênis imundo de barro e uma carta patética na mão, uma folha de caderno dobrada em quatro pedaços. Um caipira completo. Eu já via esse tal de Edmund me olhando e cochichando alguma coisa com os amiguinhos perdedores dele, mas fugia dele feito o diabo da cruz e sempre me metia em grandes grupos para ele não ter coragem de me abordar, mas hoje ele resolveu ser humilhado em público. Eu não decepcionei: tomei a carta da mão dele e comecei a ler bem alto.
— "Minha querida Annette, é com muito nervosismo que escrevo estas palavras, mas meu amor conseguiu superar esta última barreira entre mim e meu objetivo: você. Há muito tempo te acho uma garota forte, corajosa e inteligente, além de muito bonita e sexy também."
Quanto mais eu lia, mais ia vendo o desespero do coitado, que coçava a cabeça os braços e até tentou tomar a carta de mim, mas minhas amigas não deixaram ele se aproximar e pediram para eu ler mais rápido, para acabar logo.
— "Acho que todos os garotos daqui te dão a maior moral e você deve ter muitas opções, mas mesmo assim vou me arriscar porque não consigo mais guardar isso para mim. Eu gosto de você, gosto de você desde a primeira vez que te vi. Gostaria de saber se você aceita ser minha namorada."
Voltei a encará-lo com o mesmo desprezo de antes, mas me esforcei para olhar para sua cara estúpida por uns cinco segundos antes de dizer bem pausadamente, de forma a quase imitar uma melodia:
— Não — a palavra de encerrou em uma careta cômica, e eu atirei a carta aos seus pés.
O cavalheiro desapareceu num instante, e ele começou a fazer acusações, me chamar de vagabunda e promíscua, disse que eu só queria sair com os esportistas, que eu tinha dado para todo mundo, que todo mundo sabia disso. Bateu no meu prato e graças a Deus que aquilo não caiu em mim, só na perna da calça, e sujou minha mão um pouco também.
— Ridículo! Idiota! Se enxerga, seu redneck bastardo! — gritei — Lixo!
— Ei, o que está acontecendo aí? — Daniel, que não viu a confusão desde o começo, perguntou, pasmo.
— A Annie deu um fora no Edmund e ele agora tá querendo brigar com ela — Munich esclareceu, enquanto o louco na outra ponta da sala continuava gritando impropérios e xingando palavrões cabeludos que ninguém jamais poderia imaginar que sairia de sua boca de caipira. Os meninos tiveram que segurá-lo, porque ele ia partir para a agressão física mesmo. Fiz minha maior cara de deboche e saí limpando as partes sujas de bolo com um guardanapo.
— Que loucura — Daniel falou, enquanto fazia uma cerca em torno de mim com o braço e olhava o idiota do Edmund ser carregado para fora — O cara não pode ser assim não. Recebeu um fora? Esfria a cabeça. Não pode sair fazendo escândalo assim nem desmerecer a garota que disse "não"!
— E aí, quer dançar uma música comigo, "esportista"? — alfinetei, mesmo que o Edmund não estivesse mais lá.
— Eu não entendi.
— Não é para entender, é para dançar — tomei a mão dele e a coloquei na minha cintura, e pus meus braços por cima de seus ombros, forçando-o a me encarar.
Não precisou de muito para que a coisa se incendiasse entre nós, e nós nos beijamos depois de ele elogiar minha cena com Munich.
— Quer um igual? — desafiei, antes de beijá-lo.
Passamos a festa toda a partir dali de mãos dadas. Chegava a hora dos presentes, e, a pedido de todos, saí abrindo de um por um. A maioria dos meninos economizou e deu cartões de felicitações, chaveiros, agendas e afins. Só um que me deu um patins. As meninas capricharam: ganhei delas roupas, bolsas e sapatos de grife, ou eram falsificações bem convincentes. Eu acho que ia ter que ligar para a mamãe vir me buscar, sem chance de levar aquilo tudo no ônibus da escola! Quando todos os colegas acabaram de me dar seus presentes, estranhei que o Alfie não tinha dado o dele, mas relevei. Aliás, a cara dele não estava das melhores ao me ver com o Daniel. Fiquei preocupada que eu tivesse exagerado em beijar o Daniel e por isso ele tivesse desistido de entregar o seu presente.
— Agora, para encerrar, vamos às surpresas! — Richelle disse num megafone conífero improvisado, feito a partir de um chapeuzinho de papel desses de festa de aniversário — Meninas, cheguem aqui!
— Ah, não! — Susanna e Munich quiseram se recusar, mas foram puxadas pela mão para irem até a direção da lousa.
— Silencio! Silêncio! — Richelle pediu, enquanto gesticulava para todos se sentarem.
— Solta o som, Victor! — Susanna, de microfone na mão, pediu a um garoto que provavelmente já sabia da surpresa.
Ele colocou um CD na bandeja do micro system e uma música cujo começo parecia de hip hop, rap, sei lá, começou a tocar. As meninas aproveitaram essa introdução para arrancar suas calças, que seguiam a dinâmica daquela que Britney Spears usou na apresentação do VMA, uma com velcros nas laterais ao longo de toda a perna, e por isso mesmo de fácil remoção. Por baixo daquilo, elas usavam shorts curtíssimos. As blusas, elas tiraram de forma normal mesmo, mas um top que combinava com o tecido brilhante dos shorts delas se revelou, deixando à mostra seus abdomes malhados de líderes de torcida. As batidas seguiam e as garotas, dançando e gesticulando perfeitamente, começaram a cantar uma paródia de uma música famosa, e na letra improvisada por elas, elas falavam de acontecimentos relacionados a desde que me conheceram e coisas que aprontamos juntas. Alguns colegas de sala também eram mencionados, alguns honrosamente e outros nem tanto, mas ninguém pareceu ficar ressentido, só Alfie. Não era para menos: na letra da paródia, ele era "o otário da cadeira de rodas que é doido para meter na Annie".
A apresentação de quatro ou cinco minutos chegou ao fim sob aplausos, assobios e risos. O talento de Susanna para a composição é inquestionável, se ela não engravidar antes dos dezoito anos, com certeza será uma estrela no meio fonográfico.
Pulei nas meninas e as abracei. Pedi fotos com elas em suas roupas de cena, e uma das garotas cinzas da sala (como eu chamo gente sem relevância) cuidou de obedecer essa minha solicitação, não deixando de esconder a efusão por eu estar lhe dirigindo a palavra. Antes que ela se achasse minha melhor amiga de infância só porque tirou umas fotos nossas, tomei a câmera de sua mão e a entreguei para Richelle novamente.
— Eu adorei! Ficou muito bom! — comentei sobre a música, sem lembrar na hora nem por alto o verso que diminuía meu amigo.
Daniel ficou desconfortável em se aproximar de mim depois desse episódio do rap. Tentei beijá-lo mais algumas vezes, mas ele desviava o rosto usando um pretexto qualquer, sem me falar diretamente. Eu sentia que a composição de Susanna era a causa. Tinha vacilado em demonstrar tamanha familiaridade com a ofensa dirigida a Alfie. É que era tão comum ninguém se importar que nem me passava pela cabeça filtrar meu comportamento.
(…)
Fiquei mais algum tempo conversando com o pessoal. Daniel, ao meu lado, estava silencioso e batucando com os dedos nos joelhos da calça comprida. Do nada, sem o menor contexto, ele se levantou.
— Bom, pessoal – ele falou olhando especialmente para mim – Então é isso. Eu já vou indo.
— Como assim, cara? — perguntei – Eu quero ficar mais um pouco!
