Benjamin das águas
3 Capitulo 3
Notas iniciais
A jovem, apenas um pouquinho tímida ao tentar olhar-lo diretamente nos olhos, ajeitou a franja lisa e escura de seu cabelo para trás de sua orelha e perguntou, gentilmente:
– Bem... Quantos anos você tem?
O rapaz apareceu estar um tanto inseguro no começo, mas depois respondeu:
– Quinze. E você?
– Dezesseis, sou mais velha que você, que legal!
– Um ano mais velha. Só isso.
O rapaz virou o rosto indiferentemente para o lado e colocou a ocarina de volta aos lábios, e começou a tocar concentrado na melodia, sem ao menos olhar para aquela que estava á sua frente. Pelo que parecia não estava interessado na companhia da pobre jovem, que não desgrudava os olhos do jovem loiro. Ele nem se quer queria lhe dar atenção. ”Talvez ele goste de ficar sozinho.” Pensou rapidamente.
– E então... Benjamin... Você mora aqui mesmo, ou você é da cidade?
Benjamin interrompeu drasticamente sua música.
– Eu nasci aqui.
O tom de voz com que ele tinha falado era sério, mas não abalou muito Leila. Ela já pensara que este seria aquele tipo de rapaz não muito mal-educado, mas sim, que dá respostas na defensiva. Ela mesma já foi assim. Era a falta de confiança, com certeza.
– E você veio da cidade, não é, Leila? Leila, Leila, Leila... Sabia que seu nome significa “Escuridão”?
A jovem demonstrou-se surpreendida com o significado de seu nome, mas deu um risinho e o respondeu:
– E o seu nome? “Beije á mim”?
– Hahaha, muito engraçado. Não. Significa “Filho da felicidade”.
Leila fez uma cara como se o jovem estivesse mentindo. ”Espera aí, como assim filho da felicidade?“ pensou Leila. Aquele era o cara mais triste e sem graça que já havia conhecido em sua vida.
– Ah, não se preocupe. Nem sempre o nome que é dado á criança descreve-a. Sabe? É como você. Seu nome não é escuridão, não é? É Leila.
E pela primeira vez, ele soltou um sorriso. Mas, era um sorriso de deboche.
– Entendi. Nem sempre o nome da criança a descreve.
Novamente, ignorando-a, colocou a ocarina na boca, e tocou a melodia mais doce e mais terna que Leila já tinha ouvido. Era diferente de todas as que ela já havia ouvido ele tocar, mas... tinha um certo fundo melancólico.
– Que triste...
– E assim é a vida, Leila.
A jovem ignorou as palavras do rapaz. Tinha ouvido alguém gritar seu nome da janela. Era a sua madrasta, chamando-a para entrar, pois estava ficando tarde. Leila fez um sinal que já estava indo para a sua mãe e se levantou.
– Minha mãe está chamando, eu vou ter que ir embora agora... Mas, vejo você amanhã, não é?
– H’m... Talvez.
– Bem, então está certo. Eu já vou indo, tchau.
Quando Leila virou-se, Benjamin exclamou seu nome.
– O que é?
O jovem ficou em silencio por alguns segundos, encarando-a. E então, finalmente falou:
– Não saia de casa á noite. Jamais.
Nisso, a jovem teve um rápido Flash Back. O fogo engolindo a mata, vindo na direção dela, os gritos, a criança andando entre as chamas, o pesadelo de hoje á tarde. E então, tudo voltou ao normal, mas a jovem estava com o rosto paralisado, assustado.
– Leila?
– Ah, tudo bem... Mas... Espera aí, por quê?
O Jovem fechou os olhos e deu uma leve bufada.
– Não me questione. Vá para a sua casa. É melhor você ir andando, ou sua mãe pode ficar preocupada.
– É madrasta, e não mãe.
Benjamin olhou para o lado, com um ar de entendimento.
– Mas, de qualquer jeito, você entendeu. Vai andando e não saia, em circunstância alguma, quando a noite cair. Você me ouviu?
Mais uma vez, lembrou daquele pesadelo horrível. Mas, desta vez, foi mais rápida:
– Okay.
E deixou o local, quase tropeçando em seus pés. Quando havia chegado até a porta de sua casa, desesperadamente, virou-se para trás e olhou, para ver se o jovem ainda estava por lá. Ele havia sumido.
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