— Não é como se eu estivesse te proibindo – ele disse, retirando seu pulso do alcance de minha mão.
— Mas nós estamos juntos! E é o meu aniversário! Você não pode ir embora!
— Olha, Annie… eu não estou querendo tornar tudo isso desagradável, tá bom?
— O que foi? É por causa do Alfie?
— Não, Annie, não tem nada a ver. Tem a Erika, também… Meu Deus, você viu a cara que ela fez quando você puxou a câmera das mãos dela?
— O… o quê?
— Eu acho que você nem presta atenção nessas coisas que faz com as pessoas!
— Relaxa, cara – disse Richelle – É o aniversário dela. Relaxa aí.
— Ah, é aniversário dela!… – Daniel falou em um tom irônico que eu odiei.
— Daniel, você não vai brigar comigo agora por causa daquela boboca que se veste igual uma mórmon, por favor, né!
— Annie, me diz uma coisa: é o seu aniversário, tudo bem. Mas o que você fez quando foi o aniversário do Alfie? Eu não ouvi nada de bom sobre aquele dia.
Tentei falar alguma coisa, mas ele levantou a palma da mão, como se estivesse me mandando parar de falar.
— No começo, eu tentei até achar que eu estava enganado ou interpretando mal as coisas. Olha, eu até me solidarizei quando você disse que estava sendo ameaçada pelo Alfie e por isso agiu com ele daquela forma no dia do passeio! Mas sabe que agora eu até dou razão para tudo o que ele fez?
— Você só pode estar brincando! Você está brincando, né?
— Não, Annie, não estou brincando! Se eu ficar aqui confraternizando com vocês, é como se eu concordasse com tudo o que vocês estão fazendo. E, na boa, eu não quero fazer parte de algo assim.
— O Alfie nem ligou, ele continua aqui! Só você está se ofendendo por coisa que ele nem se importa!
— Você já perguntou para ele se ele não se importa mesmo?
— Não, mas se ele se importasse já teria falado algo, não é?
— Será mesmo?
— Alfie, venha cá – chamei – Você não se importou com aquela letra que as meninas cantaram, certo?
— Que letra? – ele questionou, com uma inocência fingida – Do que você está falando?
Eu sei que era sadismo. Ele queria que eu repetisse aquilo em voz alta.
— Besteira.
— Não é besteira, Annette – e lá se vai mais uma pessoa falando meu nome completo em tom de impaciência. Daniel, no caso – Elas compuseram uma música muito desagradável onde falavam de forma vulgar e depreciativa sobre sua amizade com a Annie. Eu não tenho nem coragem de repetir o que disseram, puta merda!
À essas alturas, eu já olhava em volta e via rostos tensos à nossa volta. Todos estavam silenciosos com seus copos de refrigerante na mão.
— Eu não ligo – disse Alfie – Elas só estavam brincando.
— Olha cara, eu não sei, sinceramente, por que você se submete. Mas, por favor, para com isso!
— Você não vai ficar para ver a homenagem que eu vou fazer para a Annie?
— Mas o quê? Alfred! É sério isso? – Daniel gesticulava com confusão e só faltava arrancar os longos cabelos desgrenhados. Depois, como se soletrasse o que estava dizendo, ele perguntou de novo: – É sério mesmo que você ainda vai fazer alguma homenagem para essa menina, Alfie? Você vai mesmo fazer isso?
— Vou, sim. E vou começar por você.
— Por mim? Como assim? Eu vou embora, eu não vou fazer parte de nada disso não!
— Você está sendo grosso e insensível! – disse Susanna, indignada.
— Vocês até se beijaram! Estavam se dando tão bem! – Munich agarrou o braço dele e tentou colocá-lo sentado, mas não teve forças contra ele.
— Olha, quer saber? Quer ir, vá. O que não falta nessa sala é garoto a fim de mim, você é só mais um! – falei, exaltada.
Minhas amigas arregalaram os olhos e tamparam a boca como se elas mesmas tivessem dito aquilo. Os meninos se acotovelaram e fizeram cara de riso, meneando a cabeça. Uma das meninas, não sei qual, me tomou pelos ombros e me pressionou contra a cadeira como se tentasse me manter sentada, eu não sei qual foi a ideia por trás daquilo. Talvez tenha sido apenas uma forma de externar seu nervosismo. Daniel foi até o fundo da sala para pegar sua mochila, mas Alfie se colocou à sua frente.
— Fique.
— Não, cara, eu…
— Pegue o papel que eu coloquei dentro da sua bolsa e leia em voz alta.
— Já disse, eu não vou fazer parte de jogral nenhum, me deixa! E você também deveria parar com isso, porque está passando vergonha!
— Faça isso – Alfie deu um sorriso sinistro, e então eu entendi que em sua “homenagem” não havia homenagem nenhuma.
Daniel e Alfie trocaram um olhar tenso antes de Daniel, por um motivo qualquer que eu não sei até hoje, o obedecer. Daniel desdobrou o papel e leu apenas mentalmente. Alfie insistiu que ele lesse em voz alta, mas ele o deixou numa mesa perto de mim e saiu caminhando apressadamente em direção à saída.
— O que é isto? — Richelle tomou o papel da mesa.
— Espere! — tentei apanhar o bilhete da mão dela, mas não deu.
Empurrando meu peito com a mão e depois com o cotovelo, ela o leu em voz alta:
— “Foda-se o idiota do Peter, quem se importa com aquele palhaço? Eu já estou de olho em outro garoto agora, o Daniel. Eu nunca tinha prestado muita atenção nele, mas cara! Neste ano, ele está ficando diferente, não sei explicar. Parece mais forte, mais gato. Todas as meninas estão comentando a mudança dele, e agora, reparando bem, ele está lindo mesmo. Ele vai ser meu de qualquer jeito! Tenho que pegar ele logo, antes que as outras meninas consigam fazer isso antes de mim!”
A leitura foi encerrada sob vaias, assobios e palmas. Escondi meu rosto com as mãos. Mas ainda tinha mais alguma coisa. Richelle prosseguiu:
— “...só tenho que ter cuidado ao zoar o Alfie na frente dele. Já percebi que ele não anda gostando nem um pouco disso.” Isto é... o trecho de algum diário seu? — ela perguntou, por fim, matando a charada.
— Não – neguei – Isso é só…
— Não é tudo – Alfie abriu os braços e levantou as mãos para o alto, como se tentasse abraçar a sala toda – Em homenagem a este grande dia da Annie, eu resolvi compartilhar com todos vocês um pouquinho do que ela pensa sobre cada um! Enquanto vocês estavam no intervalo, eu coloquei um trecho como esse dentro do caderno ou bolsa de vocês todos! Espero que consigam encontrar! Bom, eu tentei fazer com que ficassem em lugares bem…
Não esperei ele terminar de dizer a palavra “visíveis”. Agarrei sua cadeira de rodas pelos apoios de braço e o sacudi para frente e para trás.
— Que merda é essa que você está fazendo? – rugi, entredentes. – Pare de inventar essas coisas sobre mim! Seu debiloide infeliz!
Olhei para os colegas em volta e todos estavam revistando seus pertences atrás do que Alfie anunciou que teria nos materiais de cada um.
— Gente! Gente, por favor! Eu já disse do que esse moleque é capaz, vocês vão mesmo acreditar nele?
— “… aí eu depois que eu contei para a Richelle que a Christina gostava do James, pronto! Coincidentemente, todo mundo ficou sabendo!” — a tal da Christina leu o dela.
Ela veio na minha direção toda exaltada:
— Você disse que não tinha contado a ninguém, né? Só contou para aquela que ia fofocar para a sala toda! Nossa! Fiz “muito bem” de ter confiado em você! Valeu! – ela disse com amargura e ironia. – Você deve mesmo ter feito de propósito, só para me humilhar, né?
Dei de ombros, olhando para o alto. Eu não estava nem aí para aquela idiota, não era uma das minhas melhores amigas, de qualquer jeito. Só que, claro, a situação não parou por aí. Na hora que ela leu aquilo, minha mente estava em branco e eu não tinha parado para pensar ainda em tudo o que havia confidenciado ao meu amigo de folhas, mas conforme fiz com o notebook perdido, fui refazendo mentalmente meus passos por aquelas páginas e pensei, após duas ou três recordações: eu tô fodida.
— Garota, se enxerga! — um dos meninos esmagou o bilhete dele e atirou no meu rosto – No ano que vem, ou até antes, vai brotar por aqui uma vadia qualquer bem mais bonita do que você! Não está se achando demais não?
— Pior que ela também anotou aqui alguma coisa sobre eu ser a fim dela! Está é doida! – Anthony endossou o comentário do primeiro.
— “...aquela bicha do Bob” – recitou Robert Summers em voz alta – Eu não esperava isso de você, Ann. Eu não esperava isso de você!
Dito isto, ele saiu correndo e ganhou a saída, aos prantos.
— Cara, que falsa! — berrou Sandy – Nós aqui nos matando, organizando festa para você, tendo o maior trabalho, e você aqui dizendo que “sendo idealizado pela Sandy, a coisa tem tudo para ser um fiasco” e “espero que a Richelle tome a frente da coisa, senão vai ser um vexame!”. Primeiro, Richelle, que não era nem para ela saber que a gente ia fazer uma festa! Você jurou pela sua mãe que não ia contar para ninguém! E depois, sua vaca, não precisa mais se preocupar que eu não vou mais organizar porra nenhuma para você! – ela finalizou, derrubando o pouco que restava do bolo no chão. Tentou me acertar com um pouco de massa, mas não deu certo, graças à sua péssima pontaria.
Não contente com isso, ela desfez todo o aplique de enfeites que tinham colado na minha cadeira e saiu arrancando também as voltas de papel crepom que colocaram ao redor da lousa, os letreiros coloridos que me felicitavam pelos meus dezessete anos, enfim, saiu destruindo toda a decoração. O surto foi completo, com direito a chute nos presentes e ela se agachando para pegar o que me deu de volta.
— Ah, não! Sério mesmo que você se acha a líder do grupo? — Munich só faltou esfregar o papel dela na minha cara, na verdade só não o fez porque ele se soltou de seus dedos, mas ela ainda chegou a empurrar meu rosto – Está faltando uma dose de autocrítica aí, viu?
— Você ainda está reclamando daquela blusa que me emprestou? – Susanna se referia a uma passagem onde eu reclamava de um item que ela nunca mais me devolveu – E as coisas que eu te dei? E essa porcaria aqui, que eu comprei para você? – ela sacudiu a sacolinha da Victoria’s Secret antes de atirar a lingerie que ela me deu de presente com tudo no meu peito – Não tá bom? Não tá bom para você?
E outras pessoas foram abrir seus recados, engrossando mais ainda a lista de reclamações:
— E daí que eu sou gorda? Antes gorda do que uma puta que fica mandando foto pelada para desconhecidos na internet!
— Cara, eu não estou nem aí para o que você acha ou deixa de achar de mim! Te fode aí!
— Então, foi você que falou para o Bruce que eu beijei meu ex naquela vez?
— Se você não queria me dar cola, por que deu, então?
— Você acha que eu andaria com essas roupas velhas se tivesse uma mãe independente e bem empregada como a sua? E que, ainda por cima, ganha uma pensão como a que o seu pai dá?
— Eu sempre soube que você nunca teve a intenção de ajudar ninguém! Era tudo um teatro para posar de boazinha!
— Considerando o que você passou, o mínimo que poderia fazer era ser solidária à Brenda em vez de se omitir e ainda por cima ajudar a detoná-la!
— Foi você que espalhou aquele boato para eu não entrar na peça? Meu Deus, como você é suja!
O tempo fechou e não foi só comigo. Logo mais, uma garota pulou no pescoço da outra e gritou:
— Você disse mesmo isso de mim para essa bastarda?
— Como ela soube disso??? – outra garota confrontou sua melhor amiga – Como ela saberia do meu aborto sem que você tivesse contado??
— O quê? Você fez um aborto?
— Qual o motivo para choque? Você já fez dois, e fica aqui querendo dar uma de santinha!
A atenção para essa briga durou um segundo, mas o foco continuou em mim:
— Você disse que eu tinha ficado bem naquele vestido! – Saphire, a gorducha, esfregou os olhos para enxugar as lágrimas – Você é muito falsa, Annie!
E ela leu em voz alta o trecho que escrevi sobre a calcinhona dela estar marcando em três andares de barriga o vestido de vinil que ela escolheu para a festa de aniversário do Peter. Se eu não estivesse tensa como estava, teria gargalhado do drama que aquela fracassada fez, e mais ainda das palavras que escolhi, que definiam com perfeição a visão do inferno que era ela naquele dia.
— Eu sabia que você tinha mentido sobre estar doente naquele dia! Só para não ajudar com o mutirão de limpeza!
— Vocês estão ficando doidos, é tudo mentira do Alfie, não estão vendo? — eu gritava, mas ninguém me ouvia.
— Larga de ser mentirosa, garota! – minhas colegas rebateram – Como o Alfie ia saber de coisas que nós só contamos para você? Como ia saber de coisas que você nunca confidenciou a ele?
— E principalmente: como ele ia saber escrever certo?
— “...eu sou a mais bonita de nós todas” – Helen leu um trecho de seu papel e disparou, irônica: – Rá! Rá! Rá!
Richelle mexia em sua bolsa avidamente. Parecia não estar achando o pedacinho de papel dela. Eu estava quase tranquilizada de que não tinha falado nada de mais a respeito dela, mas aí me lembrei de um fato relativamente antigo e pensei: Alfie teria achado aquilo? Ele teria que ter escavado uns cinco diários meus atrás dessa informação. Olhei para ele e o que ele tinha na cara, pasmem, era um sorriso de orelha a orelha. Que vontade de esganar esse garoto!
— Espero que estejam gostando da surpresa! – disse ele, sem tirar aquele sorriso nojento da cara – Eu fico muito contente de saber que todos vocês estão se divertindo!
A confusão só aumentava e as pessoas prosseguiam com comentários do tipo “Você pensa mesmo isso de mim?”, “Como se atreve?” e similares. Os garotos, principalmente, foram bem agressivos, visto que muito do que eu escrevia colocava em xeque a masculinidade deles. Peter, então, só faltou me bater! Claro que pensei que era mais seguro eu sair dali, lógico, mas estava também esperando “liberarem” meus presentes: ver quem sairia dali deixando seu pacote ou sacola para trás e quem, irado da vida, ia sair levando o seu a exemplo do que fez Susanna. Mas teve um momento que eu senti minha segurança realmente ameaçada e pensei: “Chega, não vai dar mais para ficar aqui não”. E bem nessa hora que eu ia me mandando, me senti agarrada pelos cabelos e fui jogada de encontro ao chão. É, Richelle tinha lido o que eu tanto temia.
Dois anos atrás, ela estava namorando um cara, o Kennedy, e, sem que ela soubesse, esse mesmo cara ficava dando em cima de mim. Teve um dia que ele me cercou no vestiário depois de um jogo e me beijou e eu, sem mais ter o que fazer da minha vida, correspondi. E não foi um beijo qualquer, ele quase engoliu a minha cara! Foi um delírio! Mas não foi só isso, ele ainda tornaria a esbarrar em mim e me dar umas duas ou três bitocas depois dessa, e, quando Richelle e ele terminaram, tivemos um microcaso secreto que eu nunca assumi por medo da reação dela. Não sei especificamente quais trechos dessa história ela leu, só sei que foi o suficiente para fazer ela voar em cima de mim. Não era para menos, o cara era ninguém menos do que o primeiro homem dela. Isso mesmo: Richelle perdeu a virgindade com Kenny, e eu ia pagar o preço por ter me envolvido com ele.
— Como você pôde se meter logo com ele? Você sabia que ele era meu! — Richelle gritava, enquanto me cobria de tapas. Eu me defendia com os antebraços – Você sabia o quanto ele era importante para mim!! E foi você que sugeriu que ele terminasse comigo?? Por quê? Você queria ficar com ele?! Ou será que tomar as coisas dos outros é uma diversão para você?
— Pare com isso, me deixa explicar! – eu pedia, sem ser escutada.
À nossa volta, todas as pessoas, principalmente as garotas, a incentivavam a bater ainda mais em mim. Mas eu não ia ficar lá parada apanhando, então reagi e a lembrei do quanto ela foi uma traidora na questão de dar as costas para mim quando sofri bullying.
— Você merecia até mais do que aquilo! Se eu soubesse, teria feito pior!
Entre gritos e espancamentos, saímos revelando todos os nossos segredos, os pessoais e aqueles que envolviam outros indivíduos: mentiras que contamos, boatos que ajudamos a espalhar, notícias que foram parar em primeira mão com o F.uck porque mandamos para o e-mail dele, incluindo traições executadas por nossas próprias amigas em relação a outras colegas ou seus namorados; gabaritos de provas que vazaram para a classe toda, pichações xingando amigas próximas, cujas execuções foram nossas; um trabalho que pegamos da bolsa de uma garota no dia da entrega e escondemos, uma menina que tínhamos raiva no início do ano e que se tornaria nossa amiga meses depois; ela contou do laxante que eu coloquei no suco de um professor para adiar uma prova; eu contei para todos do dia que ela colocou tachinhas dentro da sapatilha de uma inimiga, o que fez a garota quase perder o pé, pois ela tinha diabetes; Richelle contou sobre o uniforme de líder de torcida da Lucy que eu joguei na lixeira no dia de uma apresentação intercolegial, só para poder me apresentar em seu lugar; eu falei sobre o biquíni que ela roubou da gaveta da Munich e depois mentiu sobre ter um igual. Ela tentou me envergonhar com confissões que fiz sobre inseguranças com pequenos defeitos do meu corpo, e eu disse que ela era uma tábua magrela e sem graça, sem peito nem bunda. A guerra para pôr defeitos na aparência uma da outra durou vários minutos, onde as vaias e gritos de incentivo para um lado ofender o outro com mais intensidade eram o catalisador do nosso ódio. Foi uma humilhação completa, e muito reveladora: falei até da escova de dentes da Susanna, que Richelle esfregou no fundo da privada e depois devolveu para a bolsa dela normalmente em um dia que brigou com ela por um motivo torpe.
Depois, a guerra foi sobre quem namorava os caras mais lixos. Nem preciso dizer que ela perdeu essa de lavada, porque só pegou homem mulherengo, criminoso ou feio. E nessa hora o baixo nível ficou absurdo, porque entrei em detalhes físicos, digamos um pouco “inconvenientes” dos envolvidos, me baseando em confissões que ela fez sobre a metragem (sim, é isso mesmo que você está pensando) dos caras com os quais dormiu. Já ela, espalhou para todo mundo que eu era virgem. Nessa hora, eu perdi a paciência para valer e contei o seu segredo mais cabeludo: que a galeria de fotos do seu notebook era repleta de fotos de Alfred. Revezando discutir comigo, com Susanna que também queria agarrar seus cabelos mas era contida pelos colegas que queriam que fôssemos só nós duas brigando, com as garotas xingadas por ela nas pichações do banheiro, com todo mundo que queria um segundo para estourar sua cara, Richelle resistiu a tudo, mas foi derrubada por esse segredo. Foi um verdadeiro strike.
— Eu nunca vou te perdoar! – anunciou, antes de se despedir da sala aos prantos, abandonando tanto seu presente quanto seu material escolar para trás.
Enxuguei o lábio sujo de sangue (Richelle ainda chegou a me acertar uns três socos) e me levantei devagar, encarando, diminuída e humilhada, todos aqueles que me chicoteavam com seus olhares de censura. Tanto a alça da minha blusa quanto meu sutiã de renda estavam despedaçados. Quando consegui voltar a mim para me recompor, meu seio esquerdo estava todo à mostra, e isso causou um riso geral entre os colegas. Amarrei uma parte da blusa com a outra da forma que deu. Ficou parecendo um top, mas pelo menos os meus seios estavam a salvo dos olhares maldosos dos meninos. E ainda que eu e Richelle tivéssemos batido e apanhado na mesma medida, o pessoal começou a me provocar dizendo que eu tinha levado uma surra. Queriam fazer eu ir atrás dela e recomeçar a briga, mas não mordi a isca. Enxuguei as lágrimas (meu rosto estava doendo que era um absurdo) e fui atrás das minhas coisas para ir embora logo. Uma das garotas pegou minha mochila, jogou na parede e ergueu bem a cabeça, em tom provocativo e ameaçador. Disse algumas palavras ofensivas que não convém repetir. Eu não estava mais com energia para outra briga, por isso peguei um a um dos itens de maquiagem que caíram no chão (minha mochila estava meio aberta) com uma paciência que nem parecia minha e fui andando em direção à saída. Uma garota isolou a entrada, sabe quando a pessoa tranca a passagem atravessando o braço no batente da porta? Então. Quis atropelar o empecilho com meu corpo, mas ela firmou bem o braço e eu recuei dois passos com o impacto.
— Não quer me dizer nada não? — perguntou a garota que eu identifiquei quem era de rosto, porque o nome em si nunca me preocupei em saber.
— Se estiver com saudades do que eu falei, é só ler o seu papel de novo! – respondi – Embora eu não me lembre de você ter tido importância a ponto de ser mencionada no meu diário!
Empurrei o braço da garota para abrir passagem, e ela me deu um soco no ombro para eu voltar para dentro. Joguei minha mochila no chão e gritei alguns palavrões para ela, para impor moral.
— Quer bater? Bate! Mas bate para derrubar, porque se eu me levantar…
— Você vai fazer o quê?
— Se quiser saber, é só bater!
Ficamos assim, trocando ameaças vazias, sem que qualquer uma das duas realmente partisse para cima. No final das contas, eu me cansei daquilo e plantei logo a mão no meio da cara dela, para ela parar com as ameaças. Foi um “abre-te Sésamo!”, porque eu jurava que ela ia cair matando em cima de mim, mas tudo o que ela fez foi esfregar o lugar onde eu dei o tapa e ficar chorando numa onomatopeia estranha, tipo “Iiiiiihhhhhhhhhh...”, se eu não estivesse estressada na hora eu teria rido um bocado. A porta estava livre para mim, mas como não poderia deixar de ser, as amiguinhas dela tomaram partido e uma gritaria ainda maior se fez ao meu redor. Todo mundo queria me acertar mas uma ficou esperando isso da outra e, no fim das contas, a coisa ficou só no grito mesmo. Meneei a cabeça e me abaixei para pegar de volta minha mochila. Ninguém meteu a cara para me impedir, mas ficaram falando o tempo todo qualquer coisa sobre ser um absurdo eu ir embora dali impune. Eu ainda ia perder meu tempo discutindo com aquelas sem noção para elas entenderem quem mandava lá, mas aí vi algo muito interessante: Alfie ganhando a saída de mansinho. Ah, mas esse desgraçado não ia escapar da minha ira, não ia mesmo!
A última coisa que eu ouvi antes de me afastar da classe foi que eu era uma “racista imunda”. Não sei precisamente o que a pessoa leu para chegar a essa conclusão, mas levando pelo lado de que essas pessoas fazem um malabarismo doido para se autointitularem vítimas de alguma perseguição, aposto que a interpretação do que eu escrevi saiu do rabo de quem disse isso. Nem dei ouvidos, apenas fui embora. Alfred percebeu que estava sendo seguido e começou a apressar a condução de sua cadeira, e tentou realmente fugir a ponto de ficar com falta de ar, mas não teve jeito: agarrei os pegadores de sua cadeira e comecei a empurrá-la. Fui interceptada por um professor, que perguntou qual era a razão daquele alarido que vinha da minha sala. Eu apenas lhe disse que ele havia chegado tarde demais. Notei que ele encarou com espanto meu rosto inchado, mas não disse mais nada, apenas correu em direção à minha sala. Eu me apressei mais ainda após este encontro. Não queria mais ser vista ali.
Alfie não disse nada nem pediu socorro a ninguém, eu não sei por que, porque eu teria feito isso no lugar dele. Observei o que ele fazia com as mãos: quando ele estava angustiado com algo, costumava contorcê-las no colo, e era justamente o que estava fazendo. Em todos os seus modos, estava impressa a vontade de se justificar e abrandar o que fez, mas ele orgulhosamente seguiu em silêncio. Ele sabia que eu ia me enfurecer e estava pronto para me encarar. Maria Antonieta deve ter ficado desse jeito quando seguiu para a guilhotina.
Diferente do que Alfred pensava, no entanto, eu não caminhei para a direção da saída da escola. Nesse momento, percebi que sua apatia orgulhosa teria fim.
— Está com medo, Alfie? Tem motivos para isso! – falei, para aterrorizá-lo.
Ele se apoiou com força nos braços almofadados da cadeira, como se pudesse se levantar dela. Aumentei a velocidade de sua condução, o que o fez se desequilibrar e se conformar em permanecer sentado.
— Não vai fugir – determinei – Agora, é a hora de acertarmos as contas!
E eu seguia no meu ritmo frenético, sem me importar com a irregularidade da superfície por que nós estávamos passando. Em alguns momentos, avançamos por relevos tão acidentados que Alfie quase tombou para a frente. Não me importei, apenas prossegui. Não levou muito tempo para que ganhássemos o ermo terreno dos fundos da escola, aquele mesmo que dava para o lago que as meninas mencionaram uma vez.
— Para onde estamos indo? – perguntou ele, com a voz comedida, porém amedrontada.
— Você não vive falando que quer morrer? Acho que eu posso te ajudar nisso.
— O que você vai fazer? – Alfie insistiu, olhando em volta, buscando com aflição outras pessoas.
Mas agora ele poderia até gritar que ninguém ia ouvir: estávamos absolutamente sozinhos.
Alfie era um livro aberto. Ele não fazia pose: se estava com medo, frustrado, alegre ou qualquer coisa, ele era o tipo de pessoa que deixaria você saber disso. E eu não vou negar, estava me deleitando com o desespero dele. Dei voltas desnecessárias, fiz silêncios prolongados, empurrei bruscamente sua cadeira, dei chutes quando ela engatava no caminho, enfim, toquei o terror.
Chegamos finalmente à margem do lago. Mais uma vez, Alfie se apoiou nos braços de sua cadeira como se fosse possível levantar dali e correr.
— Ora, ora… Por acaso temos aqui um farsante, que fingiu todo esse tempo não poder caminhar?
— Se você tem algo a fazer, não fica aí enrolando! – ele exclamou, frustrado, ao ver que não iria conseguir sair do lugar.
— Quer dar uma de valente, Alfie? Eu sei muito bem que você está se borrando de medo! Quer vir com ideia logo para cima de mim, que te conheço tão bem? Você é um covarde, sempre foi! E isso não vai mudar porque você agora tá se vestindo todo bonitinho, filhinho da mamãezinha, não! Está achando que ter um padrasto bem de vida muda alguma coisa no grande lixo que você é? Você continua sendo um burro, um incapaz, um ser inferior! Está pensando o quê? Que alguma daquelas meninas que se impressionou com seu retrato vai passar o resto da vida empurrando essa porcaria aqui? – falei, chutando a roda da cadeira dele. Alfie se protegeu com os braços como se eu fosse agredi-lo no rosto – Hein?? Foi isso que você pensou??
— Eu não tenho nada a ver com as suas amigas imbecis – ele respondeu, rangendo os dentes – Eu não tô nem aí se elas gostam de mim ou não!
— Mentiroso! Já estava se achando porque estava fazendo sucesso!…
— Eu planejei o que fiz há muito tempo! O que eu achei delas pensarem aquilo não tem nada a ver com minha decisão de te expor! – ele gritou por cima de mim, cortando o que eu falava – Você é uma mentirosa, não fala a verdade para ninguém! Odeia todo mundo com quem anda, trai e fala mal das suas amigas…!
— Como se você se importasse com elas!
— Não me importo mesmo, não ligo para elas, nem para o pre… “prejudízo” delas! Eu só queria dizer para todo mundo o que você é!
— O que eu sou? Essa é boa!
— Uma farsa! Você é uma mentira! O que você mostra ser para todo mundo que te conhece, nada disso é verdade! Essa “você” que todo mundo conhece não é real!
— E daí, o que você tem a ver com isso?
— Eu tenho tudo a ver com isso, porque fui a maior vítima de tudo isso que você inventou! – ele respondeu, após ter grande trabalho para construir a frase – Eu sou a maior vítima de tudo o que você finge que é sem ser!
— E quem se importa com você ser vítima de alguma coisa, Alfie? Só aquela idiota da sua mãe! Aliás, nem ela, porque ela está lá, feliz e realizada com o novo namoradinho dela! Passou para trás o paspalho mulherengo do seu pai e ainda por cima está te largando cada vez mais em casa para passear com ele!
Ele inspirou e fez longo silêncio depois desse comentário, que eu falei para doer mesmo.
— Estou mentindo, por acaso? Ninguém gosta de você o bastante para tomar seu partido, e tudo isso é culpa sua, por ser esse fracassado sem importância!
— Estamos “entapados” (empatados), Annie! Ninguém também gostou de descobrir o que você é!
Fiquei furiosa com aquele sorrisinho vitorioso, e mais ainda por esse comentário irrefutável. Avancei nele e puxei seus cabelos, balançando sua cabeça de um lado para o outro. Alfie arrancou minhas mãos de cima dele e recuou a cadeira de rodas. Com os poucos segundos que teve, tentou alinhar novamente os cabelos, mas eu não deixei a coisa acabar só naquilo.
— Você tramou contra mim! Você fez todos eles me odiarem! – gritei, cobrindo-o de tapas. De alguns, ele conseguiu se defender; de outros, não.
— Você mesma causou isso quando escreveu aquelas coisas sobre todo mundo! – ele respondeu, levando mais tapas ainda.
— E você, hein??? Você é perfeito?? Vai me dizer que você nunca escreveu coisas horríveis sobre alguém, alguma vez na vida!?
— Eu nunca fiz isso!!
— Claro que não, seu retardado! Para você fazer isso, precisaria saber escrever primeiro!
— Para! Para, Annie! Para de me bater!!
Ele instou e chorou de soluçar, mas fui indiferente a isso. Só parei de bater nele quando senti as pontas dos dedos incharem. Contornei passos ao redor de Alfie (ele tentou escapar disso rodando a cadeira de modo que ele ficasse sempre de frente para mim, mas usei a força para fazer minha vontade valer) e agarrei os pegadores dela.
Acho que eu ainda não situei ninguém de como é nosso colégio, geograficamente falando. Ele é um complexo de dois prédios de quatro andares cada, bem semelhante a uma faculdade, e dois pavilhões horizontais. Um prédio é velho, histórico, todo ornamentado, cheio de gárgulas e rendas de concreto, batentes encaracolados, grades cheias de frufrus, piso em mosaico etc. Neste funcionam poucas salas, a maioria ligadas a secretarias, trabalhos administrativos, bibliotecas, salas de detenção e pouquíssimas turmas de alunos do ensino secundário. Como o prédio ainda não obedece protocolos de segurança para a presença de crianças, preferem deixar os alunos mais velhos ali, para não ter criança retardada pulando o peitoril das janelas ou parapeito das varandas.
E tem o outro prédio, moderno, feito todo nesse formato quadrado e horroroso dos prédios de hoje em dia, com janelas grandes e retas, azulejos indiferentes a qualquer senso estético, portas lisas com um vidrinho sem vergonha no meio, corredores de paredes brancas, janelas sem molduras cacheadas ou enfeites de madeira na faixa inferior das paredes (que era feita apenas em tinta a óleo simples), redes de proteção em todas as janelas, enfim, um horror. Lá que ficam os estudantes mais novos, azar o deles. A única vantagem dali é que é melhor iluminado.
Os pavilhões são em sua maioria dedicados aos esportes: uma miniquadra coberta de basquete, uma de vôlei, uma sala de ginástica olímpica que ninguém usa desde que uma aluna quebrou o pescoço e ficou tetraplégica, uma sala de audiovisual que os professores usam em dia de reuniões com os pais e infinitas salas vazias que deveriam ser voltadas aos clubes moderados por estudantes, mas como quase todos os clubes são de esportes, elas seguem como eu disse que estão: vazias. Que eu saiba, só uma sala é ocupada pela turma de teatro que, por sinal, eu frequentei graças aos meus dotes como cinegrafista (queriam me chamar para atriz e eu até fui uma vez, mas era muita responsabilidade, eu não dava conta não). E tem a sala onde funciona a rádio do colégio (na verdade, ela só funciona a semanas do Natal ou do Dia dos Namorados, com os estudantes mandando seus bilhetes serem lidos pela bagatela de cinquenta centavos).
O colégio tem um terreno enorme cuja maioria de sua extensão já foi ocupada pelas quadras poliesportivas, laboratórios de informática, salas de dança, equipamentos de ginástica, piscina, etc, e ao fundo de tudo isso tem um enorme espaço aberto e natural para onde os estudantes costumam escapar, seja para gazear aulas, seja para beber escondido nas noites de baile. No encerramento deste espaço, tem o lago. Antes de chegar nele, tem uma descida em rampa com vários declives, que acabam submersos de acordo com as chuvas e as épocas do ano. Foi para chegar ali que empurrei a cadeira de Alfie.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— A gente nunca veio aqui antes – Alfie comentou, eu não sei se para tirar as broncas ou se para perguntar um “o que você vai fazer?” disfarçado.
— O que achou da paisagem, Alfiezinho? – perguntei em um tom mordaz, sarcástico, como se o arremedasse.
— O que a gente veio fazer aqui? – mais uma vez, ele usou um tom pausado e comedido na voz, cujo estremecimento ele não conseguia disfarçar.
— O que você acha que a gente veio fazer aqui?
Eu queria torturá-lo psicologicamente com a demora em responder.
— Eu não sei, Annie. Mas estou com pressa. Eu só quero voltar para casa. Vamos. Vamos logo.
Alfie enxugou as lágrimas, como se isso fosse anular tudo o que já tinha acontecido.
— Ah! Ele quer voltar para casa!… — usei de novo aquele tom irônico, cheio de caras e bocas.
— As horas. Mamãe vai estranhar eu não voltar cedo.
— Sua mãe não se importa mais com você, eu já disse – mudei de tom em um segundo, ao que Alfie arregalou os olhos, assustado.
Me dispus diante de sua cadeira, apoiando-me nos braços dela, uma mão de cada lado. Fiquei bem próxima ao rosto de Alfie, a dez centímetros ou menos de encostar o meu nariz no dele.
— Se você morrer, vai ser um alívio para ela.
— Não – Alfie abanou a cabeça de um lado para o outro – Mamãe me ama.
— Ela vai chorar, claro, ela é sua mãe. Mas ela torce para que você morra logo. Como ela vai empurrar um carrinho de bebê e uma cadeira de rodas ao mesmo tempo? É impossível! Você acabou. Está fazendo hora extra aqui na Terra, e atrapalhando todo o plano que sua mãe tem de ser feliz ao lado do homem que ama! Como a sua mãe pode ser feliz cuidando de você? A felicidade não combina com a enfermidade. E você é um enfermo, Alfie. Um enfermo sem cura, ela sabe disso.
— O Adam disse – Alfie falou de olhos baixos, pois contar com essa ajuda certamente o envergonhava – Ele disse que vai pagar os melhores médicos para “reterver”(reverter) o meu problema.
— E você acreditou? – eu ri – Ele só quer se casar com a sua mãe, para depois dizer que é impossível, que nada pode mudar o que aconteceu com você! E depois, Alfie, mesmo que você volte a caminhar, você sabe que você deu errado! Que o problema não é só no seu corpo, e sim na sua mente! Aliás, você ser fraquinho assim, doentinho assim, era até uma forma de as pessoas te tolerarem, te suportarem, pesarem menos a mão no bullying! Mas você sabe, no fundo você sabe, que não são essas pernas incapazes que te transformaram num fracasso. Você nasceu assim: burro. Idiota. Socialmente vergonhoso. Você pode se equilibrar na ponta de um único dedo, que sua mãe nunca vai sentir orgulho de você!
— Você não me afeta mais – ele disse, arrancando minhas mãos de sua cadeira. Em seguida, recuou alguns centímetros com ela, ficando quase na borda do tablado que se encerrava rente às águas. Quando ele olhou para trás e viu que estava quase caindo, inspirou fundo e me encarou com preocupação. Nossos olhos se cruzaram e parecíamos, a uma só vez, estar em lados opostos de uma mesma ideia. Ele prosseguiu falando: – Não tem mais nada que você possa dizer para me deixar triste! Nada mais vai funcionar! Eu não me importo com o que você pensa, eu passei esse tempo todo olhando quem você é e eu não ligo mais se você gosta de mim ou não!
— Ah, é? E o que aconteceu com aquele papo de morrer? “Ain, tô depressivo, não quero mais viver, porque minhas perninhas não funcionam! Buá, buá, buá! Annie, eu sou um psicopata mas mamãe não pode saber”!
— É por ela que eu ainda continuo vivo!
— Que “por ela”! Deixa de ser mentiroso! Você é um covarde, que nem para se matar serve!
— Eu não estou fazendo nada disso por alguém que não seja ela! Porque ela é minha mãe e ficaria triste se me perdesse! – Alfie gritou, enquanto eu agarrava seus braços, forçando-o a me encarar.
— Eu já disse que sua mãe não ia ligar se um lixo como você desaparecesse!
— É claro que ela ia! Porque ela é a minha mãe!
— Hah! Ela só ia chorar para cumprir protocolo! Como fez quando seu irmão mais velho esticou as canelas! Depois, ia viver a vida dela normalmente!
— NÃO FIQUE FALANDO O QUE NÃO SABE DE PESSOAS QUE VOCÊ NÃO CONHECE! SE VOCÊ FALAR DO MEU IRMÃO DE NOVO, EU VOU TE MATAR!!
A reação imediata de Alfie me deu um susto, tanto que eu tirei as mãos de cima dele. Ofegante, ele me encarava com ferocidade. O olhar dele era o de um assassino. Eu poderia jurar que ele ia mesmo se levantar dali, só me tranquilizei quando tomei uma distância segura.
— O Alfie violento está de volta… – eu ri nervosamente – Será, Alfie? Será que se você estivesse com o corpo normal e se casasse com alguma burra por aí, você encheria a cara dela de porrada como seu pai faz com a sua mãe? Fica aí o questionamento.
Alfie enterrou as mãos nos cabelos, e depois levou as mesmas mãos aos olhos, e depois à boca.
— Se você for para qualquer mulher o que o seu pai é para sua mãe, é melhor você morrer agora, não é, Alfie?
— Você só… só falou do meu irmão e eu não gostei, eu… eu não sou mau, eu não sou!
— Você acha que alguém bom faria o que você fez hoje, Alfred? Olhe para mim, olhe como eu estou – mostrei a ele meus braços arranhados. Puxei a gola da blusa para baixo, mostrando mais arranhões no meu busto – Você acha que isso vai sair? Enquanto isso não sumir, eu não vou te perdoar!
— Você mereceu isso! Você sabe o que a Richelle leu a seu respeito! O que você mesma escreveu!
— E se a sua mulher “merecer”, Alfie? Você vai fazer ela apanhar também? Ou você mesmo vai bater nela?
O silêncio que ele fez deu espaço ao som ruidoso de sua respiração descompassada.
— Eu não vou bater em ninguém!
— Você disse que ia me matar! Olha, começa assim. Ameaça, ameaça, e quando vai ver, está socando a cara dos outros!
— Foi maneira de dizer, eu não ia fazer de verdade!
— E quando sua mãe der mais atenção ao seu irmão, você vai se irritar com ela. Você vai bater nela também?
— Eu já disse que não vou bater em ninguém!! – ele gritou, cobrindo o rosto e se balançando para frente e para trás como um doente mental.
— Você quer que o seu irmão presencie você batendo na sua mãe quando ela te irritar?
— Isso não vai acontecer!
— Você é violento, Alfie. Só não me bateu porque não pode levantar daí.
— Não é verdade!
— Você é como o seu pai, e a sua mãe não merece ver um homem como ele no próprio filho!
— Ela não vai me “destarcar” (descartar) como você pensa!
— Vai, sim. Vai, quando tiver um filho mais amoroso, menos irritadiço, que não grite com ela, que não seja burro para aprender as coisas, que não leve desaforos para casa, que não volte da escola com curativos para ela fazer!... Alfie! Por que você não põe logo um fim a isso? Nada te prende aqui.
— Minha mãe vai sentir minha falta!
— Isso é o que você quer pensar, não porque você de fato pensa nela, mas porque você não quer se machucar! Admita pelo menos isso!
— Eu já disse, já disse que, por todos os motivos do mundo, minha vida não faz mais sentido! Não é por mim que quero viver, mas por ela! Por ela!!
— É mentira, e eu vou provar! Quer saber como?
Contornei sua cadeira em passos seguros, de forma a não permitir que ele me evitasse ou combatesse, agarrei os pegadores dela e o coloquei de frente para a água, a cinco centímetros de a roda alcançar a borda da plataforma de madeira.
— E agora? Quer morrer ainda, Alfie? Um empurrão e tudo acaba.
— Eles vão te prender – ele me disse, com a voz quase sufocada.
— Eles quem? Ninguém vai saber que eu estive aqui.
— Você passou pelas câmeras. E todos os nossos colegas vão dizer que você andou comigo por último. E eles vão dizer também que a gente brigou antes. Vão saber que foi você.
— Ah, Alfie… Você não entende nada mesmo, não é? Eu posso perfeitamente dizer que nós viemos aqui, conversamos e que você, triste com as minhas reprimendas, se atirou nas águas. Quem iria saber?
— Ninguém iria acreditar nisso.
— Pare de arrumar desculpas para não morrer! – gritei, dando um golpe em sua cabeça com o punho cerrado.
Ele gritou como se eu tivesse cravado um punhal nele. Coçou exageradamente a região acertada, e sua cadeira correu um pouco para a frente. Mais um pouco, ela cairia de verdade e eu não poderia fazer nada para evitar. Segurei os pegadores da cadeira na pressa, afoita e desesperada. Só voltei a falar quando já tinha me acalmado, mas minha respiração afogada delatava meu desespero pelo que quase tinha acontecido:
— Se você não encontra problema nenhum em morrer, que tal se eu empurrar isso daqui um pouco mais para a frente?
Ele ficou em silêncio.
— Você não entendeu nada do que eu falei. Eu preciso ficar vivo por ela – disse após algum tempo.
— Eu já disse que ela não ia sofrer quase nada com a sua partida! Que seria um livramento! Que ela ia ter o tempo livre para cuidar do filho que é a prioridade dela agora, esse aí que está a caminho! Qual é a sua desculpa?
— É só por ela, eu juro que é só por ela!
— Alfie – eu endureci o tom – Eu te juro que, se você continuar insistindo nessa mentira, eu vou te empurrar daqui de verdade e não vou estar nem aí para o que vai acontecer comigo depois!
— Eu já disse a verdade!
— Disse mesmo? — deixei a roda da cadeira a uns dois centímetros da borda. Se as águas balançassem e causassem qualquer oscilação na estabilidade do tablado, já era. Eu seria uma assassina e Alfie, um cadeirante morto – Vá! Fale! Quer morrer mesmo??
Sem esperar que ele respondesse, eu levantei a parte de trás de sua cadeira, de modo que ele escorregasse para a frente. Desesperado, ele se agarrou na cadeira como deu, mas ia escorregando cada vez mais. Os segundos estavam passando e eu estava irredutível na minha decisão de arrancar dele a grande confissão que, sabe-se lá por que, eu queria ver verbalizada. Acho que era sadismo, mesmo.
— Annie! Annie! Eu vou cair! Eu vou cair!
— Achei que você quisesse morrer!
— Não… Não! Eu não quero morrer, eu já estou morrendo…!
Eu não tinha entendido essa parte do que ele tinha falado e, para variar, eu a ignorei, focando somente no que interessava:
— Você já disse as palavrinhas mágicas, agora só resta repetir…
Ele nem esperou eu terminar de falar para gritar repetidamente, aos prantos:
— Eu não quero morrer! Eu não quero morrer! Eu não quero morrer desse jeito! Me deixa viver um pouco mais, Annie!
Estabilizei novamente a sua cadeira no chão, tanto para me aliviar quanto para recobrar o controle de mim mesma. Alguma coisa em mim estava realmente disposta a empurrar Alfie na água, e isso me deu medo. Foi como se um estalo repentino tivesse me impedido. Eu quase ultrapassei a fronteira que separa uma brincadeira assustadora de um crime, e algo assim nunca tinha acontecido antes. Enquanto eu forçava uma risada para me tranquilizar, Alfie chorava e repetia feito um desesperado:
— Eu não quero morrer, eu nunca quis morrer… mas eu já estou morrendo!
Dessa vez, eu finalmente prestei atenção naquilo que eu achava que era uma frase mal construída.
— O que você disse, Alfie?
— Eu estou morrendo! Todo mundo sabe disso: a minha mãe, a sua, a maioria dos nossos colegas, todos, todos eles!
— Para de inventar, Alfie! – sorri, confusa – Alguém, em algum momento, teria revelado isso! Ainda mais minha mãe, que não sabe esconder nada de ninguém! E os meninos lá de sala, como te tratariam do jeito que tratam se soubessem que você tem alguma doença mortal? Conta outra!!
— A mãe do John trabalha no hospital, é enfermeira. Ela sabe de mim, sabe do meu tratamento. Não sei se ela contou para ele. O pessoal fala de mim como doente, eles sabem que estou mal, só não se importam. Talvez pensem que eu só vou lá para fazer fisioterapia, eu não sei o que eles pensam. Eu não falo com eles.
— Tratamento de quê? Vai, fala aí! Aposto que você ainda nem pensou em uma doença, nem formulou a mentira direito!
— Eu estou com câncer.
— Alfie? Eu acho que você nem sequer sabe o que é isso, deve pensar que câncer é uma coisa que dá para fingir, como gripe!
— Você viu a marca do cateter, viu as cicatrizes que tenho pelo corpo. Aquela que eu sempre tive na perna, por causa da qual eu mancava…
— Alfie, deixa de ser ridículo, você só está falando isso para eu ter pena de você e não te quebrar!
— Eu sempre tive, em diferentes épocas da vida, acredite em mim!
— Olha isso, você nem careca está, você continua indo para as aulas normalmente! Câncer de quê?
— Não é todo mundo que fica careca de vez. E meu cabelo caiu sim um monte.
— E as aulas, Alfie? Quem tem câncer vai para a aula, por acaso?
— Quando eu me sentia mal de verdade, eu não ia. Você viu as vezes que eu fiquei faltando por vários dias. Naquela vez que você passou mais de ano sem falar comigo, eu tive que me operar. E agora vou ter que me operar de novo…pode dar certo ou não.
Comprimi os lábios. Algo estava começando a fazer sentido nessa história dele.
— O que você teve naquela vez?
— Foi no intestino. Fiz duas operações. Descobriram logo e tiraram o que precisava. Eu usei aquela bolsa aqui do lado, por um tempo. Depois, me operei para voltar ao normal.
— E o que você tem agora?
Ele não disse nada, apenas apontou para a cabeça. E eu não sei se foi o acaso da imaginação, mas aquele dedo dele, apontado na direção lateral da testa, parecia um revólver engatilhado.
(…)
Foram menos de duas semanas entre este nosso último encontro e a morte de Alfie.
Você deve estar se perguntando o que aconteceu comigo e ele depois disso. Eu, como se nada tivesse acontecido, o levei para a minha casa e fiquei com ele até a noite, naquele horário que era comum sua mãe ir buscá-lo. Quando mamãe, seu colega-namorado Solomon, Adam e D. Melissa chegaram, dos golpes que Richelle me deu, restou bem pouca coisa aparente. Fiquei com um pouco de roxo ao redor de um olho, mas por sorte aquilo não inchou, então disfarcei o hematoma com base, paleta para olhos e batom após ver um tutorial de maquiagem num blog. Joguei fora minha blusa destruída e usei um pijama de mangas longas e calça comprida para disfarçar os arranhões e nódoas que eu tinha pelo corpo todo. Mamãe estranhou meu silêncio e o de Alfie enquanto comíamos pizza em volta da mesa de centro da sala. Fingi que trocava mensagens no celular para não interagir com ninguém, mas a verdade é que eu estava excluindo as dezenas de insultos que meus colegas me enviaram tarde e noite adentro. Alfie deixou sua pizza toda no prato, mas eu achei que essa sua reação depressiva talvez tivesse a ver com os acontecimentos de mais cedo.
Eu não comentei nada com mamãe sobre a doença de Alfie e, na minha opinião, ele estava era mentindo sobre tudo aquilo. Aliás, vendo os adultos conversarem despreocupadamente, eu só poderia pensar dessa forma. É verdade que às vezes D. Melissa olhava para o filho com uma expressão triste, mas ela sempre fazia isso, desde que ele ficou preso a uma cadeira de rodas, então não estranhei.
Mamãe esperou todos irem embora para dizer que tinha um presente muito especial para mim (sério, eu nem lembrava mais que no domingo seria meu aniversário, para mim ele já tinha acontecido e acabado). Eu já não tinha mais empolgação para nada, mas tive que fingir meu mais doce sorriso para que ela não estranhasse meu comportamento eme perguntasse o que estava acontecendo.
— Seu pai andou conversando comigo sobre você estar se tornando uma mocinha e querer mais independência. Ele me falou que você teria dito uma vez que não queria mais fazer algo em família, que queria ter um dia para você e suas amigas. Então, resolvi realizar o seu desejo!!
Franzi a testa, pensando de que merda que ela estava falando.
— Eu trouxe pacotes VIPs de um spa chiquérrimo no Centro! Um para você e tem outros cinco, para você escolher quais amigas chamar! Final de semana completo! A van passa aqui amanhã de manhã cedinho, e você tem que confirmar para eles, neste endereço de e-mail aqui – ela me passou um cartão personalizado de acetato – os nomes completos e os endereços de cada uma das suas amigas favoritas! E não precisa se preocupar com o Alfie, a Melissa já falou que vai ficar com ele neste fim de semana! Annie, eu já fui lá uma vez para acompanhar uma cliente, você não tem noção do ambiente! Olha só: lá tem…
Mamãe passou uma bela meia hora listando as qualidades do local enquanto o que ela dizia me entrava por um ouvido e saía pelo outro. Eu não estava nem aí para nada daquilo. Eu só queria ficar ao lado dela assistindo um filme, comendo pipoca e esperando que em algum momento ela me contasse sobre o que estava acontecendo com Alfie – se é que aquilo era verdade. Na verdade, cada segundo que ela passava sem falar disso, mais eu tinha certeza de que Alfie não estava doente coisa nenhuma. No fundo, eu estava mesmo torcendo para que fosse isso.
Quando a van passou em casa para buscar a mim e minhas pretensas amigas, eu disse para seguirmos direto, porque eu não levaria ninguém. Hoje eu penso que seria melhor ter levado a minha mãe ou nem ter ido, mas eu fiquei tão nervosa em ter que dizer a ela minha situação na escola que acabei deixando isso para lá. Sem companhia, a coisa toda foi um saco. A todo momento, eu era deixada de lado por funcionários perdidos que não sabiam o que fazer com uma única garota comparecendo a um evento onde era para terem ido seis. A um certo momento do fim da tarde de domingo, eu peguei duas funcionárias dando de ombros uma para a outra e, quando me viram flagrar elas no meio da conversa, elas me explicaram que num ambiente privativo tinha bolo e doces, salgados, refrigerantes, bebidas doces etc. Mamãe tinha bancado para mim um dia de princesa e uma festa de aniversário completa. Quando eu vi isso, ri sozinha e disse que queria ir para casa e que, pelo amor de Deus, eles não dissessem a ninguém nada sobre eu não estar acompanhada. Considerando a forma que encontrei minha mãe desesperada entrando no local invadindo tudo e perguntando por mim, intuí que eles tivessem contado tudo para ela. Mas não: Alfie tinha sofrido uma convulsão e tinha seguido às pressas para o hospital para realizar uma cirurgia de emergência, totalmente diferente daquela que estava agendada certinha, dentro dos planos, com todos os exames colhidos. Eu soube naquela ocasião que Alfie não mentiu sobre estar doente. Meu presente de aniversário de 17 anos foi saber que meu melhor amigo iria morrer.
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